Linda Bellos é uma feminista lésbica, ativista de longa data do Partido Trabalhista (UK) e especialista em Lei da Igualdade no Reino Unido. Foi eleita para o Conselho Lambeth Borough em Londres, em 1985, e foi a líder do conselho de 1986 a 1988. Bellos foi vice-presidente da campanha Black Sections (Sessões Pretas) para selecionar candidatos parlamentares e locais afro-caribenhos e asiáticos dentro do Partido Trabalhista, tesoureira do Africa Reparations Movement (Reino Unido), co-presidente da Rede LGBT de Southwark (até fevereiro de 2007) e consultora do Conselho de Southwark. De 2000 a 2003, ela foi co-presidente do Grupo Consultivo LGBT da Polícia Metropolitana. Em 2006, ela foi premiada com a OBE (Ordem do Império Britânico) por serviços à diversidade. Entrevistei-a via e-mail sobre seu ativismo, experiências no movimento feminista e a atual controvérsia em torno de seu embate com ativistas trans.

Por Meghan Murphy


Meghan Murphy: O que primeiro te levou ao ativismo feminista lésbico? O que te politizou?

Linda Bellos: Eu percebi que tinha me apaixonado por uma mulher. Inicialmente, isso me causou sofrimento, mas passei vários dias analisando meus sentimentos e por que não sabia da possibilidade de mulheres amarem mulheres ou, mais precisamente, mulheres negras amarem mulheres. Passei por muita angústia e incerteza nas semanas e meses seguintes, mas no final desse processo, reconheci que provavelmente tinha sido lésbica toda a minha vida, mas tinha sido socializada para não saber disso. Naquela época, não havia muitas lésbicas negras (ou, se havia, eu não as conhecia).

Afastar-me de um mundo heterossexista me permitiu analisar o “gênero”, que atribuía papéis aos humanos — com os homens como superiores às mulheres — e rejeitei tanto a ideologia sobre gênero quanto o papel subalterno das mulheres. O estupro e a agressão de “esposas” eram questões conhecidas por mim e eu agora tinha uma compreensão ideológica de “gênero” como sendo uma ideologia, não uma descrição.

MM: Você foi a primeira mulher negra a se juntar ao coletivo Spare Rib, em 1981 — como foi essa experiência? Quais foram algumas das principais questões em que a revista estava focada?

LB: A experiência de Spare Rib fazia parte do meu crescimento como lésbica e feminista. Eu estava ansiosa por ver as mulheres negras sendo parte integrante da constituição das mulheres, pois senti como se meus debates com muitas — mas não todas — as mulheres brancas fossem sobre inclusão. As mulheres brancas da classe trabalhadora foram amplamente ignoradas pelo Spare Rib, assim como todas as mulheres negras (e por “negras”, usei a definição política de: herança africana, caribenha e sul-asiática). A classe social era, para mim — há muito tempo marxista — outra característica central do que trazemos para a mesa como seres humanos: nossa classe e plano de fundo.

MM: O que você viu mudar — seja para melhor ou para pior — em termos do que é comumente chamado de ativismo pelos “direitos gays” e questões relativas ao movimento feminista? Há coisas que você acha que nós não aprendemos, mas deveríamos ter aprendido com o ativismo passado?

LB: Eu não sei o que você quer dizer com a palavra gay, eu nunca usei isso ou me vi como gay. Eu sou e continuo sendo orgulhosamente lésbica. Tenho visto uma melhoria significativa numa área: a guarda de nossos filhos enquanto lésbicas — isso não existia como direito até muito recentemente. Eu perdi a custódia de meus filhos, mas felizmente consegui manter um relacionamento adequado com eles, pois os via em um final de semana por mês, duas semanas durante as férias escolares de verão e todos os outros feriados de Natal. Quando ficaram mais velhos, ambos preferiram morar comigo por um período.

Quanto a melhorias em geral, há claramente algumas, mas o crescimento da política trans parece um passo atrás. Não quero dizer que não existam humanos que acreditem e sintam que estão no “gênero” errado, mas parece que estamos perdendo os muitos ganhos pelos quais as feministas lutaram. Para mim, parece que o movimento pelos direitos trans reforça o gênero, que atribui papéis aos homens e às mulheres. Como feminista, eu rejeito esses papéis e acredito que todos os seres humanos devem ser livres para ser o melhor que podem ser — as pessoas precisam tanto de ter gênero quanto precisam de ser brancas. Com isso, quero dizer que a construção social de papéis atribuídos a homens e mulheres é tão perigosa e prejudicial quanto os [papeis] atribuídos aos negros e/ou brancos. Estes são conceitos construídos pelo homem, e eu, por exemplo, os rejeito. Eu penso e acredito que somos todos seres humanos diferentes e únicos, em nossa rica diversidade, e que raça e gênero são noções opressivas.

MM: Quando você saiu do armário como lésbica? Como foi essa experiência?

LB: Eu me assumi em 1979 e foi uma maravilhosa e magnífica revelação, mas perdi a custódia de meus filhos e desenvolvi úlceras pela primeira vez. Tornar-me lésbica era como voltar para casa. Eu era indubitavelmente uma feminista, mas também senti que fazia parte da herança lésbica. Eu não me tornei lésbica porque eu era feminista, mas o contrário: eu me tornei lésbica e então descobri o feminismo, incluindo as feministas lésbicas negras.

Estou planejando comemorar meus 40 anos como Sapatona no próximo ano com meus filhos e netos, assim como muitas ex-namoradas e todos os meus amigos serão convidados.

MM: Você esteve muito envolvida com o Partido Trabalhista durante os anos 80. Você acha que o Partido era particularmente dominado por homens naquela altura? Como foi ser uma política negra de esquerda? As coisas mudaram muito na sua opinião?

LB: Eu estava no Partido Trabalhista e ainda sou uma membro. Claro que era dominado por homens e ainda é. Ser uma política negra à esquerda é provavelmente um pouco mais fácil do que ser uma política negra à direita. Há claramente um número maior de deputadas do Partido Trabalhista — negras e brancas — hoje. No geral, isso é bom, mas algumas dessas mulheres não conhecem a história da luta para chegar lá. Fico satisfeita que haja mais parlamentares do sexo feminino de todos os lados, mas gostaria que reconhecessem quão pouco sabem sobre o feminismo para que pudessem refletir ou pelo menos entender as demandas que fazemos por justiça e igualdade para todos. Nesse momento, não podemos reclamar quando nossos direitos são tirados por homens que se dizem mulheres. O direito de falar contra os ataques políticos a nós e a qualquer coisa que lutamos para conquistar, eles chamam de transfóbicas.

É ou irônico ou deliberado que os homens estejam determinando o que as mulheres podem dizer e como podemos dizê-las sob o nome de serem “mulheres trans”.

(A propósito, conheço muitas mulheres trans que não têm essas opiniões.)

MM: De que aspectos do seu ativismo ou carreira política você sente um orgulho especial?

LB: Tenho orgulho do meu papel como política para introduzir o Mês da História Negra no Reino Unido em 1987 e em desafiar a BBC e outras emissoras a incluir pessoas negras [em sua cobertura na mídia], pelas quais fiz lobby por meio de meu grupo de campanha, Black Media Monitoring, no final da década de 1990. Eu também trabalhei com o falecido deputado Bernie Grant em “Reparations for Africa” (Reparações para a África) no início dos anos 90. Atualmente, estou trabalhando para que as pessoas entendam a construção social de “raça” e “gênero”.

MM: No ano passado, a Beard Society convidou você para falar no Peterhouse College em Cambridge, mas depois rescindiu o convite depois que você disse aos organizadores que planejava questionar “algumas das políticas trans (…) que parecem afirmar o poder daqueles que foram anteriormente designados do sexo masculino em dizer às lésbicas, e especialmente às feministas lésbicas, o que dizer e o que pensar.” Mais tarde, você falou em uma reunião organizada pelo We Need to Talk *, um grupo que desafiava as propostas de mudanças no Gender Recognition Act. Por que você decidiu começar a falar sobre legislação de identidade de gênero e identidade de gênero no ano passado?

LB: Fui convidada a falar com esse grupo da faculdade e não tinha a intenção de confundi-los com a minha posição — eu queria me encontrar com eles para ouvir o que eles tinham a dizer e para que eles me ouvissem. Acredito que isso se chama “diálogo”. Imagine se, como uma mulher negra, eu me recusasse a conversar ou estar o mesmo espaço físico daqueles com quem discordasse sobre racismo?

O convite me chegou de surpresa — eu já tinha falado em faculdades de Cambridge no passado, bem como nas de Oxford, inclusive na Oxford Union. Eu acredito na liberdade de expressão.

Dei uma longa pausa de falar em público, e não voltei a falar novamente até 2017, porque nos últimos 7 anos eu estava cuidando da minha companheira, até ela falecer em 2015, e nos dois anos que se seguiram estive de luto. Eu estava saindo do luto quando vi imagens de Maria MacLachlan sendo atacada no Speaker’s Corner. Ela foi atacada por duas pessoas, que pareciam ser homens jovens. Isso certamente me deixou indignada e me levou a ler sobre o que estava acontecendo nessa nova política trans.

Caroline Jones, minha parceira de 15 anos, morreu de câncer do colo do útero, o que, sem dúvida, teve um impacto na minha atitude e análise dessa nova política trans (e ainda tem).

MM: No momento, você está enfrentando um processo privado de uma mulher trans atuo-identificada chamada Giuliana Kendal porque disse que se defenderia de ataques de ativistas trans, caso tentassem te prejudicar. Como está o caso? O que você acha do fato de alguém estar tentando te processar por esses comentários?

LB: O caso está marcado para ser ouvido em 30 de novembro deste ano. Eu sou acusada de “usar palavras ameaçadoras, ou abusivas, ou apresentar comportamento desordeiro à vista ou audição de uma pessoa que possa se sentir assediada, alarmada ou angustiada por isso”.

O que eu disse foi que, se fosse atacada, eu me defenderia. E, francamente, eu me atenho a essa afirmação. Minha definição de sabedoria ao ser atacada é que eu falo sobre isso, uso meus punhos ou corro. Essas são questões sobre as quais tive que raciocinar quando os racistas me atacavam nos anos 50 e 60, e que ainda se aplicam hoje (embora aos quase 68 anos eu não seja tão rápida quanto costumava ser). O termo “discurso de ódio” não foi usado… Seria interessante se essa pessoa [Kendal], que até recentemente era um homem branco, e parece ser um pouco mais jovem que eu, está afirmando que eu tenho poderes físicos sobre-humanos — isso tem sido dito sobre muitas mulheres negras, como Joy Gardner, que foi assassinada por policiais e oficiais de imigração, que a prenderam com fitas que a sufocaram. Eles também agiam como se ela fosse uma ameaça real para eles.

MM: Qual é o seu conselho para jovens ativistas feministas lésbicas hoje, considerando o que elas enfrentam neste clima? Como elas podem agir? Em que elas deveriam focar sua energia, em termos de organização? Quais poderiam ser algumas estratégias organizacionais eficazes?

LB: Espero que jovens — e, claro, mulheres de meia-idade e idosas — sejam livres e capazes de sair do armário quando estiverem prontas. Se são lésbicas, deveriam poder ser lésbicas. Há uma forte e orgulhosa — mas muitas vezes não reconhecida — herança de lésbicas. No início deste ano, fiquei profundamente ofendida quando uma artista que era lésbica foi considerada trans, apenas porque ela se identificava como “butch”. Eu, como ela, uso ternos masculinos. Eu faço porque eles são mais bem feitos e mais baratos do que as versões femininas. Há uma história de lésbicas — e da mesma forma, há uma história de pessoas negras — que parecem estar escondidas da história e nós continuamos sendo “desaparecidas”.

Jovens lésbicas devem buscar informações de lésbicas mais velhas, e nós [lésbicas mais velhas] devemos oferecer aulas de história lésbica. Na Inglaterra, [as lésbicas mais jovens] devem aprender sobre a história do que foi a péssima (na minha perspectiva, reforçou a tradicional cultura butch/femme) do bar lésbico de Gateways em Chelsea, bem como dos muitos grupos e locais de reunião que existiam até meados dos anos 2000.

Sheila Jeffreys escreveu alguns livros importantes sobre este tema, mas ela está sendo boicotada por alguns extremistas trans que preferem que aquelas de nós que têm orgulho de ser mulheres e lésbicas fiquem quietas e voltemos ao nosso devido lugar. Nós lésbicas não temos que concordar uma com a outra em tudo, mas todas nós devemos nos orgulhar de sermos sapatonas.


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Entrevista de Novembro de 2018, conduzida por Megan Murphy e originalmente publicada no Feminist Current.

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