Mais e mais mulheres estão se descobrindo lésbicas depois de anos de casamento com homens e tendo tido filhos. Elas sempre foram lésbicas ou a sexualidade nos dias de hoje está mais fluída?


Nota: O texto foi publicado em Julho de 2010. A idade das pessoas mencionadas no texto e datas citadas foram mantidas conforme o original.


Para Carren Strock a revelação veio aos 44 anos. Ela conheceu seu marido — “um cara maravilhoso, muito doce” — na escola aos 16 anos. Foi casada com ele por 25, teve dois filhos queridos e o que ela descreve como “vidinha classe média americana em Nova Iorque. Então um dia, enquanto estava sentada de frente para a sua melhor amiga, percebeu: “Meu Deus, estou apaixonada por essa mulher”.

A ideia de que ela poderia ser lésbica nunca passou pela sua cabeça antes. “Se você tivesse me perguntado no ano passado”, diz, “Eu teria respondido: ‘Sei exatamente quem sou — e não sou lésbica, nunca poderia ser’.”

Daquele momento em diante, o entendimento sobre sua sexualidade mudou completamente. Ela se sentiu compelida à contar para a amiga, mas a atração não era recíproca. No começo não sabia se se sentia atraída por mulheres em geral ou apenas por essa em particular. Mas, com o tempo, percebeu que era lésbica. Ela também começou a perceber que sua experiência não era incomum.

Strock decidiu entrevistar outras mulheres casadas que se apaixonaram por mulheres. “Coloquei panfletos em teatros e livrarias. Mulheres de todo canto do país começaram a entrar em contato comigo — alguém sempre sabia de uma pessoa nessa situação”. Essas entrevistas viraram um livro, Married Women Who Love Women (Mulheres Casadas Que Amam Mulheres) e então, quando foi escrever a segunda edição do livro, Strock procurou mais mulheres na internet para entrevistar. “Em questão de dias”, disse, “mais mulheres do que eu poderia entrevistar entraram em contato comigo.”

Lésbicas que se descobriram tarde — mulheres na faixa dos 30 anos que descobrem ou declaram ter sentimentos por outras — começaram a chamar mais atenção nos últimos anos, em parte devido ao número de mulheres glamourosas e de famosas que se assumiram depois de relacionamentos heterossexuais. Temos como exemplo Cynthia Nixon, que interpretou Miranda em Sex and the City: Cynthia estava em um relacionamento heterossexual por 15 anos e teve dois filhos antes de se apaixonar pela sua atual companheira, Christine Marinoni, em 2004. No ano passado foi noticiado que a cantora britânica Alison Goldfrapp, que está na faixa dos 40 anos, começou a namorar a editora de vídeo Lisa Gunning. A atriz Portia de Rossi era casada com um homem antes de se assumir e apaixonar-se pela comediante e apresentadora Ellen DeGeneres, com quem casou em 2008. E também tem a vendedora e atriz de televisão britânica Mary Portas, que foi casada com um homem por 13 anos e teve três filhos antes de ficar com Melanie Rickey, editora de moda da revista Grazia. Em seu casamento civil no começo do ano, a dupla sorriu para as câmeras usando lindos vestidos personalizados por Antonio Beraldi.

O assunto começou a atrair os acadêmicos. No próximo mês, na convenção anual da American Psychological Association (Associação Americana de Psicologia) em San Diego, nos Estados Unidos, uma seção intitulada Sexual Fluidity and Late-Blooming Lesbians (Fluidez sexual e Lésbicas que se descobriram tarde) deve mostrar uma série de pesquisas, incluindo um estudo feito por Christan Moran, que decidiu estudar a vida de mulheres que sentiram atração por outras quando tinham mais de 30 anos e casadas com homens. Moran é pesquisadora na Universidade do Sul de Connecticut e sua pesquisa foi em parte motivada por um comentário que leu em um fórum online para lésbicas casadas, escrito por alguém que se usava o apelido de “Crazy”.

“Não entendo porque não consigo fazer a coisa certa”, escreveu Crazy. “Não entendo porque não consigo parar de pensar nessa mulher”. Moran quis entrevistar mais mulheres nessa situação, “para ajudar Crazy e outras como ela a ver que não são anormais ou erradas ao se verem atraídas por mulheres mais tarde na vida”.

Ela também quis explorar a noção de que “uma mulher heterossexual pode fazer uma transição completa para uma identidade lésbica… em outras palavras, elas podem mudar completamente de orientação sexual”. Como Moran observa em sua pesquisa, essa possibilidade é frequentemente ignorada; quando uma pessoa mais velha sai do armário, a sabedoria aceita tende a ser que ela sempre foi gay ou bissexual, mas escondeu ou reprimiu seus sentimentos. Cada vez mais pesquisadores estão questionando isso e investigando se a sexualidade é mais fluida e mutável do que se suspeita.

Sarah Spelling, ex-professora, diz que ela entende como “você pode deslizar ou escorregar para outra identidade”. Depois de crescer em uma família de sete filhos em Birmingham, Spelling conheceu seu primeiro parceiro sério, um homem, enquanto estava na Universidade. Ficaram juntos por 12 anos, período em que estavam “totalmente conectados, inclusive sexualmente”, diz ela, mas acrescenta que nunca teve, com um homem, um orgasmo com penetração.

Spelling é feminista e gosta de esportes. Conheceu amigas lésbicas através desses dois interesses. “Não me associei à [sexualidade d]elas — Eu não me via como lésbica, mas claramente como heterossexual em um relacionamento longo”. Foi quando uma amiga no seu time de hockey deixou claro que gostava dela “e ela pensou que eu era afim também. Eu fiquei tipo “Não! Eu não! Isso não é do meu feitio”. Então, aos 34 anos, divorciada do seu marido e em outro relacionamento com um homem, ela se viu apaixonada pela colega com quem dividia a casa — uma mulher. Depois de “muito conversar, por mais de um ano” elas começaram a namorar. “Foi um encontro de mentes”, diz Spelling, “um encontro de interesses. Ela é muito entusiasmada, eu também. Ela corre, eu também. Temos muito em comum e, eventualmente, percebi que não tinha isso com homens. Embora fazer sexo com um homem nunca tenha sido desconfortável ou errado, não era tão agradável quanto fazer sexo com uma mulher”, diz. Desde o início do relacionamento, ela se sentiu completamente à vontade, embora não se definisse imediatamente como lésbica. “Eu também não me definia como heterossexual — claramente não era isso. E não me definia como bissexual”. Depois de um tempo ela abraçou completamente uma identidade lésbica. “Estamos juntas há 23 anos, então fica bem claro que foi uma mudança definitiva”.

Dr. Lisa Diamond, professora associada de Psicologia e Estudos de Gênero na Universidade de Utah, mantém um grupo de 79 mulheres há 15 anos, acompanhando as mudanças em suas identidades sexuais. As mulheres que escolheu no início do estudo tiveram atração pelo mesmo sexo — embora, em alguns casos, apenas passageira — e, a cada dois anos, ela registra como se descrevem: heterossexuais, lésbicas, bissexuais, ou outra categoria que escolhem. A cada dois anos, 20% a 30% da amostra mudam seu rótulo e, ao longo do estudo, cerca de 70% mudaram a forma como se descreveram na entrevista inicial.

Para Diamond, o interessante é que as transições na identidade sexual não estão “confinadas à adolescência. As pessoas parecem igualmente sujeitas a esse tipo de transição na meia idade e no final da idade adulta”. E embora em alguns casos as mulheres cheguem à uma identidade lésbica que estão reprimindo, “isso não é o responsável por todas as variáveis… No meu estudo, o que muitas vezes descobri foi que mulheres que sempre pensaram que outras mulheres eram bonitas e atraentes, em algum momento da vida, realmente se apaixonaram por uma mulher, e essa experiência elevou essas atrações de algo menor a algo extremamente significativo. Não era que elas estivessem reprimindo seu verdadeiro eu antes; era que, sem o contexto de um relacionamento real, os pequenos vislumbres de fantasias ocasionais ou sentimentos não eram tão significativos “.

Um palpite de Diamond é que a possibilidade de cruzar as fronteiras sexuais aumentam à medida que as pessoas envelhecem. Ela diz que “O que nós sabemos sobre o desenvolvimento adulto sugere que as pessoas se tornam mais expansivas de várias maneiras à medida que envelhecem… Acho que muitas mulheres, no final da vida, quando não estão mais preocupadas com a criação dos filhos, quando pensam em seu casamento e se estão satisfeitas ou não, encontram uma oportunidade de olhar com outros olhos no que elas querem e como se sentem”. Mas Diamond esclarece que isso não significa que as mulheres estão escolhendo entre serem lésbicas ou heterossexuais (seu trabalho já foi distorcido algumas vezes por facções de direita nos EUA, sugerindo que ele mostra que a homossexualidade é opcional). “Cada uma das mulheres que estudei, que passaram por uma transição, experimentaram como se estivessem fora de seu controle. Não foi uma escolha consciente… Acho que a cultura tende a agrupar mudança e escolha, como se fossem o mesmo fenômeno, mas não são. A puberdade envolve muitas mudanças, mas você não escolhe. Existem transições no curso da vida que estão além do nosso controle “.

Certamente isso era verdade para Laura Manning, advogada de Londres, que está agora com quase 40 anos. Ela sempre teve uma vaga ideia de que poderia ter sentimentos por mulheres, mas conheceu um homem na universidade, “um homem muito gentil, Jeff, e eu me apaixonei por ele, e por muito tempo isso foi suficiente para equilibrar meus sentimentos”. Ela se casou com ele e, aos 30 anos, teve dois filhos. “E depois que tirei a parte materna da minha vida de repente comecei a pensar em mim novamente. Comecei a me sentir cada vez mais desconfortável com a imagem que estava apresentando, porque parecia que não era verdade”. Com quase 40 anos, ela começou a sair de balada, “voltando de ônibus às quatro da manhã, depois levantava e ia para ao trabalho. Eu ainda morava com Jeff e comecei a me distanciar. Ele sabia que eu estava deixando ele de lado”.

O casamento terminou e Manning saiu de casa. Desde então teve dois relacionamentos sérios com mulheres e diz que está muito mais feliz desde que se assumiu, mas suspeita que seu desejo biológico por filhos e seus sentimentos por Jeff tenham tornado inevitável se casar em algum momento da vida. “Hoje não penso em fazer sexo com homens, mas na época que estava casada não me sentia assim e também não sentia que eu estava reprimindo algo. A intensidade dos meus sentimentos por Jeff foi mais forte que meus desejos por mulheres”.

A fluidez sexual ocorre em homens e mulheres, mas foi apontado que mulheres são mais abertas e maleáveis nesse sentido. Richard Lippa, professor de Psicologia na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton, realizou vários estudos que o levaram à conclusão de que “enquanto a maioria dos homens costumam ter o que chamo de sexo preferido e não preferido… com mulheres há várias vertentes, e por isso costumo dizer que elas têm um sexo mais preferido. Já ouvi muitas mulheres dizerem: me apaixonei por uma pessoa, não pelo gênero” e acho que essa é uma experiência muito mais feminina do que masculina.

“Nunca tive um homem hétero me dizendo, aos 45 anos, ‘Acabei de conhecer esse cara muito legal e me apaixonei por ele e não gosto de homens em geral, mas meu Deus, esse cara é tão bom que vou ter um relacionamento com ele pelos próximos 15 anos’”. Na pesquisa de Diamond, cerca de um quarto das mulheres relatou que o gênero é irrelevante na escolha de parceiros sexuais. Uma das mulheres da pesquisa disse: “No fundo, é apenas uma questão de quem encontro e me apaixono; e não é o corpo deles, é algo no olhar”.

Quando Tina Humphrys, hoje com 70 anos, se apaixonou por uma mulher, ela não se definiu como lésbica: “Eu apenas pensei: ‘É ela.’” Humphrys tinha mais de 30 anos, dois filhos e estava saindo de um segundo casamento horrível. “Eu odiava minha vida”, diz ela. “Os quatro quartos, as crianças — bem, eu não os odeio, eles me deixavam chorando de tédio. Eu costumava deitar no sofá e meus olhos se enchiam de lágrimas quando eles dormiam.”

Ela já se sentiu atraída por mulheres no passado, “mas acho que as mulheres sentem, não? Você olha para uma mulher e pensa — esse vestido está maravilhoso, ela está muito elegante, ela está muito bonita. Mas esses pensamentos não tem, necessariamente, conotação sexual.” Então ela foi para a Universidade já mais velha, ingressou em um grupo de mulheres e se apaixonou por uma das integrantes. “Foi um pouco chocante descobrir que eu estava sexualmente atraída por essa mulher, mas também foi uma decisão de não ficar mais com homens. De deixar um modo de vida opressivo e restritivo e tentar viver diferente”. Ela se mudou para uma comunidade e se relacionou não monogamicamente com mulheres por um tempo antes de encontrar sua atual parceira, hoje com mais de 30 anos de relacionamento. Embora tivesse “uma vida sexual muito ativa com homens”, ela gostava muito de sexo com mulheres. “Certa vez, eu estava fazendo um workshop com uma mulher que costumava rasgar papéis escritos coisas horríveis que foram ditas sobre mulheres, e ela tinha um papel de uma modelo loira que “brincava” com uma lésbica — porque elas sempre “brincam, né? — e ela disse: ‘Não era sexo propriamente dito, era apenas um monte de orgasmos’. “Humphrys ri alto e diz: “Eu acho que isso diz tudo, não?”

Além do sexo, Humphrys encontrou uma conexão que era mais intensa “em todos os níveis” do que qualquer outra que encontrara com um homem. Strock ecoa essa visão. “Realizei oficinas com mulheres heterossexuais e perguntei a elas: “Você já sentiu aqueles foguetes dispararem ou ouviu a música tocando quando se apaixonou por aquela pessoa especial?” E poucas levantaram as mãos. E então fui a um grupo de lésbicas e disse: “Quantas de vocês já sentiram isso?” E quase todas as mãos levantaram. Portanto, as conexões com as mulheres são muito diferentes das conexões entre homens e mulheres “.

A escritora e psicoterapeuta, Susie Orbach, passou mais de 30 anos casada com o escritor Joseph Schwartz; tiveram dois filhos e, logo que seu relacionamento terminou, começou um relacionamento com a novelista Jeanette Winterson, que continua feliz até hoje.

Orbach diz que a conexão amorosa inicial entre mãe e filha torna as sensações lésbicas na vida adulta mais surpreendente. “Se você para pra pensar”, diz, “quais foram os primeiros braços que você teve, os primeiros cheiros que sentiu, a marca do corpo?” Quero dizer, ainda não somos realmente criadas pelo pai, somos? Então é uma longa jornada para as mulheres chegarem à heterossexualidade… O que acontece é que você coloca a heterossexualidade em cima desse vínculo. Mas você não desiste desse apego íntimo a uma mulher”.

É claro que a noção de que sua sexualidade pode mudar completamente não é bem aceita por todos; como Diamond diz: “Mesmo que haja mais aceitação cultural do que há 20 anos atrás, a homossexualidade ainda é muito estigmatizada, e a noção de que você talvez não saiba tudo o que há para saber sobre algo tão pessoal e íntimo pode aterrorizar uma pessoa. É realmente difícil para as pessoas aceitarem.” É por isso que a escrita e a pesquisa nessa área são tão importantes. Quando a primeira edição do livro de Strock foi publicada, “uma mulher veio até mim, em uma das minhas minhas palestras, segurando o livro e chorando”, diz ela. “Ela achava que era a única mulher casada a se apaixonar por outra mulher e não tinha com quem conversar, não sabia que caminho seguir. E decidiu que a melhor coisa era se matar em uma noite que soube que seu marido e filhos iriam demorar para voltar para casa. Ela planejou seu suicídio. Ela estava voltando do trabalho no dia que achou que seria seu último de vida, passou por uma livraria e estavam colocando meu livro na vitrine. Quando ela percebeu que não era a única, escolheu viver.”

Todas as lésbicas tardias que conversei encontraram a felicidade em diferentes caminhos. Stock ainda é lésbica — e continua casada com seu marido, que sabe de sua sexualidade. “Ele nunca me deixaria e eu nunca deixaria ele”, diz, “então nós redefinimos nosso relacionamento. Sou lésbica, mas nós dividimos a casa. Temos quartos separados, agora temos dois netos e nossa situação não é única.” A maioria das mulheres que conversei estavam em relacionamentos felizes e duradouros, e encontraram um contentamento que não haviam tido em seus relacionamentos anteriores.

Diamond diz: “Enquanto algumas pessoas acham mudanças assustadoras, outras acham emocionante e liberador, e eu definitivamente acho que as mulheres na meia idade e no final da vida podem ter mais chances de encontrar mudanças sexuais e fortalecedoras. Somos uma sociedade anti-envelhecimento. Gostamos que as pessoas sejam jovens, atraentes e prontas para casar. E acho que está acabando a ideia de que sua sexualidade pode passar por essas possibilidades expansivas realmente empolgantes, em um estágio em que a maioria das pessoas supõe que as mulheres não são mais interessantes sexualmente. Seu futuro sexual pode realmente ser bastante dinâmico e empolgante — e o que quer que tenha acontecido no seu passado pode não ser o melhor preditor do que o seu futuro reserva.”


Tradução de “Why it’s never too late to be a lesbian”, publicado no The Guardian e escrito por Kira Cochrane.

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