ESCUTEI VOCÊ NO CANTINHO DO IROKO
Recorte de foto de Iroko. Foto por: Christleo, em Wikimedia.

I. ESCUTEI VOCÊ NO CANTINHO DO IROKO

Passando roupa eu tive a oportunidade de viver em um país europeu. Eu estava entrando na menopausa e não conseguia ficar em ambiente fechado, a lavanderia era muito pequena e quente, então assim que cheguei comecei a passar roupa de baixo das árvores, escutando música e palestra no notebook ou celular.

Era uma imagem atípica, uma negrona de turbante entre as duas árvores passando roupa e sempre acompanhada de hóspedes, amigos em volta a conversar. Ali já tinha café, bolacha, água. Com o tempo passou a ter banquinhos, depois mesa e cadeiras.

O trio foi batizado de Cantinho do Iroko, ganhou uma placa lindíssima de um artesão que se hospedou lá viaja vendo suas artes pelo mundo e nos presenteou com seu trabalho.

Ali era um local de muita paz, pela harmonia do verde criada pelo guineense, o jardineiro, não posso classificar de local sagrado religioso, pois nos despojamos desse título, mas um local especial, eu dou a seguinte impressão:

Minha função só seria escutar, ou melhor deixar a energia das árvores absorver as mágoas, ser simpática e agradável, era o meu desafio, para levar as pessoas até o local. Não tinha pretensão de consolidar o local como mágico ou surrealismo, nem ritual, a finalidade é o prazer do bem-estar.

E fiz pacto comigo mesma, nas minhas orações, não comentar nenhum assunto conversado naquele canto, em troca teria a proteção de nada daqui impactar no meu dia a dia.

Escutei sobre estupro, incesto, violência doméstica, traição, roubo; também teve as histórias de amor, mas 90% são sofrimento da alma. E com isso colecionei amigos de diversas partes do mundo.

Em um ambiente sem pobreza, sem miséria, pessoas com educação, que desfrutam de lazer, escutei relatos tanto de homem com de mulher que abalam a estrutura do ser humano.

Mas também vi de perto o sofrimento dos homens e mulheres, eu vi a dor da imigração, os refugiados e a dor da traição. Na angústia do envelhecer, e sua incapacidade motora ou de decisões embargadas pelos filhos.

Eu não me considero uma terapeuta, psicóloga ou uma mãe de santo. Só sou uma ouvinte, em um ambiente propício para dar uma paz momentânea.

Eu tive gratidão em ser uma condutora do alívio momentâneo das pessoas, pois eu era beneficiada em doutrinar-me em diversos aspectos, o principal foi ouvir e não comentar. O chorar e não sofrer, em diversos momentos foi impossível de conter, não só pelas ações sofridas, mas pelo peso da dor.

Aquarela de Olga Blanco

II. VIOLADA POR DUAS GERAÇÕES

Lili era mineira, negra, viúva, sem filhos e curada de suas dores. Uma manhã muito quente no início de verão entrou uma hóspede que viajava sozinha, com seus cinquenta e cinco anos e foi lá no meu cantinho de passar roupa para uma prosa, era brasileira, nos abraçamos, falamos da nossa terra. Contei um pouco das minhas aventuras e ela se pôs a contar a dela; resolveu procurar os familiares paterno no exterior para tirar a cidadania.

Lili contou que foi até o quintal no dia em que nos tornamos amigas, por que todos que chegavam perguntavam pela Ana, e se conduziam para área livre, então teve curiosidade de saber quem eu era. Mas já tínhamos nos visto e até dados beijinhos, só não lembrava do meu nome e nos percebemos por estarmos de turbante.

Comecei a escrever sobre a superação das pessoas e seu estado de espírito em querer ter uma vida melhor a partir da Lili. Como se sair bem de situações que não deveriam existir?

Nos tornamos amigas para sempre, companheira de diversas viagens; ela namorou o francês que me paquerava, e três meses depois já estavam casados, morando junto.

Eu falava para o meu amigo francês que iria apresentar uma amiga, e deu certo. Ela diz que ele é um excelente marido, nunca comentei sobre a paquera, também nem precisava, ele carente tinha mulher, ele aconchegava-se. Por fim, nem vejo mais minha amiga, só os seus cães, pois o casal não para em casa, vivem viajando, e se deram muito bem. Asé.

Lili desabafou no primeiro dia em que nos conhecemos, no Cantinho do Iroko. E foi a última vez que tocou no assunto do passado, virou a página.

Sua maior amargura foi ser violentada pelo pai e sua mãe nunca acreditar nela.

A morte do marido foi um alívio, o homem era um capeta. Ela disse que o marido nunca bateu, mas fazia ela sentar e raspava seus cabelos com navalha para humilhá-la, fez três abortos escondidos, pois não confiava em homem com criança e também não queria ter um filho com aquele tipo de marido, com quem ficou casada por 20 anos.¹

Lili é extremamente proativa, bilíngue, iniciou faculdade de psicologia, mas não quis terminar, sempre trabalhou na área de enfermagem, quando casada tinha liberdade de viajar com as amigas…

Vai entender a mente humana. Eu já desisti.

Eu nunca tive a audácia de perguntar, por que ela não o deixou, ou se divorciou do capeta. Também não tenho essa curiosidade, são desculpas e amarras mentais que nos permite fixar na desgraça.

Mas perguntei como superou todos os desgostos. A resposta: Fé e Vingança. Caminhei acreditando que estava protegida por Deus e a vingança porque todos morreram e estou aqui, viva e muito melhor sem eles.

E completou com um belo sorriso: O passado ficou no passado, não tomei nenhuma atitude na época, mas agora posso, de ser feliz.

Ela tem o mesmo sentimento de liberdade que o meu. Jogou todas as fotos fora do pai, da mãe e do marido.

Sempre faz exercícios terapêuticos, para curar a mágoa e perdoou. E se permite em ficar bem com a ausência deles. A atitude errada não partiu dela, e sim deles, então foi ensinada a se perdoar, por ter dado permissão dos outros lhe fazer mal e permanecer próxima, por laços familiares.

Os atos errados foram deles, agora ela é livre.

Pelo que convivi deu certo, e sempre diz que tem mais uns 30 anos para viver com felicidade, não aceita mais tristeza na vida e na alma.

Bravo! Bravíssimo!

1. O crime de estupro é definido como qualquer conduta, com emprego de violência ou grave ameaça, que atente contra a dignidade e a liberdade sexual de alguém. O elemento mais importante para caracterizar esse crime é a ausência de consentimento da vítima.

O abuso sexual é uma situação em que uma criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, baseado em uma relação de poder que pode incluir desde caricias, manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual, “voyerismo”, pornografia e exibicionismo, até o ato sexual com ou sem violência física. A etiologia e os fatores determinantes do abuso sexual contra a criança e o adolescente têm implicações diversas. (ABRAPIA, 2002)

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Nascida em 1968 no RJ, carioca paulistana. Formada em arquivologia, aprendiz de História. Seu último livro, “Por onde andei…O filho ensina a mãe com os Vasconcellos” é um álbum de família com história, conversas, cultura, narrações e memórias familiares, desde o século XIX. “Não tenho como falar da minha família sem o trauma histórico da escravidão negra”.

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