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O que não dizem às meninas sobre beber antes dos 18

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TW: SEXUAL ASSAULT/ RAPE


Não irei começar esse texto pedindo para vocês não beberem antes de atingirem maioridade ou alertando os males que isso pode causar a saúde, isso vocês já sabem (mas aqui está um link com uma explicação, caso queiram http://www.semexcesso.com.br/entenda-porque-nao-ingerir-bebidas-alcoolicas-antes-dos-18-anos/). Mesmo assim, a maioria dos adolescentes começam a beber muito antes dos dezoito anos. Nessa idade não nos importamos muito com consequências, queremos viver no momento e achamos os nossos pais chatos por nos proibirem de “nos divertir”, mas aqui está o que ninguém te diz:

Quando você sai com meninos/quando os conhece em festas, e eles se oferecem para pagar tudo pra você ou quando eles te buscam e te levam em casa, eles não o fazem por serem gentis e se importarem com você, o fazem porque beber te torna vulnerável. A dura verdade é que eles estão te comprando de uma forma mais sutil, eles te vêem como um pedaço de carne.

Quando você bebe, você não tem o necessário discernimento para conceder a pratica sexual, você aceita fazer coisas que provavelmente nunca aceitaria sóbria e eles acham isso normal. No outro dia, eles contam pros amigos, se achando o máximo que “essa se faz de santinha, mas depois de uns goles, né…”

Eles não se importam se você acordar se sentindo horrível e com vergonha de si mesma. Eles te ensinam que isso é normal, que é “coisa de bêbado” e seguem normalmente com suas vidas, enquanto você tem que carregar essa dor no peito (isso quando você consegue se lembrar de algo daquela noite). Eles te fazem acreditar que você quis transar com eles, que sóbria, você só estava com um pouco de vergonha. O que eles não dizem, é que se aproveitaram de você e que isso é estupro (§1o do artigo 217).

É óbvio que a culpa não é sua por beber, você só queria se divertir. Também é óbvio que estupros acontecem o tempo todo, não só com mulheres bêbadas. Então por que estou aqui tentando pedir que vocês não bebam enquanto novas?

Beber nunca é totalmente seguro, em nenhuma idade, mas quando adultos (eu espero) tendemos a evitar situações que parecem perigosas, estamos mais atentas e temos mais experiência. Infelizmente, os pais de vocês estão certos, quando somos jovens, tendemos a fazer coisas de caráter duvidoso, simplesmente porque, na hora, tudo parece muito legal e divertido e/ou porque você não quer ser a estraga prazeres que vai “manjar o rolê”.

Eu comecei a beber aos treze ou quatorze anos, no início o fiz por pressão das pessoas com quem eu andava, mas depois, confesso que apreciava os momentos em que podia beber.

Nunca fui uma garota bonita, a desejada por todos, normalmente ia às festas para acompanhar minhas amigas, essas sim, faziam sucesso com os homens (sim, homens, maiores de idades), mas eu não me importava, e eu nunca perdia uma oportunidade de sair e encher a cara. Isso me fazia sentir viva. As festas em que eu não bebia pareciam sem graça. Se eu não bebia, não conseguia socializar direito, não dançava e queria ir embora cedo, mas quando eu podia beber, me tornava a pessoa mais divertida da festa (ou era o que eu pensava).

Sempre aceitei fazer tudo, desde dançar provocativamente a subir em cima da mesa. Nunca vi nada demais nesses atos, eu só estava me divertindo, eu estava bêbada. Acontece que, nem todo mundo pensava desse jeito. Os caras não perdiam a oportunidade de se aproveitar de mim sem eu perceber. Nesses quatro ou cinco anos, fui abusada de todas as formas. Desde passarem a mão na minha bunda ao estupro.

Aos dezessete anos, eu fui estuprada duas vezes, em duas ocasiões diferentes, por duas pessoas diferentes e com um intervalo de quase três meses. A primeira vez, num carnaval, o estuprador era um “amigo”, o que me levou a duvidar não só o fato de eu ter ou não consentido, mas a minha sexualidade. A segunda vez, por um desconhecido que não lembro o rosto.

Eu me senti culpada por estar bêbada, eu não consegui ver aquilo como estupro porque eu não tinha lutado ou dito não, ninguém tinha visto, então como eu podia provar que tinha realmente acontecido? Foram preciso meses de terapia e pessoas (eu contei o ocorrido para três meninas no curious cat em anônimo) me afirmarem que tinha sido estupro para eu confiar em mim mesma e não me sentir culpada.

Então, quando eu peço para vocês, meninas, não beberem quando muito jovens, não é por ser puritana, por não querer que vocês se divirtam, é por saber que o mundo lá fora é cruel. Eu queria não precisar escrever esse texto, queria que vocês estivessem sempre seguras, queria poder mudar a realidade lá fora, mas tudo que posso fazer é um apelo para que vocês se protejam.

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