Coronavírus e habitação
Coronavírus e habitação

Diferentes formas de matar a classe trabalhadora

No meu artigo, chamado “Coronavírus, Mulheres e o neoliberalismo de Bolsonaro”, falei de alguns pontos na situação da pandemia global de covid-19 que afetavam mulheres de maneira particular por causa da divisão sexual do trabalho e da opressão sexual. Especificamente sobre as medidas de isolamento e das novas medidas de trabalho remoto (ou teletrabalho), as preocupações envolviam principalmente o fato de:

1) somar trabalho formal ao trabalho doméstico, uma vez que as crianças estão fora da escola; e
2) a casa ser estatisticamente o lugar mais perigoso para uma mulher (em termos de violência masculina: abuso, estupro, agressão, etc)

Entretanto, há ainda um terceiro ponto sobre o isolamento que afetará a classe trabalhadora em geral e que não é menos importante: o espaço de casa como um fator de deterioramento psicológico, uma prisão com tendência para deprimir o trabalhador e propiciar ambientes violentos.

Um dia qualquer, há dez anos atrás

Certa vez, voltando a pé para casa, me perdi no bairro que costumava morar em Cuiabá. Apesar de ter nascido e crescido ali, era um bairro bastante grande e que durante boa parte da minha infância foi muito perigoso, dominado nas suas extremidades por diferentes gangues, daí que não conhecesse muitas partes dele além dos caminhos que fazia mais habitualmente. Na ânsia de cortar caminho para chegar mais rápido, fui parar num canto que nunca antes tinha visto.

Era uma área especialmente pobre. E eu certamente já conhecia cantos pobres o bastante no meu bairro — casas com janelas e portas caindo aos pedaços, telhados faltando partes, casas pequenas demais pra quantidade de gente que lá vivia, muitas rodeadas por mato e lama, um terreno que virava um grande pântano em dias de chuva, e que era onde as crianças passavam o tempo, sem as condições sanitárias mínimas asseguradas. Mas aquilo era um nível muito acima até para olhos, como os meus, acostumados a naturalizar a pobreza do dia a dia.

No topo dessa rua, deparei com um terreno que parecia abandonado. Lamacento, faltando muitas partes da “grama”, que na verdade era apenas mato e mais mato. Estava parcamente “cercado” com umas estacas de pau baixinhas. Havia uma barraca feita com paus e sacos de lixo no meio do terreno. Havia lixo espalhado em várias partes do terreno.

De início, achei estranho aquele terreno bem ali. Parecia não encaixar. Pouco mais acima, eu sabia que encontraria casas grandes com piscina. Estava deslocado. Depois vi alguns animais: uma galinha ciscava; um vira-lata magro lambia alguma coisa que parecia podre, não sei se lixo ou algum bicho que morreu e ali ficou. O terreno provocava nojo, parecia contaminado em tantos níveis…! Mas também sentia um tipo de asco daquilo estar ali, assim, aberto. “E se crianças brincassem ali?”, eu pensava.

Então, observando que havia uma galinha e que uma espécie de varal emergia da barraca de sacos de lixo, percebi que não era um terreno abandonado. Alguém vivia ali.

Não sei se era uma família ou não. Vi alguém saindo da barraca como quem vem dar uma olhada no quintal. Saí rapidamente, apressando o passo, porque repentinamente tive a noção de estar sendo indiscreta: estava há algum tempo observando alguém na sua “casa”, na sua vida “comum”.

Fui o resto do caminho realmente desnorteada com aquele soco de realidade na boca do estômago.

Dez anos depois, pandemia de Coronavírus

Atualmente, alguns dias antes do governo decretar em Portugal o Estado de Emergência para conter as greves de trabalhadores, viemos cumprir o isolamento recomendado na ‘casa de campo’ da família de meu companheiro. É uma casa grande e espaçosa, porque sabíamos que nessas condições nosso filho teria mais espaço para brincar e gastar energia e assim também nós conseguiríamos preservar a nossa sanidade e alguma autonomia. Entretanto, estive pensando como seria fazer esse isolamento se ainda estivéssemos na antiga casa que habitamos em Lisboa, da qual já falarei.

Pessoalmente, nunca precisei pensar muito sobre o espaço da casa em que vivemos e como isso nos afeta. Meus pais não tinham uma casa com cara de classe média, mas não era uma casa apertada. Talvez parecesse melhor do que realmente era por causa do contraste com as desigualdades sociais do meu bairro natal, que tanto tinha uma pequena mansão numa rua como tinha barracos paupérrimos na rua paralela.

Lembro de pensar despretensiosamente sobre isso quando visitava casas de algumas vizinhas que eram bem mais pobres que eu.

A primeira vez que pensei seriamente sobre o impacto da própria casa no bem-estar dos seus moradores foi lendo Paulo Freire, quando ele contava sua experiência como professor em início de carreira, cheio das certezas sobre como educar crianças. Fez uma reunião com os pais de seus alunos e falou, falou, falou sobre como deviam acompanhar seus filhos, ajudar nas tarefas, ter uma abordagem mais positiva. E um dos pais dos alunos respondeu-lhe:

“Dr. Paulo, o senhor sabe onde a gente mora? O senhor já esteve na casa de cada um de nós?”. Começou então a descrever a geografia precária de suas casas. A escassez de cômodos, os limites ínfimos dos espaços em que os corpos se acotovelam. Falou da falta de recursos para as mínimas necessidades. Falou do cansaço do corpo, da impossibilidade dos sonhos com um amanhã melhor. Da proibição que lhes era imposta de ser felizes. De ter esperança. (…)

– Doutor nunca fui à sua casa, mas vou dizer ao senhor como ela é. Quantos filhos tem?

– Cinco. Disse eu, mais afundado ainda na cadeira. — Três meninas e dois meninos.

– Pois bem, doutor, sua casa deve ser uma casa solta no terreno, deve ter um quarto só para o senhor e sua mulher. Outro quarto grande, é pras três meninas. Tem outro quarto para os dois meninos. Banheiro com água quente. Cozinha com a linha Arno. O senhor deve ter ainda um quarto onde bota os livros, sua livraria de estudo. Agora, veja, doutor, a diferença. Uma coisa é chegar em casa, mesmo cansado, e encontrar as crianças tomadas banho, vestidinhas, limpas, sem fome e a outra é encontrar os meninos sujos, com fome. E a gente tendo que acordar às quatro da manhã do outro dia para começar tudo de novo, na dor, na tristeza, na falta de esperança. Se a gente bate nos filhos e até sai dos limites não é porque a gente não os ame não. É porque a dureza da vida não deixa muito pra escolher.”

(Em: “Pedagogia da Esperança”, Paulo Freire, 1992)

A teoria ensina, mas nada como sentir na pele. E eu também consegui ter um vislumbre dessa “prisão domiciliar” há alguns anos, quando mudei com companheiro e filho para Lisboa. Não muito comparável visto que, felizmente, a fome — um grande diferenciador aqui — não fez parte deste meu cenário.

Quando mudamos pela primeira vez para Lisboa, eu era a única de nosso núcleo familiar que tinha uma proposta de trabalho. Só podíamos contar com meu ordenado para bancarmos os 3, e eu ganhava dois salários mínimos. Para aqueles que não têm referências de Portugal, Lisboa é uma cidade que sofre exponencialmente um processo de turistificação e gentrificação. Lisboa tirou a função vital de habitação dos imóveis mais próximos do centro e transformou todos em pontos de turismo (hotéis, alojamentos locais, empreendimentos de luxo). Era impensável realmente pagar aluguel em Lisboa centro. Fomos para a periferia de Sintra, cidade vizinha, numa zona com má fama (algo que não sabíamos na altura). A ideia era “precisamos de casa para começar a trabalhar e arrumar a vida. Isto é só pra começar, depois saímos quando ambos tivermos ordenados”. Sempre vimos como uma casa temporária, porque o aluguel era praticável, mas o espaço era péssimo.

A casa tinha 25m2. Só tinha um quarto, portanto nosso filho dormia conosco. A cozinha era um corredor praticamente. A casa era no rés do chão, por sorte ainda tinha janelas (visitamos outra à frente daquela, no mesmo prédio, que custava 100€ a mais e não tinha janelas, parecia uma caverna).

Claro que não foi uma casa temporária, descobrimos logo que tínhamos contraído um casamento com o imóvel, tendo em conta que os valores de Lisboa só subiam ano após ano. Estava cada vez mais claro que mesmo se ambos ganhássemos melhor, não poderíamos bancar uma casa muito mais próxima do centro — ainda tínhamos de pagar creche (pois em Portugal só existe rede pública de educação a partir dos 6 anos), transporte, etc.

Se eu soubesse, à altura, como nos afetaria o psicológico morar 2 adultos e 1 criança numa casa de 25m2…

Certa altura, fiquei desempregada. Já sabia, então, que a fata de dimensões da casa era um problema deprimente, mas provavelmente por passar a maior parte do tempo fora, no trabalho, não custava tanto. Quando tive que ficar naquela casa em tempo integral, virou uma prisão que corroía meu psicológico. Ver paredes, não ter espaço, viver apertada entre corredores e ter que entreter uma criança sem ter onde é claustrofóbico, aterrador. Não há espaço para respirar, o trabalho doméstico nunca acaba porque tudo se acumula em qualquer lado, a sensação de claustrofobia era onipresente.

Tivemos imensos problemas porque isso refletia na forma como nos relacionávamos os 3 e como víamos o mundo lá fora. É como se a própria dimensão da casa fosse a dimensão da sua vida e limitasse a sua perspectiva, sua visão de mundo, sua esperança: tudo fica do tamanho das paredes da casa. Em dias de chuva e inverno, quando não podia sair com meu filho, era fácil perder a paciência, a disposição, a vontade de viver.

Pensei como seria fazer isolamento ali, numa casa de 25m2. Não poder sair, aguentar o peso psicológico que a mídia cria por causa da situação de pandemia, trabalhando em casa, fazendo trabalho doméstico e de cuidados, tendo de entreter uma criança quando qualquer movimento nos coloca de cara para a parede. Não consigo articular como

Há situações piores, sem dúvida. Por exemplo, justamente por causa da crescente turistificação de Portugal, em Lisboa e Porto, que são as maiores cidades, o despejo de famílias com crianças pequenas e idosos de suas casas para viverem na rua já se tornou, há algum tempo, um cenário cotidiano. O movimento de ocupação, que não me lembro de alguma vez ter conhecido em Portugal, reviveu nos últimos anos liderado por mulheres mães, que arriscam suas vidas ocupam imóveis abandonados e resistem ofensivas policiais com filhos pequenos no colo. Felizmente, por luta popular, a câmara municipal teve a decência de parar os despejos pelo menos enquanto durar a epidemia, mas chegou a despejar famílias na rua sabendo que estávamos em fase de contágio com um vírus que mata 3 em 100 e que ainda não tem vacina disponível. Como alguém se previne na rua? Com crianças ao colo e sem casa?

No Brasil, isso não é menos real e urgente. Aliás, a população de rua por si só já é muito alargada — um cenário que Portugal terá de lidar, mas em dimensões muitíssimo menores. São mais de 31 mil pessoas em situação de rua e desabrigo. Os despejos para gentrificação não são menos frequentes em São Paulo e Rio de Janeiro do que são em Lisboa ou Porto.

O outro cenário, seja em Lisboa ou em São Paulo, são milhares de família vivendo em cubículos com seus filhos e parentes idosos porque os alugueis são exorbitantes e porque o governo cedeu a cidade para o setor privado do turismo fazer novos (e velhos) milionários. Geralmente, como medidas para tapar o sol com a peneira, a “amenização” dessa política é baratear uma espécie de passe de transporte público mais acessível para trabalhadores poderem se deslocar cerca de 60km a 150km por dia na ida e volta do trabalho, uma vez que não são capazes de pagar alugueis na cidade.

A casa tem uma função social importantíssima. Ninguém deveria estar desabrigado. Como podem obrigar-nos a trabalhar para pagar pelo próprio direito humano de habitar, como se não habitar fosse uma opção? Cada caso de uma pessoa desabrigada, cada caso de pessoas que vivem em condições destas — no Brasil, em Portugal ou em qualquer lado — é um crime do poder público. É o Estado cometendo uma violação dos direitos humanos de alguém.

Se você é obrigado a trabalhar para ter/pagar casa, então você não é um trabalhador. Você é um escravo: porque a sua dívida existe de antemão. A sua dívida dita o seu trabalho. O seu direito não é um direito, mas uma negociação com um patrão em que um tem o poder total de decisão e o outro não tem mais que a sua capacidade de trabalhar para oferecer e precisa se submeter a isso, pois a alternativa é desabrigo e fome.

A pandemia não vai matar só pela ação do vírus em si. Vai também destruir o psicológico da classe trabalhadora, que vive em condições dignas de uma panela de pressão com as suas famílias porque as políticas do Estado — como se comprova com as medidas assumidas na contenção do coronavírus em Portugal, reprimindo greves e não encerrando serviços não-essenciais como telemarketing, bem como no Brasil, com Bolsonaro permitindo que trabalhadores possam ter seus contratos de trabalho suspensos e sem remuneração durante até 4 meses — não priorizam o bem-estar social da população, mas sim o lucro de empresas.

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