Mulheres, quarentena e o efeito batom
Protesto pela reabertura do comércio nos EUA: “Eu quero um corte de cabelo!”

Mais uma sexta-feira de quarentena —a minha décima sexta. Por estar tanto tempo sem sair de casa e, consequentemente, xeretando mais o happy hour doméstico alheio nas redes, acabei reparando certos comportamentos recorrentes nas postagens das amigas e mulheres que acompanho.

A frase “maquiada para ficar em casa” tem dominado o meu feed, geralmente embutida em selfies ou fotos despretensiosas do look do dia. Achei estranho desde o início; percebo uma certa culpa, uma necessidade de demarcar a decisão como liberdade de escolha. Afinal, já que estamos em quarentena, não temos mais a obrigação de estar com os compromissos estéticos em dia, certo? Errado. Porque nascer mulher em uma sociedade patriarcal é não ter escolha; é ser empurrada aos rituais de beleza desde o momento em que chegamos no mundo; é ter nossa identidade intrinsecamente atrelada a essa imagem branca, magra, eurocêntrica… Artificial. E agora, confinadas, estamos sentindo uma certa perda de identidade devido à falta de interações sociais físicas. Por isso acabamos recorrendo a esses rituais aos quais somos constante e inconscientemente subordinadas. Não à toa salões de beleza foram um dos primeiros estabelecimentos a serem considerados serviços essenciais. Não à toa os conservadores da classe média são os primeiros a defendê-los.

Talvez por ingenuidade com relação às crueldades patriarcais, eu imaginava que a quarentena faria as mulheres repensarem sua relação com as pressões estéticas. Mas não é o que os números têm mostrado: o setor de cosméticos teve crescimento de 113% no Paraná, devido, principalmente, aos produtos de cuidados com a pele. O skincare é o novo reboco.

Enquanto as mulheres mais vulneráveis se sobrecarregam em casa e se expõem ao risco de contágio pelo novo corona vírus nas ruas, as influenciadoras (detesto esse termo, diga-se de passagem) dedicam suas quarentenas a fazer vídeos sobre rotina de pele e aos procedimentos estéticos que as moldam na mesma fôrma, sendo cada vez mais difícil distinguir quem é quem. Essas mulheres influenciam outras milhares a seguirem o mesmo caminho: pesquisas por rinoplastia no Google cresceram 78% após uma influenciadora ter passado pela cirurgia, enquanto a busca por foxy eyes (procedimento bizarro que alonga os olhos) subiu mais de 1.250% depois de uma outra influenciadora fazê-lo. E ainda temos os filtros do Instagram (maiores aliados das mulheres para selfies sem precisar se maquiar) que afinam o nariz, tiram manchas da pele e levantam as sobrancelhas, e o turbilhão de vídeos sobre autoestima na quarentena, sempre atrelados à maquiagem.

Resultados da busca por “maquiagem quarentena” (YouTube).

Esse é o chamado efeito batom, termo cunhado pelo bilionário Leonard Lauder, dono da empresa de cosméticos Estée Lauder. Trata-se de um fenômeno que relaciona épocas de crise ao aumento da venda de cosméticos. Ele pode ser medido e observado através do Índice Batom:

Em 2001 ele [Leonard] verificou que, apesar da crise que os EUA passavam e da sociedade bastante devastada com o episódio das Torres Gêmeas, a venda de batons de sua empresa haviam crescido em comparação com os anos anteriores. Ele concluiu, então, que o batom está diretamente ligado à crise. Ou seja, quanto maior a crise, maior a venda de batons. (‘Você já ouviu falar do Índice Batom?’, Dinheirama. Acesso em 09/07/2020).

Não estamos comprando batom por uma única razão: máscaras. Em compensação, estamos sendo alvejadas por vídeos de rituais de skincare (maquiagem pesada é coisa do passado) a serem seguidos à risca, marcas de roupa e maquiagem se reinventando (olhe só, o novo normal!) com propagandas que nos relembram o que sabemos desde o nascimento: precisamos gastar nosso tempo, energia e dinheiro para estar dentro do padrão — cada vez mais inalcançável. A ideologia neoliberal tem nos dito que a beleza natural é empoderadora. Mas que beleza natural é essa que nos amarra a uma rotina de pele, suco verde, exercício matinal na sacada e intervenções cirúrgicas que dão só uma ajeitadinha de leve?

O casal inseparável patriarcado-capitalismo sobrevive às custas do nosso auto-ódio. Em tempos de crise e pandemia, ele também precisa se reinventar. Agora nos faz acreditar que precisamos nos amar como somos, embora isso custe tubos de cosméticos naturais, xampus sem sal para realçar os cachos e uma rotina de exercícios e alimentação saudável completamente inconciliável com a sua atual rotina de tripla jornada.

Gosto sempre de relembrar Gail Dines: “Se amanhã todas mulheres acordassem amando seus corpos, pense quantas indústrias iriam falir”. Uma de nossas tarefas enquanto feministas é estar sempre atenta às antigas armadilhas travestidas de liberdade de escolha, e alertarmos as outras mulheres a respeito. Eu aposto no abandono da feminilidade e dos rituais estéticos nela embutidos como exercício revolucionário, apesar de doloroso. Aposto no amor próprio como base para a nossa emancipação. Não trato aqui do (falso) amor próprio que nos leva outra vez ao culto ao corpo graças ao imaginário liberal. Trato do amor próprio gerado pela compreensão dos mecanismos através dos quais somos sempre empurradas a nos odiarmos; do amor próprio que nos leva a cuidarmos umas das outras e, consequentemente, a lutar juntas pela nossa emancipação. Só assim conheceremos a liberdade de escolha.

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