Breve histórico do ecofeminismo
Ilustração por Isadora Reimão

O ecofeminismo surgiu do encontro entre feminismo e ecologia. Talvez justamente por seu duplo pertencimento, ainda é uma grande incógnita para ambos os movimentos, a despeito de, na sua variedade de correntes, abrir um horizonte promissor para feministas e ecologistas.

Quero começar enfatizando que ser ecofeminista não implica afirmar que as mulheres, de maneira inata, são mais ligadas à natureza e à vida do que os homens. Embora algumas teóricas tenham visto desta maneira, de uma perspectiva construtivista da subjetividade do indivíduo e segundo estudos internacionais, podemos considerar que o interesse que as mulheres têm em questões ecológicas não é um mecanismo automático relacionado ao sexo. Há mulheres incansáveis em defesa do meio ambiente e outras que detestam e combatem o ambientalismo. “Mulheres” e “ecologia” não são sinônimos. Nisso, como em outros aspectos, a realidade mostra uma grande variedade de indivíduos, mas também inclinações vinculadas à socialização para certas tarefas e atitudes. Coletivamente, as mulheres não tiveram acesso a armas de modo geral, e têm sido tradicionalmente responsáveis pelas tarefas de cuidar das vidas mais frágeis (crianças, idosos e doentes) e da manutenção da infraestrutura de material doméstico (cozinha, roupas, etc.), desenvolvendo, em termos estatísticos, uma subjetividade “relacional”, atenção aos outros e maior expressão de afetividade. Quando essas características são combinadas com informações adequadas e uma desconfiança saudável em relação aos discursos hegemônicos, as condições são dadas para despertar seu interesse em ecologia.

I. O próprio corpo

Em meados dos anos setenta do século XX, Françoise d’Eaubonne, criadora do termo “ecofeminismo”, via o problema da superpopulação global como um ponto em comum relevante entre reivindicações feministas e preocupações ambientais. Reivindicou a liberdade das mulheres para decidir ter ou não ter filhos, quando as leis da França ainda não reconheciam isso. Hoje, essa liberdade ainda é uma questão pendente em muitos países. A partir da minha proposta de um ecofeminismo ilustrado — isto é, de um ecofeminismo que faz parte da tradição de crítica à opressão e defesa da igualdade (Puleo, 2008) — considero de importância fundamental que os direitos sexuais e reprodutivos sejam aceitos pelo que eles são: direitos humanos que salvaguardam a autonomia das mulheres e reduzem a pressão demográfica na Terra.

As mulheres não estão expostas apenas à violência baseada no sexo (feminicídio, morte pelas mãos de um homem que não aceita separação, mutilação sexual ritual, assédio sexual, estupro em tempos de guerra e paz etc.), mas também estão mais expostas aos efeitos negativos da contaminação ambiental, devido às suas características biológicas. Substâncias tóxicas presente em purificadores de ar, equipamentos de informática, plásticos, tintas, pesticidas, etc. agem como desreguladores endócrinos perigosos que afetam primeiro — mas não exclusivamente — a saúde de mulheres, meninas e meninos, mesmo durante a vida fetal. Os xenoestrogênios (substâncias quimicamente semelhantes ao estrogênio feminino natural) parecem desempenhar um papel no aumento do câncer de mama nos últimos cinquenta anos. Como pode ser inferido, a preocupação feminista com a saúde da mulher na sociedade química se conecta com objetivos ambientalistas.

II. Sexo, classe, raça, geopolítica e ecologia

O pensamento e a práxis ecofeminista revelaram as conexões da desigualdade entre os sexos, o sexismo, o racismo, o classismo, a divisão Norte-Sul e a deterioração ambiental. Os riscos nas questões ambientais são mais altos para mulheres em bairros populares com fábricas poluentes e aterros, e para mulheres trabalhadoras de certos setores industriais e agrícolas que empregam agroquímicos. Eles também são altos para os habitantes mais humildes dos países pobres.

A famosa ecofeminista indiana, Vandana Shiva, foi uma das primeiras a mostrar a deterioração nas condições de vida das mulheres rurais pobres no Terceiro Mundo, devido ao “desenvolvimento ruim”, o desenvolvimento colonizador que acaba com o cultivo de hortas de subsistência familiar, destrói florestas comunitárias e aniquila a biodiversidade. Essas mulheres são forçadas a caminhar quilômetros para procurar a lenha que elas costumavam encontrar ao lado de sua aldeia, e ficam doentes com novas doenças devido à contaminação por pesticidas. Elas conhecem a face sinistra da “modernização” (Shiva, 1995). Elas geralmente acabam morando com seus filhos nas favelas das grandes capitais do chamado sul. No entanto, às vezes, elas são protagonistas da resistência e das lutas (Shiva, 2003) que Joan Martínez Alier chamou de “ambientalismo dos pobres”.

Considero que uma das manifestações atuais mais eloquentes do encontro entre o olhar feminista e ecológico é o fenômeno de grupos de reivindicação de mulheres na luta pela “soberania alimentar”. A aspiração da igualdade entre os sexos em conexão com as propostas e as demandas da Via Campesina estão mostrando que muitas mulheres encontram na agroecologia uma nova maneira de capacitar-se na família e na sociedade. Elas deixam a esfera doméstica, obtêm reconhecimento e recursos, denunciam a violência de gênero e outras formas de opressão patriarcal que as afetam, melhoram sua saúde, a própria e a de toda a sociedade, preservando o ecossistema.

III. Viés de gênero e antropocentrismo

O androcentrismo, ou o viés patriarcal da cultura, é o resultado de uma história que excluiu as mulheres dos espaços declarados importantes. A partir do pensamento androcêntrico, desvalorizou-se todas essas atividades e formas de perceber e sentir o mundo, por serem consideradas femininas. A religião e a filosofia apresentaram “a mulher” como Natureza e sexualidade. E o pensamento ocidental generalizou uma percepção “arrogante” do mundo (Warren, 1996) em que a natureza é uma matéria-prima simples, inferior e existente para ser dominada e explorada por uma razão despida de sentimentos de compaixão (Plumwood, 1992).

Em diálogo com a chamada “ética do cuidado”, o ecofeminismo apontou que todas as tarefas relacionados à subsistência e manutenção da vida (começando com o uso doméstico e dos próprios povos fora do mercado), foram injustamente desvalorizados (Mellor, 1997) de acordo com o status inferior concedido à natureza. Revelam-se, assim, os vínculos de legitimidade mútua entre patriarcado e capitalismo.

Também a compaixão e o amor por animais não humanos foram afetados pelo status entre os sexos. Uma cultura que mitologizou o guerreiro e o caçador, muitas vezes vê atitudes de empatia com criaturas sofredoras como sentimentalismo e infantilidade consideradas típicas das mulheres. A mulher foi naturalizada e a natureza foi feminilizada. Devemos superar os dois processos de dominação. Agora que as mulheres estão deixando o mundo doméstico, determinadas a participar plenamente nos campos do trabalho assalariado, política e cultura, temos que garantir que nossas vozes contam quando determinamos qualidade de vida e valores éticos.

As mulheres não somos as salvadoras do planeta nem as representantes privilegiadas da Natureza, mas podemos contribuir para uma mudança sociocultural em direção à igualdade que permita que práticas do cuidado, que historicamente eram apenas femininas, tornem-se universais, ou seja, também própria dos homens e que se estenda ao mundo natural não humano.

Eu acho que uma posição ecofeminista bem informada, assim como uma teoria crítica da cultura androcêntrica e antropocêntrica, permite nos entender melhor como espécie, e entender as causas e consequências da nítida divisão entre natureza e cultura que marca nossa história e tentar superá-la. Os seres humanos são natureza e cultura em uma unidade complexa. Será necessário lembrar aos homens que “também” compartilham o mesmo duplo pertencimento, uma verdade muitas vezes esquecida devido à construção da masculinidade patriarcal. Conseguiríamos, assim, uma redefinição do ser humano um pouco mais realista, mais modesta, mais igualitária e mais apta para enfrentar os problemas do século XXI.


Tradução do texto original de Alicia H. Puleo. Publicado originalmente em “Chaves do ambientalismo social”.


Bibliografia:

AGRA, María Xosé (comp.). Ecología y feminismo. Granada: Ed. Comares, 1997. MELLOR, Mary. Feminism and Ecology. Cambridge: New York University Press, 1997.

PLUMWOOD, Val. Feminism and the Mastery of Nature. London-New York: Routledge, 1993.

PULEO, Alicia, “Del ecofeminismo clásico al deconstructivo: principales corrientes de un pensamiento poco conocido”, en Celia Amorós y Ana de Miguel (ed.). Teoría feminista. De la Ilustración a la globalización, vol. 3ª ed. Madrid: Minerva, 2005, pp. 121–154.

PULEO, Alicia, “Medio ambiente y naturaleza desde la perspectiva de género”, en GARRIDO, F., GONZÁLEZ DE MOLINA, M., SERRANO, J.L. y SOLANA, J.L. (eds.). El paradigma ecológico en las ciencias sociales. Antrazyt: Icaria, 2007, pp. 227–252. PULEO, Alicia. “Libertad, igualdad, sostenibilidad. Por un ecofeminismo ilustrado”, en Isegoría. Revista de Filosofía Moral y Política. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, n° 38, enero-junio 2008, pp. 39–59.

SHIVA, Vandana. Abrazar la vida. Mujer, ecología y desarrollo. trad. Instituto del Tercer Mundo de Montevideo (Uruguay). Madrid: Cuadernos inacabados 18, ed. horas y HORAS, 1995.

SHIVA, Vandana. Manifiesto para una democracia de la Tierra. Justicia, sostenibilidad y paz. Barcelona: Paidós, 2006. VV. AA. Soberanía alimentaria desde y para el empoderamiento de las mujeres. La visión sur en el empoderamiento de las mujeres para la equidad de género. Vitoria-Gasteiz: Servicio Central de Publicaciones del Gobierno Vasco, 2009.

WARREN, Karen (ed.). Ecological Feminist Philosophies. Indiana University Press, 1996.

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