não é fantasia

1. nenhuma menina precisa saber passar, cozinhar, limpar, lavar, varrer aos ano e meio de idade. ou aos três. ou aos quatro. ela vai: se queimar com ferro; se queimar no fogão; limpar mal; se machucar, em geral. usar “brinquedos” que estimulem esse tipo de coisa é perigoso em vários sentidos, já que elas vão achar que essas são tarefas que elas precisam saber fazer com destreza; vão criar ansiedade por estarem fazendo de forma errada — elas vêem a preocupação que temos com essas tarefas e repetem isso com os “brinquedos”; elas vão achar que os meninos não precisam se preocupar com isso; elas podem de fato se machucar tentando fazer essas atividades “de verdade” — qual de nós nunca se machucou, quando pequenas, tentando?; elas vão achar que, assim como outros brinquedos, atividades domésticas são “fantasias” que elas precisam desejar.

2. nenhuma menina precisa saber alimentar, trocar, dar banho, por pra dormir bonecas. nem com ano e meio, nem com três, ou quatro, ou cinco. usar “brinquedos” que estimulam isso é doutrinar meninas para a maternidade. esse tipo de atividade vai fazer com que elas achem que, assim como outros jogos que estimulam a fantasia, criar bebês são fantasias que elas devem desejar. bonecas não são bebês. elas não precisam de cuidado. elas podem ter seus cabelos cortados ou pintados. elas podem ter roupas retiradas. elas podem ser jogadas à distância. elas podem perder membros. elas podem estragar. e isso é importante. aprender a perder é importante. coisas são perdidas. coisas quebram. coisas são estragáveis. bebês, por outro lado, não. fazer um grande caso com isso é doutrinação feminina: mulheres não são criadas para lidar com luto, e isso começa quando ganhamos nossa primeira boneca. bonecos estragam, carrinhos perdem rodas, super heróis falham, são perdidos. surpresa: brinquedos de meninas também podem ser.

3. socialização feminina não é brincadeira. dar elementos de cozinha pras nossas meninas não é bonitinho. é ensiná-las que aquele ali é o lugar a que pertencem desde muito, muito novas. e é tudo rosa, lilás, é “de menina”. conto de fadas não é brincadeira. não é fantasia. é ensinar submissão. voz fina. cor-de-rosa. ser salva por um príncipe no cavalo. nenhuma menina nasce com cérebro cor-de-rosa. não existe cérebro feminino ou masculino. feminilidade é doutrina de submissão. feminilidade não é fantasia. nadar com jacarés é. escalar a montanha mais alta do mundo é. ser a menina mais veloz do mundo é. ser pirata e ter seu próprio navio. voar é. parar um trem em perigo, antes que ele caia da ponte, é. carregar um caminhão nas costas e surfar na onda mais perigosa que já existiu, isso é fantasia. conversar com animais e saber como eles se sentem, isso é fantasia. amigos imaginários são fantasia. pegar um carrinho, descer a rampa e dizer que está numa montanha-russa é. e a lista pode seguir infinitamente. mas adivinhem quem está brincando com essas coisas?

fêmea brava

rebelda. feminista em luta, quebrando correntes, pela libertação de todas as mulheres. todas.

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