Eis que em meados de 2012 a palavra feminismo passa a se fazer com cada vez mais frequência enquanto parte do meu dia a dia, das minhas pesquisas, do meu vocabulário. Aos 16 anos, eu era a única feminista que eu conhecia: moro em uma cidade pequena no interior de Pernambuco e as informações chegam primeiro na capital, precisando antes disso estarem disseminadas em outras metrópoles brasileiras, sendo paridas e importadas dos EUA, e por isso o acesso à internet e à língua inglesa (coisa que nem todas temos) foram um meio graças ao qual tive a oportunidade de pensar a mim mesma enquanto parte de um grupo social, percebendo que muitas das minhas questões não eram tão pessoais quanto eu acreditava, mas eram partilhadas por outras e isso, de certa forma, nos unia.

“Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta”

Cinco anos se passaram e as definições e frases feitas que, na época, encontrava no tumblr, facebook e em blogs há tempos não fazem mais sentido nenhum para mim, todavia existe um algo permanente. Acredito que muitas meninas e mulheres se identificam com a clássica trajetória que começa pela ingenuidade nociva do “feminismo” liberal e que, muitas vezes e por vários motivos, pode acabar em decepção e frustração quanto ao movimento. Mulheres estão deixando de ser feministas, e essa é uma dinâmica previsível, pois tanto atualmente quanto nas duas primeiras ondas, existem armas apontadas contra a emancipação das mulheres vinda de todos os lados, inclusive daquelas que dizem fazer parte de uma luta que visa consegui-la.

Dessa forma, além de serem bombardeadas pelos outros movimentos políticos e sociais (tanto de direita quanto de esquerda), pelas mídias, pelos acadêmicos e pelo senso comum, feministas ainda tem que lidar com as incoerências do próprio movimento, ou melhor, do que fizeram dele. Feminismo liberal é um cavalo de tróia que não está só nos grupos abertamente feministas liberais, é como uma epidemia que atinge todos os outros, nisso inclue-se a vertente radical, porque por mais que se repita que empoderamento individual não existe e o conceito dito dessa forma tenha perdido força e visibilidade, mulheres continuam vendo o feminismo enquanto uma forma de libertação pessoal e se frustrando profundamente quando não conseguem, quando são contrariadas em seus supostos desejos e preferências, ou mesmo quando descobrem que se dizer feminista antes te torna mais vulnerável à pressão social do que te livra dela.

A única forma de desassociar a imagem da mulher feminista de estereótipos depreciativos como feiura, burrice e agressividade é adequando-o ao patriarcado, o que só é possível com sua anulação, e isso é o que a terceira onda tem feito. Existem aquelas que abandonam o movimento por não mais suportar tamanha incoerência, percebendo-se trabalhando e aprendendo pelas mulheres com muito mais efetividade estando fora da bolha, e não há como julga-las por isso, porém, é possível perceber que muitas vezes o que ecoa nos textões facebookianos de desistência é o descomprometimento, pois quando repetem “não há esperanças” não estão se referindo a uma sonhada revolução de mulheres que a cada dia parece mais utópica, e sim à antiga pretensão que tinham de que o feminismo pudesse ser mais uma forma de gozo. Pra essas eu faço questão de responder: não, não há esperanças, portanto não anseie que seu namorado politizado de esquerda não te ache histérica, agressiva e burra quando prioriza mulheres e nem espere que toda a teoria feminista venha a se adequar aos seus fetiches e à sua necessidade de proteger o ego.

Com a disseminação de ideias individualistas a submissão passou a ser ressignificada enquanto mais um dos “inofensivos e libertários” modos de ser feminista, exaltando a “escolha” de cada mulher individualmente enquanto sinônimo de poder mesmo quando há nessa preferência um padrão visivelmente elegido pela imposição. Falta ao feminismo valorizar, não como regra a ser seguida, obviamente, pois não existe uma cartilha de conduta feminista, mas sim enquanto símbolo de resistência e admiração, aquelas às quais a ressignificação liberal custou o silenciamento: as que se recusam a se depilar, que não se submetem a dietas totalmente nocivas à saúde, que dizem não, que deixaram seus companheiros abusivos, que não fazem mil estripulias em troca de aprovação masculina, as que se distanciam afetivamente dos homens, as lésbicas, as negras que dão a cara a tapa mesmo sabendo que se prejudicarão ainda mais que as brancas. Quanto àqueles aspectos da feminilidade dos quais não conseguimos, podemos ou pretendemos nos desprender, sobre eles resta uma leitura consciente de nossa parte, evitando cair em uma lógica egoista de conserva e proteção do próprio gozo.

Feminismo não é um estilo de vida, não é uma forma de se privar da opressão, pelo contrário, ser feminista é se posicionar na linha de frente, é estar em carne viva, é aceitar que a glória é póstuma, e, em troca de todo esse sacrifício (não, não se faz feminismo sem sacrifício), ter a oportunidade de estar ciente de si mesma. Ser feminista (coisa que lib não é) não vai fazer com que sua condição de mulher, sua beleza, sua inteligência, sua criatividade e seu desempenho profissional e afetivo sejam valorizados pelas outras pessoas, pelo contrário, a tendência é que te rejeitem ainda mais, que te machuquem ainda mais, porém, o feminismo te dá a possibilidade de conhecer a própria história, de estar atenta à dinâmica da própria vida, do próprio corpo, de se aproximar de outras mulheres, sou grata por isso.

Não quero romantizar as relações entre mulheres a ponto de ignorar que estas formam um grupo misto onde existe opressão de raça e classe, ou mesmo obrigar quem quer que seja a se manter feminista a qualquer custo, quero mesmo é deixar claro: continuo sendo feminista, e não é porque essa palavra virou motivo de graça, como toda moda que acaba com o fim da estação, que eu vou deixar de ser. Feminismo em 2015 era tendência, em 2016 todas se diziam radicais e em 2017 é alvo do deboche daquelas que herdaram o egoísmo do feminismo-antifeminista que costumavam pregar, sendo as primeiras a se juntar aos homens para apedrejar aquelas pelas quais antes se arrastavam como minhocas para se enturmar, repetindo suas palavras e as esvaziando de significado por não entender que movimento nenhum se trata de um clube de fofocas e diversões.

Peço à deusa, ao cosmos, ao acaso e quem estiver lendo esse texto que possamos resgatar um feminismo que incomoda, que resiste, que espalha informação gratuitamente, mal visto pela mídia, um movimento fora da lei que se dedica tanto a medidas emergenciais quanto à revolução a longo prazo, que se volta à medicina, à política, à espiritualidade, à psicologia, pra que possamos aprender e ensinar sobre nós enquanto grupo não aceitando simplesmente ficar à mercê de uma sociedade que não se adequa às nossas necessidades, peço por um feminismo que não relativize o ser mulher, que não endeuse a feminilidade e desande tudo o que já estava meio caminho andado. Agradeço às teóricas da segunda onda, às mulheres que se dispõe a produzir sobre o assunto, àquelas com as quais tive a honra de dialogar e que me deram um pouco de sua força.

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Feminista radical, vegetariana, psicóloga, pernambucana.

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