Allison Bailey:
Meu nome é Allison Bailey. Sou uma advogada de defesa criminal, feminista, lésbica, ativista ao longo de toda a minha vida pela igualdade racial, direitos de lésbicas, gays e bissexuais, e sobrevivente de abuso sexual infantil.

Esse texto estava na página de financiamento coletivo de Allison Bailey antes de ser removido. Em si, isso revela uma dinâmica profundamente perturbadora dentro de uma sociedade democrática.

Em questão de horas a campanha tinha arrecadado 48.000 das 60.000 libras esterlinas (cerca de 320 e 400 mil reais, respectivamente) estipuladas pela meta inicial, mas após receber uma “reclamação” a página foi removida, pendente de investigação.

Apoiamos a luta de Allison por justiça, não apenas para ela, mas para todas as mulheres.

Erro de “Página não encontrada” na campanha de financiamento coletivo de Allison Bailey

Meu nome é Allison Bailey. Sou uma advogada de defesa criminal, feminista, lésbica, ativista ao longo de toda a minha vida pela igualdade racial, direitos de lésbicas, gays e bissexuais, e sobrevivente de abuso sexual infantil.

Lado a lado com outros ativistas por direitos LGB, ajudei a criar a Aliança LGB (LGB Alliance). Em retribuição, a ONG Stonewall Equality Limited (Stonewall) coordenou com a ordem de advogados da qual faço parte para me colocar sob investigação. Essa foi uma tentativa da Stonewall para intimidar e silenciar a mim e a outras pessoas críticas do que vemos como a sua influência maligna sobre a vida britânica: nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades, na polícia, no judiciário, no Ministério Público da Coroa e em todos os departamentos do governo.

Estou realizando financiamento coletivo com vistas ao pagamento de representação legal para levar esse caso ao Tribunal do Trabalho e mostrar: que ninguém deveria ser discriminado ou vitimizado pelo ativismo em prol de direitos de lésbicas, gays e bissexuais; que as pessoas LGB têm a liberdade para organizar campanhas em torno da orientação sexual e não dos direitos trans, sem pedir desculpas ou permissão da Stonewall ou qualquer outra pessoa; que não se trata de ódio ou transfobia exercer a crítica e a investigação das noções de identidade de gênero que estejam em conflito com, e trazendo prejuízos aos interesses, à segurança e aos direitos de mulheres, crianças e pessoas LGB.

Saindo do armário na era do Artigo 28

Nasci em Oxford, Inglaterra, filha de pais imigrantes jamaicanos. Aos 17 anos, percebi que sentia atração pelo mesmo sexo, que eu era lésbica. Era o final dos anos 1980, um tempo desesperadamente difícil e solitário para ser jovem lésbica, gay ou bissexual no Reino Unido. O Artigo 28 da Lei do Governo Local (Local Government Act) de 1988 foi um ato histórico de maldade que deixou jovens adolescentes LGB como eu sem quaisquer recursos, apoio ou orientação. Levo as cicatrizes daquele abandono até hoje. [Nota de tradução: O Artigo 28, em vigor de 1988 a 2003, visava “proibir a promoção da homossexualidade pelas autoridades locais”.]

Apesar do Artigo 28 e de ter vindo de uma comunidade não conhecida por sua aceitação da homossexualidade, tenho boas lembranças de encontrar uma comunidade com outras pessoas LGB em Oxford, no final dos anos 1980. Havia dois bares gays: o Jolly Farmers e o Apollo. Eu frequentava ambos. Também havia uma noite do disco em cima do mercado da Cowley Road. Eu sabia que ser abertamente e orgulhosamente lésbica era um ato de autopreservação tanto quanto era de desafio e ativismo. Sabia disso porque vivi isso. Lembro de ficar sentada no Apollo enquanto me explicavam a campanha ACT-UP Silence = Death e prendiam um botton na minha jaqueta. Essa era a minha comunidade, e eu fazia parte dela com determinação e orgulho. Sempre foi assim. [Nota de tradução: ACT-UP é a sigla para AIDS Coalition to Unleash Power, Coalizão AIDS para Desatar o Poder; o cartaz emblemático da luta contra a epidemia de HIV/AIDS retrata um triângulo rosa sobre fundo preto, com os dizeres Silêncio = Morte em branco.]

A militância LGB e racial nos Estados Unidos

Troquei a Inglaterra do Artigo 28 pelos Estados Unidos, já no final da minha adolescência. Eu passaria os seis anos seguintes morando e trabalhando nos EUA, a maior parte do tempo como livreira e ativista comunitária. Morava no The Castro e trabalhava no Mission District, em São Francisco, Califórnia; o epicentro do ativismo político gay e da esquerda radical, respectivamente, no auge da epidemia da AIDS.

Fiz trabalho voluntário como uma mulher negra britânica junto a mulheres afro-americanas de base, para fornecer assessoria jurídica, apoio comunitário e amizade a outras mulheres negras, heterossexuais ou LGB, enfrentando a desigualdade racial, de saúde e de renda na Área da Baía de São Francisco.

Vidas Negras Importam — Black Lives Matter

Em 1991, assisti às cenas da TV com horror e raiva, pois os policiais do departamento de polícia de Los Angeles (LAPD) foram filmados enquanto cercavam e espancavam Rodney King, um homem negro desarmado de bruços no chão.

Eu esperava, contra todas as expectativas, que os policiais responderiam perante a Justiça. Em 1992, quando aqueles mesmos policiais foram todos absolvidos, fui para as ruas em protesto pacífico, junto a muitos outros em São Francisco, enquanto as revoltas de Los Angeles explodiam. Então, como agora, as pessoas LGB com todo tipo de história de vida se solidarizavam contra a injustiça racial. Naquela noite eu e muitas outras pessoas fomos presas e detidas ilegalmente em São Francisco. Fui enviada para a Penitenciária Feminina de Santa Rita.

Saúdo o movimento Vidas Negras Importam — Black Lives Matter. Tenho esperanças de que talvez tenhamos chegado no momento da história em que a injustiça social e a violência policial enfim possam ser enfrentadas, e que haja reparações.

Entretanto, rejeito a sugestão pelos ativistas trans e por quem os apoiam, inclusive os assim chamados jornalistas antifascistas, de que mulheres como eu, em nosso ativismo, deveríamos dar lugar a causas mais dignas e simplesmente silenciar as nossas preocupações sobre o novo transativismo, tal como defendido pela Stonewall. Esse próprio argumento parece racista, misógino, ingênuo e autoindulgente.

Assim como talvez enfim tenhamos um acerto de contas sobre a injustiça racial, espero que em breve também haja um acerto de contas semelhante sobre a violência masculina, a opressão masculina e o ódio masculino às mulheres; inclusive um acerto de contas sobre esse momento na história quando os homens tentaram furtar os direitos das mulheres.

O novo transativismo: rotulando qualquer escrutínio ou voz crítica como “transfobia”

No começo de 2018, quando escutei pela primeira vez que haviam planos em andamento para facilitar a vida das pessoas trans, minha reação foi que seria uma coisa boa e não pensei duas vezes. Vivia me deparando com o termo “TERF” mas ignorava. Pensei que os intolerantes estavam simplesmente sendo denunciados.

Depois, um dia cliquei num link: terfisaslur.com, onde alguém compilou o abuso online direcionado a mulheres que, fui percebendo, tinham preocupações e questionamentos completamente válidos quanto à sabedoria de substituir sexo por gênero.

Aprendi que o novo transativismo quer esmagar as distinções entre homens e mulheres; substituir o sexo biológico pelas noções de identidade de gênero; tornar a diferença sexual uma questão de autoidentificação; e exigir que todo e qualquer homem que deseje se identificar como uma mulher tenha a permissão de fazê-lo.

Aprendi que o novo transativismo está mirando, inexplicavelmente, em crianças pequenas e declarando-as “trans”; tratando a puberdade como uma doença a ser bloqueada com medicamentos poderosos; entregando nossos jovens aos braços de uma indústria multimilionária de grandes farmacêuticas e cirurgiões plásticos.

Vi que os mesmos homens que gostariam que a sociedade os considerasse mulheres, prontamente empunham facas, machados, tacos de beisebol e nós de forca, enquanto ameaçavam de estupro as mulheres que questionavam a sabedoria de substituir sexo por gênero — as TERFs.

Percebi que o novo transativismo operava um sistema bruto mas efetivo de punição e recompensa: quem concorda com todas as demandas do lobby trans está a salvo; quem contesta, enfrenta difamações, abusos, boicotes, assassinato de caráter e cancelamento.

Fiquei horrorizada (e aterrorizada).

Queria fazer vista grossa, ou mesmo deixar passar despercebido; fazer de conta que isso não tenha revelado a pior misoginia e ódio a lésbicas com que já me deparei em toda vida.

Mas não me omiti e insisto que também não o façam. Graças a mulheres corajosas que vieram antes de mim, como a finada grande Magdalen Berns, cuja coragem e abordagem direta e sensata a fez chamar o novo transativismo de movimento pelos direitos do homem, tal qual ele claramente é.

Percebi que eu não era obrigada a aceitar que qualquer homem se reivindique legalmente uma mulher, sem ter que passar por qualquer intervenção hormonal ou cirúrgica, avaliação psicológica ou de risco.

Percebi que não havia nada de errado e era até necessário dizer que é imprudente e ingênuo pensar que os homens apenas irão se identificar como mulheres se forem deslumbrantes, corajosas e inofensivas: que as pessoas ímpias, abusivas, predatórias, mal-intencionadas e francamente rabugentas irão, por algum milagre, se recusar a tirar proveito desse acesso livre e facilitado a mulheres, a suas políticas, seus espaços seguros, seus esportes, suas proteções legais e suas identidades.

Fiquei chocada ao descobrir que há significativo número de agressores sexuais masculinos autorizados se identificar como mulheres e nada está sendo feito para deter esse avanço. Na Inglaterra e no País de Gales, cerca de 40% de homens trans-identificados a população carcerária são homens condenados por ofensas sexuais, inclusive estupro e posse de imagens indecentes de crianças. Leio um fluxo constante de reportagens mundo afora sobre homens que se identificam como mulheres cometendo ofensas sexuais graves.

É repugnante para mim e inteiramente inaceitável, e francamente inacreditável, que o novo transativismo tenha entre suas pautas exigir que os crimes cometidos por homens que se identificam como mulheres sejam registrados como terem sido cometidos por mulheres; e que esses homens possam exigir o tratamento pelos pronomes femininos.

Descobri que as mulheres encarceradas em prisão definitiva ficam vulneráveis ao assédio sexual grave e à angústia mental, pois os homens, inclusive agressores sexuais, estão presos junto a elas. O novo transativismo reivindica que o desejo de um homem em se identificar como mulher é mais importante que o direito das mulheres encarceradas à segurança e dignidade. Essas mulheres não têm como escapar, não têm escolhas, estão trancadas. Não vejo como isso pode ser outra coisa senão abuso e tortura mental facilitados pelo Estado.

Onde deveria haver discussão, investigação e inquérito, tem tido silenciamento das vozes preocupadas e críticas; não as vozes da extrema direita, mas das mulheres como eu, que estão na esquerda progressista ou vieram dela.

Mantras foram entoados, porque o novo transativismo é um movimento que não suporta escrutínios: MULHERES TRANS SÃO MULHERES; DIREITOS TRANS SÃO DIREITOS HUMANOS; PESSOAS TRANS SÃO QUEM ELAS DIZEM QUE SÃO; PROTEJAM NOSSAS IRMÃS E IRMÃOS TRANS, e aí em diante, sem que nada seja feita para colaborar e resolver as graves preocupações que existem sobre a substituição do sexo pelo gênero.

Aos novos ativistas trans se juntam políticos, jornalistas, advogados, escritores, organizações inteiras, variadas celebridades, todos entoando esses mantras para encerrar o debate, enquanto outras pessoas horrorizadas com o que acontece têm medo demais para falar. Isso é um comportamento de culto, isso é orwelliano, e isso desonrou e envergonhou uma geração.

Rotular todas as vozes críticas como “transfóbicas” é um estratagema político cínico do novo transativismo. Precisamos resistir.

Sobrevivendo ao abuso sexual infantil: entendendo que mulheres e meninas são oprimidas por causa do seu sexo e não a sua identidade de gênero

O homem que me abusou sexualmente quando eu era uma menina de nove anos; o homem que mirou a minha mãe, que tinha me criado sozinha; o homem que me disse que poderia confiar nele, drogou a minha bebida para me deixar desamparada enquanto ele me agredia sexualmente, foi julgado e condenado por múltiplas agressões sexuais contra mim em 2015, sentenciado a dez anos de prisão. Ele foi solto no mês passado (maio de 2020) para cumprir o resto da sua sentença em liberdade condicional.

Revelo isso agora porque me sinto obrigada a prestar solidariedade a outras mulheres com experiências semelhantes de violência masculina, seja física ou sexual. Dizer isso não é fazer do trauma uma arma, da mesma forma que recontar um abuso racista não o seria.

Não devemos permitir que homens ou mulheres soterrem, minimizem e ignorem a realidade visceral da violência masculina. Não devemos permitir que o novo transativismo obrigue sobreviventes a voltar para o armário; isso seria uma prerrogativa do abusador.

Deveria ser motivo para preocupação e alerta que o novo transativismo tome uma atitude tão retrógrado e aviltante diante de revelações de abuso. Essa cultura de negação e menosprezo tem sido o alicerce e a marca registrada de todo escândalo de abuso. É um sinal vermelho para uma catástrofe em curso dos mecanismos de salvaguarda.

São mulheres como eu, cujas vidas foram dilaceradas e seriamente arruinadas por atos arbitrários de violência masculina, que sabem que os homens muitas vezes não são quem dizem que são ou alegam ser.

Eu sei que misturar o sexo com noções de identidade de gênero deixará as mulheres sem limites legalmente aplicáveis contra qualquer homem.

Sei que se o novo transativismo não for contido, as mulheres desaparecerão como uma classe política.

Não são os sentimentos da minha cabeça que me tornam uma mulher. Não fui uma menina, vulnerável primeiro ao olhar sexual e depois à agressão sexual por um homem de meia idade por causa dos sentimentos na minha cabeça. As mulheres não são assassinadas e agredidas violentamente pelos homens em uma escala industrial por conta dos sentimentos nas cabeças delas.

É perigoso e um absurdo fanático dizer a meninas e jovens mulheres que os homens ao nutrir sentimentos subjetivos de serem mulheres passam a ser uma ameaça estatisticamente reduzida à segurança e bem estar delas; legislar com base nisso, uma loucura total.

A necessidade de uma nova organização para lésbicas, gays e bissexuais: o nascimento da Aliança LGB

Em 2019, ajudei a fundar a Aliança LGB junto a outros ativistas e militantes que sentiam, como eu, que organizações como a Stonewall se perderam seriamente nos últimos anos: haviam confundido sexo com gênero, o que significa deixar de reconhecer a atração pelo mesmo sexo — a base fundamental da atração lésbica e gay, e portanto a base fundamental dos direitos lésbicos e gays. Os impactos disso são vários e severos, e para lutar devidamente pelos direitos gays e lésbicos, sentimos que era necessária uma nova organização.

Crianças e jovens em inconformidade de gênero, que de outra maneira iriam em sua maioria esmagadora crescer e tornarem LGB e felizes, estão vulneráveis à narrativa de “nasci no corpo errado” do novo transativismo, levando a uma explosão em procedimentos médicos e cirúrgicos sobre corpos jovens saudáveis, em especial corpos femininos, de forma a conformá-los aos estereótipos de gênero dos anos 1950.

Há agora evidências crescentes de que esse movimento está sendo impulsionado pela homofobia: crianças e jovens que não querem ser rotulados como LGB em uma sociedade homofóbica, e pais e mães que não querem crianças LGB.

Um número desproporcional de meninas e jovens mulheres trans-identificadas vivenciam a disforia corporal devido a histórias de abuso sexual, depressão, ansiedade, mau estado geral de saúde mental e autismo, e porque vivem a turbulência de sentir a atração pelo mesmo sexo — de serem lésbicas —, e mesmo assim o tratamento delas segue o protocolo médico trans.

Essas jovens mulheres passaram anos tomando testosterona e foram submetidas a mastectomias duplas. Elas relatam que seus problemas de saúde mental e a atração pelo mesmo sexo não foram resolvidos; em lugar disso, foram encorajadas a enxergar a própria disforia corporal como uma questão de identidade trans e a transição médica como panaceia, uma cura para todos os males.

Essas jovens destemidas estão detransicionando e levantando suas vozes. As suas vozes e as suas histórias apontam para o desenrolar de um escândalo médico.

É uma acusação terrível para o novo transativismo, a de que uma das maiores ameaças às pessoas LGB hoje, em especial jovens lésbicas, é a Stonewall, e as organizações trans voltadas a crianças e jovens dela derivadas. Tais organizações foram autorizadas a rotular como transgêneros até crianças pequenas com oito anos em inconformidade de gênero.

Fiquei preocupada com a Stonewall durante meses. Em dezembro de 2018, minha câmara passou a ser membro da campanha Campeões da Diversidade (Diversity Champions) da Stonewall, e eu manifestei minhas preocupações quanto a isso dentro da câmara. Senti-me incomodada pelo regime, pois senti que isso permitia à Stonewall policiar as opiniões e visões de indivíduos cujas organizações (como a minha) haviam se juntado à campanha. [Nota de tradução: No Reino Unido, a prática da advocacia por conta própria requer a associação a uma câmara. Paga-se uma espécie de aluguel para ter acesso a estrutura física e serviços administrativos.]

Deixando as mulheres sem limites legalmente aplicáveis contra homens: a política de Aceitação sem Exceção da Stonewall

As opiniões em particular que eu senti que a Stonewall estava policiando eram aquelas que conflitavam com a abordagem da Stonewall diante das discussões em torno de sexo e gênero. O mantra da Stonewall é “aceitação sem exceção”, particularmente de pessoas que nasceram como homens mas depois se identificam como mulheres: enquanto uma mulher, uma lésbica, uma advogada criminalista e alguém que possui experiência extensa com violência, abuso e opressão por parte de homens contra mulheres, acredito que deveria haver algumas exceções para a admissão de homens em espaços femininos.

Tais exceções já são reconhecidas no âmbito da Lei da Igualdade (Equality Act) de 2010. A remoção dessas exceções, e a mudança na lei para permiti-las, é um dos objetivos explícitos no ativismo da Stonewall. Eu não acredito que isso seja consistente com o ativismo pelos direitos LGB; na verdade, uma das questões sobre as quais depois a Stonewall reclamou à minha câmara era a minha objeção vociferante a um defensor da Stonewall que palestrava sobre o “teto de algodão” — termo usado para incentivar as lésbicas a fazer sexo com homens. Na minha visão, isso é abusivo, coercitivo e fundamentalmente homofóbico. Deveria ser anátema absoluto para qualquer organização que se diz defensor de direitos homossexuais, como a Stonewall.

Fui destratada como transfóbica e intolerante. Absolutamente esse não é o caso. Sempre defendi os direitos para transgêneros. Acredito profundamente que as pessoas transgênero devem gozar de proteção legal contra discriminação e abuso. Abomino todas as tentativas de tirar das pessoas trans os plenos direitos da cidadania; e nos EUA o assassinato horripilante de homens negros trans-identificados, mulheres trans (que é praticado por outros homens). Entretanto, não aceito, nem por um momento, que para assegurar proteções a mulheres trans, inclusive da violência masculina, as mulheres devam perder um sequer dos seus direitos conquistados a duras penas, ou uma sequer das suas proteções contra homens, seja como for a identidade deles.

O rótulo de transfóbica foi aplicado a mim e a outras como eu que reconhecem o sexo como imutável. Uma pessoa pode se identificar como quiser, e deve ser protegida e respeitada pela sua identidade. Contudo, a identidade de uma pessoa não é uma licença para provocar angústia ou intimidação às demais, e jamais pode ser legitimamente usada para prejudicar outras pessoas. Há exceções necessárias à aceitação dos homens em espaços femininos, e tais exceções são necessárias para proteger mulheres.

Essas injustiças surgem como resultado da insistência equivocada de que o gênero de certo modo substituiu o sexo como um aspecto fundamental da identidade humana. É por isso que eu sou crítica ao gênero. Isso não quer dizer que o gênero não seja um aspecto autêntico da identidade para algumas pessoas. Mas é distinto e não pode (nem deve) substituir o sexo.

O resultado do mantra da Stonewall, “aceitação sem exceção”, é expor as mulheres ao risco. A inserção de uma mulher trans autoidentificada na população carcerária feminina tem resultado em agressão sexual e estupro de mulheres. As mulheres seriam efetivamente excluídas dos altos escalões dos esportes femininos se atletas com corpos masculinos obtiverem o direito de competir ao lado delas. A aceitação de pessoas com corpos masculinos em espaços públicos exclusivos a mulheres, tais como vestiários e ambientes médicos, exclui mulheres cujas crenças religiosas as impedem de dividir espaços em um estado de nudez com homens. A aceitação de pessoas com corpos masculinos em espaços exclusivos a mulheres provocará trauma, medo e angústia a muitas sobreviventes da violência masculina.

Talvez mais especificamente do meu ponto de vista, que a Stonewall tenha redefinido a homossexualidade como atração ao mesmo gênero e não ao mesmo sexo, unilateralmente e sem qualquer mandato a não ser para avançar as próprias ambições lobistas, foi uma traição escandalosa à população LGB, em especial as lésbicas. A inclusão de pessoas com corpos masculinos na classe de mulheres lésbicas significa que as lésbicas serão censuradas por intolerância e transfobia simplesmente pela atração ao mesmo sexo. Essa é a base da homofobia.

Foi por causa dessas injustiças — e o papel que Stonewall desempenha ao promover tais injustiças, como eu e outros enxergamos — que criamos a Aliança LGB, com o objetivo de preencher o vazio no ativismo LGB que a Stonewall havia deixado quando decidiu lutar pela “aceitação sem exceção”.

Stonewall (uma instituição de caridade registrada) aproveitando a sua influência para tentar policiar e silenciar os seus críticos

Em outubro de 2019, tuitei sobre o lançamento da Aliança LGB. Minha câmara entrou em contato para externar a preocupação com algumas das respostas que estavam recebendo no Twitter, e me pediu para retirar da minha bio do Twitter a referência à câmara. Assim o fiz.

Entretanto, a câmara também tuitou que estavam me investigando, implicando que eu havia de certa maneira feito algo errado. Não falaram comigo antes de emitir aquela declaração, e não parece que estavam de fato investigando qualquer coisa conforme disseram inicialmente.

Passada mais de uma semana, fui informada de que uma queixa tinha sido enviada pela Stonewall e que isso agora estava sob investigação. Quando tive acesso à queixa, vi que o que a Stonewall havia escrito era enganoso e dissimulado. A queixa incluía uma ameaça de que a relação da Stonewall com a minha câmara seria prejudicada a menos que este último entrasse com uma ação contra mim.

Colaborei completamente com a queixa, fornecendo uma longa resposta para a investigação. Todavia, o desfecho da investigação foi favorável às queixas contra mim.

Senti que a maneira pela qual isso havia acontecido validava as preocupações que eu havia expresso no ano interior, e que Nicholas Hellen relatou no jornal The Sunday Times, e que a Stonewall estava com efeito me policiando por meio da minha câmara apenas por ser crítica e por levantar preocupações a respeito do trabalho deles. Senti que minha câmara havia sido intimidada pela Stonewall a chegar a um resultado desfavorável a mim, ciente de que a Stonewall é uma organização significativa e (para muitas pessoas) ostensivamente benigna.

Stonewall: nada a declarar — até prova em contrário

Apresentei vários Pedidos de Acesso do Titular (Subject Access Requests) à minha câmara e à Stonewall, solicitando os dados que eles tinham sobre mim. Minha câmara respondeu com quatro fichários de documentação; a Stonewall inicialmente negou possuir qualquer documento, apesar do fato de sua queixa à minha câmara já ter sido fornecida para mim, portanto eu sabia que eles tinham ao menos esse documento — e a ausência daquele documento na resposta deles indicou que havia outros documentos a que eu teria direito de acesso mas que estavam sendo retidos.

Quando levantei à Stonewall que eu sabia que estavam retendo documentos de mim, em violação de suas obrigações legais, e a possibilidade de encaminhamento ao Comissário da Informação, eles responderam e me forneceram alguns documentos. Isso mostra que:

– Há indivíduos dentro da minha câmara que estavam em contato com a Stonewall nos dias seguintes ao lançamento da Aliança LGB;

– A Stonewall estava envolvida em provocar queixas contra mim oriundas de organizações de terceiros e direcionando-as ao Chefe da Câmara;

– O processo pelo qual a câmara decidia como lidar comigo estava sendo compartilhado com a Stonewall, e a Stonewall elaborou uma estratégia para moldar o seu desfecho, inclusive em relação a reuniões internas específicas da câmara.

– Parecem ter acontecido reuniões de “mesa redonda” e de “coleta de dados” entre minha câmara e a Stonewall, em que eu estava em pauta.

Nada disso chegou ao meu conhecimento naquele momento, até que a Stonewall forneceu a sua segunda resposta ao Pedido de Acesso do Titular.

(Captura de tela do site da Câmara Garden Court: “Nosso mote, ‘Fazer o bem, sem temer ninguém‘, encarna o nosso ethos de longa data: estamos dedicados a lutar pelos nossos, não importa quão formidável o adversário possa parecer. Da mesma forma, nossa abordagem é progressista. Ajudamos muitos clientes a usar a lei para levar adiante a justiça social e a igualdade.”)

A ação contra a Stonewall (e minha câmara)

Estou entrando com uma ação por ter sido submetida à vitimização por conta de preocupações levantadas a respeito das ações da Stonewall.

A ação alega que fui indiretamente discriminada pois tanto a minha câmara como a Stonewall tratam pessoas como eu, com opiniões críticas ao gênero, como intolerantes e indignas de respeito. Essas pessoas são mulheres em sua esmagadora maioria. Esse tratamento é, portanto, indiretamente discriminatório contra mulheres.

Estou processando tanto minha câmara como a Stonewall, pois esta última provocou e induziu o tratamento ao qual fui submetida pela minha câmara.

O motivo do meu financiamento coletivo e por que preciso da sua ajuda

Essa ação é sobre mim e o tratamento que recebi. Mas é também sobre a Stonewall e sua conduta contra pessoas com opiniões como a minha. Não acredito que o tratamento que recebi da Stonewall seja único, e desconfio que há muitas outras pessoas (com conhecimento disso ou não) submetidos ao mesmo tratamento. Espero que como resultado da propositura dessa ação, esse tipo de tratamento deixe de ocorrer.

Instruí a Peter Daly de Slater and Gordon Lawyers, e Aileen McColgan QC para me representarem (não é minha área do Direito e uma ação dessa importância e complexidade necessita especialistas da área do Direito do Trabalho). O pedido foi apresentado ao Tribunal do Trabalho e, uma vez processado, tanto a Stonewall como a câmara terão a obrigação de apresentar suas defesas na ação. Daí em diante teremos capacidade de identificar o escopo do trabalho necessário para levar esse assunto a termo.

Às 14:15 Allison postou no Twitter que a página do crowdjustice havia sido retirada, aliás, no final de semana que comemora a Revolta de Stonewall de 1969.

“A crowdjustice parece ter encerrado a minha campanha de financiamento coletivo contra a Stonewall e minha câmara. Tínhamos alcançado 48 mil libras em seis horas, quebrando recordes. Poderia tudo isso se tornar ainda mais sinistro? Não se preocupem, vou arrecadar o dinheiro. Não vou fugir. Venceremos. Vamos em frente bjs”

Postamos os detalhes aqui para fins de registro.

https://www.crowdjustice.com/case/allison-baileys-case/

27 de junho de 2020


Original por Allison Bailey, reproduzido no site Woman’s Place UK

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