Como tornar-se uma mulher

Não se nasce mulher, torna-se. Através de um lento e doloroso processo de desbastação, a pedra bruta criança fêmea, recém nascida nessa sociedade, é esculpida até fazer surgir a inexorável forma mulher, fêmea humana adulta adestrada. Socializada. Domesticada desde antes do próprio nascimento.
Não se nasce mulher, torna-se. E a primeira lição que é ensinada a uma criança fêmea no seu treinamento é que ela deve transformar-se. Que o seu bem-estar não é tão importante quanto a sua aparência.

Do primeiro furo na orelha já nos primeiros dias de vida, às roupas com que é vestida que não respeitam seu conforto, sua comodidade, sua segurança, sua anatomia, a mensagem é clara: o que importa não é como ela se sente mas sim como se apresenta para o mundo. Dor, desconforto, infelicidade são efeitos colaterais da obrigação de comunicar sua feminilidade. Já no seu primeiro registro, sua primeira roupa, um bebê fofo, rosa, com babados, rendas, frufrus e laçarotes. Dócil, angelical, delicado. Uma princesinha.

Quantas vezes uma mulher já desistiu de participar de algo por julgar que não tinha a aparência adequada? Festa, praia, declarar seu interesse amoroso, uma oportunidade de trabalho, sexo de luz acesa?

Quantas dores e desconfortos uma mulher sofre desde que se lembra para que sua aparência corresponda ao padrão considerado aceitável? Não comer o que gostaria, arrancar os pêlos do corpo, procedimentos estéticos dolorosos, modificações corporais constantes, unha, cabelo, rosto, seios, barrigas, pernas, vagina. Intervenções, intervenções e mais intervenções. Que resulta numa pessoa tão diferente de como um ser humano deveria parecer. Com suas peculiaridades e imperfeições.

Quanta infelicidade e medo da rejeição uma mulher sofre por causa da sua aparência física? Uma vida inteira inteiramente escravizada pelo espelho. A que ponto chega uma mulher para levar ás últimas consequências esta lição primeira que recebe de que deve estar sempre apresentável? Sempre comunicando que é feminina? Que é a mulher?

Tornar-se mulher é em primeira instância aprender que não se deve ter um olhar para si e suas necessidades. Que a aprovação alheia é sempre o mais importante e o que dita suas escolhas e sua conduta. É priorizar o olhar do outro. É abandonar a sua forma humana para transformar-se em uma boneca.

Não se nasce mulher, torna-se. E a segunda lição que uma criança fêmea recebe é a de que ela é deve responsabilizar-se. Acolher a tudo e a todos.
Bonecas, panelinhas, casinhas, todos os acessórios ali fornecidos e, como uma brincadeira, começa o sutil treinamento que fica para toda vida: a missão da mulher é prover cuidados. É manter a roda do cotidiano girando enquanto o mundo acontece. Limpar, lavar, cozinhar, passar, maternar, medicar, vigiar. São convencidas que as habilidades necessárias para estas atividades são uma espécie de “dom” que só mulheres possuem. Aprendem a acreditar que são especiais e essenciais por tratar destas tarefas que “se você não fizer, ninguém mais faz”. Aprendem a glamorizar a própria exploração. São imbuídas de um inescapável senso de responsabilidade sobre tudo e todos. Cuidar. Cuidar. Cuidar. Dos filhos. Do companheiro. Dos pais. Dos amigos. Dos animais. Das plantas. Das coisas.

Quantas mulheres não sentem-se desamparadas, como se fossem as únicas capazes de tomar alguma providência sobre alguma coisa? Sentem-se sozinhas porque acreditam que se fragilizarem não terão ninguém para cuidá-las? Não se dão ao direito de descansar, de adoecer, de fraquejar na frente dos outros? Quantas e quantas e quantas mulheres não choram escondidas no chuveiro e lavam suas dores para dizer ao mundo que “está tudo bem”? Que “não, não precisa de nada”.

Não precisar de nada. Não precisar de ajuda. Porque a mulher deve ser autosuficiente e cuidar. Da casa. Da família. De todos. E quem cuida da mulher?

Quanta culpa mulheres carregam por não gostarem, não darem conta, por se recusarem a ser as principais cuidadoras de todas as outras pessoas ao seu redor? Quantas são enganadas por qualquer discurso fácil que apele para seu sentimento de solidariedade? Quantas não foram chantageadas a vida inteira e sempre cederam?

Quantos relacionamentos amorosos já não se estabelecem completamente distorcidos com a mulher assumindo completamente a responsabilidade e o cuidado com a vida do seu companheiro? Quantas mulheres não se tornam mães completamente obcecadas com a ideia de que devem dar conta de cada detalhe da vida do seu filho, seus sucessos e fracassos? Quantas mulheres não carregam sozinha a responsabilidade de cuidado dos pais, sogros, irmãos, sobrinhos, enteados, primos, sob os olhares despreocupados dos homens da família que acham que não tem nenhuma obrigação com os seus?

Quantas vezes uma mulher diz não para as próprias necessidades, sonhos e desejos e diz sim para as necessidades, sonhos e desejos das outras pessoas, impelida pela obrigação internalizada de cuidar e servir? Quantas mulheres não chegam infelizes ao fim de suas vidas e olham no espelho e concluem que nunca conseguiram fazer nada por si mesmas?

Não se nasce mulher. Torna-se. E a terceira lição que uma criança fêmea aprende é que deve submeter-se.

Aceitar tudo. Conter-se sempre. Ser mulher é se reprimir. Nunca se expandir. Nunca relaxar. Não correr. Não gritar. Não sujar-se. Não responder. Comportar-se como uma mocinha. E como uma mocinha se comporta? Com discrição, com cuidado, com delicadeza. Com submissão. Com obediência. Simpatia. Aceitação sempre. Caminhar silenciosamente. Falar tranquilamente. Sorrir docilmente. Cordata. Singela. Diáfana.
Quantas mulheres não pagam um preço alto por serem assertivas? Objetivas? Diretas? Não são sutilmente punidas no trabalho, malvistas na família, rechaçadas nos relacionamentos, por renegarem ou simplesmente não conseguirem — por sua personalidade — adequar-se a esta expectativa social de um comportamento cordato, delicado, gentil e passivo? Quantas mulheres não perdem o contato com sua natureza mais agressiva, ativa, audaz, por estarem extremamente condicionadas a responder passivamente?

Quantas mulheres não sentem culpa por se impor? Por brigar? Por reclamar? Por lutar pelo que considera correto? Por expor seus sentimentos de raiva e agressividade? Quantas mulheres arrastam questões a vida inteira tentando resolvê-las “pacificamente”, “amorosamente”? Protelam aquilo que exige ações enérgicas e combativas? Se arrastam em relacionamentos porque não conseguem se proteger dos abusos e das chantagens emocionais dos parceiros?

A quanto uma mulher se sujeita por acreditar que “homens são assim mesmo”, que “a mulher é quem molda o homem”, que se algo aconteceu é porque “você provocou”. “Você provocou”: você infringiu as regras do silêncio, você discutiu, respondeu, transgrediu, combateu. Você ousou tomar suas próprias decisões. Você deve ser punida. Você mereceu.
Quantos limites são ultrapassados? A quanta dor e humilhação mulheres se sujeitam porque não conseguem reagir? Dizer “chega”. Dizer “não”. Por não conseguirem ser violentas? Por não conseguir defender-se com o uso da força se for necessário? Por acreditarem-se fracas?

Tornar-se mulher é ser alijada da sua energia ativa, transformadora, combativa, bélica e ser talhada para a conformidade e aceitação. Ser talhada para a sujeição, para a submissão.

Não se nasce mulher, torna-se. E a quarta lição que uma criança-fêmea recebe é a de desumanizar-se. Ver a si mesma cada vez mais como um objeto e menos como uma pessoa.

A mulher aprende a achar aceitável que todo o seu “valor” seja definido pela oferta e procura do seu corpo. Cuja cotação varia de acordo com as experiências sexuais que possui. Que um corpo virgem é o mais procurado e, como um produto que desgasta e desvaloriza se tiver muito uso ou muitos “donos”, vai perdendo valia à medida que envelhece e vai amadurecendo sexualmente.

E meninas crescem ouvindo que ao perder a virgindade, “perde-se o valor”, que não deve fazer sexo no primeiro encontro para “se valorizar”, que não deve falar sobre parceiros e experiências sexuais anteriores “para não parecer rodada”. Que deve estar sempre bonita, arrumada e embalada para o consumo visual dos outros homens, “para se dar valor”. Acostumar-se a não ter sua personalidade levada em conta, sua inteligência, seu bom-humor, sua generosidade. Aprender a usar estratagemas de conquista que sempre passam pela exposição do corpo: maquiagem perfeita, depilação impecável, roupa sexy, lingerie arrasadora. Ou pela performance do corpo: “mil maneiras de arrasar na cama”, “como realizar o sexo oral perfeito”, “como deixar o homem delirando de prazer”. Sequer perceber como isso tudo é errado.

Aprender a adiar ao máximo o momento da primeira experiência sexual para tentar humanizar-se aos olhos do parceiro. Para que ele tenha tempo de enxergá-la como pessoa, quem sabe amá-la, antes de atingir seu objetivo que é o de usar seu corpo, e desinteressar-se.

Aprender a achar normal e aceitável que seu corpo seja tratado sempre como um objeto pela sociedade. Exposto em pedaços. Acostumar-se a pensar si mesma e nas outras mulheres por referências como “pernas bonitas”, “barriga chapada”, “cabelos sedosos”, “bunda empinada”, “seios fartos”. Não perceber o absurdo de sua imagem ser usada sempre como um acessório, como um enfeite de cenário, em comerciais, filmes, músicas, em toda a parte. Eterna coadjuvante.

Quantas mulheres sequer se dão conta de todo o talento que possuem por terem passado a vida inteira sendo orientadas a se preocupar apenas com o próprio corpo e aparência? Não foram desencorajadas a realizar tarefas difíceis por “ser muito complicado para uma menina tão bonita”?

Quantas mulheres não são subestimadas todos os dias, apenas por serem mulheres? São ignoradas nos seus ambientes de trabalho e sempre sutilmente colocadas no seu “lugar” de embelezar e servir? Tem sua capacidade intelectual continuamente questionada? Piadas, piadas, e mais piadas que não têm nenhuma graça. Nunca o protagonismo. Sempre o papel secundário. A mocinha perseguida. A redentora. Sempre à margem.
Somos acostumadas desde cedo a nos contentar com migalhas. Por sermos levadas a acreditar que podemos muito pouco. Quantas mulheres desistem antes de começar perseguidas pela sensação de que são incapazes? De que não conseguem?

Somos educadas para nunca ter uma estima boa o suficiente que nos permita acreditar que podemos enfrentar e vencer. Para sempre esperar que alguém — um homem — nos defenda, nos proteja, resolva. E somos punidas, severamente punidas socialmente, se ousamos reverter essa lógica. Sempre nos sentindo incompletas demais, presa fácil das migalhas de amor de qualquer um.

Não se nasce mulher, torna-se. E assim, rendida, vem a lição derradeira que toda criança fêmea recebe no seu treinamento de mulher: perpetuar-se. Toda mulher é criada para ser capataz do patriarcado. Ouve um milhão de vezes por toda sua vida, sutil ou violentamente, todas as mensagens que vai reproduzindo vida a fora. Que vai ensinando aos seus. Que vai defendendo com unhas e dentes.

“Mulher tem que se dar valor”, “mulher não pode se perder”, “ser mãe é a melhor coisa do mundo”, “ela está provocando”, “ela pediu”, “onde a mãe estava quando isso aconteceu?”, “você tem que se cuidar ou não vai conseguir um namoradinho”, “você tem que se cuidar ou seu marido vai arrumar outra”, “não confie em mulheres, elas querem roubar seu namorado”, “ele te bateu porque ele gosta de você”, “ele te bateu mas ele te ama”, “ ele te trai mas não deixa faltar nada”, “o que você fez?”, “homem é assim mesmo”, “ela mereceu”, “você tem que ajudá-lo a mudar”, “homem muda por mulher”, “mulher muda o homem”, “fecha essas pernas menina”, “ela já está bem grandinha, já sabe o que está fazendo”, “hoje em dia, essas meninas com 9 anos já são safadas”, “piranha, está dando em cima do marido dos outros”, “foi trabalhar e largou os filhos”, “fica em casa tendo filho e vagabundando ao invés de trabalhar”, “não faz nada, não lava nem uma louça”, “fica lá estudando e a casa uma bagunça”, “como pode ela, a mulher, não fazer a comida?”, “está toda desleixada, olha como engordou”, “ela não faz uma unha, depois o marido arruma outra, não sabe por quê”, “olha como ela está magra, que linda”, “se você não der pro seu marido, outra dá”, “homem precisa de sexo, é diferente da mulher”, “finge pra acabar logo”, “finge que não viu”, “finge que não ouviu, “finge que não aconteceu”, “não conta pra ninguém, “ninguém vai acreditar em você”, “quem você pensa que é?”, “ninguém vai fazer nada”, “a culpa é sua”, “você deveria ter feito alguma coisa”, “você não deveria ter feito nada”, “se a mulher não cuidar, quem vai cuidar?”, “você não consegue fazer isso sozinha”, “você precisa de um homem”, “isso não é coisa de mulher”, “nem parece mulher”, “mulher não age assim”, “isso é coisa de homem”, “mulher é foda”, “mulher é chata”, “mulher é burra”, “mulher é cheia de mimimi”, “mulher não consegue”, “mulher não dá conta”, “mulher é interesseira”, “mulher é fútil”, “mulher é superficial”, “mulher é romântica”, “mulher só pensa em casamento”, “homem é melhor”, “você tem que cuidar do seu homem”.

Quantas destas frases ouvimos todo dia? Em quantas acreditamos mesmo sem saber? Quantas repetimos?

E assim, transformadas, sujeitadas, desumanizadas, carregando as dores do mundo, somos finalmente esculpidas mulher. Todo esse trabalho de socialização designado a partir do reconhecimento da nossa condição biológica de fêmea. Não é um sentimento. É uma condição social de subalternidade.

Não se nasce mulher, torna-se.



Cila Santos

live and let die

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