Introdução ao radical: Mulheridade

Um (não tão) breve prefácio: este ensaio foi originalmente encomendado por um editor independente que queria publicar uma antologia sobre gênero. Em 2017, me perguntaram se eu teria interesse de escrever um ensaio sobre mulheridade. Eu fiquei um pouco surpresa — pelo fato de o editor ser abertamente queer e eu ser feminista radical — , mas no final das contas fiquei feliz: o objetivo era publicar uma coleção de perspectivas plurais a respeito de gênero, e eu acredito sinceramente que a existência de um espaço para perspectivas plurais sobre qualquer assunto é essencial para um debate público aberto e saudável. Eu sabia que meu ensaio feminista lésbico provavelmente seria um ponto de vista minoritário, e me senti confortável com ele ser publicado ao lado de perspectivas contraditórias. Dada a extrema polarização do debate de gênero, que resulta num impasse doloroso entre ativistas queer e feministas radicais, foi encorajador pensar que chegamos a um ponto em que múltiplas visões poderiam ser mantidas e exploradas juntas.

Então eu escrevi o ensaio, fiz as edições requisitadas e produzi um esboço final, com o qual o editor e eu estávamos ambos muito satisfeitos. Em suas palavras: “Estamos muito felizes com as edições que você fez e com as áreas que você desenvolveu a nosso pedido. Você fez um trabalho esplêndido em refinar o ensaio.” Entretanto, algumas pessoas se opuseram à inclusão do meu ensaio antes mesmo de tê-lo lido. Alguns leitores iniciais deram o feedback de que estavam descontentes de encontrar uma perspectiva que não estavam esperando e alarmados por eu ter conectado minha experiência pessoal de gênero enquanto mulher com o contexto sociopolítico mais amplo em que vivemos. Reações contrárias se intensificaram a ponto de a editora enfrentar o risco de ter seu negócio frustrado e sua coleção inaugural comprometida.

Foram-me dadas as opções de escrever outro ensaio para a antologia de gênero ou de ter esse ensaio publicado em uma coleção futura. Eu rejeitei ambas, porque nenhuma delas me parecia correta — felizmente, tenho mais projetos no meu horizonte. Isso posto, eu entendo a posição da editora, me entristece que seu empreendimento ousado e brilhante pudesse ser comprometido pelas próprias pessoas que ele foi desenhado para apoiar. Ademais, eu desejo à editora todo o sucesso com esse projeto e em todos os projetos futuros. Quanto ao ensaio, controverso mesmo antes de ser lido, eu decidi publicar aqui como a sétima parte de uma série de textos sobre sexo, gênero e sexualidade. É, em minha opinião, um bom ensaio e merece ver a luz do dia.


Onde há uma mulher, há mágica. Se há uma lua caindo de sua boca, ela é uma mulher que conhece sua mágica, que pode ou não compartilhar seus poderes. — Ntozake Shange

Eu simplesmente amo mulheres. Eu amo mulheres de uma forma que me deixa sem fôlego, de uma forma que pega por trás das minhas costelas e gentilmente puxa as fibras do meu coração até que elas se desembaracem. Eu amo mulheres com uma profundidade e um fervor que é fundamentalmente lésbico. E ao amar mulheres eu encontro fontes extraordinárias de força, o ímpeto de continuar desafiando o patriarcado capitalista supremacista branco (hooks, 1984), a motivação para desgastar toda hierarquia e opressão que atuam como um pilar que sustenta os males da sociedade. Um amor de mulheres é central ao meu feminismo, porque as conexões entre mulheres — conexões de solidariedade e de irmandade, particularmente — têm um poder revolucionário incomparável a qualquer outra força nessa terra.

De acordo com Adrienne Rich, “as conexões entre e dentre mulheres são as mais temidas, as mais problemáticas e a mais potencialmente transformadora força no planeta”. As conexões compartilhadas por mulheres e tudo que flui por entre as conexões entre mulheres abrem a possibilidade para mudanças sociais radicais — que é por que a existência lésbica e as políticas feministas são forças complementárias na vida de uma mulher.

Por amar mulheres como eu amo, eu já passei bastante tempo em devaneios sobre o que é ser mulher, de onde brota a atração de mulheres. Como muitas jovens lésbicas fazem, eu especulo sobre a natureza do impulso que nos compele a assistir toda a sorte de besteira aleatória na televisão só porque a atriz de meia-idade que nós curtimos tem um pequeno papel na produção. Tendo crescido nesse mundo como uma menina e subsequentemente tendo aprendido como negociar nesse mundo como uma mulher, eu também tenho refletido sobre o significado social e político da categoria — o peso, que é inegável. A questão do que significa ser uma mulher tem sido central ao debate feminista por séculos: estabelecer o que a mulheridade é, pontuar os meios e motivos por trás da opressão da mulher sob o patriarcado e descobrir como acabar com essa opressão são preocupações feministas centrais.

Atualmente, o movimento feminista está dividido em dois quanto a como conceituar mulher e a opressão da mulher. As tensões entre a ideologia queer e as políticas sexuais têm se provado tão divisivas como as guerras do sexo dos anos 80. A fonte do racha se encontra no gênero — especificamente, se o gênero deve ser conceituado como uma hierarquia ou como uma identidade dentro da análise feminista. Feministas têm historicamente identificado o gênero como o meio pelo qual as mulheres são oprimidas: o patriarcado depende do gênero para estabelecer e manter uma hierarquia que permite que homens dominem mulheres. Mas, na virada do século, teóricos queer como Judith Butler e Jack Halberstam começaram a sugerir que o gênero pode ser subvertido e experimentado até que a própria estrutura da sociedade não seja mais reconhecível.

Devido à popularização da ideologia queer, nós entramos numa era sem precedentes governada pela lógica do pós-modernismo — um momento em que a relação entre o corpo físico e a realidade material é desconexa pelas políticas de identidade. Assim, as pessoas envolvidas com políticas progressistas — sejam liberais ou radicais — começam a se perguntar novamente: o que significa ser mulher?

Mulher como uma classe sexual

Um elemento-chave da análise feminista é o reconhecimento da mulher enquanto uma classe sexual. Com isso eu não quero dizer que todas as experiências de mulheres se adequam aos mesmos padrões universais ou que todas as mulheres têm relativamente a mesma posição dentro das estruturas de poder mundiais: fatores como raça, deficiência, classe social e sexualidade, todos definem onde uma mulher está situada em relação ao poder. Pelo contrário, essa perspectiva oferece um reconhecimento do papel prestado pelo patriarcado em determinar a dinâmica de poder entre homens e mulheres. A luta das mulheres contra o patriarcado é coletiva, e a emancipação de opressões sistêmicas não se dará por meio da individualização de questões estruturais. Mulheres de todas as cores e credos, mulheres de todas as classes e castas são ativamente subjugadas desde seu nascimento — uma análise política que não incorpore essa realidade não pode ser entendida como feminista. A opressão das mulheres é resultado direto de se ter nascido com corpo feminino em uma sociedade patriarcal. Considerar as mulheres enquanto classe é, portanto, fundamental a uma crítica feminista significativa do patriarcado.

Essa forma de análise — análise radicalmente feminista — pode se esfarelar quando incorretamente aplicada por mulheres brancas que visam a negar qualquer diferença entre as vidas das mulheres. Mas quando aplicada corretamente, com rigor e consideração, ela tem o potencial de mudar o mundo.

Minha própria mulheridade é muito pouco convencional, sendo Negra e lésbica. Eu não atinjo padrões eurocêntricos brancos de beleza feminina ou mulheridade e também não quero mais aspirar a esses padrões, que têm raízes em racismo e misoginia. Devido à pigmentação da pele e à textura do cabelo, minha Negritude é impossível de disfarçar — mesmo que fosse possível, tendo começado a desmanchar a misoginia negra [1] que eu internalizei desde muito cedo, eu não escolheria escondê-la para conseguir me encaixar. Ser visivelmente o Outro é viver com uma vulnerabilidade aumentada, é estar perpetuamente aberta a manifestações de opressão estrutural. Por um tempo eu desprezava tanto minha Negritude quanto minha mulheridade como resultado da dolorosa alienação que a misoginia negra trouxe à minha vida. Desde então, eu aprendi a colocar a culpa firmemente onde ela pertence, com a raiz dessas crueldades: o heteropatriarcado capitalista supremacista branco. Desde que adotei políticas radicais eu aprendi a amar ambas Negritude e mulheridade, a amar a mim mesma como mulher Negra, de uma forma que nunca havia sido possível durante minha perseguição a padrões convencionais de beleza.

Foto da autora, Claire.

Minha apresentação lésbica (Tongson, 2005) é mais uma rejeição a esses padrões de beleza. Eu estilizo meu cabelo de uma maneira que é distintamente lésbica e eu mantenho um undercut nítido, desde que saí do armário. Em diversos momentos algumas pessoas da minha família tentaram impor e reforçar a heterossexualidade compulsória, fazendo comentários negativos acerca de qualquer apresentação aparente de uma estética lésbica, esforçando-se para me guiar de volta ao papel feminino. Eu ouço que voltar a uma apresentação convencionalmente feminina me deixaria mais “meiga”, “mais amigável” e mais próxima ao ideal de beleza. E por mais que eu pudesse escolher passar por heterossexual, permitindo a suposição de que eu estou disponível e receptiva a homens para me poupar de mais um grau de marginalização, eu não o faço. Eu não tenho vontade nenhuma de parecer meiga ou amigável, menos ainda para homens — a classe opressora. Alice Walker proclamou que “a resistência é o segredo da alegria”, e ela estava correta: há um sentimento de puro júbilo que vem de resistir às armadilhas e aos aparatos do heteropatriarcado.

Assim como toda mulher vivendo em uma sociedade patriarcal, eu vivencio opressão sistemática como consequência de ser mulher. Mulheres — todas as mulheres — estão ligadas pela rigidez do papel de gênero assinalado a nós com base em nosso sexo biológico. Somos socializadas desde nosso nascimento para sermos meigas, submissas, atenciosas, para que estejamos preparadas para adotar o papel de cuidado requerido para a manutenção da esfera doméstica possuída por um homem, seja ele marido ou pai. Como Mary Wollstonecraft notavelmente lamentou, mulheres somos ativamente desencorajadas a perseguirmos nossos potenciais máximos como seres humanos autorrealizados. Ao invés disso, mulheres são sujeitas a uma pressão social (e frequentemente econômica) deliberada, desenhada para criar em nós uma fonte ornamental de trabalho doméstico, sexual e reprodutivo para homens.

De Sojourner Truth a Simone de Beauvoir, há uma longa e orgulhosa tradição de feministas criticando o papel da feminilidade. Durante seu tempo como oradora abolicionista, Truth desconstruiu a mulheridade com grande efeito, perguntando “e eu não sou uma mulher?”. Argumentando contra as hierarquias de raça e gênero que determinavam como a categoria de mulher era compreendida na sociedade norte-americana durante o pico do comércio de escravos transatlântico, Truth ofereceu sua própria história como testemunho da falsidade da feminilidade. Truth usou suas próprias força e persistência como evidência empírica, afirmando que a mulheridade não é de forma alguma dependente de ou relacionada às características que constituem a feminilidade. Sua oposição ao essencialismo de gênero e à supremacia branca continua a influenciar as perspectivas feministas sobre a mulheridade até hoje.

A filosofa feminista Simone de Beauvoir foi além na crítica à feminilidade, conectando a socialização de gênero à opressão das mulheres pelos homens. Ela teorizou que o homem é o padrão normativo de humanidade e a mulher é entendida puramente em relação a ele:

O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho.

Que a mulher seja relegada ao Outro, ausente de definição positiva, direciona a uma vida que é androcentrada. Se a mulher existe como a imagem negativa do homem, ela está eternamente ligada a ele. Autodefinição tem sido reconhecida há muito tempo como uma ferramenta necessária para a libertação de um grupo oprimido, e se mulheres permanecerem dependentes de homens para sua definição, então a causa raiz de nossa opressão nunca poderá ser confrontada. Adrienne Rich uma vez disse que “até que saibamos os pressupostos nos quais estamos mergulhadas, nós não poderemos conhecer a nós mesmas” — como é quase sempre o caso, suas palavras contêm mais do que alguma verdade.

O gênero é normalizado por meio do essencialismo, posicionado como uma parte natural e inevitável da vida. Da máxima “meninos são assim mesmo” até o refrão constante de “ela estava pedindo” quando homens atuam de acordo com o condicionamento cultural que os garante que eles têm direito aos corpos das mulheres, a hierarquia de gênero mantém o desequilíbrio grosseiro de poder na raiz das políticas sexuais. Eis como eu entendo a conexão entre sexo biológico e papéis de gênero:

O gênero é uma armadilha socialmente construída desenhada para oprimir mulheres enquanto classe sexual para o benefício de homens enquanto classe sexual. E a relevância do sexo biológico não pode ser desconsiderada, apesar de recentes esforços em redefinir o gênero enquanto uma identidade ao invés de uma hierarquia. A exploração sexual e reprodutiva do corpo feminino é a base material da opressão das mulheres — nossa biologia é usada como um meio de dominação por nossos opressores, os homens.

Nós ensinamos meninos a dominar as outras pessoas e a negar suas emoções. Nós ensinamos meninas a cuidar das outras pessoas em detrimento de si próprias. E eu acho que esse mundo seria um lugar melhor se nós encorajássemos mais empatia nos meninos e mais ousadia nas meninas. Se o gênero fosse abolido, se nós criássemos meninas e meninos da mesma forma, o patriarcado ruiria. Como diversas feministas antes dela, Chimamanda Ngozi Adichie milita pela eliminação do gênero:

O problema com o gênero é que ele prescreve como deveríamos ser ao invés de reconhecer como somos. Imaginem quão mais felizes seríamos, quão mais livres para sermos nossos verdadeiros Eus, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero… Meninos e meninas são inegavelmente diferentes biologicamente, mas a socialização exagera as diferenças, e então inicia um processo autorrealizável. — Chimamanda Ngozi Adichie, Sejamos Todos Feministas

É impossível considerar a posição das mulheres na sociedade, a realidade de que somos cidadãs de segunda classe pelo desenho do patriarcado, sem reconhecer o alcance do prejuízo feito pelo gênero. A mulheridade é capturada nas amarras do papel de gênero feminino, impedida de escapar da dominação masculina. Na abolição de gênero jaz uma alternativa radical. Na abolição de gênero jaz a libertação das mulheres.

Portanto, as recentes redefinições de gênero enquanto uma identidade inata se provaram problemáticas nas contínuas lutas feministas. As políticas de identidade de gênero dependem do essencialismo contra o qual as feministas têm lutado por séculos, um essencialismo que argumenta que mulheres são naturalmente destinadas às formas de nossa opressão. Se o gênero é inato — um fenômeno natural, afinal — então a opressão das mulheres sob o patriarcado é legítima.

Mulheridade

Durante a segunda onda do feminismo, argumentou-se que mulher significava simplesmente uma humana adulta biologicamente fêmea. Feministas (Millett, 1969; French, 1986; Dworkin, 1987) sustentavam a tese de que a mulheridade poderia e deveria existir puramente enquanto categoria biológica, livre do papel de gênero feminino — uma tese de libertação das mulheres. Essa perspectiva é diretamente contrariada pela compreensão queer do gênero, que foca primariamente no gênero enquanto expressão de si:

O efeito do gênero é produzido por meio da estilização do corpo e, portanto, deve ser entendido como a forma mundana em que gestos, movimentos e estilos corporais de vários tipos constituem a ilusão de um Eu generizado [2] permanente. Essa formulação tira a concepção de gênero do terreno de um modelo substancial de identidade em direção a um que requer uma concepção de gênero enquanto uma temporalidade social constituída. — Judith Butler, Gender Trouble

Uma noção queer de gênero o apresenta como uma questão de performatividade, argumentando que estruturas de poder dominantes podem ser subvertidas por meio da transgressão das barreiras dos papéis de gênero femininos e masculinos. A identificação com as características associadas a um papel de gênero é entendida como o pertencimento à categoria. As pessoas que se identificam com o papel de gênero prescrito à sua classe sexual são descritas como cisgênero. As pessoas que não se identificam com o papel de gênero prescrito à sua classe sexual são descritas como transgênero. De um ponto de vista queer, o sexo não é uma categoria fixa, mas instável. As políticas queer entendem o gênero como uma forma de identificação pessoal. Análises feministas radicais, nas quais o gênero é compreendido como uma hierarquia, são desconsideradas por serem entendidas como “ultrapassadas”.

Se não se pode dizer com absoluta clareza o que é uma mulher e o que é um homem, as classes opressora e oprimida se tornam indefiníveis. Subsequentemente, a hierarquia de gênero é tornada invisível e a análise feminista do patriarcado se torna impossível. Sem as palavras usadas como marcadores para transmitir significados específicos, as mulheres são privadas do vocabulário necessário para nomear e se opor à nossa opressão. Pós-modernismo e análise política de estruturas de poder não se bicam.

É aqui que se encontra a controvérsia, que o discurso de gênero se torna explosivo além do ponto de reconciliação entre o queer e o feminismo radical. Se o gênero é uma questão de identificação pessoal, é uma questão puramente individual e, portanto, despolitizada. A diferença de poder entre a classe oprimida e a classe opressora é negada pelo fracasso em considerar homem e mulher como duas classes sexuais distintas. O gênero deixa de ser visível enquanto uma forma de opressão, obscurecido ainda mais, conforme as categorias de homem e de mulher são consideradas imateriais. Se classes sexuais são indefiníveis, também é a política sexual do patriarcado.

Se a mulheridade pode ser reduzida à performance do papel de gênero feminino e à identificação pessoal com aquele papel de gênero, há pouco espaço para distinguir entre opressores e oprimidos. A mulheridade deixa de ser indicada pela presença de características sexuais primárias e secundárias e, ao invés disso, torna-se uma questão de autoidentificação. O opressor pode até se beneficiar por uma vida de privilégio conferido aos homens por meio da subordinação de mulheres para, então, reivindicar a mulheridade. Jenni Murray, apresentadora do programa Woman’s Hour, da BBC, foi atacada por enfatizar que, antes da transição, mulheres trans [3] se beneficiam dos privilégios sociais e econômicos designados aos homens num patriarcado. Pouco depois, Chimamanda Ngozie Adiche enfrentou reações adversas por diferenciar as experiências de mulheres nascidas mulheres [4] e mulheres trans:

Eu acho que se você já viveu nesse mundo como um homem, com os privilégios que o mundo concede aos homens, e então troca de gêneros — é difícil pra mim aceitar que então podemos equalizar suas experiências com as experiências de uma mulher que viveu desde o começo no mundo como uma mulher, que não recebeu esses privilégios que homens recebem. Não acho bom juntar tudo numa coisa só.

Se já não é possível considerar as experiências das pessoas nascidas fêmeas, analisar a relação entre sexo e poder socioeconômico, feministas já não podem mais identificar ou desafiar o funcionamento do patriarcado. Essa é uma consequência particularmente infeliz de abraçar a ideologia queer. Os direitos das mulheres são direitos humanos, como diz o slogan — inalienáveis e absolutamente dignos de luta. As injustiças enfrentadas por mulheres ao redor do globo são intoleráveis: uma a cada três mulheres estarão sujeitas a violência masculina em sua vida. No entanto, se as ferramentas linguísticas necessárias para criticar o patriarcado forem removidas do léxico feminista, a libertação das mulheres encontra um bloqueio intransponível: não dá pra combater uma opressão que você não pode nomear, no final das contas.

A relevância cultural conectada à palavra mulher está num estado de fluxo. De acordo com a política queer, a mulheridade é simplesmente a performance do papel de gênero feminino. De acordo com o feminismo radical, o papel de gênero feminino existe puramente como um estereótipo sexista de mulher que tem suas raízes no essencialismo e na misoginia. A única escapatória da opressão patriarcal que a política queer oferece às mulheres é que todas as fêmeas biológicas se identifiquem fora da categoria “mulher”. Reivindicar o rótulo de não binário, gênero-fluido ou transmasculino — qualquer coisa que não uma mulher cisgênero, que é naturalmente apropriada para seu status como cidadã de segunda classe — é a única rota que a política queer oferece para mulheres biológicas serem reconhecidas como completamente humanas.

As mulheres, pela lógica queer, não podem ser autorrealizadas nem podem ter vidas interiores significativas. Nós simplesmente somos o Outro dos homens. É por essa razão que a ideologia queer tem conseguido reduzir mulheres a “não homens” — a “pessoas grávidas”, a “possuidoras de útero” e “pessoas menstruantes”. Vale a pena perguntar: a transinclusividade depende de as mulheres serem apagadas da existência? Enquanto a teoria queer tem refletido sobre a natureza da masculinidade, ela não desconstruiu a categoria de “homem” para além do ponto de reconhecimento. Assim como na sociedade patriarcal generalizada, o homem é o padrão normativo de humanidade e a mulher é definida em relação a ele. A definição positiva de mulheridade é tratada como prescindível no discurso queer.

Como a linguista Deborah Cameron afirma, o poder das mulheres de se autodefinir é de imensa relevância política:

A força da palavra ‘mulher’ é que ela pode ser usada para afirmar nossa humanidade, nossa dignidade e nosso valor, sem negar nossa natureza de fêmea corporificada ou tratá-la como fonte de vergonha. [A palavra mulher] nem nos reduz a úteros ambulantes, nem nos dessexualiza e descorporifica. É por isso que é importante que feministas continuem usando-a. Um movimento cujo objetivo é libertar as mulheres não deveria tratar ‘mulher’ como uma palavra proibida.

Independentemente de como se entenda a palavra mulher, seu apagamento certamente pode ser reconhecido como um impedimento desastroso à libertação das mulheres.

Sexualidade lésbica

A controvérsia a respeito de como a mulheridade é definida se manifesta mais intensamente em torno da sexualidade lésbica. Uma consequência infeliz da política queer é a problematização da homossexualidade. Mulheres lésbicas e, em menor escala, homens gays (porque são os corpos e as práticas sexuais de mulheres que são ferozmente policiadas num patriarcado) rotineiramente enfrentam alegações de transfobia por parte do discurso queer. Uma lésbica é uma mulher que exclusivamente vivencia atração homossexual. É a presença de características sexuais primárias e secundárias que criam ao menos o potencial para o desejo lésbico — a identidade de gênero é de pouca relevância para os parâmetros da atração homossexual. Como é governada com base no sexo biológico ao invés da identificação pessoal com um gênero, a sexualidade de mulheres lésbicas está sob escrutínio no discurso queer.

Essas palavras não são escritas com distanciamento. Não se trata de uma preocupação abstrata, viva apenas em teoria. A realidade é: vivemos num período de tempo em que se é particularmente desconfortável ser lésbica. Nós encaramos pressões de todos os lados para expandir as fronteiras de nossa sexualidade até que o sexo que envolva um pênis seja considerado uma opção viável. E o sexo que envolve um pênis simplesmente não é lésbico, pertença ele a um homem ou a uma mulher trans.

Eu estou profundamente preocupada com o linchamento e a coerção de mulheres lésbicas que têm acontecido no discurso queer. A desvalorização queer da sexualidade lésbica — da insistência de que lésbicas são um anacronismo velho e chato à patologização da sexualidade lésbica que ocorre quando somos rotuladas de “bucetistas” — é idêntica à lesbofobia praticada por conservadores. Ambas a esquerda queer e a direita religiosa extrapolam todos os limites para sugerir que há algo de errado com as lésbicas porque nós desejamos outras mulheres.

Mulheres lésbicas são atraídas pela forma feminina. Adicionalmente a compartilhar uma profunda conexão mental e emocional com outras mulheres, lésbicas apreciam a forma feminina — a beleza dos corpos de mulheres é o que incita nosso desejo. Se o sexo biológico deixar de ser reconhecido como determinante da mulheridade (ou, de fato, da hombridade), não se poderá mais dizer que existe um corpo de mulher. Se o conjunto distinto de características sexuais que se combinam para formar a mulheridade for indefinível, a atração inspirada por essas características — o desejo lésbico — é invisibilizado. Algo vital se perde quando mulheres são privadas da linguagem para articular como e por que amamos outras mulheres (Rich, 1980).

Lésbicas estão sendo coagidas de volta ao armário pela comunidade LGBT+. Nós somos fortemente encorajadas a abandonar o rótulo de “lésbica”, que, dizem, é comicamente arcaico, e a adotar o termo guarda-chuva “queer”, em nome da inclusão. Mas nenhuma sexualidade é universalmente inclusiva — por definição, sexualidade é um conjunto específico de fatores que, quando preenchido, oferece o potencial para atração. É irracional — e, francamente, delirante — imaginar que a sexualidade pode ser despida de qualquer critério significativo.

Uma mulher “queer” é menos desafiadora ao status quo do que uma lésbica, é mais fácil para homens lidarem, porque queer é um termo vago que deliberadamente repele definições sólidas — uma mulher queer pode muito bem estar sexualmente disponível para homens, sua sexualidade de forma alguma sendo um impedimento para oferecer a homens o trabalho reprodutivo, sexual ou emocional do qual o patriarcado é dependente.

A estigmatização queer de lésbicas é uma manobra tática desenhada para minar o reconhecimento da categoria do sexo feminino. Se não há necessidade de fazer referência à atração homossexual entre mulheres, a relevância e a permanência das categorias sexuais não tem utilidade. Que o ato de encorajar mulheres lésbicas a considerar a possibilidade de sexo que envolva um pênis tenha se tornado aceitável, uma linha legítima de discurso no seio da esquerda progressista, é um enigma terrível. Sua lógica é suficientemente direta ao ponto; e, no entanto, as verdades subjacentes sobre o que está acontecendo dentro das políticas LGBT+ não são tão fáceis de se encarar. Ainda assim, eu não consigo não pensar e repensar tudo isso em minha cabeça, trabalhando essas ideias como um cubo mágico até que todas elas se encaixem. A ideologia queer visa a reforçar a heterossexualidade compulsória nas vidas das mulheres lésbicas tão decididamente quanto os padrões definidos pelo patriarcado. Ao negar a possibilidade de lésbicas amarem exclusivamente outras mulheres, ao deslegitimar lésbicas viverem vidas ginocêntricas [5], a política queer debilita nossa libertação.

Conclusão

Há um fio persistente de misoginia correndo por meio das políticas queer, desde sua concepção até sua encarnação presente. O queer era o produto do ativismo de homens gays; preocupado primariamente com liberdade sexual e transgressão; como tal, o queer não representava os interesses de mulheres lésbicas quando veio à tona nos anos 80 e não representa os interesses de mulheres lésbicas agora (Jeffreys, 2003). O queer é menos sobre coletivamente desafiar desigualdades estruturais desde suas raízes e mais sobre uma subversão individualizada de normas sociais.

Apesar de ele ter prometido uma alternativa excitante e radical — uma que muitas mulheres abraçaram, junto a homens —, as políticas queer são mal equipadas para desmantelar opressões sistemáticas. O apagamento da mulheridade promovido pelo queer, o desrespeito do queer pelos limites traçados por mulheres se elas forem lésbicas e o obscurecimento da hierarquia de gênero promovido pelo queer dá um novo sopro de vida ao patriarcado, quando muito.

Eu sonho com um mundo sem gênero. Eu sonho com um mundo onde homens podem usar vestidos e serem gentis sem serem tratados como uma negação da natureza masculina. Mas mais do que isso, eu sonho com um mundo em que não são feitas suposições sobre o que se significa ser uma mulher para além do domínio dos fatos biológicos. E se isso me torna herética da igreja do gênero, então que seja — sou ateia.

Papéis de gênero e a hierarquia que eles mantêm são incompatíveis com a libertação das mulheres e meninas da opressão patriarcal. É porque eu amo mulheres e porque eu sou uma mulher que eu não posso me dar ao luxo de fingir do contrário. Adotar a ideia de gênero enquanto identidade é o equivalente a decorar o interior de uma cela: é uma perspectiva superficial que não nos oferece nenhuma liberdade.


[1] No original, a autora usa a expressão misogynoir [misogyny + noir], relativamente corrente em textos sobre a misoginia direcionada especificamente a mulheres negras.

[2] “Generizado”, tradução livre de gendered — aquilo que é imbuído de gênero; aquilo ao qual é atribuído gênero.

[3] Mantive a expressão usada pela autora no original (transwomen).

[4] Mulheres nascidas mulheres, do original women born as such.

[5] Ginocêntricas = centradas em mulheres.


Tradução do texto Womanhood: on sex, gender roles, and self-identification, publicado originalmente em 9/02/2018, de Claire Heuchan (no blog Sister Outrider). Você pode ler o original aqui. Os números ao longo do texto são de comentários ou esclarecimentos à tradução.


Bibliografia

Simone de Beauvoir. (1949). The Second Sex. London: Vintage

Judith Butler. (1990). Gender Trouble. London: Routledge

Andrea Dworkin. (1987). Intercourse. New York: Free Press

Marilyn French. (1986). Beyond Power: On Women, Men, and Morals. California: Ballantine Books

Sheila Jeffreys. (2003). Unpacking Queer Politics. Cambridge: Polity Press

Jack Halberstam. (1998). Female Masculinity. Carolina: Duke University Press

bell hooks. (1984). Feminist Theory: From Margin to Center. London: Pluto Press

Kate Millett. (1969). Sexual Politics. Columbia: Columbia University Press

Chimamanda Ngozi Adichie. (2014). We Should All be Feminists. London: Fourth Estate

Adrienne Rich. (1979). On Lies, Secrets, and Silence: Selected Prose 1966–1978

Adrienne Rich. (1980). Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence

Ntozake Shange. (1982). Sassafrass, Cypress & Indigo. New York: Picador

Karen Tongson. (2005). Lesbian Aesthetics, Aestheticizing Lesbianism. IN Nineteenth Century Literature

Mary Wollstonecraft. (1792). A Vindication of the Rights of Woman: With Strictures on Political and Moral Subjects

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