feminismo e psicanalise
feminismo e psicanalise

Acerca da Psicanálise:

A Psicanálise é um instrumento de análise do psiquismo humano. Nela, podemos ver claramente a divisão dos papéis de gênero como parte fundamental, principalmente em sua teoria sobre a construção subjetiva dos seres humanos, o que não poderia ser diferente, visto que essa abordagem evidencia e foca bastante em questões referentes à sexualidade. Poderia ser perfeito para nós mulheres, poderia ser a porta para que finalmente se abrisse uma fissura no androcentrismo científico, entretanto, mesmo com o fato de que a maior parte dos casos que construíram a Psicanálise foram protagonizadas por pacientes do sexo feminino, as famosíssimas histéricas, seu fundador era um homem, e sim, isso influenciou bastante. Freud colocou o Falo na frente dos bois em suas concepções.

É justamente por esse motivo que existem críticas feministas afirmando a ineficácia de suas obras para contemplar mulheres, e não tiro sua razão. Ainda assim, bem como Shulamith Firestone, não creio que devamos jogar no lixo todo o conhecimento construído nessa área. Firestone dedica um dos capítulos de sua obra, A Dialética do Sexo, à defesa da ideia de que uma leitura feminista da Psicanálise pode nos ser de muita valia. “O Freudismo é um Feminismo às avessas”, diz ela. É interessante considerar o que feministas, com toda criticidade e adaptação, poderiam fazer estando em posse cognitiva de teorias que, de tanto contribuírem para a compreensão do psiquismo humano, reverberam até hoje, tomando forma até no senso comum.

Todavia, infelizmente, o oportunismo masculino é grande contribuinte para tirar a Psicanálise das mãos das mulheres, visto que, aos olhos patriarcais, o acesso das mesmas a ferramentas que homens perpetuam para manutenção de sua dominância é extremamente perigoso. É como entregar para a vítima a arma com a qual se pretendia matá-la. Para as mulheres dentro da Psicanálise os movimentos são limitados, e isso acontece mesmo em sua face contemporânea. Psicanalistas “progressistas” consomem as obras de Judith Butler e derivadas por simples adaptação ao circo das ilusões neoliberal. Com a boca cheia de migalhas, não há reclamação que possa ser ouvida.

A partir de uma interpretação desonesta da crítica feminista a Freud, surgiu a crença ingênua (ou preguiçosa e oportunista) de que as compreensões trazidas pela Psicanálise clássica sobre a divisão sexual (entre um tipo de psiquismo construído para e no macho e outro para e na fêmea) são ultrapassadas e prejudiciais, quando, em verdade, ao contrário do que estas pessoas defendem, jamais superamos estas divisões injustas, apenas entramos em um movimento incessante de encobri-las com novas máscaras todas as vezes que as mesmas são descobertas.

O que ocorre é que, para que se entenda amplamente a que serve a Psicanálise, do que ela prioritariamente se trata, é necessário que se possua certo conhecimento histórico, que se analise a fase dentro da qual a psicanálise emergiu para a sociedade ocidental enquanto necessidade, no caso, devido à angústia da passagem para a modernidade.

Segundo Maria Rita Kehl, a modernidade se inicia com a queda do Pai, que poderia ser representado não apenas como o patriarca familiar, mas também na figura de Deus. A partir dessa decadência surge o sujeito da falta, que agora, sendo apresentado a cada vez mais formas de elaboração além daquela imposta pelo pai, “escolhida por Deus”, inconscientemente procura suprir essa falta, que é herança do gradual corte da ilusão de onipotência infantil. O sujeito proposto pela psicanálise é o homem branco, ocidental, moderno: essa ciência surge enquanto denunciadora deste, ironicamente e sem ter intenção.

Assim, é importante considerar a Psicanálise enquanto um marco histórico, um acontecimento, algo bem maior do que um conjunto de ideias, concepções e conhecimentos de um homem, é maior que o próprio Freud. Isso porque a passagem para o século XX implorava por esse pensamento, as belas famílias necessitavam de um algo que as expusesse em suas vergonhas. O surgimento da Psicanálise submeteu ao divã, para além de indivíduos em suas especificidades, a sociedade burguesa tradicional europeia como um todo. Com sua insistência nas questões sexuais, deixou discretamente à mostra os problemas patriarcais. Um prato cheio escondido no fundo do freezer.

Infelizmente, talvez pela óbvia barreira que separava Freud da elaboração de compreensões mais precisas em relação às mulheres, a potencialidade revolucionária da psicanálise vem sendo subestimada. A cegueira fálica de Freud e seus contemporâneos abriu fissuras na teoria, as quais foram preenchidas com visões equivocadamente essencialistas e patriarcais.

Feminismo:

Enquanto isso, do outro lado da moeda, alguns anos depois da Psicanálise explodir, teóricas feministas pertencentes à segunda onda do movimento, em meados do século XX, já pautavam a necessidade de desnaturalização do conceito de gênero.

Inspiradas prioritariamente pelo pensamento de Simone de Beauvoir – autora da frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”-, escritoras, acadêmicas e ativistas intituladas feministas radicais levaram para o âmbito intelectual a compreensão de um movimento de caráter abolicionista, que tinha e tem como meta a extinção do “gênero”, considerando o caráter essencialista e retrógrado dessa divisão de papéis.

Para compreender as reflexões que ponho aqui, é importante saber o que é gênero na visão feminista radical. Primeiramente entendamos que, segundo Kate Millet, as mulheres fazem parte de uma “casta sexual”, um grupo social delimitado pelo sexo ao qual é imposto um destino. Este destino de exploração e subjugação é cumprido pelo fato de que acreditamos nele, ou melhor, acreditamos em uma predisposição inata que leve mulheres a ele. Assim, uma hierarquia sexual é estabelecida, homens e mulheres creem que esta faz parte de sua natureza pelo fato de que estereótipos acerca do que é ser um homem e do que é ser uma mulher fazem parte da cultura.

Para o feminismo radical, o gênero renega a natureza e mantém o patriarcado a partir do momento em que é internalizado pelos sujeitos, dando aos homens uma permissividade ao comportamento violento, restando às mulheres a inércia. Desse modo, o gênero pode ser compreendido como ferramenta de manutenção do patriarcado. Ele é a raiz da opressão sexual. O gênero decide quem será o castrado.

Feminismo e Psicanálise:

Atualmente, o feminismo vem sendo substituído por um movimento de pautas superficiais, buscando a inclusão em um sistema falido, e não a destruição deste. Mulheres que procuram reviver o que foi dito e escrito pelas feministas da segunda onda sofrem represálias. Falar do gênero como algo em que se sustenta a opressão das mulheres parece ser algo muito profano de se dizer, acredito que pensar nisso acaba por machucar muitas pessoas justamente porque abordar isso é pimenta na ferida aberta que são os clássicos traumas edipianos.

Nesse sentido, há algo que aproxima Feminismo Radical e Psicanálise: é esse movimento de aprofundar-se em questões humanas aparentemente sem solução em busca de sua base. O feminismo faz isso a nível social, mas também psíquico, compreendendo que “o pessoal é político” e considerando o fato de que as normas impostas para a divisão de papéis sexuais está enraizada em nossa mente. Tanto uma quanto a outra se caracterizam enquanto instrumento de análise profunda da construção do sujeito a partir de sua realidade sexual.

O feminismo defende a ideia de que a feminilidade e a masculinidade são construídas ao longo da vida e, principalmente, a partir de marcos que acontecem na infância e que são internalizados a nível inconsciente, a um ponto que leva a mulher a reproduzir sua própria opressão acreditando que algo lhe falta, e o homem a alimentar a crença na própria onipotência e protegê-la a qualquer custo.

Enquanto isso, a Psicanálise, em sua teoria do desenvolvimento, acaba por delimitar quais seriam estes marcos sem ao menos se referir a eles como uma problemática política, necessariamente. Freud, e mais tarde outros autores da linha, perceberam o sexo e a sexualidade como partes importantes da construção subjetiva, mas sem considerar que são estas divisões que se mantém o sistema que garante a supremacia masculina. 

Fazer uma leitura da Psicanálise que leve em consideração gênero enquanto divisão instituída de estereótipos sexuais, os quais são internalizados desde o inicio da vida do sujeito, é um passo importante para que se possa pensar sobre alguns conceitos nomeados por Freud de forma a desnaturaliza-los, levando em conta questões histórico-culturais de modo a deixar para trás o essencialismo e a superficialidade com os quais, muitas vezes, são tratadas essas teorias. Dessa forma, torna-se mais fácil o movimento de se desprender de interpretações acerca da Psicanálise que sejam muito ortodoxas e incompetentes, ou mesmo aquelas demasiadamente acusadoras.

Desconsiderar o que foi percebido por Freud enquanto produto dos atravessamentos culturais, políticos e sociais de sua época (que não está assim tão longe ou diferente da nossa) é imbecil. Quem o faz apenas demonstra a limitação da própria capacidade de construir uma dialética entre os conhecimentos que em si cultiva, ou pior: um conformismo demasiado com saber de uma coisa só na vida.

A Ilusão Fálica

Tendo em mente a importância de abandonar a visão essencialista do gênero para poder compreender como este se relaciona com o inconsciente, é interessante considerar o conceito de Falo enquanto herança de uma masculinidade construída, que foi internalizada pelo homem em si e é perpetuada pela a sociedade como um todo.

Trazendo uma breve descrição da fase edipiana, pode-se afirmar que a criança, até este momento da vida, alimenta uma fantasia de onipotência a partir de uma relação simbiótica vivenciada entre ela própria e a pessoa que, no triangulo edipiano, nomeia-se Mãe, porém pode ser representada por qualquer um que exerça aquilo que é construído enquanto “função materna”. Tal relação é rompida a partir do momento em que a criança percebe que a mãe deseja não só a ela, mas também a outras pessoas e coisas. O desvio do olhar desta figura para outros campos faz com que a criança também os procurem, lançando olhar para o mundo e descobrindo que estava equivocada acerca do poder que acreditava ter.

Esse corte sofrido é causado por aquele ou aquilo que é nomeado enquanto o Terceiro, que chega para apresentar a realidade à criança, esse é o processo de consolidação da estrutura psíquica (relação entre Id, Ego e Superego). Para a consolidação de um Superego mais firme, a criança internaliza de sua maneira a moral que vê imposta, neste processo ela toma para si, horrorizada, também as normas patriarcais.

É importante ressaltar que não são apenas os que optam pela rigidez de considerar esse Outro com o qual a criança estabelece a simbiose enquanto, necessariamente, a mãe, que tem uma visão essencialista, visto que aqueles que preferem uma interpretação lacaniana que atualiza esse local enquanto “função materna”, correm o risco de reproduzir uma naturalização estereotipada da maternidade. Aquele que exerce a função do Outro não é necessariamente mãe, não precisa ser nomeado dessa forma. O exercício de desromantização que se é possível fazer da psicanálise e, a partir de então, através dela, deve perpassar também aquilo que é instituído socialmente, bem como as “funções”. A maternidade em si é natural, parte da função a ela atribuída é meramente cultural, o que não exclui, obviamente, o fato de que a maioria daqueles que exercem essa função são, de fato, as mães.

Retomando, agora, o complexo de édipo, e considerando também o complexo de Eléctra, pode-se eleger esta como a primeira fase que expõe o sujeito à diferenciação de gênero, pois, como dito anteriormente, o mesmo é apresentado à realidade cultural à qual pertence, e esta, inevitavelmente, inclui esse tipo de representação. Essa é uma fase muito conflituosa do desenvolvimento, na qual Melanie Klein afirma haver um medo da castração tanto por parte da menina quanto do menino, porém, a diferenciação se dá quando a realidade à qual a menina é exposta é responsável por sua castração simbólica, que acontece de fato, já no menino esse processo é incompleto.

Em outras palavras, quando a fantasia de onipotência é quebrada, a criança percebe na figura feminina, geralmente aquela que exerce a “função materna”, uma criatura sem poder. É ai que as coisas se dividem: a menina se identifica imediatamente com sua mãe e tende a ficar ressentida, compreendendo que não tem poder e se sentindo castrada, seu poder foi tomado. Enquanto isso, o menino, também frustrado com a figura feminina, se identifica com a figura masculina, mas crê que aquele ou aqueles homens tem podem tomar-lhe o poder a qualquer momento. Podem castrá-lo, pois são maiores. Assim, enquanto a menina abre mão de sua fantasia de onipotência, o menino a reprime e protege, levando para a vida adulta tanto essa ilusão quanto o medo de perdê-la. É essa fantasia de poder reprimida que chamamos de Falo.
O Falo, ou melhor, a ilusão fálica, é consequência do fato de que a realidade social, para o menino, permite que o mesmo internalize parcialmente uma crença de onipotência propriamente infantil.

Tal movimento se relaciona com o sistema patriarcal como uma retroalimentação, onde o homem acredita ser possuidor de um algo a mais, em uma sociedade onde exerce o poder de exploração à casta sexual feminina. Esta última acaba por acatar o delírio cultural da supremacia masculina por ter sua construção pautada na feminilidade, na crença de que, nela (na mulher), falta algo. 

Sendo assim, é possível entender a estrutura que embasa o sujeito do sexo masculino, este considerado como estando dentro da normalidade, é mais voltada a um distanciamento da materialidade. O homem normal do ocidente, portanto, só não é considerado psicótico porque sua estruturação psíquica se faz compatível à realidade cultural, porque patologia se mede pelo nível de distanciamento em relação àquilo que é instituído socialmente e não àquilo que se prova cientificamente, que, nesse caso, seria a inexistência de um determinante biológico que diferencie um cérebro masculino de um cérebro feminino. A unica diferenciação existente se dá pelo molde cultural que, com o tempo, faz com que homens e mulheres desenvolvam de forma diferente partes específicas do cérebro.

Entretanto, a normalidade psíquica do homem que exerce o que se tem por masculinidade não exclui desta ultima o caráter delirante, o Falo é um delírio coletivo, a existência de uma crença subjetiva que o perpetua é justamente o que denuncia a hierarquia sexual instituída culturalmente, sendo perpetuada então uma tolerância maior a esse delírio masculino, o delírio fálico. O mesmo se pode falar sobre o que Freud conceitua enquanto a “inveja do pênis” nas mulheres.

Somos nós as invejosas?

Outro constructo defendido por Freud é a existência de algo que ele chamou de “Inveja do Pênis” nas mulheres, pois via em mulheres consideradas Histéricas e também em mulheres lésbicas uma posição de revolta diante do Falo, ou melhor, do poder masculino. Freud não percebeu, entretanto, que esta é mais uma prova de que toda crença em uma essência feminina que se faz enquanto inferior e incompleta em relação à masculina é brotada da irracionalidade bárbara que mantém o status quo, uma vez que, se por acaso a mulher, sendo submissa ao homem, estivesse apenas obedecendo à lei da natureza, jamais seria capaz, em sua inferioridade, de elaborar tal senso de injustiça. Em outras palavras, se as mulheres fossem naturalmente submissas não haveria porquê cultivarem qualquer inveja relacionada à suposta onipotência de seu algoz.

Em contrapartida, enquanto o sujeito do sexo feminino que cobiça as atribuições do gênero oposto, segundo a psicanalista alemã Karen Horney, que desenvolveu uma crítica acerca do Freudismo partir sempre da figura masculina para compreender o psiquismo, o menino desenvolve naturalmente, uma inveja do útero. Ou seja, o homem, desde que a descobre, inveja a capacidade reprodutiva feminina, sentimento direcionado também aos seios, pela lactação e sustentação da vida, bem como à vagina. É justamente por esse motivo que, de acordo com a autora, o grupo social masculino busca atribuir às mulheres a inferioridade que sentem quando comparam-se a elas. Assim, o homem atribui à mulher características passivas que enxerga nele próprio, como é o caso da incompletude e dependência.

A inveja do pênis pode ser considerada, desse modo, uma denominação infeliz a um movimento de reivindicação feminina. O que predomina, sendo denominado enquanto inveja, nada mais pode ser que o sentimento de inadequação a um lugar rebaixado ao qual a mulher foi colocada para que o homem pudesse sustentar um delírio social que o mantém em vantagem.

A menina, portanto, não sente falta de um pênis, e sim de um Falo, de um poder que percebe ser concedido ao menino, ao homem, porém jamais à mãe ou àquelas que a ela se assemelham, e, consequentemente, jamais a ela própria. No entanto, não é de se esperar, visto a realidade que se mostra à sua frente, que esta poderia concluir que não é ela que precisa se preencher desse falo, e sim o menino ou o homem observado quem não deveria tê-lo.

O mesmo ocorre ao considerar o outro lado, o menino sofre uma ansiedade de castração ao perceber as mulheres enquanto desprovidas de poder, a significação da mulher incompleta já se apresenta ao mesmo que, consequentemente, atribui o motivo para isso à diferenciação biológica, a fêmea humana então é vista enquanto castrada, e o menino tenta a todo custo se proteger dessa castração, e é justamente isso que faz com que este apenas reprima parte de sua ilusão de onipotência infantil, não permitindo a realização do corte edipiano. A partir desses acontecimentos, considerando o complexo de édipo enquanto um dos marcos mais importantes para a estruturação psíquica, tanto o menino quanto a menina edificam, a nível superegóico, uma diferenciação psicossexual que já vinha sendo construída desde sempre.

Em outras palavras, essa fase do desenvolvimento se faz primordial para que os estereótipos do feminino e do masculino passem a fazer parte do ideal do eu (superego) do sujeito que, inconscientemente ou não, busca reproduzir um comportamento idealizado a partir de referências moralmente internalizadas.

Puberdade, o golpe final

Outra fase a ser considerada como um marco da diferenciação de gênero no desenvolvimento é a puberdade, a fase genital. É quando se ratifica a suposta naturalidade das diferenciações de gênero, devido tanto às questões psíquicas quanto às mudanças fisiológicas próprias da adolescência. Mesmo que antes a criança percebesse a injustiça dessa divisão de papéis, se desconfiava desse destino que lhe foi dado, agora recebe um “castigo do céu”: o desenvolvimento de um corpo adulto funciona para esta como uma prova concreta de sua, uma validação do gênero enquanto inato.

A puberdade reforça, para a menina, sua identificação com as demais mulheres. Ela acredita que é devido ao seu corpo que está sendo castigada daquela forma, o que pode levá-la a reproduzir uma ojeriza contra ele, mas também a considerar a guerra perdida e tentar se adequar aos papéis estabelecidos enquanto femininos, podendo ser simultâneos ambos processos. Enquanto isso, tanto as mudanças corporais masculinas, quanto o incentivo que recebe a se exercer em posição de violência e dominância, também reafirmam para o menino o papel que lhe foi atribuído, o que pode culminar, a depender bastante da forma como se consolidaram as outras fases do desenvolvimento psíquico, em um comportamento destrutivo diante de qualquer minima frustração relacionada ao seu Falo reprimido (a famosa masculinidade frágil), o que o leva a se crer um impostor semi-castrado e inferior aos outros homens.

O Contemporâneo

Atualmente, ao contrário do que acontecia em uma época de valores mais conservadores na qual se fundou a Psicanálise, se identificam diversas formas de performance de feminilidade, algo que não está correlacionado à libertação das mulheres e sim ao consumismo, aos “modos de ser mulher” enquanto mercadoria. Até mesmo a psicanálise contemporânea, se não perpassada por considerações a nível social, está fadada à perpetuação do status quo, fincando todo o seu discurso em um ideal de liberdade e amplitude ilusório que é próprio do liberalismo. Visto isso, e levando em conta a responsabilidade ética que o profissional em psicologia necessita assumir diante do cliente, é de extrema relevância que se produza um raciocínio clínico que abarque não só as abordagens teóricas, mas também estudos a nível sociocultural que possam acolher melhor o sujeito em seu sofrimento.

Como psicóloga, posso dizer que, para que um terapeuta possa compreender as demandas trazidas por mulheres, é indispensável que o mesmo inclua às suas considerações a situação do grupo social ao qual pertencem, independentemente se este se utiliza da Psicanálise ou não. É importante a tentativa de despir-se, à medida do possível, dos essencialismos próprios do senso comum, que se passe a compreender gênero não como autoexpressão inata, e sim enquanto ferramenta de opressão que mantém mulheres na base de uma hierarquia. Ser mulher não diz de um sagrado extramundano como sugerem os platonistas, os estereótipos atribuídos ao gênero “mulher” fazem parte de uma realidade material que afeta diretamente todos os aspectos da vida dos seres humanos do sexo feminino.

Como mulher, acredito ainda que a tentativa de construção de um conhecimento ginocentrico, ou seja, focado exclusivamente em mulheres, é indispensável para a nossa emancipação. Uma ciência que tem como referência de ser humano o homem branco, ocidental e europeu não pode dar conta das mulheres. É necessário que resgatemos nossa história, conheçamos nossa anatomia, estudemos nossos processos químicos e nos voltemos para as nossas questões psíquicas.


Nota da autora

Este é um texto foi construído a partir de um conjunto de anotações que escrevi em meados de 2015 ou 2016. Desde que minha ideia de usá-lo como base para a escrita do meu TCC ou de qualquer trabalho acadêmico foi rejeitada, eu simplesmente o abandonei. Não minto, ainda tive vontade de olhar para ele, mandei para algumas pessoas lerem pedindo dicas, mesmo sem nem me recordar do que estava nele escrito.

Decidi agora, no fim de 2019, reformá-lo para publicá-lo fora dos moldes acadêmicos, com uma linguagem mais acessível e uma escrita com bem menos rodeios. A andar pisando em ovos, prefiro tê-los arremessados contra mim por uma pequena platéia de idiotas, mas a academia não me permitiu nem mesmo subir ao palco.

Esse texto não é uma chamada para a briga. Se trata apenas de um conjunto de reflexões de uma eu-pirralha que me ajudaram a chegar às ideias que tenho hoje.

Graças a essa ousadia de contestar, comecei a pensar na produção de uma ciência e uma prática clínica ginocentradas. Ainda assim, fico triste quando me dou conta das folhas que deixei secar nesse cultivo por puro medo de represálias, estas que apareceriam de uma forma ou de outra. Penso que se eu tivesse me permitido como faço hoje, esse texto seria muito mais vivo do que é.

Muito mudou, nem sei se gastaria meu tempo escrevendo sobre isso hoje em dia. Por hora só desejo ter conseguido me fazer compreensível para quem me lê — e não necessariamente convincente. Todavia, o que não deixo de defender é que o grande erro de Freud foi fazer da clínica e da caneta objetos de projeção de sua ilusão fálica.

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