Desabafo sobre o“body positive” em corpos padrões.

Não sei se vocês sabem dessa novidade, mas ser gordo agora é moda. Quero dizer, não nas lojas de roupas, nos assentos de transporte público, nas cadeiras em geral, nas modelos e afins, mas nas redes sociais. Pois é. 

Eu peso mais de cem quilos faz um bom tempo, deixei o número 40 de calça quando tinha 10 anos. Minha lista de apelidos é bem grande e eu lembro do primeiro deles, na minha primeira semana de aula no pré: ‘baleia’, igual a figura do livro. ‘Orca’, ‘rolha de poço’, ‘bola de carne’ e etc. Fora a educação física, que eu sempre era a última a ser escolhida. Aos 16 eu tava usando 46/48 há muito tempo. Hoje, as minhas calças são de sessões plus size (quando existe e quando tem alguma coisa legal). Do contrário, tem uma loja na cidade que cresci e que minha mãe mora que vende tamanhos maiores e calças com modelos diferentes, o que me faz deixar um rim toda vez que vou e ai são três calças diferentes e com elas eu tenho que me virar para fazer tudo. Fora isso, tem as blusinhas que não passam no meu braço porque ele é grande. 

Tem também a questão dos bancos de transporte, onde já aconteceu algumas vezes das pessoas levantarem quando eu estou sentada, tem também o silêncio constrangedor que as pessoas ficam quando eu falo algo como “preciso comer menos chocolate” ou coisas do gênero. O silêncio de quem queria me falar para emagrecer, que é feio ser gorda, mas que fica quieto em forma de “respeito”. E vou falar, as coisas que eu passo são pequenos perto de outros corpos fora dos padrões. 

E aí, de repente, surge a cultura do “meu corpo, minhas regras”, “meu corpo um templo sagrado” e todo mundo decide se amar. Veja bem, isso é maravilhoso, amor próprio é incrível. Mas, se apropriar de um discurso sobre aceitar seu corpo quando você tem um corpo dentro dos padrões… É fácil de lidar. Sei que a gente acaba entrando no velho “lugar de fala”, por isso escrevi que é um desabafo. A grande maioria das pessoas que fala sobre empoderamento de corpo, tem um corpo nos padrões ou só um pouquinho fora dos padrões, o que geralmente significa não ter a barriga chapada e não se importar em usar cropped. 

Primeiro que empoderamento não é pessoal, é coletivo. Se você está empoderando só a você, então deixa eu te contar que você está fazendo errado. Tirar foto nua mostrando seu corpo fora dos padrões não é empoderador. Eu acho importante tentarmos normalizar esses corpos, é legal ter pessoas com um grande alcance falarem sobre aceitar corpos, mas veja bem, eu percebo muito mais a velha ideia do “dar biscoito” do que verdadeiramente criticar a indústria da beleza, a ditadura da magreza. Infelizmente, falar que aceita o corpo virou um discurso que vende bem, mas vende de quem para quem? Recentemente, em uma discussão sobre a sexualização que existe em fotos nuas (o famoso ‘nu artístico’) um comentário que me marcou muito foi ver que, enquanto algumas pessoas defendiam que fotos assim precisam existir e que se forem de corpos fora dos padrões, isso faz com que normalizemos os mesmos, uma garota comentou que quando via fotos de mulheres gordas nuas, ela só sentia vontade de ir correndo para a academia. Adiantou alguma coisa o “empoderamento” de alguém nesse caso?

É incrível como a gente continua buscando a valorização do corpo, é impressionante como ainda buscamos reconhecimento em algum lugar. Eu não canso de dizer que essa questão de influenciadores é o céu o e inferno ao mesmo tempo, essa bolha faz com que a gente busque o tempo todo se reconhecer e procurar aplausos. A gente acaba não indo na raiz da questão, que é mulheres serem valorizadas pelo seu corpo e por sua beleza. 

Não adianta pregar sobre o “body posititve” e ficar falando sobre como foi aceitar o SEU corpo. Não adianta criticar padrões estéticos e não boicotar a indústria, não criticar as lojas que fazem roupas somente até o 48 ou o GG. Não adianta transformar essa luta em algo pessoal sendo que é coletivo. Como bem sabemos, o capitalismo adora se apropriar desses bordões. Quem lembra das blusinhas da Riachuelo que tinham ilustrações de corpos fora do padrões e tamanhos pequenos?

Como uma amiga minha bem disse, não adianta pregar que “um corpo gordo também é lindo”, quando na verdade a gente não deve beleza a ninguém. Um corpo gordo é um corpo e só isso, eu não tenho que procurar fazer ele ser lindo e as pessoas acharem ele lindo. Portanto, querida influenciadora das redes sociais, deixa eu te contar uma coisa: não adianta amar o seu corpo e escrever textão quando as marcas fazem roupas exclusivas pra você. 

As vezes, eu tenho a impressão que corpos gordos só são aceitos na internet. Não canso de pensar que sou muitas vezes a única gorda no meio da roda de amigos, não canso de pensar que conheço zilhões de amigos que nunca namoraram meninas gordas, não canso de pensar no olhar que recebi uma vez de um garoto que passou a mão no meu corpo e sentiu minha barriga. Não canso de pensar que as pessoas exaltam seus corpos na internet, mas agradecem aos céus por continuarem cabendo no 40. 

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