Como Hugh Hefner representa a vitória do neoliberalismo

Baseado no frenesi da mídia após a morte de Hugh Hefner, você poderia pensar que morreu um grande homem, ao invés de um cafetão vil que ficou rico e famoso explorando mulheres sexualmente.

Quando acordei quinta-feira de manhã, no dia seguinte da morte de Hefner, eu tinha e-mails de jornalistas do mundo inteiro pedindo para me entrevistar. Dada a maneira que Hefner normalizou o pornô, eu estava esperando o tipo de perguntas sexistas que te fazem querer agarrar o livro da Andrea Dworkin mais próximo para checar a realidade e se certificar que não está ficando louca. De fato fui bombardeada com questões como: Hefner não era amigo das feministas? Ele não começou uma revolução sexual que beneficiou as mulheres? Não era ele o campeão da liberdade de expressão?

Dá pra vocês terem uma ideia.

Após o que devia ser minha quinta entrevista, eu notei um padrão se formando: jornalistas listavam mulheres famosas que homenagearam Hefner (como Jenny McCarthy, Cindy Crawford, Nancy Sinatra, Kim Kardashian) e depois perguntavam se esses não eram exemplos do fracasso do movimento feminista em se posicionar contra a pornografia.

A resposta, claro, é um “não” retumbante.

Feministas da Segunda Onda providenciaram análises pioneiras em como o pornô reproduz — e amplifica — uma ideologia que legitimiza violência contra mulheres.
O trabalho delas mostrou como mulheres no pornô eram sexualmente exploradas, e como todas as mulheres foram feridas por serem reduzidas a objetos sexuais.

Mas essas perguntas me fizeram refletir. O que se tornou claro nessas respostas não foi a adoração de Hefner como sinal do fracasso do feminismo, mas sim como um claro indicador do patriarcado cooptando o potencial revolucionário do feminismo com sucesso. A Segunda Onda do feminismo assustou profundamente o patriarcado, não apenas porque desmascarou as políticas por trás do sistema, mas também ofereceu um programa de resistência coerente, estratégico, e organizado. Feministas radicais não eram boazinhas, e nada é mais assustador do que mulheres que farão o que precisar para mudar as condições de sua opressão.

Durante os anos 70 e 80, o feminismo radical estava se encaminhando pelo meio acadêmico, a instituição que tinha o potencial de prejudicar o patriarcado porque prepara os líderes de pensamentos das próximas gerações. Muitas mulheres jovens começam politicamente em aulas de estudos sobre mulheres onde Sisterhood is Powerful, Segundo Sexo, Política Sexual, Woman Hating, e This Bridge Called my Back eram requeridos para leitura. Nada de falso feminismo aqui.

Feminismo Radical e estudos sobre mulheres estavam se tornando tão unidos que não podia ser ignorado ou aniquiliado — então deveria ser cooptado. Depois de duas décadas, departamentos de estudos femininos se tornaram departamentos de “estudos de gênero”, análises estruturais deram lugar a políticas de identidade, escravidão sexual se tornou “trabalho sexual”, pornô se tornou um exemplo de “escolha pessoal”, e, de pouco a pouco, os ganhos do Feminismo Radical foram corroídos ao ponto do feminismo ser definido em termos de empoderamento individual ao invés de liberação coletiva.

Como exemplo, compare como Barbara Smith define feminismo em This Bridge called my Back, publicado em 1981, antes que qualquer uma de nós tivessemos ouvido as palavras “Terceira Onda”, a definição de Jennifer Baumgardner em 2000 em Alternet. Smith definiu feminismo como “a teoria e prática política para libertar todas as mulheres: mulheres de cor, mulheres trabalhadoras, mulheres pobres, mulheres deficientes, lésbicas, velhas, assim como mulheres brancas heterossexuais privilegiadas economicamente.”. Baumgardner, por outro lado, definiu feminismo como “algo individual para cada feminista.”

Soando muito como Margareth Tatcher, que disse em 1987 que “Não existe essa coisa de sociedade — apenas homens e mulheres individualmente”, Baumgarden e a Terceira Onda enxugaram o poder coletivo do feminismo, enquanto a academia e a narrativa cultural e política dominante estavam abraçando a ideologia neoliberal como maneira de justificar a desigualdade avassaladora. Na ideologia neoliberal não existem interesses coletivos de classe, apenas vários indivíduos tomando decisões racionais para maximizar o empoderamento pessoal.

O feminismo foi capturado nessa rede e renomeado como uma escolha de estilo de vida para empoderar mulheres individualmente, no lugar de ser um movimento revolucionário para derrubar o patriarcado. Deixando algumas mulheres (em sua maioria brancas) entrarem em seu clube, o patriarcado colocou uma cláusula de negação no argumento das feministas da Segunda Onda de que mulheres são oprimidas como classe. Mas sistemas de opressão são flexíveis o suficiente para absorver alguns membros de grupos subordinados; de fato, eles se fortalecem com a ilusão de neutralidade fornecida por essas excessões. Desta maneira, uma Sheryl Sandberg no facebook ou uma Nancy Pelosi no governo não mudam a estrutura real do patriarcado.

Não é nenhum acidente que, enquanto celebramos indivíduos ao invés de movimentos em direção à mudança radical, o cafetão quintessencial neoliberal Hefner é aclamado como líder da revolução sexual. Ele frequentemente dizia que a Playboy celebrava a beleza das mulheres e as permitia serem sexuais, mas o que ele realmente fez foi sequestrar a ideologia feminista sexual que argumentava pela liberação sexual monetizando corpos femininos e chamando de revolução.

Que alguém pensaria por um segundo que Hefner era amigo das feministas é evidência de que, no lugar de transformar a misoginia na década de 50, quando a Playboy começou a ganhar apelo da massa, ele aproveitou e cimentou a própria ideologia que ele dizia ter mudado.


Por Gail Dines — traduzido do Feminist Current


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