O feminismo dói

Desde que eu conheci — e compreendi — o que é o feminismo, e mais, desde que por meio da teoria feminista eu tomei consciência da minha posição no mundo enquanto mulher, enquanto fêmea adulta da espécie humana, minha vida mudou completamente.

Eu conheci a dor. A estranha dor do desvelamento.

Eu conheci a dor de perceber como minha função nesta sociedade se reduz a ser uma mera reprodutora da espécie. Como todos os caminhos que eu trilhei e que ingenuamente imaginava que eram só meus sempre me levaram aos pés do patriarca. Eu conheci a dor de olhar e ver como toda a minha vida esteve demarcada, como meus passos estavam traçados alheios a minha vontade.

Eu percebi a violência. A violência direta e a sutil. A violência de toda uma vida. Institucionalizada. A normalização do ódio contra meu corpo. Eu percebi o desprezo que toda sociedade nutre pela minha condição de mulher. Eu me vi o outro. O não. Aquela que não existe como si.

Eu olhei e vi tudo isso. E foi como se visse o mundo pela primeira vez.

Toda a misoginia. A exploração. Vi todas as estratégias de sedução e aliciamento do meu corpo jovem. Vi todos os subterfúgios para me manter cativa, bela, recatada, do lar. Eu senti de novo e de novo todas as punições por cada transgressão que nem sabia que estava cometendo. Reconheci todos os censores, todos os que me vigiaram a vida inteira. Senti todos os olhares sobre mim, que nunca cessaram.

Eu senti esse ódio sobre mim. E hoje eu vejo esse ódio materializado por toda parte. E entendi que nunca poderia ter visto antes porque eu também fui ensinada a me desprezar. Eu também fui ensinada a odiar mulheres. Eu entendi a que lugares me levaram dentro de mim para que eu cumprisse minha função, tudo o que me ensinaram. Toda a liturgia de dominação. Eu percebi que mal sei quem sou de verdade porque tudo que me foi instruído sobre ser mulher foi para que eu assumisse minha posição de serva.

Foi o feminismo que tirou esse véu sobre meus olhos. Ele abriu a caixa de Pandora escrita patriarcado.

E isso te dilacera. Te arruína. E tem que ser assim. Porque aquilo que nos tornou mulher também tem que vir abaixo para que possamos colocar outra coisa no lugar.

Minha relação com o mundo mudou. Porque o que antes era a história da humanidade se mostrou a história do massacre sistemático das mulheres. A história do seu apagamento, da sua exploração. A história da violência e triunfo dos homens. E eu hoje sei do que eles são capazes.

E então, um pouco depois da dor, surge o medo. Porque a verdade é que estamos sozinhas, e somos reféns. E todos os artifícios que nos protegem foram criados por aqueles que nos capturaram. Não somos livres, repita isso mil vezes. Essa é uma ilusão que nos empurraram goela abaixo.

O patriarcado não é uma entidade abstrata. Não é uma fantasia. Ele é formado por homens. Por todos eles que estão aqui, do nosso lado.

Nós que somos ensinadas a amar homens sobre todas as coisas. Na figura de Deus, na figura do pai, na figura do marido, na figura do primogênito. Nós que somos ensinadas a rivalizar umas com as outras na disputa pelo amor e a atenção de qualquer homem, que somos ensinadas a nos desprezar, a odiar umas às outras, a denunciar, vigiar, cãs de caça, capachos, capatazes do machismo. Somos ensinadas a ser as guardiãs e perpetuadoras do sistema que nos escraviza. Somos ensinadas a nos odiar até que um homem nos valide enquanto pessoa.

Minha relação com homens mudou. Eu penso naqueles que eu conheço, que eu amo, que são importantes para mim, e meu coração se enche de sentimentos contraditórios que busco o tempo inteiro conciliar. Sou capaz ainda de oferecer meu amor, porém jamais minha confiança. Porque eu sei de que lado o patriarcado os colocou. Eu sei o que foi feito deles, assim como o que foi feito de nós. E não vou mais negar que estamos em lados opostos das trincheiras. E eu não os odeio, mas luto todo dia contra essa Síndrome de Estocolmo que me ensina a amar incondicionalmente aquele que me escraviza.

Minha relação com a arte mudou, com a mídia, com a moda, com a música, com a literatura, com as ciências. Porque em tudo eu olho e vejo a pata do patriarcado, me mandando a mensagem sutil de qual é meu lugar e função. Onde estão as mulheres que me precederam? Onde estão seus feitos, suas obras, suas criações? O que fizeram com nossas ancestrais? Por que eu só conheço a história dos homens? Suas obras, seus feitos? Vocês não tinham esse direito. Vocês, homens, subtraíram nossa memória, nossa história. Vocês lavaram nosso passado com sangue. Como ousaram? Como ousam olhar nos nossos olhos hoje e não reconhecer tudo o que nos fizeram?

E então surge algo mais. Algo tão intenso, e sempre tão reprimido, que demoro até a reconhecer. É a minha raiva. Minha revolta. Minha profunda indignação.

E o feminismo me deu isso também.

A dor me destruiu, o medo me alertou, mas a raiva…

A raiva me fez levantar de novo. Erguer a cabeça da lama formada pelas minhas próprias lágrimas de comiseração. Do pó para onde eu retornei. A raiva move cada fibra do meu corpo de fêmea. Este corpo explorado, este corpo com preço de mercado. A raiva me move e é o feminismo o leme desse motor desgovernado, a bússola que dá a direção para essa fúria que não cessa e que não cessará, e que me mantém em movimento, incansável.

Porque essas mulheres que me precederam, que morreram por mim, que sofreram terríveis consequências para deixar o seu legado me ensinam todo dia a sobreviver. Me ensinam para onde olhar, elas me mostram onde está o perigo e elas me explicam que o perigo é real mas elas também dizem: vamos juntas. Vamos lutar. E elas acreditam que é possível um mundo melhor, para todas as pessoas. Um mundo melhor para todas as mulheres. Um mundo melhor, inclusive para os homens porque acreditam que essa maldição, esse encantamento da socialização pode ser modificado.

E acreditando que é possível um mundo melhor, e olhando para esse mundo, enxergando esse mundo como possível, eu me conectei ao amor.

O amor que só uma mulher pode te oferecer.

Porque ela sofreu o que você sofre, ela também chafurda nesse lamaçal de misoginia. Ela também foi enganada. Ninguém a ensinou como se ama uma mulher, mas quando mulheres aprendem… quando elas se unem… elas enxergam um mundo que ninguém mais enxerga. É o mundo onde mulheres e crianças não são mais exploradas. O mundo onde você pode ser como você quiser. Onde não há dominação, violência, hierarquia. E mulheres acreditam e lutam para tornar isso possível, todos os dias. E isso é feminismo. E não há nada mais belo, mais potente,mais revolucionário que isso. Que viver e lutar por essa utopia.

O patriarcado não vai nos vencer. Ele não vai nos derrubar. Estamos aqui. São seis mil anos de um terrível sistema de opressão que explora nosso corpo, que nos ilude, nos boicota, sequestra a humanidade das nossas crianças. E estamos aqui, lutando, resistindo, avançando.

Destruídas pelo dor.
Alertas pelo medo.
Movidas pela fúria.
Fortalecidas no amor de outras mulheres.

As portas da consciência feminista, uma vez escancaradas, não podem mais ser fechadas. E não há como conter esse fluxo, que invade tudo, com a violência de uma tormenta. Se o feminismo não te desmontou inteira, se para você foi como uma brisa leve, então talvez você esteja amortecida pelo impacto do patriarcado por privilégios de raça e classe, a ponto de não ser capaz de perceber o que é de fato ser mulher.

Mas se dor te alcançou… aguenta firme, deixa ela entrar. Ela vai te fortalecer. O mundo nunca mais será o mesmo, mas não será também tão solitário. Abrace seu processo e siga em frente. Chegamos até aqui. O patriarcado não vai nos derrubar.

Somos muitas. E vamos juntas. E só o feminismo te dá isso.

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