lua nova

eu me lembro o dia em que fiquei menstruada pela primeira vez na vida. não sabia se tinha a tal da fase da lua certa no céu, mas escorreu sangue de cima pra baixo. não muito, mas o suficiente para sujar a calcinha de uma cor só que cobria todo meu bumbum de menina. eu tinha sentido uma dorzinha bem antes de ir ao banheiro, mas achei que fosse por causa do suco tang tomado em excesso e, que quando passa muito tempo no corpo da gente, se infla feito bexiga d’água pedindo para ser estourada dentro da privada. também pensei que fosse dor de tanto carregar comida pesada, com a diferença que aquela dorzinha não cutucava perto do umbigo, tampouco a linha horizontal que corta o pé que barriga tem. essa dor foi em direção às costas, onde ficam aquelas duas covinhas que eu nunca gostei muito de ter — só de uma, a da bochecha. ainda bem que aprendi a diferença de uma dor pra outra. até aquela que junta estômago e coração transformando eles em borboleta. essa dor é a que mais dói. pra todas, a primeira solução, minha mãe
dizia, é ir pro banheiro ficar lá sentada até que uma hora a dor sai pelo cano. naquele dia então fiz isso. eu sempre impliquei com a cara do banheiro da casa do jardim marisa. ele era escuro e frio, num tinha nem azulejo pra enfeitar a parede e muito menos cortina para fazer a barragem fraca da água de chuveiro que, toda vez, deixava o chão feito poça de rua. a janela devia estar mais alta que o sofá de nuvem de onde o sol senta pra nos observar. entrava pouca luz, mas em compensação, muita barata. vira mexe eu entrava lá e me deparava com uma tão escura quanto aquele piso esquisito. durante a noite, meu medo não era levantar no escuro e ver espírito, mas ter que ir ao banheiro topar os olhos naquelas asquerosas. acho barata bicho feio. que por um tempo foi meu apelido de tanto que a temia. era engraçado. minha prima liliane foi quem me deu. mas eu era bem diferente delas. acho que do tipo barata bonita, se é que existe — talvez eu fosse exceção. eu tinha 11 anos já num dia qualquer dentro de algum mês daquele 2001. de tarde, longe de qualquer barata ou espírito, passei pelo primeiro cômodo de casa, a cozinha, que só tinha dois no total; quatro-e-cozinha (ps: tenho uma dó de banheiros! adulto num conta como parte da casa, e olha que tem vezes que passamos mais tempo lá pensando na vida com o bumbum que com a cabeça deitada no travesseiro. vai entender!). abaixei o shorts, e depois a calcinha, que de uma cor só, acabou ganhando uma pincelada de outro tom que não tem no arco-íris. sim, era vermelho como o sangue que é sugado de uma agulha, mas tinha uma tonalidade meio amarronzada. até hoje ele continua tipo assim. deve ser porque eu andei muito descalça no barro, ou porque sou morena mesmo. engraçado que com o passar dos anos fui ficando cada vez mais pálida. espero que sobre um pouco de cor pra quando ficar velhinha e meu rosto não sumir. o branco dos meus olhos ficaram maiores quando os arregalei ao ver aquele sangue-meio-marrom-cor-da-minha-pele pintado na calcinha. foi ali que me tornei instantaneamente a frase que toda menina espera um dia pra ser:

“— virei mocinha”.

de pronto sai do banheiro e contei pra minha irmã que tava lá parada em frente a pia, lavando a louça de irmã mais velha. “— ai, thamiris, desceu pra mim” / “— virei mocinha” / — e agora o que eu faço?!” / “— ai, não acredito! “— vou ligar pra mãe”, ela falou. confesso que tive medo. não da reação da minha mãe, mas do que aquele momento representaria dali em diante. “larissa-tinha-virado-mocinha”. por causa da minha intuição, a notícia logo se espalhou pela família. todo mundo ficou sabendo. a primeira depois da minha irmã e da minha mãe deve ter sido a tia lucia. tia lucia morava no mesmo quintal, só que em cima da gente, numa outra casa que tinha lá sobrado. tia lucia sempre foi a tia especial das mais de sete que eu tinha. ela era minha madrinha, mas a de coração, porque eu nunca fui batizada na igreja, ao contrário da minha irmã. nesse tempo eu me importava com isso. todas as minhas amigas eram batizadas, menos eu. me sentia meio diferente, mas não menos abençoada. aliás, perto da tia lucia nunca falei muito o nome de deus. por causa dela, eu frequentava o budismo de nichiren daishonin. na “religião”, como a gente chamava, eles não se importavam se alguém era batizado não, mas ligavam se a gente ficasse pondo o nome de deus pra falar. “— fica com deus”, ninguém dizia. tinha que pedir as coisas pro gohonzon; que não é um buda, mas o pergaminho que fica dentro do oratório e que a gente reza olhando pra ele, com a palma das mãos juntas — isso sim era igual que nem os católicos fazem. acho que depois da tia lucia, foi a vez do meu tio kalunga e da dulce saberem. a gente morava quase que na mesma casa, porque quem tinha construído tudo aquilo que era emprestado de aluguel, resolveu dividir uma casa em duas usando uma porta. a casa da frente, era minha, a casa de trás, do tio kalunga. que essa porta não dava pra abrir de jeito nenhum, porque a fecharam de um jeito que não tinha fechadura, só a moldura de uma porta esquecida no tempo. a bárbara, minha primeira amiga de infância, deve ter sido a primeira amiga que contei usando minha voz. a bárbara era mocinha quando ficou sabendo que eu tinha virado mocinha também; ela era um ano mais velha que eu. minha mãe, vinte-e-quatro-anos-mais-velha, deve ter feito uma cara bem de mulher-adulta-impressionada quando chegou em casa e viu que, ao invés de uma mocinha e uma menina, ela passava a ter duas mocinhas, uma de 14 e uma de 11 anos. no mínimo uma surpresa pra qualquer mulher-mãe. imagina chegar em casa num dia comum de trabalho e descobrir que uma de suas filhas cresceu assim sem você ver? — vou saber disso um dia quando tiver as minhas filhas. de qualquer jeito, tenho certeza que ela levou numa boa, pois minha mãe sempre foi tranquila quanto à esses assuntos de adulto. ela era tão tranquila que quase nunca falava deles abertamente. talvez porque minha irmã, desde menina-pequena, mostrou que tinha muito mais pensamento de mocinha-mais-velha do que só de menina, ou de mocinha-jovem. eu, sempre fui tão tranquila quanto ela. não à toa, não me assustei tanto com o fato de saber que ia sangrar todo mês dali pra frente, afinal, os cantos roídos dos meus dedos sangravam quase todo dia de tanto que os feria com a farpa do dente; já nem ligava. me importava sim com o sangue (que ninguém sabia), mas escorria do meu coração pelos amores que me machucavam sem saber. os meninos, aliás, até a onde a professora falou, só viravam mocinhos quando nascesse pelo no saco, e nenhum dos que eu gostava deveria ter. não por que eu já tivesse visto, mas porque eles sempre se comportaram mais como meninos-chatos e nunca como mocinhos-legais. pode ser porque eles preferiam as mocinhas que sabiam beijar de língua. eu nem beijar desse jeito tinha beijado ainda. a não ser os selinhos que dava nas minhas bonecas que, aliás, nunca viraram mocinhas como eu, pois deus ou o gohozon (caso elas fossem budistas que nem eu era), fizeram elas para serem bonecas-de-menina-para-sempre.

dentro do ano 2021 faz 20 anos que virei mocinha de corpo. não sei, mas tenho a sensação, às vezes, de que continuo tendo muito daquela menina de antes de virar mocinha. devo ter guardado ela em alguma parte de mim, talvez no sorriso largo da mulher-de-corpo-adulto que me tornei. ou no jeito meio ingênuo que herdei das cartas que escrevi aos montes às minhas amigas. até pra bárbara eu mandava. parei porque deixamos de nos falar no segundo colegial. sabe, a melhor coisa depois de ter virado mocinha, foi virar mulher-adulta. não porque eu tenha peitão, já sei beijar de língua — ou fazer bem mais que isso com ela. foi, porque, quem decidiu que eu devia parar de comer alimentos que tem sangue de bicho que decerto iam parar na minha menstruação; não foi minha mãe, foi euzinha! quem decidiu que eu devia parar e tomar aquele remédio feito pra controlar corpo-de-mulher por 21 dias; não foi minha mãe também, foi eu! agora menstruo todo mês só com meu próprio sangue, e de acordo com a tal da fase da lua certa pra isso — a nova.

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