Feminismo e Religião
Captura do filme “Seder-Masochism”, de Nina Paley.

Este texto trata de religião em sentido amplo, englobando o pensamento mágico de forma geral. Assim, quando dizemos religião estamos falando tanto das religiões institucionalizadas, como é o caso das grandes religiões monoteístas do mundo, quanto de qualquer forma de exercer o conceito de espiritualidade, do misticismo, da superstição etc.


RELIGIÃO E MULHERES

A religião é considerada um espaço feminino. Embora o número de mulheres que declaram se identificar com alguma fé seja de apenas poucos pontos percentuais a mais do que os homens no mundo (83,4% contra 79,9%¹), as mulheres se dedicam mais ao misticismo de forma geral. Isso é visível em qualquer templo que não proíba a entrada de mulheres ou considere inapropriado que elas frequentem aquele espaço.

Isso acontece não porque mulheres são naturalmente inclinadas para o misticismo, mas porque somos socializadas de modo diferente dos homens. A socialização feminina pode mudar no tempo e no espaço, cada sociedade tem sua forma de julgar e ensinar o que é apropriado para as mulheres, mas de forma geral somos criadas hoje para sentirmos mais medo e sermos mais obedientes, questionando menos as coisas, requisitos básicos para o exercício da fé. Além de sermos criadas para a tarefa do cuidado, o que tem muito a ver com as características caridosas que são pregadas nas grandes religiões em geral.

Por mais que, no geral, se julgue a fé como algo muito íntimo, nós, feministas, consideramos que o pessoal é político. Não vivemos apartadas da sociedade, somos reflexo dela e, dessa forma, entendemos ligados à socialização os processos que levam a maioria das pessoas a acatar o pensamento mágico.

Além da fé institucionalizada, ainda é possível encontrar em diversas mídias, como revistas e programas de televisão, cujo público-alvo seja mulheres, o estímulo ao misticismo. Inclusive já em revistas destinadas a meninas adolescentes, há horóscopos e reportagens sobre cristais mágicos e similares.

A ideia da mulher mítica e mística é um esteriótipo que nos faz mal. Especialmente porque a contrapartida é de que a lógica e o mundo da razão são masculinos. O que nos falta às mulheres são as mesmas oportunidades de desenvolver nosso senso crítico, nosso ceticismo e nossa curiosidade científica.

Os homens são as pessoas que produzem ciência hoje. Excluir as mulheres da ciência tem um papel fundamental na manutenção do patriarcado, porque privilegia a visão masculina sobre o que é importante pesquisar. Um exemplo bizarro disso pode ser visto na programação de inteligência artificial dos telefones celulares, em que é possível pedir ao assistente virtual que encomende uma mulher prostituída, mas ele não é capaz de responder a um pedido de ajuda em caso de estupro. Outros exemplos mais comuns podem ser encontrados na medicina, em que o corpo padrão é de um homem, e poucas pesquisas são direcionadas exclusivamente ao corpo feminino, fazendo mulheres ingerirem medicamentos inadequados². A socialização para o místico nos afasta do que há de concreto no mundo.

A religião ajuda na manutenção do patriarcado também porque é nela que vamos buscar respostas pras injustiças sociais. Mulheres frequentemente recorrem à igreja para ajudá-las em casos de violência doméstica, por exemplo, ou tentam incentivar seus companheiros a frequentarem a igreja na esperança de que melhorem seu comportamento. É compreensível que haja uma busca de um significado maior e uma possibilidade de reparação de erros, nem que seja no pós-morte, visto que o mundo concreto não tem sido grande coisa para as mulheres. Contudo, buscar na igreja a solução para a violência doméstica não costuma resolver, porque a religião tende a perpetuar a violência. As religiões em geral sacralizam a família e a autoridade do marido. Isso significa que para a maioria das pessoas religiosas, a família é sempre uma coisa a ser salva, impossibilitando o afastamento de vítimas de seus agressores.

Por isso, também, os homens permitem as mulheres em espaços religiosos. Mulheres vão à igreja porque muitas vezes ali é seu principal ou único espaço de vida social. No patriarcado, homens detêm poder sobre mulheres, de modo que eles conseguem facilmente cercear os espaços frequentados por suas companheiras. Estando em conformidade com o que se espera que uma mulher seja: boa, caridosa, devotada à família; a igreja é considerada um lugar bom para a mulher. Num estudo sobre casamento infantil³, por exemplo, é possível encontrar relatos de meninas que frequentavam a igreja porque era o único local que seus maridos (geralmente adultos) deixavam elas ir, porque eles as impediam (sutilmente ou de forma direta) de ir à escola ou sair com amigos da mesma idade. Homens sabem que a igreja não oferece perigo à autoridade deles.

Esse não é um fenômeno recente ou local. Nadejda Krupskaia relata, num artigo⁴ escrito em 1922, que as mulheres russas iam à igreja para ver gente, porque não tinham outro espaço de convivência social. Da mesma forma, há inúmeros depoimentos de mulheres em diversas regiões e de diversas religiões, seja da África, da América ou da Europa, que dizem que o culto ou o templo é onde elas têm algum senso de comunidade. O que precisamos é construir espaços de trocas para as mulheres que sejam realmente emancipatórios e não que visem à manutenção da ordem social.


RELIGIÃO E CONTROLE DA SEXUALIDADE FEMININA

Historicamente, as religiões atuam no controle da sexualidade feminina. Vários mitos em torno da mulher foram criados pelo mundo para justificar esse controle. Um grande exemplo disso foi a difusão da ideia de bruxaria na Europa no início da idade moderna.

A ideia corrente que temos de bruxaria, que agora o liberalismo transforma em ícone feminista, é uma criação do cristianismo. A “bruxa” não era uma mulher que dizia que tinha poderes mágicos ou uma mulher poderosa, como se quer ressignificar hoje, e nem mesmo uma questionadora do patriarcado, a “bruxa” era qualquer mulher que, por qualquer motivo, fosse denunciada. Muitas vezes essa denúncia era associada a condutas sexuais, porque, segundo “O Martelo das Feiticeiras”, as mulheres “são, por natureza, carnais, um defeito estrutural enraizado na criação original”, são mais “facilmente seduzidas pelo pecado”, e a “bruxa” tem uma “lascívia obscena”⁵, de modo que as mulheres adúlteras, as que faziam sexo antes do casamento, as prostituídas etc. poderiam ser classificadas como bruxas.

Em diversas sociedades é possível observar mitologias criadas para o controle da sexualidade feminina. No clássico estudo antropológico “Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande”⁶, de Edward Evan Evans-Pritchard, temos relatos dessa sociedade do norte da África do começo do século XX, que era muito voltada para a magia. A bruxaria é considerada algo que traz prestígio social, portanto atributo masculino, visto que são uma sociedade patriarcal. A opinião geral é a de que mulheres não devem praticar magia porque ela traz poder, e poder é melhor que permaneça na mão dos homens.

Quando querem proteção mágica, mulheres recorrem aos maridos, para que eles façam os rituais. Elas apenas podem lidar com a magia desde que esteja ligada a tarefas consideradas femininas, como pescar, preparar sal e cerveja; além de coisas ligadas ao sexo feminino como parto, aborto e menstruação. Ao mesmo tempo, várias das coisas relacionadas ao sexo das mulheres, apesar de não serem consideradas bruxarias, são tidas de mau agouro, como a menstruação ou o uso da genitália de forma inapropriada (leia-se exposição dela ou manter relação homossexual). Assim, algumas vezes as mulheres devem ser segregadas (mulheres menstruadas podem fazer um oráculo perder seu poder) ou punidas (se um marido polígamo descobre que suas esposas são amantes, ele pode açoitá-las).

Apesar de a “bruxaria” estar presente no cotidiano social, a mulher que a exerce é definida como má. Histórias contadas sobre essas mulheres dizem que elas mantêm relações sexuais com gatos e dão luz a gatos que depois vão fazer mal aos maridos delas. As histórias sobre parir gatos, provocar o adultério (mulheres são tidas como responsáveis pelas práticas adúlteras, os homens seriam vítimas), lesbianidade, genitália feminina e menstruação associam a sexualidade feminina ao mal. Mulheres podem trazer azar e provocar a infelicidade de todos à sua volta, portanto a sexualidade delas deve ser mantida sob controle, sustentado pela religião local.

Os mitos que permeiam as sociedades acabam justificando a misoginia. As mitologias, sejam elas cristãs, islâmicas, hindus, budistas, gregas etc. refletem os costumes e as convicções dos povos, mas também servem para construir os valores sociais. São os mitos religiosos que sustentam a divisão das mulheres em categorias dualistas, por exemplo, geralmente a santa e a pecadora, ajudando na construção da feminilidade e das ideias desumanizantes acerca das mulheres.

A religião não é usada socialmente para trazer bem às mulheres, mas para controlar nossos comportamentos e sexualidade. Podemos ver isso ainda hoje especialmente na questão do aborto, tão cara aos religiosos. O argumento religioso “pró-vida” é uma grande falácia, porque a proibição do aborto não protege a vida de ninguém; mulheres morrem por causa da negação desse direito. Esse movimento conservador que se diz pró-vida é o mesmo que se opõe a legislações que protegem mulheres; ele é militarista, autoritário, racista e misógino. A proibição do aborto é estimada pelos religiosos porque é uma forma de controle do corpo e da sexualidade feminina que não passa pelo controle do corpo masculino. Não é e nunca foi sobre proteção à vida.


RELIGIÃO E CONSERVADORISMO

Sempre quando vou falar sobre religião e feminismo, as pessoas perguntam sobre as contradições entre mulheres feministas praticando alguma religião. Uma das perguntas mais frequentes que recebo é se é possível ser cristã e feminista. Acredito que a pergunta surja porque as pessoas percebem contradições nesses dois modos de enxergar o mundo, o que não permitiria conciliá-los. Embora eu acredite que somos seres cheios de contradições, acho que é muito importante refletirmos sempre sobre elas, e espero que possamos chegar a conclusões que realmente ajudem no movimento de mulheres e na emancipação feminina.

Não costumo ter que convencer as pessoas em geral de que as grandes religiões institucionalizadas são conservadoras. Tanto o cristianismo como o islamismo (religiões que, juntas, contemplam metade da humanidade) excluem ativamente as mulheres do sacerdócio e possuem em seus textos sagrados passagens que falam da inferioridade das mulheres e justificam violências contra nós. Elas são, sim, conservadoras, mas essa é uma característica de todo o pensamento mágico. É importante percebermos isso, para não cairmos na tentativa de reformar religiões com o intuito de abarcar o feminismo de algum jeito em suas filosofias.

O conservadorismo é parte do misticismo e não é tão relevante se existe uma instituição, com autoridades explícitas que mediam o acesso dos meros mortais com um suposto deus. É claro que essas coisas importam porque hierarquizam pessoas, mas o mais importante para se entender como o conservadorismo opera nas religiões é perceber a existência da explicação de fenômenos a partir de elementos imaginários, que impedem que as pessoas compreendam o mundo e que mascaram as opressões, de modo que o resultado é sempre conservador, pouco importa se falamos de duendes ou de Jesus. A religião mina o senso de realidade das pessoas, o que torna impossível discutirmos os assuntos do mundo real e das pessoas reais.

O resultado é um mundo em que é fácil fazer as pessoas acreditarem em qualquer coisa, de terra plana a transplante de cabeça. Um mundo facilmente manipulável, em que “fake news” conseguem decidir eleições e o destino de milhões de pessoas; em que a verdade parece algo subjetivo e a ciência se torna mera questão de opinião (o que é diferente de se ter um olhar crítico sobre a ciência, porque ela é, sim, feita sob bases masculinistas).

Isso é prejudicial para as mulheres também porque o que apresentamos e o que sabemos ser verdade é dado como somente uma suposição, uma hipótese que desenvolvemos que é tão válida quanto qualquer outra, mesmo que essa seja completamente fora da realidade material. No caso de feministas, ainda temos mais um problema, porque o misticismo mina nosso potencial revolucionário. Quando mulheres se reúnem, é comum passarmos um bom tempo falando de coisas místicas: horóscopo, tarô, sagrado feminino; que nada mais são do que mais um mecanismo de alienação.

Sendo conservador e alienante em sua própria constituição, o misticismo é antifeminista.


FEMINISMO, RELIGIÃO E MATRIARCADO

O feminismo se desenvolveu em bases materialistas. Não tem nada na teoria feminista que sustente o pensamento mágico. Dessa forma, não devemos nos concentrar em algo que nada mais é do que uma forma de afastar mulheres daquilo que realmente importa discutir.

Mulheres não se empoderam invocando pretensas essências místicas do feminino. Dizer que “mulheres são mais próximas da natureza”, “mulheres são cíclicas” etc. são estereótipos que animalizam e mistificam as mulheres. Tidas como seres míticos e místicos, e não humanas, as mulheres são consideradas incompreensíveis, e surgem ideias de que mulheres são irracionais, fazem joguinhos, são mentirosas por natureza e dizem coisas que não querem (como negar sexo a um homem: “é só um jogo, ela tá fazendo doce, ela quer, sim, pode ir…”), além de sustentar ideias conservadoras como “alma feminina” ou “cérebro feminino”. Toda a ideia de irracionalidade das mulheres serve aos homens, mesmo que a linguagem usada possa aparentar o contrário, como invocar um suposto “poder feminino”.

A ideia de que se é possível construir uma sociedade religiosa alternativa, em que mulheres sejam os centros de poder não vai nos libertar, porque ela nos afasta da busca revolucionária. Tampouco a liberdade poderá vir do resgate de religiões ancestrais supostamente matriarcais.

Brooke Williams fala, em seu texto “A fuga para o Feminismo Cultural”, que o matriarcado “mitologiza a ideia de poder”, o que “remove a ideia de libertação das mulheres da possibilidade real para uma utopia mítica, negando-a. Ele se baseia em um passado desconhecido em vez de definir um futuro real”. O misticismo (a religiosidade, a espiritualidade ou como queiram chamar) é baseado no fatalismo, as coisas estão postas, são assim porque são assim, porque deus quis, porque os astros ditaram, porque são as regras da natureza etc., “o fatalismo é absolutamente contrário à mudança revolucionária”.⁷

Por isso também devemos deixar de buscar esse passado matriarcal, mesmo porque não existe evidência de que essas sociedades existiram da forma como idealizamos. Mesmo sociedades e religiões matrilineares podem ainda ser fundadas no patriarcado, como é o caso do judaísmo. Em “A Criação do Patriarcado”, Gerda Lerner coloca que “não é possível demonstrar uma conexão entre parentesco e posição social da mulher”⁸. A matrilinearidade não garante a não patriarcalidade. A presença de figuras que nós costumamos interpretar como “deusas-mãe” tampouco garante que as mulheres não eram consideradas inferiores em razão de seu sexo. Sobre isso, Lerner também coloca a ideia de que a criação de mitos compensatórios de um passado distante não vai emancipar mulheres no presente e no futuro. É importante estudarmos essas figuras, saber que mulheres estavam lá nessas sociedades, vivendo e produzindo cultura, mas justamente estudar a materialidade dessas mulheres é que é importante.

Antes de mistificar mulheres, devemos buscar nos lembrar de um fato comumente esquecido, que é o de que somos humanas. Chimamanda Adichie, no livro Para Educar Crianças Feministas, verifica que existe nos discursos sobre gênero “o pressuposto de que as mulheres seriam moralmente ‘melhores’ do que os homens. Não são. Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina”⁹. Buscar melhorar a vida das mulheres por meio do misticismo, do endeusamento de mulheres, ou da busca de uma sociedade ancestral mítica não liberta mulheres. Mulheres somos seres humanos e deveríamos ser tratadas como tal.


Fontes:

1. PEW. The Gender Gap in Religion Around the World. Pew Research Center, 2016.
2. MÜZELL, Lúcia. Sexismo na ciência leva a diagnósticos e tratamentos piores para as mulheres. RFI, 13/03/2019. Disponível em: <http://www.rfi.fr/br/ciencias/20190313-sexismo-na-ciencia-leva-diagnosticos-e-tratamentos-piores-para-mulheres> Acesso em: 19/03/2020.
3. TAYLOR, A.Y., IAURO, G., SEGUNGO, M., GREENE, M.E. Ela vai no meu barco. Casamento na infância e adolescência no Brasil. Resultados de Pesquisa de Método Misto. Rio de Janeiro e Washington DC: Instituto Promundo & Promundo-US. Setembro 2015.
4. KRUPSKAIA, Nadejda Konstantinovna. A Trabalhadora e a Religião. In: SCHNEIDER, Graziela (org.). A Revolução das Mulheres, emancipação das mulheres na Rússia Soviética. São Paulo: Boitempo, 2017.
5. KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. The Malleus Malleficarum. Nova York: Dover Publications, 2012.
6. EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
7. WILLIAMS, Brooke. A fuga para o Feminismo Cultural. Feminismo com Classe, 2020. Disponível em: <https://medium.com/@feminismoclasse/a-fuga-para-o-feminismo-cultural-766a60a02153 > Acesso em: 17/07/2020.
8. LERNER, Gerda. A Criação do Patriarcado: História da Opressão das Mulheres pelos Homens. São Paulo: Cultrix, 2020.
9. ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: Um manifesto. São Paulo. Companhia das Letras, 2017.

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