Há uma dor ao escrever esse texto, porque falar sobre o que pretendo, sobre o que sinto ser necessário e urgente para nossas reflexões, me amedronta porque já somos tão julgadas, tão ignoradas e mal interpretadas, que admitir, ainda mais por escrito, que também existe entre mulheres há a possibilidade de haverem dois fatores chamados abuso e violência, é de dar um nó na garganta.

Entretanto, é necessário dizer.

É necessário porque muitas lésbicas e bissexuais se sentem perdidas ao notar que seus relacionamentos com suas namoradas e parceiras são abusivos ou até mesmo violentos, uma vez que não falamos de maneira objetiva sobre essa possibilidade, na maioria das vezes tratamos como casos isolados da “fulana que era muito ciumenta com a namorada”, da “ciclana que bateu na sua companheira”, “na beltrana que expôs a sua ex nas redes sociais”, dessa forma além de não darmos nome ao ocorrido, também não compreendemos essas mulheres como vítimas, sim como desafortunadas.

Tendemos a romantizar as relações entre mulheres, esquecemos que somos humanas e passíveis de erros.

Sabemos com clareza, mesmo que com pesar, que os atos de abuso e de violência não são impossíveis de ocorrer no cotidiano de mulheres que se relacionam com outras mulheres, mesmo que verbalizar isso tenha o gosto amargo de uma traição, porque é assim que estou me sentindo agora, uma traidora das mulheres, como se as estivesse expondo, tendo uma conduta anti-feminista ao declarar que somos sim capazes de ter atitudes violentas e abusivas.

Mas ser feminista é também debater nossas limitações para sermos capazes de avançar e crescer juntas.

Racionalmente sei que não estou sendo uma traidora, nem estou expondo mulheres, que falar sobre isso é urgente e fundamental para outras mulheres, mas meu coração está partido, afinal sou feminista radical, sou preta, sou lésbica e tenho como prioridade exaltar mulheres, tenho como foco central da minha vida a emancipação da nossa classe, portanto, dizer que também falhamos, quando já somos vistas como um erro, como incompletas, como menores e fracassadas, faz com que cada palavra escrita até aqui venha com a interrogação do “preciso mesmo falar sobre isso?”

Respondo, enquanto cada letra insiste em ser digitada, sim preciso.

Porque entendi, depois de muita leitura e debates, que para sermos livres temos de ser capazes de admitir que não estamos imunes ao terror dos atos condenáveis, dos comportamentos mesquinhos, da heterossexualidade compulsória, da misoginia internalizada, da reprodução do machismo e do desligamento do que temos em comum, sem isso, sem essa compreensão, nunca poderemos combater com propriedade tudo que alimenta os nossos verdadeiros algozes.

Como também, há mulheres que nesse momento temem admitir estarem sendo vítimas de violência de suas companheiras, que não sabem o que fazer, que não sabem com quem conversar, que estão dando voltas em torno da dor que sentem.

Nenhuma feminista se sente a vontade ao falar sobre violência entre mulheres, porque as raízes da nossa opressão e da forma que somos ensinadas a não nos reconhecermos umas nas outras, a nos distanciarmos do que nos une a ponto de acreditarmos que “rivalidade feminina” é algo natural, faz com que nossos instintos de proteção e sobrevivência evitem ao máximo esse assunto.

Escrevo como quem compreende que o abuso e a violência entre mulheres pode ser real, a física, a psicológica e a financeira, como também sei que calar tudo isso por medo de colocar outra mulher em uma situação complicada não é a escolha certa.

Não devemos nos calar, mas também não devemos colocar a outra mulher em uma fogueira, é preciso saber que para dar um fim nesse ciclo de abuso e violência você não precisa expôr a outra mulher nas redes sociais, não precisa devolver “na mesma moeda” a violência ou abuso sofridos e muito menos transformar uma situação tão dolorosa em uma sucessão de erros dos quais irá para sempre se arrepender.

Para pedir socorro você não precisa ser cruel e violenta de volta.

Vivemos todas em uma sociedade patriarcal, reproduzir atos violentos também é uma possibilidade para mulheres, assim como perder a empatia pela outra e esquecer que somos capazes de machucar, de magoar, de traumatizar e de levar uma mulher ao extremo da dor, do desamparo e do medo.

Há possibilidade de violência física entre mulheres.

Há possibilidade de violência e/ou abuso psicológico entre mulheres.

Há possibilidade de exploração financeira entre mulheres.

Há possibilidade de sentir medo de outra mulher.

Mesmo que não seja tão comum como nos relacionamentos heterossexuais, existe a possibilidade…

Desta forma aconselho a todas que chegaram até aqui e sentiram que precisam de ajuda a pedirem ajuda.

Fale com sua família e amigos.

Peça socorro.

Termine.

Imponha limites.

Preserve sua segurança e integridade.

Você não tem a obrigação de salvar ninguém a não ser a si mesma.

A culpa não é sua.

Não é errado por um fim a isso.

P.S: sei que esse é apenas um texto, sei que ele não irá encerrar ciclos de violência nas relações, quem me dera ter esse poder, mas desejo e torço para que você que está lendo e tenha sido de alguma forma tocada por ele se sinta mais forte, compreendida.

E se lendo você percebeu que é você a mulher que comete o abuso e/ou a violência, que você pode mudar sua forma de se relacionar, que você também pode mudar esse ciclo.

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