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Time de Feministas Radicais Resgata Trinta Feministas Afegãs

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mulher afegã sentada

O que as feministas do ocidente facilmente têm como garantido — feministas afegãs têm que morrer pra ter. Se elas não querem vestir uma burca, casar com seu primo de primeiro grau, apanhar para o resto de suas vidas; se elas querem se formar, não querem se casar, querem ajudar outras mulheres — elas estão em perigo, são alvejadas, torturadas e executadas. Suas próprias famílias têm que matá-las por honra. Agora elas podem ser forçadas a ser escravas sexuais pelo Talibã para criar uma nova geração de guerreiros.

Essas feministas afegãs são heróicas, destemidas e estão lutando por valores feministas universais. Algumas estão ainda escondidas no Afeganistão, outras estão no aeroporto em Kabul, algumas estão no ar. As que tiveram sorte estão nos campos temporários lotados no Meio Oeste, ou dispersas pela Europa. Elas confiam em nós porque não têm ninguém mais.

Você vai nos ajudar a salvá-las?

Escrevi sobre uma dessas mulheres nessas páginas ¹. No meio de todo o horror, “minha” mulher em Kabul, “Aisha”, deixou o país em menos de 24 horas antes das bombas suicidas. Escoltada por seu pai, um ex-militar afegão, acompanhada por dois irmãos mais novos e armada com instruções específicas de uma membra crucial de nosso time, Aisha fez seu percurso por multidões arfantes, crescentes e desesperadas. Passando por cada aterrorizante posto de controle do Talibã, aguentou espancamentos e xingamentos, e se apresentou ao portão que pertencia a um país europeu em particular. Eles então tiveram que esperar por pelo menos um dia fora do aeroporto. Tragicamente, em rota, sua mãe ficou doente e foi forçada a retornar.

“Aisha” passou então mais dois dias, sentada no chão dentro do aeroporto, seguidos de muitas horas em um avião militar no asfalto, esperando decolar para o Meio Oeste, e então para a Europa.

Precisamos urgentemente levantar fundos para essas mulheres, para comida, passagens aéreas, acesso a celular, troca de roupas, etc.

Como “Aisha” conseguiu sua documentação de última hora? Como ela sabia de qual portão se aproximar? Como ela e aproximadamente outras trinta feministas afegãs (e outras a contabilizar ainda) finalmente escaparam do inferno?

Estou muito empolgada em dar essa resposta. Meu time consiste em feministas radicais, ativistas e experts anti-tráfico/anti-escravidão, experts em assassinatos de honra, (eu mesma incluída), um time brilhante legal — européias e americanas, em sua maioria garotas brancas (que têm nos últimos tempos sido largamente demonizadas): algumas judias, algumas cristãs, uma sikh, talvez algumas atéias — talvez alguma adoradora da Deusa ou duas. Quem sabe? É minha honra e meu privilégio estar entre elas.

Estranhamente, previsivelmente, não tive ajuda — nem mesmo uma resposta — vinda de nenhuma das feministas muçulmanas que contactei. Talvez elas estejam em frontlines em algum outro lugar. Para crédito dela, uma política feminista americana me respondeu e imediatamente me mandou para outra, uma “embaixadora global” para mulheres e meninas que eu nunca tinha ouvido falar. Uma outra ex-diretora de uma organização para mulheres americanas-afegãs sediada nos Estados Unidos me ligou e enviou instruções muito complicadas e burocráticas para um visto especial que pode levar meses, senão anos para ser obtido, cujas diretrizes eu absolutamente fracassei em compreender. Ela certamente tinha boa intenção. Através de outras, consegui o nome de um contrabandista que estava pronto para vender vistos falsos — e passei a informação adiante.

Oh, mas meu bando de irmãs se juntou rapidamente e começou o trabalho que durou agora cinco semanas intensas contra o relógio e ainda continua.

Estive também em contato com uma organização de resgate humanitário sediada em Israel e Estados Unidos, e com dois americanos, ambos ex-fuzileiros navais, cujos companheiros estavam trabalhando duro para resgatar outros. Simplesmente saber da existência deles e conseguir acessar seus cérebros me fortaleceu. Eu quase consegui mandar Aisha para a Índia, mas a oportunidade se perdeu.

Tive que abordar sem parar trinta e seis pessoas, uma após outra, e cada um deles me encaminhou para alguém diferente. Alguns prometeram fundos. Outros prometeram alojamento. Alguns me deram conselhos militares inválidos. Ninguém se ofereceu pra fazer o trabalho pesado. Exceto meu time de guerreiras Amazonas feministas radicais — talvez mulheres saídas da ficção de Monique Wittig. Só nós somos todas tão reais.

E tem a minha heróica “Aisha”, uma feminista com graduação em ciência médica, uma pesquisadora e uma jornalista. Nossos leitores já sabem um pouco sobre ela a partir do meu último texto no 4W. Ela está agora segura em uma casa de dois quartos em um vilarejo em uma linda área rural de um país europeu, que é “calmo e pacífico”. Ela (e sua mãe, com quem mantenho contato), fazem preces para mim e meu time. Aisha escreve:

“Vocês são anjos. Por causa de você e seu time tão esforçado estou a salvo e tenho minha liverdade. Não tenho palavras para agradecer desde que há um mês dia e noite vocês estiveram tentando me tirar de lá e e dar essa liberdade de viver uma vida diferente”

A família de Aisha planeja permanecer na Europa; ela planeja continuar para os Estados Unidos, onde conseguiu uma bolsa de estudos pra ela e um estágio de pesquisa pago com o professor com quem trabalhou no Afeganistão. Ele tomou a frente, escreveu cartas, providenciou toda a papelada necessária, e também gentilmente convidou Aisha para morar com ele e sua família “por quanto tempo for necessário”. (Vou nomeá-lo em um texto futuro).

Aisha ganhou isso com seu próprio com trabalho tanto como intérprete fazendo entrevistas, como analista de dados e expert em seus próprios direitos em questões de saúde da mulher. A bondade dele o garantiu um imponente lugar no Paraíso. Quando perguntei a ela o que ela gostaria de dizer às outras mulheres afegãs, ela me disse:

“Nunca desista dos seus sonhos. Fiquem juntas e ajudem outras mulheres como vocês, trabalhem juntas como o time que me salvou fez. Quero ajudar outras mulheres como outras me ajudaram.”

Esse extraordinário trabalho em equipe começou há muitos anos atrás quando eu conheci Mandy Sanghera, uma ativista humanitária Sikh britânica e premiada filantropa, com quem trabalhei sobre assassinatos de honra, casamentos infantis, pederastia com portadores de deficiência e barriga de aluguel.

Mandy é bem conectada e tem muitos seguidores nas mídias sociais. Ela começou a conhecer mulheres afegãs pedindo socorro em uma sala de chat. Esses pedidos continuam até o momento presente. Mandy está em contato com pelo menos 146 dessas mulheres afegãs desesperadas. Ela transferiu algumas delas para mim — e o resto é história feminista.

Nesse ponto, preciso reconhecer o papel crucial que a internet tem tido em nossa habilidade de nos mantermos em contato umas com as outras. Mais sobre isso em algum lugar e talvez em mãos mais capazes.

Mas nosso time também começou quando conheci, entrevistei, fiz amizade, e mais tarde comecei a publicar no absolutamente sublime jornal de Dra. Donna Hughes “Dignity: Um Jornal de Análises de Exploração e Violência”.

Um pouco antes, Donna me conectou com uma advogada competentíssima, Melanie Shapiro, que é especializada em asilo e imigração e para quem eu enviei várias declarações juramentadas para mulheres que tinham escapado de assassinatos de honra. Agora, Melanie e três membros do seu staff de dez pessoas passaram três dias aplicando por todo tipo de visto de exílio de emergência humanitária/visto de estudante/visto especial para Aisha.

E, enquanto Mandy continuava a nos conectar mais e mais com mulheres afegãs implorando para ser resgatadas, Melanie expandiu o que estava fazendo para incluí-las.

Enquanto isso, Donna tinha me conectado com Dra. M, uma terapeuta de trauma na Alemanha e a R, uma advogada e ativista anti-tráfico. Ambas mulheres têm uma longa história de resgate de mulheres imigrantes e mulheres presas na prostituição. R ela mesma conseguiu heroicamente escapar de seis anos de prostituição.

A final member of our team also cannot be named. Let me call her Ekaterina. She obtained vital paperwork, helped remotely guide our Afghan women through the streets to the airport, and was perhaps aided by some on-the-ground muscle. Of this I am not sure.

Uma membra final do nosso time não pode ser nomeada. Deixe-me chamá-la de Ekaterina. Ela conseguiu documentos essenciais, ajudou remotamente a guiar nossas mulheres afegãs pelas ruas até o aeroporto, e talvez tenha tido ajuda presencial. Sobre isso eu não estou muito certa.

Dra. M supervisiona psicólogos clínicos. Ela diz:

“Se o terapeuta de trauma fica muito assustado em trabalhar com pessoas que são vítimas de tráfico humano, fundamentalistas islâmicos, ou psicopatas, é melhor deixar outros fazerem esse trabalho. Caso contrário o medo do terapeuta vai fazer parte da terapia. Precisamos dar às pessoas esperança e força. Eu estava em Bosnia e Kosovo durante e depois da guerra em 1994–2002. A terra foi bombardeada e refugiados estavam em todos os lugares. As pessoas foram abandonadas pela comunidade internacional. Estando com eles, compartilhando a sua tristeza e conversando com eles, eles se sentiam testemunhados, vistos, e isso lhes dava energia.”

Dra. M, R, Donna e eu pudemos excluir alguns homens que estavam ávidos pra botar as mãos em quantas garotas afegãs eles pudessem — e dois deles colocaram nossa Aisha em perigo potencial até que coloquei firmemente um fim nisso. Eles podem ter sido sinceros, altruístas, irresponsáveis, mal orientados — mas eles podem ter sido misóginos maníacos por controle ou pior.

Uma das outras feministas afegãs que ajudamos a resgatar (junto com quatro outras ativistas) quer ser nomeada: Crystal Bayat — a líder que organizou o último protesto contra o Talibã e que deu entrevistas sobre eles.

Ela é um alvo de alto valor (como muitas das outras). Sempre há perigo quando essas mulheres são envolvidas com outros afegãos ou com refugiados fundamentalistas muçulmanos que vêem feministas como perigosas e desobedientes. Crystal fala bem. Aqui está um pouco do que ela me disse ontem por ligação telefônica.

“Sou uma garota que nasceu no meio de pólvora e explosões. Cresci conforme mudanças positivas estava acontecendo. Eu gostaria agora de lutar para preservar essas conquistas. Nos primeiros dias da entrada do Talibã em Kabul, vi a morte desses sonhos. A morte da paz, liberdade, democracia e segurança para as mulheres. Mas se nós trabalharmos juntos, a esperança vai permanecer viva e os sonhos se tornarão realidade.

Crystal está a salvo fora de Kabul, mas ainda não pôde ir para a Europa ou Estados Unidos. Ela e Mandy sentem que ela está especialmente em perigo. Talvez ela esteja. Talvez todas nós feministas estejamos.

Nós judeus temos uma expressão. “Salvar uma vida é como salvar um mundo.” E aqui estamos, um bando de irmãs, indo bem em nossos caminhos, tendo salvado mais que trinta mundos e mais alguns a serem contados.


¹ https://4w.pub/taliban-and-my-family-will-come-for-me/

Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre a tomada do Afeganistão por Talibãs e seu impacto para as mulheres. Pela autora feminista Phyllis Chesler

Publicação original


Se você quer doar para ajudar as mulheres afegãs, você pode usar esse link do PayPal: paypal link. Ao doar, por favor, mande e-mail para Melanie Shapiro, melanie@melanieshapiroesq.com, para ela saber a quantidade doada e o nome do doador.

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