Nós, mulheres, sabemos o que é se sentir sufocada. O “sufoco” parece até ser uma pessoa, porque parece que ele sempre existiu em nossas vidas, desde muito cedo, parece que sempre esteve ali nos limitando, nos acompanhando, nos sufocando.

Demora para entender que todas as normas patriarcais, todas as regras familiares, todos os contratos amorosos nos sufoca; nos tira de nós. E o que nos tornamos? Não sabemos. Temos que ser perfeitas, temos que ser brilhantes, temos que aprender a cozinhar e receber do seu tio “já pode se casar, viu?”. Mas você só tem 12 anos. É você perceber olhares estranhos daquele super amigo do seu pai, sentir-se sufocada mas se silenciar; ninguém nunca te disse que aquilo era algo que deveria ser contestado. É você ter que brilhante em tudo, na escola porque você é uma menina e deve ter uma letra linda, é você não fazer escândalo quando te assediam, é você não chorar em locais públicos porque você precisa ser forte. É você vestir a camisa girl power. É você ser alguma coisa, menos você, menos mulher, ser o gênero feminino.

Em quantas meninas e mulheres você consegue se ver? Quantas delas já sofreram abusos? Quantas delas já sofreram violência doméstica, violência psicológico? Quantas mulheres você perdeu para o feminicídio? Quantas mulheres você viu com medo de defender sua própria vida porque o Direito não nos olha? Porque para o estado toda vítima, quando mulher, é suspeita.

É setembro amarelo.

Quantas amigas suas têm depressão? Se mutilam? Quantas conseguem ter um tratamento digno? Quantas mulheres sofrem assédio no trabalho? Quantas mulheres ficaram doentes nessa quarentena? Quantas mães você viu falando sobre se sentirem sobrecarregadas? Você já conversou sobre isso com sua mãe? Você já ouviu sua mãe?

Quantas amigas suas tem crises de ansiedade e ainda sim consegue se manter ali firme. Quem ensinou ela a se sentir firme? Ninguém nunca nos ensinou a sermos mulheres, muito menos mulheres fortes; nos ensinaram ser do gênero feminino: submissa, sensível, silenciada, doce, quase uma fada [sensata]. Mas fadas não existem. O sufoco sim.

Com ele vem o sentimento de impotência, você em algum momento se enxerga nesse amago do que é ser o gênero feminino; porque você não consegue ser mulher. Você não consegue nem aceitar o seu corpo, seus pelos, seu cheiro porque o gênero feminino é uma performance que você tem que se encaixar. Quantas vezes você já teve disforia com seu corpo ou com cada detalhe do seu corpo?

Isso também é nos matar. O sufoco nos mata.

As notícias nos matam.

O prêmio de mulher mais bonita de 2020 nos mata.

O estuprador de Mariana Ferrer ter sido absolvido nos mata.

O não nos ouvir nos mata.

O não falar nos mata.

A dor de não pode ser mulher; mas ser do gênero feminino nos mata.

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