As mulheres são reféns: manifestações contra o cartel de estupro na Coreia do Sul
"Através da exploração de mulheres, os homens criaram uma profunda aliança na autoridade masculina, fugindo da teia da lei após cometerem crimes graves. Nós chamamos isso de Sociedade do Cartel de Estupro." - Pôster publicado online em 2019.

Manchetes recentes após o escândalo da boate Burning Sun podem levar você a acreditar que a Coreia do Sul é composta por dois mundos muito diferentes: um mundo onde homens de prestígio têm permissão para se safar do que quiserem, e um outro mundo dos homens comuns. Embora seja verdade que celebridades masculinas e homens poderosos estejam cometendo crimes horríveis contra mulheres e escapando de punições, eles não estão agindo sozinhos. E certamente os “homens comuns” não são menos culpados.

Em abril de 2019, o Straight, noticiário sul-coreano, revelou que vários clubes em Gangnam — os chamados “Beverly Hills de Seul” — estavam realizando festas de estupro em gangues para seus membros VIPs e usando equipes, as quais se referiam como “incineradores”, para limpar as consequências. A Burning Sun agora é conhecida por ser uma das boates que organizam esse tipo de festa. Mas ela não era a única. Clubes como o Burning Sun alugavam apartamentos em prédios residenciais ou comerciais, onde clientes ricos podiam pagar para abusar sexual e fisicamente de mulheres a noite toda. Os “incineradores” — ou homens da limpeza — apareciam de manhã para remover manchas de sangue e queimar todas as evidências de violência. Às vezes, médicos eram chamados aos apartamentos durante a noite para impedir que mulheres abusadas sangrassem ou para realizar transfusões de sangue. Atos horríveis foram gravados sem o consentimento das vítimas, mas ninguém sabe onde eles foram parar. Um ex-incinerador, um funcionário do clube e um cliente VIP confirmaram que essas práticas ocorriam até pouco tempo atrás.

Homens e a grande mídia têm sido rápidos — talvez muito rápidos — em condenar essa violência e se separar dos autores. Eles culpam os homens ricos, famosos e poderosos pela cultura do estupro, como se os homens não tão ricos, nem tão famosos e nem tão poderosos não abusassem e explorassem as mulheres. No entanto, nós, feministas coreanas, argumentamos que esse não é o caso. O nível perigoso de misoginia observado entre os homens coreanos comuns é o que permite e apoia tais crimes.

O Grande Gatsby da Coreia

O escândalo do clube Burning Sun em 2018 começou com o Grande Seungri. O megastar de 28 anos de idade, Seungri, possui mais seguidores no Twitter do que o presidente sul-coreano Moon Jae-in. Ele ganhou fama como membro da boy band coreana Big Bang, uma das “maiores bandas de música da última década”. Seus vários empreendimentos comerciais — academia de dança, franquia de macarrão ramen e, é claro, a boate Burning Sun — também tiveram enorme sucesso. Famoso por dar festas luxuosas, Seungri foi chamado de “O Grande Gatsby da Coreia”. Na verdade, ele estava no meio de sua primeira turnê solo — chamada O Grande Seungri [The Great Seungri] — em seis países asiáticos quando a casa veio abaixo, assim como no romance de 1920. De repente, Seungri foi envolvido em um dos piores escândalos de celebridades da história da Coreia do Sul.

Pôster de divulgação da turnê de Seungri.

O local do estupro e os serviços de limpeza são apenas a ponta de um iceberg. O que acontecia no próprio clube é mais horripilante. Drogas são usadas para vitimar mulheres em todo o mundo, mas, nesse caso, a equipe do clube desempenhou um papel ativo no fornecimento de mulheres drogadas a grandes nomes convidados, com a supervisão da polícia coreana corrupta. Conversas vazadas entre vários negociantes do clube (conhecidos como MD’s), responsáveis pela compra de mulheres drogadas para abuso sexual, fornecem um vislumbre das práticas cotidianas de negócios do clube:

MD 1: A sala VIP está procurando uma mulge.
MD 2: Ok, eu vou procurar uma.
MD 1: Vá logo e me ajude a conseguir.
MD 1: Não precisamos mais, apenas encontre uma que esteja fora de si.
MD 2: Vou procurar uma lesma então.
MD 1: Me ajude que vai ser um sucesso.

Os gerentes do clube tentam casualmente garantir uma “mulge” (o termo usado para convidar mulheres atraentes) para apresentar aos clientes na sala VIP. Uma mulge não é uma anfitriã paga nem uma prostituta, embora os gerentes a tratem como tal. Ela é apenas alguém que entra no clube, talvez para se divertir e dançar. Então, de acordo com as conversas vazadas, os VIPs parecem mudar de ideia sobre querer uma vítima consciente e, em vez disso, solicitam uma “lesma” [snail], gíria coreana para uma mulher inconsciente que é presa fácil. Notavelmente, a palavra “mulge” soa semelhante à palavra “foca” [seal] em coreano. Quer sejam caracóis ou focas, as mulheres são comparadas a seres não humanos que podem ser entregues sob demanda. Os gerentes até fornecem aos clientes drogas para serem usadas para estuprar as mulges.

As conversas vazadas também não eram conversas pessoais entre dois colegas desonestos. O Dispatch, meio de comunicação que obteve a informação, relatou que “toda a equipe compartilhou o que estava acontecendo no clube em tempo real” e sugeriu que Seungri estava ciente de tudo isso. As notícias sugerem que o jovem proprietário não estaria preocupado com a atividade de cafetinagem em seu clube. De acordo com o canal SBS funE, o próprio Seungri conseguiu que as mulheres fossem vítimas de seus clientes comerciais. De fato, a estrela pop e seus amigos famosos cometeram uma lista interminável de crimes contra mulheres — agressão sexual a mulheres sob efeito de drogas, compartilhamento de vídeos sexuais filmados de forma secreta, exploração sexual comercial, entre outros.

Talvez a abrangência dos crimes desses homens seja melhor capturada em suas próprias palavras. Eles conspiraram para vitimar as mulheres no KakaoTalk, o maior aplicativo de mensagens móveis da Coreia, e essas conversas foram a principal fonte de evidência do escândalo. Em uma conversa do KakaoTalk entre Seungri e outros homens famosos, o cantor Jung Joon Young propôs, possivelmente como uma piada, que “todos conhecem mulheres online, vão a um bar de strip e as estupram em carros”. Outro participante respondeu claramente: “Você sabe que já fazemos coisas assim na vida real”. Acrescentou: “Isso [o que fazemos na vida real] é como um filme. Pense nisso por cinco minutos. Nós simplesmente não matamos ninguém. Muitos desgraçados foram presos por isso.”

“Room salons” no cinema coreano e na vida real

A comparação com filmes é notável. As editoras da revista de cinema feminista SECOND apontam que, na indústria cinematográfica coreana, “tornou-se um clichê retratar a violência sexual contra mulheres em room salons sempre que os homens se reúnem para exercer seu poder, e esses retratos não mais parecem críticas culturais”. Personagens masculinos poderosos, sejam executivos de chaebol[1], promotores públicos, advogados ou políticos, tendem a escolher bares de karaokê com direito a acompanhantes, chamados room salon, como locais de conluio, e usam a violência contra as mulheres como um ritual de união. O filme de 2015, Inside Men — a maior bilheteria com classificação X na Coreia do Sul — é um dos muitos que mostram cenas obscenas ambientadas em “salões privados mobiliados com uma fila de recepcionistas”. Os diretores podem pensar que estão criticando sem medo o mundo oculto da elite, mas as cenas geralmente parecem indistinguíveis da pornografia. Essas cenas podem ter sido a referência mencionada na conversa daqueles homens no KakaoTalk.

Dois outros escândalos ressurgiram recentemente na mídia sul-coreana porque estão sendo reconsiderados para julgamento. Ambos os casos podem ser facilmente scripts para filmes coreanos. Depois de ser continuamente pressionada por sua agência de entretenimento a fornecer favores sexuais para figurões na indústria, a atriz Jang Ja Yeon tirou a própria vida em 2009. Nenhum dos pesos pesados que Jang apontou como autores em sua carta de suicídio foi punido, alimentando suspeitas de que os homens pressionaram os promotores. A Comissão de Assuntos Passados [Committee of Past Affairs], recém-lançada para corrigir erros na tomada de decisões jurídicas, reabriu o caso contencioso. A comissão também decidiu retomar as investigações de um caso em que o ex-vice-ministro da Justiça Kim Hak-eui é acusado de se envolver em suborno sexual. Entre janeiro de 2007 e fevereiro de 2008, o promotor Yoon Jung-cheon supostamente convidou Kim para sua casa várias vezes para orgias, na tentativa de ganhar seu apoio. Conhecidos do ministro da Justiça e especialistas concordam que o rosto de Kim é reconhecível em um vídeo vazado da festa, mas os promotores não apresentaram nenhuma acusação contra ele. Uma mulher entrevistada no PD Notebook, programa de jornalismo investigativo da emissora MBC, alegou que Yoon a drogou e a gravou sendo estuprada para pressioná-la a fazer sexo com Kim na festa, o que ela acabou fazendo com medo de que ele mostrasse a fita para sua família. Mesmo assim, Yoon acabou mostrando, quando ela reclamou com ele sobre o que tinha acontecido.

Hipocrisia masculina e masculinidade tóxica

Esses incidentes provocaram uma fúria geral entre homens e mulheres na Coreia. No entanto, como feministas, quando um radialista como Kim Uh Joon promete “ficar de olho” no caso de Jang em seu programa, suspeitamos. Foi a mesma pessoa que pediu às mulheres que enviassem fotos de biquíni para animar um político preso e que alegou que o movimento #MeToo pode ser utilizado por conservadores políticos para “dividir os apoiadores do presidente Moon”. Esses homens estão realmente acima desse comportamento? Postos na mesma situação e acreditando que eles se safariam, o que fariam?

A verdade é que os homens famosos não perpetuam a cultura do estupro por conta própria. Homens coreanos comuns também utilizam a violência sexual como um meio de diversão e vínculo masculino. Suas conversas geralmente não são melhores do que essas.

Em uma conversa vazada entre jornalistas, os participantes solicitaram cópias das imagens ilegais tiradas de mulheres drogadas no clube Burning Sun, e de mulheres nas orgias organizadas por Kim Hak-eui. Em resposta, um repórter enviou vídeos para seus colegas do setor. Eles agradeceram, dizendo “te amo” e ficaram impressionados com os vídeos — como ficariam ao verem clipes pornográficos. Quando um jornalista compartilhou a foto de uma vítima, outros comentaram que ela era “comível” e parecia uma “prostituta”. Em seguida, eles publicaram resenhas de bordéis, recomendando certos estabelecimentos uns aos outros.

A cultura do estupro é generalizada na Coreia do Sul. Em 2015, a Universidade Kookmin suspendeu dois estudantes e colocou três em liberdade condicional após a divulgação de suas conversas em grupo online. O grupo, composto por 32 homens, membros de clubes de futebol da universidade, estava repleta de discussões abusivas e sexualizadas de suas colegas de classe, semelhante ao escândalo da Universidade de Warwick. As alunas foram comparadas a “mulheres de conforto”, reduzidas a “peitos” e comparadas a “chicletes mastigados” quando sexualmente ativas. Um estudante sugeriu estuprar uma garota com um saco plástico na cabeça, porque seu rosto era “desagradável”. Conversas em grupo semelhantes foram reveladas em outras prestigiadas universidades coreanas, como a Universidade da Coreia e a Universidade Nacional de Seul. Os estudantes da Universidade da Coreia, em uma sala de bate-papo do KakaoTalk, discutiram maneiras de “foder” as estudantes ingressantes, que incluíam embebedar as jovens até perderem a consciência. Foi descoberto que alguns desses jovens homens haviam sido chamados “promotores da igualdade sexual” durante os dois dias de orientação para calouros.

“Mulheres de conforto”: vítimas de estupro no passado e no presente

A Coreia vive com a dolorosa história de permitir que milhares de suas cidadãs sejam levadas pelo Japão colonial para se tornarem escravas sexuais de soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, a sociedade coreana humilhou as vítimas por não serem mais virgens, e as chamou, em eufemismo, de “mulheres de conforto”, para que se sentissem com vergonha de falar sobre suas experiências agonizantes. Apenas 40 anos depois, em 14 de agosto de 1991, uma vítima corajosa, Kim Hak-sun, finalmente apareceu, permitindo que outras sobreviventes seguissem o exemplo. Desde então, elas lutam para obter o reconhecimento e as sinceras desculpas que merecem do governo japonês. Por trás das recentes ondas feministas, suas vidas e lutas foram transformadas em vários filmes, incluindo Spirits’ Homecoming e Herstory. No entanto, de acordo com relatos, homens em comunidades online como DC Inside e Ilbe extraíram cenas de abuso sexual desses filmes para consumir e compartilhar como compilações de pornografia. Um homem na sala de bate-papo de Seungri descreveu uma de suas vítimas como promíscua feito uma “mulher de conforto”, assim como fez o estudante da Universidade Kookmin mencionado.

Estátua de uma “mulher de conforto” na frente da sede da Embaixada Japonesa em Seoul. (Out/2012, Flickr)

Celebridades, estudantes universitários e membros do público coreano parecem ver “mulheres de conforto” como alimento para suas fantasias sádicas e sexuais. A exploração sexual masculina de mulheres há 80 anos está ligada ao tratamento atual delas. As “mulheres de conforto” não resultaram da guerra, mas da prostituição já existente em tempos de paz. O esquema de “mulheres de conforto” nas décadas de 1930 e 1940 estabeleceu um novo padrão para a exploração sexual masculina de mulheres, mas esse padrão se perpetua, agora, em tempos de paz, por homens de todo o mundo, incluindo coreanos no clube Burning Sun.

Estupro e exploração sexual como diversão e jogos masculinos

O fato de o sexo, a violência sexual e a prostituição existirem continuamente no mundo sexual dos homens mostra que o sexo, para eles, não se trata apenas de buscar prazer; está intimamente ligado ao poder. Os homens sabem o que é estupro, mas o cometem de qualquer maneira.

Quando um membro da sala de bate-papo do clube Burning Sun enviou um vídeo se gabando de ter feito “sexo” com uma mulher depois de drogá-la, outro membro apareceu, dizendo: “Isso é estupro”. Mas ele rapidamente adicionou um emoticon sorridente após o comentário. A conexão entre estupro e comércio sexual também é evidente em sites nos quais homens compartilham vídeos de câmeras de espionagem. Esses sites têm banners anunciando negócios de prostituição. Por sua vez, os sites em que os homens compartilham avaliações e dicas sobre locais de prostituição têm vídeos com câmeras de espionagem em seus quadros de avisos.

Em 2017, a mídia sul-coreana revelou que fotos nuas de uma mulher prostituída aos 70 anos haviam sido enviadas para um site famoso chamado Ilbe. O homem que humilhou essa idosa empobrecida postando fotos de seus órgãos genitais em um site público foi preso. Ele tinha um cargo público em Seul. Os homens que consumiram essas imagens não pensaram no tipo de vida que uma mulher de 74 anos — nascida em um país colonizado e que cresceu durante a Guerra da Coreia — viveu, ou como está sobrevivendo na velhice agora. Em vez disso, eles se divertiram ao ver uma pessoa idosa, que deveria ser especialmente respeitada em uma sociedade asiática como a Coreia, forçada a ganhar a vida sendo sexualmente explorada pela prostituição. Embora seja ilegal pagar por sexo na Coreia, as autoridades não cumprem completamente a lei e muitos distritos de bordéis ainda operam ilegalmente. Os cafetões são criminalizados e multados na Coreia do Sul, mas isso tem pouco efeito, pois os cafetões simplesmente pagam as multas (considerando que isso é um imposto sobre os negócios) e continuam operando suas empresas.

Um dos maiores sites de compartilhamento de avaliações de mulheres prostituídas na Coreia do Sul, o War of Night, recebe 20.000 visitantes por dia e anuncia 2.000 estabelecimentos de prostituição, como room salons, casas de massagem e bordéis. Os homens compartilham informações neste site e em outros sites sobre quais estabelecimentos têm “garotas mais gostosas” ou “melhores serviços” e oferecem conselhos uns aos outros sobre como evitar serem presos. Um boletim de aconselhamento jurídico apresenta aos usuários advogados especializados na defesa de crimes relacionados à prostituição.

Homens se tornando pornógrafos na era digital

Na Coreia do Sul, a maneira como as mulheres se relacionam online é muito diferente da maneira como os homens o fazem. A questão da câmera de espionagem se tornou central no ativismo das mulheres no país, como resultado do fato de as mulheres coreanas compartilharem histórias sobre seus relacionamentos sexuais com homens coreanos em comunidades online anônimas somente para mulheres, como a Megalia. Quando algumas mulheres começaram a falar sobre suas experiências, que mantiveram em segredo até com amigos íntimos, outras começaram a falar delas também. As experiências eram muitas vezes semelhantes. Muitas mulheres coreanas conversaram sobre seus namorados e maridos pedindo que fizessem sexo sem camisinha, ou que se envolvessem em sexo anal ou “garganta profunda”. As mulheres também compartilharam que os homens as pressionam a filmar atos sexuais, algo que as mulheres “concordam”, com base no fato de que “isso permanecerá apenas entre nós — ninguém mais o verá”. Nos relacionamentos íntimos, esse tipo de demanda é justificado em nome do “amor”, mas no momento em que a mulher dá seu “consentimento”, ela se torna refém do parceiro. Quando as mulheres começaram a compartilhar suas experiências, elas perceberam o quão comuns eram suas histórias.

No livro de 1994, Loving to Survive [sem tradução no Brasil], recentemente traduzido e publicado na Coreia, Dee Graham interpreta a prática dos homens de compartilhar seus atos sexuais. Ela diz:

“Quando os homens se reúnem para conversar sobre ‘foder’ mulheres, suas ‘pontuações’ ou conquistas sexuais, eles estão comunicando que, apesar de fazerem sexo com mulheres, seus laços emocionais estão entre eles mesmos. Eles estão dizendo aos companheiros: “Você é mais importante para mim do que a mulher com quem eu tive relações sexuais”. Talvez seja por isso que as mulheres com quem os homens fazem sexo não sejam tão importantes para muitos deles. Eles também estão comunicando que suas relações sexuais com mulheres são para fins de exploração. Essa conversa dos homens coloca os ouvintes no ato sexual com o falante masculino e a mulher. Os companheiros são invisíveis, mas estão lá “fodendo” com o homem, participando de sua vitória na exploração de uma mulher; os laços dos homens são fortalecidos pelo compartilhamento, unidos em sua subjugação da feminilidade.”

A análise de Graham contextualiza muitos crimes sexuais que ocorrem hoje. A prática de vínculo dos homens através da exploração sexual de mulheres só se intensificou através dos espaços online. Os homens usam a internet para colaborar entre si na exploração sexual de mulheres, a fim de aprimorar seus laços de comunhão. Essa colaboração online às vezes se espalha no mundo real, como no caso da produção japonesa de pornografia de tortura, em que grupos de homens colaboram em fantasias sobre violência sexual e depois se reúnem no mundo real para perpetrar esses atos. Os clientes se reúnem em fóruns de bate-papo na internet criados por empresas de pornografia e planejam os abusos sexuais praticados contra mulheres em cenários de filmagem de pornografia na vida real.

Terrorismo sexual contra todas as mulheres

Se sexo, violência sexual e exploração sexual estão todos conectados no mundo dos homens, as respostas das mulheres a esses assuntos também precisam estar conectadas. A esse respeito, o crescente “movimento 4B” entre jovens mulheres na Coreia — que se refere aos quatro boicotes: ao namoro, sexo, casamento e gravidez — não é tão radical.

Quando a sexualidade de tantos homens está enraizada em ver as mulheres como objetos sexuais, e quando eles acham que atos degradantes equivalem a sexo “mais quente”, abster-se de se envolver sexualmente com esses homens é uma maneira lógica e sensata de se proteger. Em 1983, em um discurso que fez aos homens envolvidos no movimento pelos direitos civis, Andrea Dworkin disse: “Quero uma trégua de 24 horas durante a qual não haja estupro”. Ela declarou que a igualdade não pode começar antes do dia em que nenhuma mulher seja estuprada. Ela pediu a esses homens que organizassem uma trégua e impedissem de estuprar mulheres por um dia. Vivendo os mesmos terrores da cultura do estupro que Dworkin descreveu há mais de 30 anos, algumas mulheres coreanas juram não se relacionar com as pessoas que travaram guerra contra elas. Em 2018, seis manifestações de mulheres contra a pornografia com câmeras de espionagem trouxeram um total de 350.000 mulheres às ruas de Seul, abrindo caminho para a manifestação contra o crime de estupro com drogas em março de 2019. Dois meses depois, em maio, depois que o tribunal indeferiu um pedido de mandado de prisão contra Seungri, apesar das evidências de seu envolvimento na aquisição de mulheres para prostituição e estupro, uma multidão de 1.000 mulheres foi às ruas para protestar contra o “cartel de estupro”.


Hyejung Park é uma feminista lésbica e uma tradutora freelancer que mora em Seul.

Jihye Kuk é a diretora da editora feminista de livros Yeolda Books e uma ativista feminista contra a violência masculina.

Hyedam Yu é uma feminista radical que traduziu Beleza e Misoginia e Loving to Survive para o coreano. Atualmente, ela está trabalhando na tradução de Gender Hurts.

Caroline Norma é uma abolicionista feminista e uma acadêmica da RMIT University. Seu segundo livro, Comfort Women and Post-Occupation Corporate Japan, foi publicado no ano passado pela Routledge.


[1] Chaebol é o termo coreano que define um conglomerado de empresas em torno de uma empresa-mãe, normalmente controladas por famílias, tais como Samsung, Hyundai e LG. (Wikipedia)


Por Hyejung Park, Jihye Kuk, Hyedam Yu e Caroline Norma. Traduzido do Feminist Current.

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