Então, por que estamos nos submetendo à Indústria da Beleza de novo?

Como feminista que argumenta que práticas de beleza são prejudiciais à igualdade das mulheres, fui acusada de ser uma estraga prazeres, que destrói a diversão que mulheres aproveitam de sapatos deformantes, depilação, roupas reveladoras, maquiagem, vestidos enfeitados e mini-saias. Mas o uso de salto alto, por exemplo, não é apenas uma expressão inofensiva de escolhas pessoais e criatividade. Se esse fosse o caso, mais homens fariam uso do salto alto. Não existe tampouco evidência de que mulheres possuem um cérebro especial feminino que resulte em uma amor por saltos altos. Essas práticas de beleza prejudiciais servem a um propósito político. O salto alto marcam o status de subordinação das mulheres. Eles fazem as mulheres parecerem sexy para os homens, e portanto, promovem um entretenimento gratuito para os observadores masculinos no escritório, nos órgãos do governo e na rua.

A conexão entre a moda de calçados e o status de subordinação das mulheres pode ser mais facilmente observada em relação aos calçados para garotas. Essa semana houve um ultraje generalizado na mídia contra a campanha da marca de calçados Clarks por sexismo. Clarks chamou seu novo calçado infantil para garotas de ‘Dolly Babe’. O calçado é uma sapatilha com um detalhe em rosa coberto de corações, é está disponível na versão preta de couro. O sapato masculino para garotos se parece com um tênis, não possui corações, não está disponível na versão de couro preta, e se chama “Líder”. A crítica contra a Clarks é totalmente justificável. Garotas devem também poder usar sapatos tão robustos quanto os que os garotas usam. Garotas também precisam subir em árvores e não deveriam se preocupar com seu solado de couro arranhar. O próprio nome dos calçados demonstram claramente as relações de poder entre os sexos. Se espera de garotas que sejam objetos sexuais, e de garotos que sejam dominantes. Calçados infantis para meninas conseguem ser até mais humilhantes e sexualizados, e são direcionados a grupos bem mais jovens. Existe um número considerável de sites que oferecem saltos altos para bebês de 0 a 6 meses de idade. Os saltos são moles e agem como um tênis. Muitos observadores acharam esses produtos inapropriados.

High Heels, Sexism, Objectification, Female Subordination
O modelo da Clarks’, ‘Dolly Babe’ para garotas. A versão masculina se parece com um tênis, não possui corações e se chama “Líder”.

O curioso é que o bom senso não se aplica quando pensamos no uso de mulheres adultas do salto alto. A maioria das mulheres da vida pública, que fornecem um modelo para garotas e jovens mulheres, âncoras de jornais, líderes de partidos, empresárias, atrizes na televisão, usam sapatos que demarcam sua subordinação de forma até mais direta do que os modelos que a Clarks oferece para as crianças. O saltos altos dessas mulheres causam problemas na mobilidade, de estabilidade e impossibilitam a corrida, inclusive para escapar de agressores, que se torna impossível. Mulheres de salto alto sofrem com limitações de locomoção, como a imposta pela cultura de se atar os pés das mulheres na China. As crianças que convivem com mulheres nesses calçados degradantes são mais propensas a acharem essas práticas normais, se não exemplares.

Antes que alguém argumente que o salto alto serve para empoderar mulheres, é interessante apontar que as mulheres que trabalham na BBC e usam saltos altos, ganham salários consideravelmente menores que seus colegas homens, até para funções idênticas. A etiqueta social que diz que mulheres devem usar sapatos deformantes são está separada da discrepância salarial, mas a reflete. Os poderosos não escolhem obedecer padrões que determinem sua aparência e comportamento e que debilitam sua dignidade e mobilidade.

Se não houve uma pressão considerável para se adequar a esses padrões, é difícil de imaginar que mulheres como políticas e personalidades da televisão escolheriam andar sentindo dor e ser incapaz de correr para alcançar o ônibus. A própria dignidade de mulheres líderes na política é questionada se elas tropeçam ou dispensam os sapatos desconfortáveis de feminilidade, como aconteceu com Julia Gillard, ex Primeira Ministra da Austrália, em mais de uma ocasião. E ainda assim, a forma como esse fetiche de fantasias afeta a autoridade dessas mulheres em público é poucas vezes ressaltada, como se a aparência dessas mulheres fossem apenas um simples fato da natureza, ao invés dos efeitos das forças de poder.

Apresentadoras de alta competência na televisão devem sofrer não somente a indignidade e dor de usar sapatos fetichizados para excitar a platéia masculina, mas a prática de baixar a câmera para que mostrem suas pernas e pés, mesmo que elas estejam por trás da bancada. Elas são sujeitas a outras práticas destruidoras da dignidade da mulher como usar vestidos modeladores, criados para ressaltar o formato dos seios e barrigas e para revelar partes do corpo, como os braços e pernas, áreas que necessitam de depilação. Essa situação está em contraste drástico com a forma como homens, os membros da classe dominante, se apresentam. Jon Snow, por exemplo, no Channel 4 News, usa um termo folgado, o que significa que o formato do seu corpo não está sob escrutínio, e ele pode se mover de forma relaxada e confortável. Seu dignidade é ressaltada pelo fato de seus braços e pernas estarem cobertos. Seus sapatos são baixos, o que possibilita correr atrás do ônibus, caso deseje. A câmera, por vezes, abaixa até a altura de seus pés, mas apenas porque suas meias são um atrativo visual colorido, não com o intuito de excitar sexualmente sua audiência.

High Heels, Sexism, Objectification, Female Subordination
Jon Snow, apresentador do noticiário no Channel 4 News. Photo: Channel 4 News.

As relações de poder envolvidas no uso do salto alto são claras para homens que têm fetiche por sapatos, sobre a maneira como eles pensam sobre elas. Homens que gostam de ver mulheres usando esses sapatos ganham uma excitação sexual sádica a mais ao perceber como esses calçados alteram a postura e o andar das mulheres. Entre eles, está incluso o podólogo William Rossi, que explica que os saltos altos causam em mulheres o efeito “pombo”, em que seus seios são estufados e coluna flutua com a desestabilização. Ter os dois pés em contato com o chão é uma expressão que sugere consciência e praticidade. Perder o contato com o solo, como acontece quando usamos saltos, sugere que as mulheres são consideravelmente vulneráveis e sem poder. Mulheres de salto parecem estar mancando, explica Rossi, e isso apela para as excitações mais cruéis dos homens.

Quando homens usam salto como parte do cross-dressing, eles se sentem sexualmente estimulados pela dor, pelo mancar e pelo masoquismo associado a essas práticas. Muitos sites na internet atendem a esse público de homens e deixam claro o significado de suas atividades. O fetiche de homens com sapatos pode ser uma extensão de um fetiche com pés, e pode também ser bem extremo. É oferecido por esses sites, por exemplo, artefatos como o ‘vagankle’, em que um modelo de silicone do tornozelo feminino contendo uma vagina. Em alguns modelos, a vagina é usada na parte de baixo do pé, na quina do calcanhar. Mulheres não deveriam ter que usar de tais artefatos no ambiente de trabalho. O espetáculo da vida pública de ‘dolly babes’ e ‘líderes’ demonstra a extensão da contínua subordinação feminina, e enfraquece a possibilidade de igualdade para as mulheres.


Tradução do texto de Sheila Jeffreys

Ariana Amara

feminismo e raiva

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