Chamar lésbicas de transfóbicas é fácil.
Tirinha de Alex Norris que ilustra perfeitamente a dinâmica entre alguns movimentos sociais.

Nota inicial: ao longo do texto, citarei alguns trechos traduzidos do artigo “Binary or Spectrum, Gender is a Hierarchy”, disponível aqui, pois considero que ele resume bem os pontos que quero tratar. Boa leitura.


Em 28 de junho de 2019, eu publiquei o seguinte tweet:

O tweet continua disponível aqui.

Em pouco tempo, responderam o que escrevi, dizendo que minha linha de raciocínio é ilógica. Fui chamada de transfóbica e me mandaram estudar. Apesar do tom nada amistoso, segui o conselho e fui pesquisar mais a respeito.

O fato é que, em uma sociedade tão falocêntrica, a aversão TOTAL ao pênis não é bem vista — nem mesmo pela comunidade LGBT. Infelizmente, percebo que, nesse espaço, é mais importante respeitar “identidade de gênero” do que discutir pautas feministas.

O meio LGBT não debate maternidade compulsória, pedofilia ou cultura do estupro. Se falamos sobre menstruação, gravidez ou aborto, somos chamadas de transfóbicas, simplesmente porque essas questões não se encaixam na vivência de mulheres trans.

Quem critica o meu posicionamento alega que estou reduzindo pessoas a sua genitália; mas quem dita como você deve se comportar, de acordo com o seu sexo, não sou eu, e sim a sociedade patriarcal. Vamos refletir a respeito?

1. Sexo e gênero não são a mesma coisa.

Sexo diz respeito ao corpo com o qual nascemos. Gênero é um conjunto de normas de comportamento definidas com base no sexo. Ou seja, enquanto um é biológico e material, o outro é ideológico, parte de uma construção social.

O gênero é a principal ferramenta do patriarcado, pois ensina que os homens devem ser “masculinos” e fortes e que as mulheres devem ser “femininas” e submissas. A necessidade de mudar o corpo, através da transição, surge justamente da inconformidade com o gênero (mulher não feminina que se torna homem trans; ou homem não masculino que se torna mulher trans).

Agora, vejamos pela perspectiva dos que me chamam de transfóbica. Para eles, gênero é a forma como você se identifica. Algo subjetivo, interno, pessoal. O não binarismo, que carrega fortes referências a Judith Butler e sua Teoria Queer, é justamente uma crítica à existência de apenas dois gêneros.

Espectrometria Não Binária

“A lógica da identidade de gênero é fundamentalmente falha e se baseia na premissa de que gênero é algo desenvolvido internamente. Feministas argumentam há décadas que gênero é socialmente construído — uma fabricação forjada para garantir a dominação masculina sobre as mulheres.”

Honestamente, é muito mais revolucionário dizer que é de tal sexo e não segue as regras incorporadas pelo gênero do que criar um novo termo para tentar justificar a sua conduta. Reparem na diferença:

— Sou homem e sou feminino!

— Eu não sou homem, sou feminino porque sou genderfluid!

Até o próprio Pabllo Vittar, um homem gay que se apresenta como drag queen, foi chamado de transfóbico, apenas porque disse que é um homem de peruca! As pessoas não aceitam a quebra de estereótipos.

Imagem retirada da página “No Corpo Certo

Considerar que gênero é a forma como você mesmo se classifica, com base nas suas experiências pessoais, significa ignorar a hierarquia que atinge toda uma classe. Uma pessoa que nasceu com vagina, mas que não se identifica como mulher, não está isenta de ser vítima de estupro, justamente porque a opressão é baseada em seu sexo, não na forma como ela se enxerga.

2. A feminilidade não é natural.

É esperado que nós, mulheres, sejamos femininas. Maquiagem, vestidos, saltos, depilação… Tudo isso faz parte de uma performance. Por isso, quando alguém que nasceu homem passa a agir de maneira feminina, algo que vai totalmente contra ao que foi ensinado, surge a ideia caricata de que ele “quer ser mulher”, quando, na verdade, ele só quer ser livre para agir como quiser.

As normas que constituem o conceito de gênero são tão eficazes que fazem com que indivíduos modifiquem os próprios corpos para que estes estejam adequados ao seu comportamento e personalidade. Dessa forma, acabam por reforçar estereótipos, em vez de quebrá-los.

Vou citar um exemplo real. No Irã, a homossexualidade é um crime punível de morte. Contudo, o próprio clero aceita a ideia de alguém nascendo “no sexo errado”. Dessa forma, lésbicas e gays estão sendo coagidos a passar pela transição para se manterem vivos. Leia mais a respeito aqui.

“É extremamente conservador argumentar que homens gays são na verdade mulheres trans insatisfeitas interiormente. Por essa lógica, somente os mais héteros e tóxicos exemplos de masculinidade são considerados verdadeiramente homens. E se homens gays são na verdade mulheres trans héteros, então homens gays não existem.”

3. Mais uma vez: não existe pênis lésbico!

Se você leu atentamente tudo até aqui e, ainda assim, continua contra a minha fala (e de tantas outras mulheres), bem, imagino que em um ponto específico nós podemos concordar: orientação SEXUAL baseia-se em SEXO, não em gênero. Uma relação sexual não é uma experiência imaterial através da qual você transcende e se relaciona, de forma abstrata, com a identidade de outra pessoa; é algo carnal, físico, palpável. Por isso, lésbicas não se sentem atraídas por pênis.

Não são as mulheres lésbicas que estão matando pessoas trans. São os homens heterossexuais, em sua maioria, brancos. Os mesmos que enxergam as nossas relações com um olhar fetichista. Eles são os reais inimigos e opressores. Nós estamos apenas fazendo o que sempre fizemos, ao longo da história: rejeitando o falo.

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