Diversos estudos comprovam que a prevalência de casos de ansiedade e depressão entre mulheres é superior e até bastante superior a dos homens. Assim como pesquisas indicam que a possibilidade de mulheres desenvolverem transtornos psiquiátricos é maior que em homens, embora não se tenham conseguido correlacionar causas biológicas para tal.

E talvez seja porque não haja mesmo explicação biológica, mas cultural. Já no útero, assim que nosso sexo é identificado, nossa socialização começa a ser preparada. E como é possível que essa pessoa, nascida fêmea na nossa sociedade, passe por toda a violência que consiste a socialização feminina e saia sã? Se ser socializada mulher tem a ver com ter seus mecanismos psíquicos básicos de defesa completamente quebrados para tornar-se uma versão fragilizada, submissa e subalternizada de si mesma?

Internalizar a misoginia patriarcal e odiar-se é a principal estratégia da socialização feminina. Nosso senso de valor é completamente destruído de forma a nunca nos sentimos boas o suficiente por nós mesmas. In natura. O homem é o padrão, a regra. Já a mulher natural é vista com aversão, é preterida, é punida, chamada de “homem”. Então ela precisa desenvolver uma profunda desconexão consigo mesma, com seu corpo, com sua aparência como ela é e “transformar-se” no que a sociedade chama de “mulher”: ser depilada, emagrecida, maquiada, montada e só assim reconhecida e validada. E toda nossa autoestima é construída em torno da aparência nos mantendo sempre num nível constante de tensão e vigilância sobre nosso corpo para garantir que ele está minimamente dentro dos padrões que nos são impostos. Como é possível ter um senso apropriado de amor-próprio, auto-estima e valor pessoal nesse cenário? Toda mulher já cresce imersa em auto-ódio, sem referencial interno, carente de aprovação, fragilizada e suscetível emocionalmente.

Crescemos com o espelho como principal censor e inimigo porque ele nunca mostra o que dizem que deveria mostrar. E com a disforia, transtornos alimentares, automutilação, fazendo ninho nos pesadelos adolescentes de rejeição social e falta de amor. E seguimos acreditando que não somos tão inteligentes, tão fortes, tão corajosas, tão rápidas, tão ágeis, tão ambiciosas, tão bem-sucedidas como gostaríamos ou como poderíamos, mesmo comparadas aos homens mais medíocres. E mesmo com todos os esforços e conquistas, estamos sempre duvidando de nós mesmas, nos sentindo uma fraude, achando que nunca é bom o bastante, que deveríamos ter feito mais e mais e mais. Sempre de mãos dadas com a Síndrome da Impostora. 

A maternidade compulsória que nos é enfiada goela abaixo é a porta para a internalização de uma autoresponsabilização sem limites onde a mulher acha que deve cuidar de todos a sua volta antes de cuidar de si mesma. E que nos faz querer orientar boa parte das nossas decisões para manter o bem estar alheio, nunca o próprio. Porque aprendemos que, não importa o que aconteça, se der errado, a culpa é nossa. Pois deveríamos estar sempre alerta, sempre a postos, cuidando, pensando em tudo. Zelando sempre pela casa, filhos, relacionamento, pais, sogros, amigos, parentes. A maternidade compulsória não é só sobre nos empurrar para a procriação mas sobre introjetar um senso de utilidade para o mundo que só vem através de responsabilizar-se pelo cuidado (e nunca ser cuidada). A mulher boa, a mulher útil, já transformada é aquela que serve a todos, que cuida, que mantém tudo sempre em funcionamento, custe o que custar. E como dar conta de tanta coisa sem mergulhar em um mar de ansiedade? Como uma mulher consegue lidar com tantas responsabilidades que são virtualmente impossíveis de se dar conta? Resposta: ela não lida. Ela adoece. Ela tem stress. Ela tem exaustão. Ela tem burnout.

Toda mulher tem uma história de horror para contar. Envolvendo um homem. Uma história de abuso, de assédio, de estupro, de agressão, de humilhação. Um momento que pode ter sido único ou recorrente. Que aconteceu já quando ela era muito jovem, às vezes jovem demais até para se lembrar. Que pode ter começado antes até, quando ela assistia sua mãe sendo acossada. Eventos que existem para funcionar como um lembrete que fica impresso para sempre no nosso subconsciente sobre quem manda na nossa sociedade. Sobre qual o lugar das mulheres e sinalizar que tipo de coisa pode acontecer com elas caso não sejam “boazinhas”. Ou mesmo se forem, não importa. A violência masculina é uma arma de guerra, de intimidação da classe dominada para que não se ouse rebelar. E mulheres são íntimas desse sentimento desde sempre: o medo. Constante, que nos faz organizar toda nossa vida em função de nos proteger e proteger nossas crianças. Medo que já é tão companheiro, tão naturalizado que mal nos damos conta de como nos controla. Sabemos quem são os agressores, somos convencidas de que eles são “monstros”, de que eles são os “outros”. Mas toda mulher sabe que qualquer homem é uma ameaça em potencial. Que basta ele querer que poderá agredi-la, violá-la, tomar seus filhos, tomar seu patrimônio. Que não existe justiça ou proteção para mulheres. E aprendemos que devemos amá-los. Mais, que devemos adorá-los, servi-los. Somos bombardeadas pela mensagem que é das mãos do nosso captor que vem nossa redenção, nossa salvação, e nossa felicidade. Toda mulher é criada em uma profunda Síndrome de Estocolmo, que faz com que defenda com unhas e dentes aqueles que a ferem. 

Como é possível falar em paz, serenidade, felicidade, para mulheres? Como lidar com a impossibilidade de confiar que aprendemos a ignorar? Como não mergulhar num mar de paranoia? De pânico? De stress pós-traumático? Como não deprimir com as impossibilidades que a vida nos apresenta? Como não desenvolver pânico e as mais diversas fobias quando vemos todo dia mulheres e crianças sendo estupradas, perseguidas, mortas, traficadas, tratadas como um objeto?

Como é possível ter saúde mental nascendo mulher nessa sociedade? Não é.

O patriarcado precisa de nós completamente rendidas psiquicamente. É por aí que a dominação acontece, que a subjugação começa, que a hierarquia se dá. É onde noção de que precisamos de um homem para nos “completar”, nos “salvar”, nos “aprovar”, se infiltra e se cristaliza. A nenhum homem interessa uma mulher que se ama como ela é, sem subterfúgios. Que entende seu valor de fêmea. Que não se submete a caprichos. Que é capaz de perceber todo o abuso de empatia a que é submetida. Uma mulher que não cede. Aniquilar nossa saúde mental é o meio mais eficaz de nos manter tão ocupadas tentando permanecer sãs, tentando não ficar “loucas”, que a tudo aceitamos, a tudo nos submetemos.

Mulher, você não é “louca”, não é “histérica”, não “está de mimimi”, não “está exagerando”. Tudo o que você e sente é bem real. Não é sua imaginação. E tampouco é culpa da “educação” que você recebeu dos seus pais. Estamos imersas em uma estrutura em que todas estamos presas na mesma armadilha e com uma ou outra variação recebemos todas o mesmo treinamento. O que somos hoje, nosso sofrimento psíquico, vem das sequelas de toda nossa socialização. Que pode ser combatida no varejo, com o que repassamos aos nossos filhos, mas só muda realmente se for transformada no atacado. Colocando abaixo a estrutura patriarcal. E há muito o que fazer, e que já fazemos. Permanecer, custe o que custar, tomar consciência do mal que nos fazem, reafirmar nosso valor, nosso real valor. Fazer valer que mulheres são pessoas. Nos organizar.

Vamos buscar ajuda, nos apoiar umas nas outras. Aprender a ser generosas conosco e umas com as outras. Podemos caminhar juntas e sempre adiante nesse vale da sombra da morte. Chegamos até aqui e não vão nos parar. Permaneçamos firmes.

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