Ser feminista e se relacionar com homens — O dilema.
Ser feminista e se relacionar com homens — O dilema.

Uma das questões que mais venho encontrando em diálogos com amigas e colegas feministas é o quão difícil seus relacionamentos se tornaram a partir do momento em que assumiram suas posições como feministas e em movimentos do mesmo. Vi um tweet alguns dias através que fazia uma comparação com o que seria uma frase dita por uma menina em 2010 sobre não odiar todos os homens, que nem todos eram ruins e afins, e uma frase em 2018 sobre excluir todos os homens e os enviar para a lua.

Ao ler esse tweet lembrei de um vídeo antigo do Canal das Bee que falava um pouco sobre isso, sobre como era difícil se relacionar com homens e assumir uma posição no feminismo. Ouço muitas amigas desacreditadas na ideia de se relacionarem com homens, pois não estão dispostas a abrirem mão de certas coisas para que o relacionamento possa dar certo. E você, leitor pode me dizer: “mas quem disse que ela precisa abrir mão de algo?”.

Certo, mas quem disse que não também?

A verdade é que em um relacionamento hétero, a ideia de que há uma submissão meio que pré-existente já está implícita desde o início. Além disso, a grande questão pela qual tenho ouvido tantas reclamações é porque as minas desconstruídas, ao assumirem a posição de um relacionamento com homens, ou abrem mão de algo pelo qual defendem ao longo do relacionamento, ou precisam estar preparadas para (o que o vídeo do Canal das Bee dá um nome ótimo), de passar o “rodo da desconstrução” diariamente. Seria nada mais nada menos do que todos os dias você ir, pegar na mão do seu companheiro e desconstruí-lo pouco a pouco, uma porcentagem de cada vez, sabendo que aquela água que você está puxando com o rodo pode muito bem voltar e você terá que começar novamente. Entende?

As minas ao assumirem uma posição como essa em seus relacionamentos precisam estar dispostas não somente a se relacionar com um outro ser, mas ajudá-lo a compreender coisas simples como “não é dessa forma que as coisas devem ser feitas”, “essa atitude é abusiva”, “ao falar dessa forma você está ofendendo uma mulher”, e eu poderia citar milhares de exemplos aqui. A grande questão é: que mulher está preparada para isso? Existe pessoas que estão dispostas? Claro que existem! Mas, a maioria gritante (ao menos aquelas com quem converso e estão ao meu redor), acabam desistindo de muitos relacionamentos por não estarem preparadas para enfrentar situações como essa, em que é preciso ensinar o “A-B-C para o cara”. Além disso, o fenômeno do esquerdomacho tem deixado minas machucadas e atropeladas psicologicamente, porque ao assumirem o relacionamento com pessoas que, a princípio, possuem os mesmo ideias, a quebra de expectativa destrói as esperanças em construir um relacionamento saudável e a ideia de que é possível sim, ter saúde mental e uma relação amorosa. Isso sem contar quando falamos propriamente de um relacionamento com um cara assumidamente machista (se é que algum homem efetivamente assume isso).

A grande verdade é que, independente do nível de desconstrução do cara, todos os homens são machistas, todos os homens estão em situações de maior poder, e cabe a eles perceber esse fato. Uma vez ouvi em algum lugar que “gostar de homem era ter síndrome de Estocolmo”, o que de fato é uma verdade. A questão é que a frase “nem todo homem” que era dita em 2010, baseando-se na ideia do tweet, se tornou impossível de ser dita.

Até que ponto estamos preparadas para nos relacionar com homens? Até que ponto o “rodo da desconstrução” está em nossas mãos pronto para ser usado em todo o relacionamento? Esse foi um ponto crucial em minha discussão interna enquanto tentava procurar uma resposta para esse dilema. E a verdade é que você não vai encontrar uma resposta aqui. Se você iniciou esse texto à procura de uma resposta, me desculpa! Vamos ter que sentar juntas em algum momento para poder conversar sobre e ver se chegamos a uma solução. Mas, se tem uma coisa que me fez refletir bastante é que apenas de chegar a essa debate, significa que eu estou mais um pouco consciente sobre a luta que nós mulheres temos diante desse mundo. Significa que cada vez menos eu e você vamos aceitar qualquer opção de relacionamento que apareça. Significa que eu e você estamos preparada mais ainda para se colocar em primeiro lugar.

Falo isso por experiência própria.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom o texto! É uma reflexão importante, a tempos eu vi esse vídeo que foi citado e pensei, que bom, não sou só eu que sinto essa angústia das relações com homens, e comecei a perceber várias amigas no mesmo dilema. Acredito, também, que esse trabalho não é nosso.
    Os homens precisam sentar em roda e se verem nesse mundo, se imaginarem. E nós mulheres imaginarmos, sonharmos, como queremos nos relacionar amorosamente com essas pessoas.

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