Coronavírus, Mulheres e o neoliberalismo de Bolsonaro
Coronavírus, Mulheres e o neoliberalismo de Bolsonaro

A nova pandemia de Coronavírus tem colocado países em quarentena e isolamento nacional, o que significa que, como medida de contenção para evitar mais contágios, os Estados têm optado por fechar de fronteiras, proibir entrada e saída de cidadãos e, em muitos casos (e cada vez mais), declarar estado de emergência — o que implica a suspensão de uma série de direitos e liberdades constitucionais.

Claro que nada disso passaria sem gerar consequências — e certamente não estou falando de mercado ou do lucro das empresas. Conforme a nova crise social afeta não só fisicamente, mas também psicologicamente a população com o isolamento, a tensão psicológica, a instabilidade financeira (a indefinição da situação laboral, com despedimentos e a precarização, mas também do aumento de gastos que naturalmente vem por passar mais tempo em casa e consumir mais energia, especialmente se estiver em regime de teletrabalho, e aumentar o gasto com alimentos e água), as contradições de classe, sexo e raça se evidenciam exponencialmente.

O fato de atingir as classes mais altas de modo algum significa que o Coronavírus é “democrático”, como se tem brincado nas redes sociais. Certamente, o vírus não mata igualmente pobres e ricos. Há uma linha clara de quem são os mais vulneráveis aqui pela falta de estrutura e acesso aos direitos humanos básicos universais, como saúde.

E, como não é surpresa, as mulheres continuam sendo desproporcionalmente afetadas como as “proletárias do proletariado”. Da violência doméstica em casa ao lugar ocupado pela divisão sexual do trabalho, o coronavírus ao menos escancarou uma realidade que o movimento feminista tem denunciado e lutado para mudar no último século: o lugar de vulnerabilidade política, econômica e social que a sociedade capitalista de dominação masculina reserva para mulheres.

Aqui, vamos dar uma olhada de perto em como isso se traduz na realidade brasileira — em políticas que foram acentuadas pelas agendas defendidas por Bolsonaro e seu ministro da economia neoliberal, Paulo Guedes.

infográfico coronavírus covid19

Mulheres são vulneráveis por serem maioria nos trabalhos de cuidados

Não é acaso que as mulheres sejam a esmagadora maioria nos trabalhos de cuidados e limpezas, visto que são extensões do trabalho doméstico que a sociedade espera que façamos em casa de qualquer jeito, que parecem acreditar (cômoda e convenientemente) que é algo que deve ser “naturalmente” feito por mulheres, isso se espelha no “mundo do trabalho” formal.

Também não é por acaso que, no Brasil, a maioria das mulheres fazendo trabalho doméstico por conta de outrem seja negra e de baixa escolaridade. É claramente uma herança de um passado colonial e escravocrata, um desenvolvimento óbvio de uma história que há muito pouco tempo “aboliu” o regime de escravidão de pessoas negras, sem qualquer restituição dos seus direitos pelo tempo explorado.

Por serem a maioria a assumir o trabalho de cuidados (seja de idosos, como babás ou educadoras), além de ser a maioria nas limpezas em locais públicos e casas privadas, as mulheres estão mais expostas ao vírus.

A segunda vítima mortal do coronavírus confirmada no Brasil foi contaminada pela ‘patroa’ que vinha contaminada de uma viagem à Europa e não seguiu a diretriz de quarentena e isolamento, mantendo sua ‘empregada doméstica’ apesar da trabalhadora pertencer ao grupo de risco. A vítima, uma mulher negra pobre de 63 anos, faleceu em poucos dias em decorrência dos sintomas.

Mulheres estão expostas como trabalhadoras na linha de frente do combate ao vírus

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as mulheres representam 70% dos profissionais na linha de frente de combate ao vírus, sendo vulneráveis à infecção e ao estresse (The Intercept). Embora, no Brasil, homens ainda sejam maioria no campo da medicina, no que toca às profissões de remuneração mais baixa no campo (como enfermagem e técnicas), as mulheres predominam com um índice de 80%. São as profissionais mais expostas ao vírus.

Mulheres são maioria na prostituição

E não há medidas que possam torna-las mais seguras, nem lavar a mão durante 20s, nem usar máscara. Já é uma situação de risco em momentos “normais”, em altura de pandemias globais são certamente a linha de fundo desse cenário.

Contudo, ainda assim, grandes empresas da indústria do sexo, que lucram com a exploração dos corpos dessas mulheres, têm a audácia de aumentar ainda mais a sua distribuição — como foi o caso da empresa Pornhub, que abriu seu conteúdo premium para toda a Itália, como medida para incentivar o “isolamento”. Mídias de diversos países têm alertado para a possibilidade (ou a já realidade) do aumento de abusos sexuais de crianças e mulheres em período de quarentena… mas ninguém parece disposto a somar 1+1 com a onipresença da indústria pornográfica, movida a misoginia.

Manchete do jornal iBahia
Manchete do Catraca Livre

As mulheres exploradas na pornografia e na prostituição são grupos de risco, são vulneráveis e estão exponencialmente expostas à epidemia. E essa pandemia só vem deixar muito claro que não é a falta de legislação que cria este cenário.

Isolamento aumenta risco de violência masculina em casa

Feed do Google

Na China, as denúncias de violência doméstica triplicaram durante a quarentena. A hashtag #AntiDomesticViolenceDuringEpidemic (#ContraViolênciaDomésticaDuranteEpidemia) já foi usada mais de 3000x nas redes sociais para denunciar violências. Para não contar as violências das quais não se falam, como estupro marital e abuso infantil.

O isolamento é um fator-chave na violência contra mulheres. É uma denúncia feita consistente e persistentemente, por exemplo, pelas mulheres do campo, visto que é muito comum, em zonas rurais, estarem isoladas em casas sem vizinhança ou muito longe de qualquer tipo de serviço (como postos de saúde, delegacias ou centros de assistência sociais), o que impossibilita pedir ajuda quando se veem nessa situação.

Agora o problema apenas foi alargado às zonas urbanas, tornando um problema generalizado e totalitário.

Isolamento aumenta a carga de trabalho doméstico

O trabalho doméstico ainda não é socializado. Ainda se espera, na sociedade, que mulheres “naturalmente” tratem da casa, da cozinha, da limpeza, das crianças, enfim: que seja a criada de todos na casa. O encerramento de escolas e os hospitais funcionando em serviços mínimos implicam um aumento considerável dos trabalhos domésticos jogado nos ombros das mulheres, o que por si só é péssimo, mas não age como um fator isolado: aumenta, assim, o esgotamento físico, psicológico e emocional.

Além disso, estatísticas do IBGE apontam que existem mais de 8 milhões de mulheres em situação de extrema-pobreza hoje no Brasil. Isso não significa apenas uma extrema vulnerabilidade e exposição ao vírus, dadas as faltas de condições de sobrevivências, mas também um crescente cenário de insegurança alimentar e fome com o fechamento das escolas, que é literalmente a única certeza de milhares de crianças de que terão mais de uma refeição ao dia.

Vulnerabilidade laboral e econômica

Manchete do site APublica.org

Segundo relatório do Ministério do Trabalho, mulheres ainda são minoria no mercado de trabalho brasileiro, mas são a ampla maioria ocupando postos de trabalho precarizados, temporários, informais, desqualificados e subvalorizados.

Isso significa que mulheres são o elo mais fraco dessa corrente e, em época de pandemia, são as trabalhadoras mais expostas ao abuso patronal, arriscando suas vidas apesar da indicação de quarentena para não perder o emprego ou as primeiras a ser despedidas para “corte de despesas”. Aqui também o racismo delineia a questão: 40% das mulheres negras trabalham em situação precarizada e mais da metade (55%) não é assegurada pela previdência social.

Com vínculos empregatícios frágeis e remunerações mais baixas, as mulheres são as primeiras não só a arriscar suas vidas para garantir o lucro do patrão que não respeita a quarentena, mas também são aquelas que vão para casa cuidar das crianças quando as escolas e creches fecham (visto que em geral tem o salário mais baixo).

Sendo as mulheres aquelas que primeiro são despedidas ou têm menos renda, são obviamente as que têm menos possibilidade de pagar assistência médica, aluguel e contas, ficando à mercê de violências.

Conclusão: o neoliberalismo é anti-mulheres

O que a pandemia do coronavírus nos ensina enquanto mulheres numa sociedade estruturada sobre discriminação/exploração de raça, sexo e classe?

  • A socialização dos cuidados e do trabalho doméstico é essencial para a emancipação das mulheres
  • A privatização de serviços públicos (como saúde e educação) não favorece, mas sim PENALIZA mulheres, sobretudo mulheres racializadas e pobres
  • A divisão sexual do trabalho (homens maioria em todo lado, mulheres maioria apenas em trabalhos servis e de cuidados, seja no informal/formal ou dentro de casa) torna mulheres vulneráveis às violências e dominações

A agenda neoliberal, como aquela representada e levada a cabo por Bolsonaro e Paulo Guedes, colocando o modelo econômico chileno (recém colapsado) como molde para um Brasil extremamente desigual, devastado por pobreza, colonialismo e falta de infraestrutura, deve ser combatida. Não era preciso uma pandemia para vermos isso, mas agora não vê quem não quer.

O SUS é um exemplo: certamente é insuficiente para lidar com uma pandemia como hoje acontece em Itália, contudo certamente melhor que o cenário norte-americano, onde não há sistema nacional de saúde e a assistência médica à vida é mercadoria para aqueles que puderem pagar. Entretanto, o Sistema Único de Saúde brasileiro, modelo mundial, foi sucateado paulatinamente nos últimos anos. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro ao assumir a presidência foi justamente um corte bilionário na saúde.

Massivamente sucateado para gradualmente induzir a população à pensar que o serviço público é ineficaz e que a privatização é necessária, o SUS agora terá de injetar milhões no setor privado para poder atender a população de forma mais imediata, quando esses milhões podiam ter reforçado a estrutura do sistema nacional de saúde antecipadamente — afinal, não é como se não tívessemos as nossas próprias pandemias para tratar, como a dengue, a volta do sarampo, o zika, entre outros que têm assolado a população pobre.

E se não tivéssemos o SUS no meio dessa pandemia?

Como sempre, sabemos, os ricos vão se safar dessa crise. Viverão tranquilamente a sua quarentena em casas gigantescas com espaços para os filhos correrem, brincarem, com piscinas e jacuzzis. Os trabalhadores — sobretudo as mulheres da classe trabalhadora, e sobretudo negras e indígenas — serão deixados para morrer. Para ser contaminadas enquanto trabalham para aumentar os lucros das empresas em funções não-essenciais, como telemarketing (onde somos 70% da mão-de-obra) e para limpar o chão da casa-grande.

O neoliberalismo é a morte e submissão das mulheres!


* imagem: Pacientes e visitantes formaram fila em frente a hospital — Foto: Adilson Rosa/Arquivo pessoal

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