Hostilidade horizontal e ódio às mulheres
Imagem: Fêmea Brava

Precisamos estar atentas a como a rivalidade está minando o movimento de mulheres

Como mulheres vivendo em um sistema patriarcal, muitas vezes sentimos a necessidade de formar grupos exclusivos de mulheres. Seja para que possamos nos organizar politicamente para discutir, entender e desenvolver estratégias para a luta contra nossa opressão sem a interferência de homens; seja para que encontremos espaços minimamente seguros, onde não nos sintamos física e psicologicamente ameaçadas. Isso também serve para que possamos nos expressar mais livremente em atividades onde usualmente somos apagadas e deixadas de lado. Afinal, na sociedade em que vivemos, são eles que, na grande maioria das vezes, são priorizados. Nos espaços políticos, dentro das famílias, dentro das organizações e demais espaços institucionalizados, é a eles que são atribuídas as posições de mais destaque e de tomada de decisões.

O problema é que costumamos romantizar os espaços exclusivos de mulheres, principalmente quando são espaços de construção política, tanto pelo discurso de sororidade, união e amor entre mulheres, difundido pela propaganda feminista, quanto pela promessa de segurança física e emocional que viria da ausência de homens. Porém, muitas vezes, dentro desses grupos, nos deparamos com ataques de mulheres a outras mulheres, com hostilidade e conflitos destrutivos que não vêm de discordâncias que poderiam gerar debates produtivos para o grupo. Mas não é surpreendente que isso aconteça.

A nossa socialização para a competição com outras mulheres é introjetada em nós desde que somos muito novas, quando nos comparam com outras crianças do sexo feminino, comparam nosso comportamento com o de mulheres mais velhas, nos forçam a amadurecer “cedo”, com jogos e brincadeiras que nos empurram para o casamento com homens. A necessidade de aprovação masculina que nos é ensinada como essencial para que sejamos completas é tão forte que é uma realidade inclusive para mulheres que se relacionam sexualmente apenas com mulheres. Nossa rivalidade tem origem no medo de crescermos sós, sem uma família, e sem despertar o interesse de homens. Precisamos ser escolhidas, por isso precisamos ser melhor que as outras mulheres. Essa rivalidade é acentuada pelos avanços do capitalismo e do discurso liberal sobre meritocracia, quando há glamourização e reforço da competitividade e do individualismo, que nos separam cada vez mais da nossa compreensão de classe. Por isso, ainda que estejamos dispostas a rever as características relacionadas à feminilidade que nos são impostas na nossa educação, é muito difícil romper com a rivalidade entre mulheres.

Por isso, é nosso dever como feministas constantemente lembrar que somos todas socializadas dentro de um regime de heterossexualidade compulsória, que nos ensina a priorizar homens, como se nossa validação como seres humanos só se desse a partir da aprovação deles. Porque é a partir dessa lógica que nasce a competitividade entre mulheres. Somos ensinadas a ver outras mulheres como inimigas, somos ensinadas a rivalizar entre nós. Crescemos dentro de um regime que prega ódio às mulheres. E mesmo aquelas que se propõem a priorizar e construir com mulheres não estão livres de reproduzir misoginia, que é a base ideológica da heterossexualidade compulsória e do patriarcado.

Considerando essa dinâmica, foi cunhado por Florynce Kennedy o termo “hostilidade horizontal”, em seu artigo de 1970, Opressão Institucionalizada vs. a Fêmea (1970: 438), impresso na antologia editada por Robin Morgan, Sisterhood is Powerful (Random House, 1970) (1). Hostilidade horizontal, segundo ela, nada mais é do que hostilidade, inimizade e ódio direcionado a mulheres por outras mulheres.

Hostilidade Horizontal é o melhor método do heteropatriarcado para nos manter em ‘nossos devidos lugares’; nós fazemos o trabalho dos homens e suas instituições por eles (…) nos faz direcionar nossa raiva (…) a outras Lésbicas e mulheres, porque sabemos que é mais seguro…(…) funciona para garantir nossa continuada vitimização dentro dos nossos próprios grupos, e nos mantêm silenciadas quando a maioria queremos falar; nos mantêm passivas quando a maioria queria desafiar, porque não queremos ser o alvo da raiva de outra Lésbica. (Julia Penelope, 1992: 60 apud Thompson: 1993). (2 e 3)

A reprodução do ódio às mulheres pelas próprias mulheres, portanto, não se dá por motivos aleatórios, mas sim para a manutenção da nossa opressão. Essa rivalidade trabalha contra a organização de mulheres. Afinal, ela nos distancia do nosso reconhecimento enquanto classe que compartilha uma opressão, que é justamente o primeiro passo para que deixemos de nos conformar com nossa situação no mundo e lutemos por mudanças nas estruturas que mantêm e se utilizam da nossa subordinação. É também a rivalidade entre mulheres que ajuda na manutenção das relações de afeto com nossos opressores para que sejamos mais dóceis à nossa própria exploração.

Segundo Florynce Kennedy, a hostilidade horizontal opera na reprodução da lógica de dominação e poder, que é o modelo que nos é apresentado e o único que realmente conhecemos. Sua principal manifestação é a destruição da reputação de mulheres dentro do grupo por meio da disseminação de rumores que culminam na ostracização da mulher à qual essa hostilidade é direcionada.

O rumor é uma tática patriarcal de guerra. É uma versão distorcida e descontextualizada dos fatos, e quando vem de quem detém o poder, se torna a versão oficial. Através dele, conflitos e violências contra grupos, povos e indivíduos são justificadas, preconceitos são consolidados e também através dele se perpetua a rivalidade feminina. Como toda prática institucionalizada, é tido como natural e amplamente reproduzido entre mulheres, sendo um dos principais veículos da hostilidade horizontal (4).

De acordo com Denise Thompson, em seu artigo Uma discussão sobre o problema da Hostilidade Horizontal (1993) e Jo Freeman, em seu artigo Trashing: O Lado Sombrio da Sororidade (1976) (5), dentro de grupos, essa hostilidade é dirigida principalmente a mulheres que apresentam dois tipos de características: a) as que apresentam uma postura de liderança; e b) as que se colocam muito disponíveis para o acolhimento de outras membras do grupo e, em algum momento, não são capazes de praticar esse acolhimento. Veremos que, em ambos os casos, a hostilidade é direcionada especialmente a mulheres que rompem com aspectos da socialização feminina.

Como parte da misoginia internalizada, as mulheres nos medimos umas às outras com o padrão que o patriarcado nos impõe. Nesse contexto, as mulheres tendem a rejeitar, desvalorizar, negar ou odiar quem fala em voz alta, quem tem suas próprias ideias, quem discute com paixão e sem concessões, quem questiona e vive sua vida com independência e autonomia, atrevendo-se a ser, pensar e agir, fora dos códigos da feminilidade imposta. (Edda Gaviola, 2015) (6)

Mulheres são criadas para que desenvolvam e apresentem apenas certos padrões de comportamento e características de personalidade: docilidade, complacência, submissão; são criadas para que não desenvolvam por completo suas capacidades físicas, emocionais e psíquicas. É isso que a sociedade espera de mulheres. Por isso, não é admissível que mulheres exerçam liderança. Por outro lado, ao mesmo tempo que mulheres são ensinadas a maternar e cuidar de homens e crianças, são ensinadas a rivalizar entre si e não se acolherem umas às outras. Quando alguma mulher exerce esse tipo de cuidado dentro do grupo, as outras mulheres tendem a atribuir a ela um papel consolidado de cuidadora, tanto pela carência de acolhimento entre mulheres, quanto pela atribuição do estereótipo maternal àquela mulher. Esse “cargo” de cuidadora é extremamente difícil de abandonar.

A hostilidade dirigida às mulheres que apresentam alguma capacidade de liderança, assertividade, algum nível de realização ou sucesso, parte da construção da feminilidade, que, como dito anteriormente, faz com que se espere que mulheres sejam dóceis, complacentes, maternais, que não realizem seus potenciais, que não pensem por si próprias. Assim, qualquer mulher que escape desses padrões de comportamento são tidas como agressivas e muitas vezes acusadas de reproduzirem papéis masculinos. É a personificação da competitividade entre mulheres. A mulheres, não é perdoada a fuga da feminilidade. Por esse mesmo motivo, mulheres que a duras penas conseguem se desvincular de alguns papéis sexuais que são atribuídos às mulheres, especialmente mulheres lésbicas, são muito cobradas por serem assertivas demais.

Além disso, por terem abandonado certos aspectos da heteressexualidade compulsória, mulheres lésbicas — principalmente aquelas que visivelmente não apresentam certas características da feminilidade — são vistas com desconfiança e receio por mulheres que se relacionam afetivo/sexualmente com homens, e às vezes até mesmo por outras lésbicas. Assim, são um grupo de mulheres que também também são alvos de ódio e hostilidade.

Isso acontece mesmo entre aquelas que possuem o debate feminista. É comum que se confunda horizontalidade — que é tão prezada dentro de muitos grupos que pretendem escapar da lógica patriarcal de poder — com ausência completa de liderança. Com isso há o impulso de destruir qualquer mulher que apresente essa característica, ao invés de incentivar e desenvolver em outras mulheres a capacidade de se colocar e expor ideias; ou mesmo de ter conversas no sentido de incentivar a construção coletiva dos espaços; ou ainda, de proporcionar conversas esclarecedoras sobre autoconhecimento, silenciamento e preservação de mulheres.

Jo Freeman (1976) aponta que, ao invés de cobrar responsabilidade dessas mulheres que apresentam algum destaque, cobra-se culpa e arrependimento. Como resultado, mulheres passam a temer o próprio sucesso e a deixar de apresentar ideias que seriam de grande ganho para o grupo. E isso serve de exemplo para outras mulheres; se torna uma forma de controle social, ou seja, mulheres deixam de ser proativas e de se colocarem por medo de sofrerem as mesmas consequências.

Como já mencionado, a segunda categoria de mulheres que são comumente vítimas de rumores e detonação são aquelas que costumam maternar, resolver problemas de outras mulheres do grupo, estar com frequência disponíveis. Cria-se ao redor daquela que materna uma expectativa irreal, de forma que quando ela não está disposta ou acessível para ajudar outras mulheres ou está mais preocupada em se engajar em questões políticas ou outras questões do grupo que não são pessoais, outras mulheres sentem que são legítimas as cobranças sobre ela, que ela está falhando, quebrando com o seu papel, e assim ela se torna um alvo supostamente justificável de hostilização. Não é permissível que mulheres digam “não”.

E, muito embora, o discurso sobre a dificuldade de dizer “não” esteja aparentemente fortemente ligado às consciências feministas, dentro dos espaços de militância, o “sim” continua sendo cobrado das mulheres e, mesmo divergências políticas são levadas para o lado pessoal. Desse modo, tanto mulheres que não se encaixam em todos os padrões da feminilidade quanto aquelas que em geral fazem o que é esperado de mulheres não estão imunes a ter suas reputações colocadas em xeque.

Mulheres que erram também são vítimas de hostilidade. Estamos muito mais propensas a aceitar e relativizar erros de homens e não costumamos perdoar mulheres. Mulheres são mais cobradas e mais punidas (7). Essa hostilidade muitas vezes culmina em isolamento e demonização da mulher em questão. Essa mulher se torna automaticamente indefensável. Outras mulheres não vêm em sua defesa por medo de sofrerem também isolamento, e as que ousam defendê-la de fato têm esse destino. As ações hostis do grupo são relativizadas e legitimadas, enquanto as ações da mulher à qual a hostilidade é direcionada são julgadas de forma desproporcional. Não é raro que essa mulher esteja sendo usada como bode-expiatório para outros problemas do grupo. Costumamos rotular mulheres por seus erros, e rotular é desumanizar. Mulheres que sofrem hostilidade horizontal muitas vezes passam a acreditar no que dizem sobre ela e que são prejudiciais para o grupo. Com frequência passam a internalizar sua própria desumanização.

A hostilidade horizontal é baseada em sentimentos, em questões morais e subjetivas, não em uma análise baseada em fatos e sem julgamentos das ações das mulheres. Embora ela se coloque, no discurso, muitas vezes como construtiva, a hostilidade horizontal machuca e prejudica a coletividade, já que, na prática, não vem por uma vontade genuína de resolver conflitos.

Podemos nos fazer algumas perguntas para diferenciar hostilidade horizontal de críticas legítimas. Essa crítica é realmente necessária? É seu papel realizar essa crítica? Ela está sendo feita a partir de uma reflexão sem julgamentos com objetivo de construir uma relação saudável dentro do grupo? Ela está sendo feita diretamente à mulher, de forma cuidadosa e não pública, após essa reflexão? Ou ela está sendo feita em forma de rumores, possibilitando que a reputação da mulher seja destruída e que ela se torne odiada? É a ação da mulher que está sendo criticada, ou quem ela é? É importante ter em mente que a hostilidade horizontal não se sustenta dentro do grupo sem que se torne uma ação coletiva.

Ter cuidado ao falar e agir com outras mulheres não significa maternar e não significa que precisamos ser amigas de todas as mulheres ou que aceitemos de forma acrítica as ações de mulheres. Significa que há grandes chances de que nossas ações e sentimentos com relação a outras mulheres tenham base na nossa misoginia internalizada.

O ódio a mulheres é também baseado no auto-ódio. Isso fica claro quando passamos a nos entender enquanto classe. Numa sociedade em que somos perpassadas por misoginia, é prática feminista e uma necessidade que façamos uma autoanálise constante, que deixemos de julgar e rotular mulheres. É necessário que direcionemos nossa raiva não a mulheres, mas ao sistema que nos oprime. Enquanto feministas, comprometidas com a luta pela libertação de todas as mulheres, com o despertar crítico de mulheres, com a criação de uma nova sociedade, precisamos estar constantemente atentas para que a misoginia e a hostilidade horizontal não destruam nosso próprio movimento por dentro. Precisamos ter em mente as incoerências entre nossos discursos e nossas práticas e caminhar em direção a uma genuína amizade política entre mulheres. Edda Gaviola, em Notas sobre amizade política entre mulheres (2015), diz:

A amizade política, como proposta coletiva, torna-se mais difícil e exige níveis mais elevados de análise e trabalho. Porque exige que estejamos alertas, despertas, contundentes e atentas às dinâmicas pessoais e interpessoais que ocorrem nas relações construídas entre as mulheres.

A amizade política entre mulheres se constrói com base numa revisão constante da nossa auto misoginia, na construção de cumplicidade com outras mulheres, no respeito mútuo, na recuperação de uma genealogia das mulheres.

(…) volto a dizer que a afirmação da não existência da sororidade é nada mais do que chover no molhado. Sabemos que ela não existe, mas que está no horizonte, e por isso defendemos o Movimento de Libertação de Mulheres como único caminho para emancipação política e para o despertar crítico feminista, a fim de alcançarmos a verdadeira autonomia, por meio de uma Coletividade que considera a história das mulheres. Por meio de uma coletividade ética e compromissada única e exclusivamente com a vida de mulheres (Fêmea Brava, 2018). (8)

É necessário que priorizemos mulheres. Que dediquemos nossos afetos e energias a mulheres. Só assim será possível uma união verdadeira entre mulheres, que é a força para destruir o patriarcado.

Texto escrito em co-autoria com Selvática

Referências

(1) Morgan, Robin (1970). “Sisterhood is powerful: An Anthology of Writings from the Women’s Liberation Movement”. Disponível aqui: <https://www.slideshare.net/Elssaio1124/pdf-sisterhood-is-powerful-an-anthology-of-writings-from-the-womens-liberation-movement-by-robin-morgan>. Acesso em: 10/12/2020.

(2) Penelope, Julia (1992). ‘Do We Mean What We Say? Horizontal Hostility and the World We Would Create’, in Penelope, J., Call Me Lesbian: Lesbian Lives, Lesbian Theory Freedom, CA: The Crossing Press.

(3) Thompson, Denise (1993). “O Problema da hostilidade horizontal”. Disponível aqui: <https://medium.com/arquivo-radical/o-problema-da-hostilidade-horizontal-a5d046b96968>. Acesso em: 10/12/2020.

(4) Franulic, Andrea; Gamboa, Jessica (2014). “De aquí no sale: reflexiones sobre el rumor”. Disponível aqui: <https://andreafranulic.cl/misoginia/de-aqui-no-sale-reflexiones-sobre-el-rumor/>. Acesso em: 17/12/2020.

(5) Freeman, Jo (1976). “Trashing: O lado sombrio da sororidade”. Disponível aqui: <https://we.riseup.net/radfem/trashing-o-lado-sombrio-da-sororidade-jo-freeman>. Acesso em: 10/12/2020.

(6) Gaviola, Edda (2015). “Notas sobre a amizade política entre mulheres”. Tradução Fêmea Brava. Disponível aqui: <https://medium.com/qg-feminista/notas-sobre-a-amizade-pol%C3%ADtica-entre-mulheres
-e88569fde718>. Acesso em: 10/12/2020.

(7) Sobre isso: Brava, Fêmea (2019). “A amnésia é do Patriarcado; mas como estamos usando nossa memória”. Disponível aqui: <https://medium.com/qg-feminista/a-amn%C3%A9sia-%C3%A9-do-patriarcado-mas-como-estamos-usando-nossa-mem%C3%B3ria-46898c77b23c> . Acesso em: 10/12/2020.

(8) Brava, Fêmea. “Sororidade, utopia, continuum lésbico e a amizade política entre mulheres”. Disponível em: <https://medium.com/qg-feminista/sororidade-utopia-continuum-l%C3%A9sbico-e-a-amizade-pol%C3%ADtica-entre-mulheres-9e4cfb1340fb>. Acesso em: 10/12/2020.

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