Resistências à consciência
Encenação das membras da W.I.T.C.H. (Women’s International Terrorist Conspiracy from Hell), c. 1968–70. Fonte desconhecida.

Como enganamos a nós mesmas e umas às outras

Pensar que nosso homem é a exceção e, portanto, nós somos a exceção dentre as mulheres.

Pensar que soluções individuais são possíveis, que não precisamos de solidariedade e de uma revolução para nossa libertação.

Pensar que a libertação das mulheres é terapia. Isso, pertença você ou não à organização, pressupõe que você e outras podem encontrar soluções individuais para problemas, porque essa é a função da terapia. Além disso, essa afirmação expressa um sentimento anti-mulher ao pressupor que, quando mulheres se juntam para estudar e analisar sua própria experiência, significa que estão doentes, mas quando chineses pobres ou guerrilhas da Guatemala se unem e usam um método idêntico, são revolucionários.

Pensar que algumas mulheres são espertas e algumas mulheres são burras. Isso impede que as mulheres que pensam que são inteligentes e as mulheres que pensam que são burras conversem umas com as outras e se unam contra um opressor comum.

Pensar que, porque temos um privilégio de educação formal e conseguimos falar de maneira abstrata, de alguma forma estamos imunes a sentirmos opressão diretamente e falarmos sobre isso honestamente, e, portanto, pensamos sobre experiências pessoais como algo baixo na escala de valores (valores de classe).

Pensar que mulheres consentem à própria opressão (ou que qualquer pessoa o faz). Isso coloca a culpa no grupo oprimido em vez de colocar na classe opressora, a qual, em última análise, usa de força bruta para manter o grupo oprimido onde está. É uma afirmação anti-mulheres e anti-povo.

Pensar que apenas instituições oprimem mulheres em oposição a outras pessoas. Isso implica que você não identificou seu inimigo, porque instituições são apenas uma ferramenta do opressor. Quando o opressor é impedido, ele não pode mais manter suas ferramentas e elas se tornam inúteis. As instituições atuais e nossos sentimentos relativamente a elas devem ser analisados para que a gente compreenda o que nós queremos ou não queremos usar na nova sociedade.

Pensar em termos de eles e nós. Isso pressupõe que você está se colocando separadamente ou à parte de mulheres (o povo). Ao fazer isso, você negligencia reconhecer sua própria opressão e seus próprios interesses em comum com outras pessoas, assim como seu papel na revolução.

Pensar que a supremacia masculina é apenas um privilégio psicológico com benefícios de “ego” em oposição a privilégios de classe com benefícios econômicos e sexuais. A supremacia masculina pressupõe uma quantidade considerável de variações individuais entre homens, permitindo, portanto, que você encontre uma solução individual para o problema.

Pensar que os relacionamentos entre homens e mulheres já são igualitários e, assim, mergulhar-se em fantasias utópicas de amor livre apesar do fato de que as condições objetivas o negam. O amor entre homens e mulheres, livre ou não livre, é milenar, não real, e se o quisermos, teremos que lutar por ele.

Pensar que você pode educar o povo. Isso pressupõe que você é esclarecida e você conseguirá uma revolução indo por aí ensinando a outras pessoas o que você sabe. A educação não traz revoluções; a consciência da própria opressão e a luta talvez tragam. Infelizmente, educação formal e consciência política não costumam coincidir. Mesmo a educação formal em marxismo-leninismo costuma fazer as pessoas pensarem que sabem mais do que realmente sabem. Quando pensamos no que politiza as pessoas não é tanto sobre livros ou ideias, mas sobre experiência.


Tradução do artículo Resistances to Consciousness, de Irene Peslikis, incluída na antologia Sisterhood is Powerful, de Robin Morgan.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui