A feminilidade como sujeição à masculinidade
Ilustração de Henn Kim

Quando falamos em “Feminilidade”, as pessoas tendem a imaginar as mesmas características — doçura, delicadeza, gentileza, compreensão. Se perguntamos como uma “mulher feminina” se veste, a resposta também não varia — saias justas, saltos, unhas pintadas, maquiagem, cabelo longo. Somos nós as criadas para nos vestir e comportar por meio da feminilidade, que nos é ensinada e imposta por toda a nossa vida. Por isso, somos levadas a crer que esta maneira de agir é inata, ou seja, que nascemos assim.

Só que a feminilidade é uma estratégia patriarcal para produzir um comportamento específico em mulheres, para a docilidade e para a subordinação. Homens inventaram a feminilidade, afinal, é preciso submeter um povo para que outro tenha poder. Todas as feministas já sabemos disso, ou deveríamos saber.

A cor-de-rosa, o salto alto, as orelhas furadas, as unhas grandes, pontudas e pintadas, a maquiagem, são símbolo da nossa subordinação. Esses símbolos nos fragilizam e representam nossa submissão, que não é só estética, mas material, sexual e psíquica. Ainda assim, há mulheres auto proclamadas feministas que defendem “o direito de serem femininas”.

Precisamos lembrar que a feminilidade não é inata, nem surge junto ao salto alto, ou à doçura, ou à maquiagem. A feminilidade não é também apenas esses rituais que podemos ou não fazer no nosso dia a dia. Antes, ela precisa ser entendida como uma ferramenta de dominação de homens sobre mulheres. Como nos ensinou Simone de Beauvoir, em ‘O Segundo Sexo’ (1949) e Margarita Pisano, em ‘O Triunfo da Masculinidade’ (1980), a Feminilidade não é a oposição da Masculinidade, mas seu produto. Ela foi inventada para nos fazer aceitar a nossa própria opressão, e assim legitimar e perpetuar a Masculinidade, que é a “forma de ser” relacionada aos homens, geralmente associada ao que é positivo no mundo: a exploração, a agilidade, a racionalidade, a originalidade, o Neutro.

A masculinidade, que é ensinada como característica masculina, representa o que é central, a referência, a razão, o poder de agir e criar, a vida pública. Para existir nessas condições, era necessário que mulheres ocupassem o lugar considerado oposto: a Outrice, a abnegação, a emoção, o irracional, o cuidado, o que está no âmbito privado, o oculto, a natureza a ser explorada. O místico. Todas estas características foram embutidas em nossa personalidade e nos preparam para ocupar o espaço de dominadas, que homens não podem ocupar.

O ciclo vicioso de dependência disso que, nos fazem crer, são duas formas de agir no mundo, uma relacionada às Mulheres e outra, aos Homens, se justifica para manter os homens no poder e as mulheres em condição de submissão, criadas para o lar e para o casamento. A feminilidade, portanto, quando representada pela artificialidade dos produtos e comportamentos associados ao “universo feminino”, é a própria submissão ritualizada.

Cada cultura possui seus próprios universos femininos e eles, em geral, representam a fragilidade e subserviência das mulheres. Os rituais são símbolos, estereótipos, que indicam o que a sociedade lê como incapacidade e limitação de pensar, criar e agir — eles são um alerta, uma placa em neon, paetês e plumas que diz para o mundo que somos caça, e não caçador; e todo caçador precisa de uma presa. O que muitas mulheres defendem como “escolha” — depilação, salto alto, maquiagem, rituais de “beleza”, são a ponta do iceberg do conceito de feminilidade. Eles indicam tudo que fizeram de nós, pela dominação patriarcal, indicam e reafirmam nossas limitações.

Além disso, a docilização das meninas e mulheres serve para demonstrar que nossos corpos estão a serviço dos homens, e é sobre ter nossa criatividade, nossa potência, nosso senso crítico e nossa força física limitadas pelo poder sexual masculino. Criar nossas meninas assim é criá-las no regime da heterossexualidade compulsória, é entregar meninas a predadores sexuais.

As mulheres na casa dos 30 anos — e esses são relatos de muitas e muitas mulheres próximas, estão casadas, infelizes, e sem saber o que fazer caso sejam abandonadas por maridos que elas sequer gostam. Foram castradas de suas criatividades e metidas em atividades banais e circulares de casa ou em tarefas pouco desafiadoras em seus ambientes de trabalho. Pensemos: no que essa vida difere das vidas das nossas mães e avós? O que estamos fazendo com nossas vidas — ou, o que estão fazendo com nossas vidas, com a liberdade sexual que almejávamos construir?

As meninas de hoje proclamam uma falsa liberdade sexual em fazer o que bem entendem com seus corpos, mas continuam sendo engravidadas precocemente e abandonadas por seus namorados ou parceiros do sexo masculino; continuam alienadas da sua própria sexualidade e continuam sendo estupradas por parentes e amigos, em quem confiam. Ou seja, isso está longe de ser a liberdade sexual pensada e almejada pelas feministas. Que tipo de liberdade sexual te faz refém de homens? Todos esses aspectos mencionados são a prova de que a feminilidade continua, ao longo dos milhares de anos, colocando mulheres em seu devido lugar: abaixo dos machos.

Quando insubordinadas, mulheres correm riscos. Quando subordinadas também: não tomam consciência do seu espaço no mundo; não se projetam, ou se enxergam na condição de mulheres que são; não se identificam com outras mulheres na mesma situação, pelo contrário, rivalizam. Não estamos livres de violência masculinista e, individualmente, isso só pode ser minimizado se abdicarmos completamente do convívio com homens, o que seria praticamente impossível, visto que são quase metade da população mundial.

A libertação das mulheres do regime dos homens só poderia vir coletivamente, por meio do abandono da feminilidade; e, em termos de socialização, precisamos parar de criar meninas sob o regime da heterossexualidade compulsória. Como diria Margarita Pisano, “a rebeldia é o começo da liberdade”.

Constantemente, as feministas são tachadas de “reducionistas”. São chamadas assim por pessoas que desconsideram a supremacia masculina como pilar da sociedade. Ou seja, por pessoas que ora consideram o feminismo uma luta secundária, ora advogam que o feminismo deveria abraçar todas as lutas identitárias, ao invés de focar na tarefa de tornar livres das amarras metade da população mundial.

As mulheres não somos minoria. Ou, como diria Julieta Paredes, “as mulheres somos a metade de cada povo”. Por isso, e apenas isso, nossas demandas não deveriam ser vistas ou interpretadas como “reducionismo”.

Quando falamos da resistência das mulheres com relação à feminilidade, estamos falando de subjetividade. Estamos falando das subjetividades rebeldes, insubmissas, críticas, e que devem ser exaltadas como modelos para meninas e mulheres. Nós desejamos que essas subjetividades se tornem uma coletividade, pela emancipação das mulheres. Tomar para si o discurso sobre “subjetividade” para falar de pessoas que se apropriam de símbolos que historicamente humilharam e destruíram mulheres, como forma de “transgressão”, não poderia nunca beneficiar mulheres ou a luta pela libertação das mulheres. Seria o mesmo que colocar pisca-pisca em celas de prisões a fim de tornar livres as pessoas encarceradas. A sua gaiola não se torna um lugar de liberdade só porque está enfeitada. Tudo que está relacionado aos processos de feminilização de mulheres não pode e nunca poderá ser arma de luta pela libertação de mulheres.

As pessoas que consideram feministas reducionistas não demonstram o mesmo desconforto quando o assunto é a luta de classes, por exemplo. Para elas, a luta contra a opressão dos trabalhadores é justa e benéfica para a humanidade. Ao contrário de nós, feministas, os autodenominados socialistas, sindicalistas e “revolucionários da esquerda” não são acusados de reducionistas, tampouco a eles é pedido que incluam outras classes em suas reivindicações. O nosso palpite é que este tipo de cobrança, de “empatia” e “acolhimento” de outras lutas, só poderia ser feito às mulheres, criadas para sermos as mães do mundo. Além disso, como em outros movimentos existe a presença de homens, a decisão de dizer “não” às tentativas de invasão e dissolução das organizações é respeitada. Aparentemente, é bem mais fácil adentrar e minar as organizações feministas com discursos chantagistas e abuso de empatia. mas isso também é facilmente explicado pela nossa socialização para a docilidade, para a subserviência e para o trabalho de ficarmos desconfortáveis a fim de fazer confortáveis os outros.

De forma geral, nosso maior desafio é a falta de consciência de classe das mulheres. Mesmo entre as feministas, poucas estão dispostas a abrir mão de seus lugares de conforto. Por isso, não adianta muito ter as respostas se a maior parte das mulheres não quer ouvir, se recusa a aceitar a coletividade e segue defendendo seus companheiros como aliados de lutas reformistas. Não nos entendemos enquanto mulheres e nos agarramos às migalhas concedidas pelos homens, no que diz respeito à busca por emancipação feminina. Não nos entendemos enquanto classe (casta sexual) e, por isso, qualquer classe é digna de análise histórica e luta pela libertação de seus oprimidos, menos as mulheres.

Muitas pessoas cobram das feministas respostas para todos os males da sociedade, enquanto nos chamam de “reducionistas”, “sectárias”, nos acusam de “guetificação”. A estas acusações, respondemos que desconhecemos caminho que não seja a abolição de todos os papéis sexuais. Como? Protegendo mulheres; estudando mulheres e recuperando a história das mulheres; através de educação antissexista e feminista para jovens e crianças; e, primordialmente, abandonando a feminilidade. Sabemos que é um processo longo e doloroso, mas acreditamos na eficácia dos métodos desenvolvidos pelas feministas ao longo dos anos. Esta mesma feminilidade que as feministas chilenas chamam de submissão. Precisamos acreditar nelas.

A análise sobre as opressões só pode ter base na materialidade dos grupos oprimidos e é isso que feministas levam em consideração quando denunciam exploração sexual, casamento infantil, abandono paterno, maternidade e heterossexualidade compulsórias, por exemplo. Feministas levam em consideração o regime patriarcal de docilização dos corpos femininos e da colonização total de nossas subjetividades, e isso é material e comprovado a partir da descrição do nosso cotidiano, a partir da observação da nossa socialização e a partir de uma epistemologia feminista, que nos leva a, fundamental e finalmente, conseguir olhar para a vida e para a história de meninas e mulheres. Mulheres verdadeiramente comprometidas com a luta feminista deveriam estar do lado das mulheres; e pelo abandono da feminilidade.

Defendemos o fim da feminilidade porque esta é a principal arma do Patriarcado para nos conformar aos papéis sexuais que somos conduzidas a desempenhar na sociedade. Somos nós a passarmos pelos processos feminilizatórios, empurrados goela abaixo desde que nascemos. Somos nós que, dia após dia, resistimos à busca pela perfeição e pelos padrões impostos pelas instituições patriarcais. Somos nós que, ao desistir de perseguir os padrões que nos são entubados, sofremos as represálias de uma sociedade que nos odeia e nos quer mutiladas — nos nossos corpos, na criatividade, no senso crítico, no amor próprio, na capacidade de amar outras mulheres.

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