Esse artigo, de uma ativista feminista alemã, Manuela Schon, foi primeiro publicado em alemão no site Abolition 2014 e depois traduzido para inglês por Elisabeth Lauer.

Salvo onde um link indique de outra forma, todas as citações de sobreviventes são do livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade [Narrativas da Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio Sexual], editado por Caroline Norma e Melinda Tankard Reist.

Ela foi obrigada ou escolheu?

“Fomos quebradas. Fomos dilaceradas. Fomos de $20 a $5,000 e a sensação é a mesma. A gente se sente como $2. Não existe diferença: classe alta, classe baixa. Já fiz de tudo e ainda me sinto a mesma coisa.” – Ne’cole Daniels

“Eu fui uma acompanhante de luxo, e dizíamos a nós mesmas que o que estávamos fazendo era tão melhor que o que prostitutas faziam nas ruas e em bordéis sórdidos. Mas o fato é que fazíamos exatamente a mesma coisa: sexo de mentira em troca de dinheiro de mentira. Não fazia diferença se os lençóis eram limpos.” – Tanja Rahm

Nos debates em torno da prostituição, as mulheres muitas vezes são divididas em dois grupos: aquelas que foram obrigadas a se prostituir e aquelas que “escolheram” isso. A definição de “força” ou “coerção” pode variar, mas a lógica é sempre a mesma. Há mulheres forçadas a se prostituir por meio da violência ou da coerção econômica e elas merecem a nossa compaixão. Depois há aquelas que “livremente” escolheram isso, mesmo que tenham alternativas – por exemplo, se são nativas em um país como a Alemanha e têm acesso ao serviço social e a benefícios de desemprego – diferente da mulher romena pobre, que não recebe qualquer apoio do estado e vive numa favela em seu país de origem. Ou elas possuem um diploma universitário ou aprenderam algum tipo de comércio “decente”. Aos olhos de alguns, essas mulheres são responsáveis pela sua própria situação e não merecem a nossa simpatia.

“A REALIDADE É QUE AS FEMINISTAS RADICAIS ESTÃO NO LADO CERTO DA HISTÓRIA AQUI, E ELAS SÃO AS ÚNICAS FEMINISTAS QUE TÊM A VISÃO DE CONJUNTO DOS MOTIVOS PELOS QUAIS ISSO [A PROSTITUIÇÃO] EXISTE. AS FEMINISTAS SOCIALISTAS TÊM MEU RESPEITO, MAS ELAS NÃO TÊM O QUADRO COMPLETO AQUI. A PROSTITUIÇÃO NÃO EXISTE COMO CONSEQUÊNCIA DA PRIVAÇÃO ECONÔMICA DAS MULHERES. A POBREZA É UM FATOR DE APOIO. NÃO UM MOTIVO. OS FATORES DE APOIO NÃO SÃO MOTIVOS. ELES SÃO SIMPLESMENTE FATORES DE APOIO. A PROSTITUIÇÃO EXISTE POR UM ÚNICO MOTIVO; AQUELE MOTIVO É A DEMANDA MASCULINA. NENHUMA POBREZA SERIA CAPAZ DE CRIAR A PROSTITUIÇÃO SE NÃO FOSSE PELA DEMANDA MASCULINA” – RACHEL MORAN

Ao debater essa questão, nós negligenciamos o fato de que mesmo mulheres brancas, que estudam em universidades podem viver na pobreza. Elas, também, podem vir de famílias disfuncionais, ter vivenciado violência sexual, física ou emocional e podem estar encenando aquele trauma dentro da prostituição. Como Rachel Moran nos mostra – olhar para a prostituição puramente da perspectiva econômica nos faz perder de vista fatores corroboradores vitais.

“Andrea Dworkin uma vez disse que o incesto é o campo de treinamento para a prostituição. Nas minhas entranhas, eu sabia ser isso verdadeiro. […] Fazer meu primeiro truque foi nada mais do que ser estuprada pelo [meu padrasto].” – Jacqueline Lynne

“Situações traumáticas podem ser viciantes pois causam uma liberação maciça de adrenalina – e isso vicia. Além do mais, uma situação violenta é algo bem reconhecido para pessoas que vivenciaram o tanto de violência que há na prostituição. Aprendi desde a primeira infância: o lugar onde sinto medo, sou machucada e sou degradada é o lugar aonde pertenço. Esse é o lar. Por isso até hoje ainda tenho que lutar em situações que me colocam em perigo e decidir dizer não ao perigo e ir embora. As situações são uma bosta, mas familiares; eu as conheço. Situações sob as quais as pessoas são gentis comigo, não gritam, não espancam, não abusam de mim, são assustadores para mim. Prontamente me sinto inferior. Minha alma dá o sinal: ‘Algo está errado aqui. Isso é estranho.’ A prostituição é como automutilação. Não, a prostituição É uma automutilação.” – Huschke Mau

De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu o corpo serve como um auxílio de memória para qualquer ordem social: “O que o corpo aprendeu não nos pertence da mesma forma que o conhecimento sobre o qual se pode refletir, mas se torna literalmente nós mesmos”. Decorre disso que as estruturas de desigualdade social ou as as hierarquias sexuais não necessariamente precisam ser aplicadas por meio da violência ou da força física, mas que são internalizadas individual e coletivamente de forma inconsciente.

“Toda vez que um homem entrava no bordel, me pagando para satisfazê-lo, eu sentia que tinha algum valor. Não por causa dele, mas por causa do que estava acontecendo, por causa do dinheiro. O dinheiro me seduziu por muito tempo. Sentia que eu de fato valia alguma coisa.” – Tanja Rahm

“Você pode imaginar o quão viciante é o dinheiro e como um emprego normal como faxineira, enfermeira ou mesmo recepcionista seria pouco atraente para alguém que tenta deixar a indústria do sexo mas não consegue se ajustar a uma renda comparativamente baixa. Também algumas mulheres são viciadas na atenção. Eu sei que eu era. Eu amava ser a escolhida entre todas as outras quando eu era jovem e operada.” – Linda

“Deixei o quarto com dinheiro na minha mão. Achei que fosse dinheiro ‘fácil’. Eu me sentia livre, sem amarras. Eu tinha uma sensação de pseudo-empoderamento sexual. Ao menos eu não tinha que fingir que estava apaixonada. Eu não estava presa em um relacionamento abusivo em curso, ou foi assim que achava.” – Jacqueline Lynne

Para uma pessoa que nunca vivenciou abuso, isso pode a princípio parecer estranho, mas é uma causa recorrente para que mulheres sobreviventes tenham uma sensação de empoderamento por causa da prostituição – com a mentalidade de “já que os homens tiram de mim o que eles querem mesmo, eu vou exercer algum grau de poder e pelo menos fazer com que paguem por isso”.

É verdade que as mulheres empobrecidas perfazem uma proporção maior daqueles em situação de prostituição do que mulheres de famílias abastadas. Contudo, nem toda mulher pobre possui a mesma propensão de acabar na prostituição. Os estudos têm demonstrado que mesmo as mulheres traficadas das favelas do Leste Europeu têm maior probabilidade de serem oriundas de uma experiência familiar disfuncional.

Hoje o mercado de prostituição alemão está saturado de mulheres pobres e estrangeiras. Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990 a maioria das mulheres prostituídas eram alemãs. Mas as mulheres estrangeiras, que enfrentam opressão tanto de raça quanto de classe, são bem mais fáceis de chantagear e por isso a gama de etnias em oferta nos bordéis se expandiu ao longo dos últimos anos – sem dúvida auxiliado pelo impacto de temas racistas na pornografia sobre as demandas sexuais dos compradores de sexo. Já que as mulheres alemãs em comparação possuem mais opções para ganhar a vida (embora o seguro desemprego não garanta isso necessariamente), elas não mais perfazem a maioria das mulheres em situação de prostituição.

Prostituição como o re-encenação de trauma anterior

Se começarmos a reconhecer a prostituição como comportamento de automutilação e re-encenação do trauma vivenciado por mulheres prostituídas, também precisamos indagar se as mulheres alemãs de classe média não vivenciam também abuso em áreas da sociedade (por exemplo a promiscuidade via sites de namoro; sem recompensa monetária dentro do BDSM; ao buscar validação em reality shows ou redes sociais etc.).

“É DIFÍCIL SE VALORIZAR QUANDO VOCÊ JÁ FOI VENDIDA PELO PREÇO DE UM MAÇO DE CIGARROS.” – JADE

“Na época eu não entendia o mal que os homens faziam a mim, à minha sexualidade, à minha confiança, à minha autoestima e em última análise a minha alma. […] A consequência pesada de ser prostituída e abusada sexualmente era que eu não podia confiar nas pessoas e eu não podia exercitar uma forma saudável de intimidade.” – Kat

A sensação de empoderamento ou agência é, entretanto, uma ilusão. Uma ilusão, que necessita ser mantida viva a qualquer custo, a fim de sobreviver a realidade cotidiana da prostituição.

“Quando você está na prostituição, você internaliza a violência. Você escuta as mesmas coisas repulsivas de novo e de novo quando a chamam de puta, vadia, burra ou nojenta. Mas ainda assim você defende a sua ‘livre escolha’ e diz que a prostituição é só um trabalho comum, porque perceber a verdade é esgotante demais. Você se dissocia dos homens e das ações deles, porque ninguém possui o psique para estar presente nos atos de violência da prostituição.” – Tanja Rahm

A longo prazo sua auto-estima é destruída e a sua autopercepção se transforma gradualmente no que os compradores de sexo estão projetando nela.

“A PALAVRA ‘PROSTITUTA’ NÃO IMPLICA NUMA ‘IDENTIDADE MAIS PROFUNDA’: É A AUSÊNCIA DE UMA IDENTIDADE: O ROUBO E SUBSEQUENTE ABANDONO DE SI.” – EVELINA GIOBBE

A pessoa prostituída – por meio dos compradores de sexo – é transformada numa “não-pessoa”. A personalidade dela é irrelevante, ela é objetificada e convertida em ferramenta para a masturbação dele, sobre a qual ele se descarrega. Não importa se ele paga a noite com um maço de cigarro ou cinco mil euros. Também não importa se ela está rodando a bolsinha na rua ou é uma “acompanhante de luxo”. A natureza do ato permanece inalterada.

“CADA MENINA TEM UM NOME DE TRABALHO. […] ESSES NOMES SÃO ALTER EGOS, NÃO UM NOME FALSO PARA PROTEGER A PRÓPRIA IDENTIDADE COMO EU PENSAVA NO INÍCIO. ERA COMO NOMES DE PALCO PARA AJUDÁ-LAS A SE ENCAIXAR NA PERSONAGEM E FUGIR DE SI MESMAS.” – JACQUELINE GWYNNE

“NOS QUARTOS, VOCÊ PRECISA FINGIR QUE GOSTA DO SEXO. […] PARA QUE OS CLIENTES VOLTEM, CADA MENINA PRECISA NÃO APENAS FAZER SEXO, MAS REALMENTE FINGIR QUE GOSTA DA EXPERIÊNCIA TODA. […] EU SABIA COMO FINGIR, POIS ME SENTIR ENTORPECIDA E MORTA SEXUALMENTE PERTO DE HOMENS. […] EU APRENDI A FAZER SEXO ASSISTINDO AO PORNÔ. […] EU SABIA QUE AS MULHERES DO PORNÔ ESTAVAM ATUANDO PORQUE A PENETRAÇÃO SEMPRE TINHA SIDO DOLOROSA PARA MIM.” – LINDA

“Acho mesmo que nossas visões são legitimadas pelo fato de que não temos mais necessidade emocional de defender a indústria. Eu tive muita dissonância cognitiva quando estava no ramo.” – Rae Story

As mulheres prostituídas têm de fazer de conta para se proteger. Os compradores de sexo esperam que ela os faça como se ela gostasse daquilo. O orgasmo feminino é parte do jogo de poder masculino ou como Bourdieu dizia: “O prazer masculino é, em parte, o poder de dar prazer”. Além disso pode-se supor que os compradores de sexo precisam disso a fim de acalmar os ânimos sobre as próprias ações deles, para que eles possam se enganar de que o outro lado deseja a interação sexual tanto quanto eles desejam – e que eles não estão em lugar disso cometendo estupro. Como mostram as pesquisas (por exemplo, nessa de Farley et al): os compradores de sexo sabem exatamente o que estão na verdade fazendo às mulheres prostituídas quando eles compram acesso a elas.

“[A prostituição] é o uso do corpo de uma mulher por um homem para sexo, ele paga dinheiro, ele faz o que ele quer. O minuto em que você se afastar do que realmente é, você se afasta da prostituição em direção ao mundo das ideias. Você se sentirá melhor; você se divertirá mais; há muito a se discutir, mas você discutirá ideias, não a prostituição. A prostituição não é uma ideia. É o uso do corpo de uma mulher por um homem para sexo, ele paga dinheiro, ele faz o que ele quer…É a boca, a vagina, o reto, penetrados em geral por um pênis, às vezes mãos, às vezes objetos, por um homem e depois outro e depois outro e depois outro. É isso que é.” – Andrea Dworkin

Mudando o foco para o comprador de sexo

No debate sobre quanta “escolha” ou “agência” as mulheres prostituídas realmente possuem, sempre se ignora que a natureza da prostituição não muda a partir da posição do comprador de sexo — independentemente do grau real ou percebido de consentimento da parte da pessoa prostituída: a compra de atos sexuais que não aconteceriam em 99,9% dos casos sem a recompensa material (ou de outro tipo). É por isso que a prostituição sempre é a encenação de atos sexuais que não são verdadeiramente desejados e precisam ser classificados como violência sexual. A compra dos atos sexuais está inteiramente centrada no desejo da pessoa compradora ao qual a pessoa prostituída tem de se submeter (mesmo que ela seja uma dominatrix).

Por que mesmo concordamos com esse debate sobre escolha ou força e os graus em que qualquer uma delas pode se aplicar para a pessoa prostituída? Por que em vez disso não apontamos para o fato de que 100% dos compradores de sexo livremente escolhem comprar acesso sexual a pessoas prostituídas?

“QUANDO FALAMOS SOBRE PROSTITUIÇÃO, SÃO PRINCIPALMENTE AS MENINAS E MULHERES QUE SÃO COLOCADAS NO CENTRO DAS ATENÇÕES, E ESPERA-SE QUE JUSTIFIQUEM POR QUE NÓS FOMOS PARAR NA PROSTITUIÇÃO. NÃO SE PEDE QUE HOMENS EXPLIQUEM POR QUE ELES PREJUDICAM AS MENINAS E POR QUE ELES USAM OS CORPOS DE MENINAS E MULHERES EM SITUAÇÃO DE PROSTITUIÇÃO. […] AGORA EU SEI QUE NÃO PRECISO DE QUALQUER JUSTIFICATIVA PELA MANEIRA COMO OS HOMENS ME TRATARAM. ELES ME MOLESTARAM, ELES ME ASSEDIARAM SEXUALMENTE, NÃO FOI A MINHA RESPONSABILIDADE E EU NÃO PRECISO EXPLICAR POR QUE ELES PROSTITUÍRAM E MACHUCARAM SEXUALMENTE UMA MENINA. NUNCA A CULPA É DA MENINA E SEMPRE SÃO AS CIRCUNSTÂNCIAS DA MENINA QUE A LEVARAM A SER PROSTITUÍDA. […] NÃO DEVEMOS JAMAIS JULGAR OU APONTAR O DEDO PARA AS MULHERES QUE ESTÃO NO COMÉRCIO SEXUAL, QUALQUER QUE SEJA A ANÁLISE DELAS SOBRE A INDÚSTRIA E SEUS IMPACTOS.” – KAT

Em vez disso, colocamos as mulheres prostituídas numa situação em que esperamos que ela nos explique por que ela está se prostituindo. Esperamos que ela revele a história de vida dela, para que possamos julgar se ela merece a nossa compaixão e solidariedade, ou não. Para que possamos julgar se ela teve outras opções, ou não.

Quem se beneficia quando apontamos dedos para mulheres (que foram condicionadas desde a infância a se submeter aos privilégios sexuais dos homens) e dizemos “eu tenho todo esse amor próprio e jamais me prostituiria”? O que estamos comunicando a ela quando afirmamos que preferiríamos heroicamente morrer de fome a dar aos homens acesso sexual aos nossos corpos quando estamos em estado de desespero? Não é compreensível que as mulheres, estigmatizadas socialmente dessa maneira, desenvolvam uma postura desafiadora e tentem criar uma autoimagem de “puta forte e empoderada”, que “não abre as pernas de graça” a fim de proteger a autoestima dela?

Não são as mulheres em situação de prostituição que se rebaixam, mas os homens que compram mulheres e não as veem como seres humanos inteiras e completas de igual valor.

Dissociação e Estresse Pós-Traumático

“EU TIVE QUE CONTAR A MIM MESMA MUITAS MENTIRAS, PARA QUE MINHA CABEÇA NÃO QUEBRASSE EM MIL PEDAÇOS E EU ME ENLOUQUECESSE POR CONTA DO ABUSO CONTÍNUO QUE ESTAVA ACONTECENDO DE NOVO E DE NOVO E DE NOVO, E A VIOLÊNCIA E TUDO O MAIS QUE VINHA JUNTO COM A PROSTITUIÇÃO.” – AUTUMN BURRIS

“MENTALMENTE, A SUA IDENTIDADE FICA BAGUNÇADA, VOCÊ RECEBE OUTRO NOME, VOCÊ VIRA OUTRA PESSOA NA PROSTITUIÇÃO. VOCÊ MUDA DA VERSÃO VERDADEIRA PARA FALSIFICADA. EU ESTAVA DISSOCIADA DA REALIDADE. EU TINHA ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO, ANDAVA POR AÍ COMO SE FOSSE SONÂMBULA.” – JADE

“A primeira coisa que nós seres humanos fazemos em qualquer situação intolerável e inescapável é apagar a nossa realidade subjetiva. Evadimos e evitamos aceitar a natureza da própria situação. […] Com o advento dessa nova ideologia [do trabalho sexual], entregaram às mulheres todo um novo conjunto de ferramentas com as quais enganar a si e aos outros.” – Rachel Moran

Quando você não vê escapatória, a única estratégia é minimizar o que está acontecendo com você. Como mencionado anteriormente, essa visão positiva forçada sobre a prostituição por si só não leva a qualquer auto-empoderamento material palpável, mas sim aprofunda a destruição do self.

“Sinto como se eu tivesse tão pouco de ‘mim’ sobrando porque passei tanto tempo da minha vida fingindo ser outra pessoa. Anos depois ainda me sinto como uma acompanhante por dentro, one that hasn’t turned a trick in a while. […] O mundo real não parece real. Sinto que a qualquer momento eu poderia desmoronar e eu estarei de volta num bordel com homem atrás de homem formando filas para deixar mais cicatrizes em mim.” – Kendra Chase

“O problema da dissociação é que uma vez que você sai de uma vida de exploração sexual você não volta simplesmente ao normal. A dissociação se torna parte de como você opera na vida cotidiana.” – Autumn Burris

Isso leva a uma conexão com o sistema de prostituição, que persiste mesmo depois que alguém conseguiu enxergar os mecanismos psicológicos (geralmente com ajuda de terapia) e refletiu sobre o tempo que passou na prostituição.

“Eu me sinto bem-vinda na indústria do sexo, em casa em meio a uma irmandade de desajeitadas. Todo mundo tinha uma história de vida parecida com a minha. Eu não era mais a deslocada. […] Quanto mais tempo eu ficava, mais eu me tornava socialmente isolada. O mundo convencional virou assustador: um lugar onde eu podia ser exposta e humilhada […] Meu coração gritava por ir embora, mas da mesma forma que as mulheres dentro de relacionamentos violentos que se sentem perdidas e despedaçadas por dentro, eu voltaria de novo e mais uma vez. Muitas vezes eu retornava por pura solidão. Eu me sentia mais próxima dos clientes e das mulheres como eu cujos nomes verdadeiros eu raramente sabia do que a qualquer outra pessoa do mundo. Afastar-se era perder essa conexão. Voltar era como o regresso ao lar pelo qual eu ansiava e nunca tive na minha família. Dentro de dias e horas, eu estaria planejando a minha fuga seguinte.” – Christie

“Simplesmente andar pela área ao redor da Estação Central de Frankfurt onde bordéis se erguem de parede a parede me dá uma estranha sensação de estar no lugar errado. Olhando para acima para os ‘puteiros’ e suas fileiras de janelas, sinto uma necessidade irresistível de retornar: lá pelo menos eu saberia como agir, lá eu sei o procedimento, o programa, o que preciso dizer, mas desse jeito como uma espectadora no distrito de luz vermelha… Esquisito. Estar aqui é como voltar ao seu ex que é agressor: é como chegar em casa, tudo é familiar mas ainda assim parece tudo errado.” – Huschke Mau

Os desafios de deixar a prostituição

A prostituição dá às mulheres prostituídas uma sensação de “estar entre as suas”. As mulheres encontram mulheres com histórias de vida semelhantes, tanto antes como dentro da prostituição, embora a divisão social de santa e puta cumpra o seu papel. Por mais estranho que possa soar, a interação social com os compradores de sexo abusivos às vezes pode ser a única da rotina.

“Minha família tinha ouvido falar que eu já trabalhei num bordel e eu ganhei a reputação de ser ‘puta’ mesmo quando estava estudando na universidade. Aquela primeira experiência me maculou aos olhos dos outros.” – Linda

“Quando eu choro hoje é de cura, é de superação, é a vítima que está chorando, é a sobrevivente que está chorando. Estou pensando, ‘É isso mesmo? Eu? Caí fora? E estou aqui? E estou apoiando 150 pessoas que estão saindo?’ Eu jamais teria pensado em estar aqui.” – Ne’cole Daniels

Deixar a prostituição não é apenas difícil por causa da perda do próprio círculo social, mas também porque mulheres desistentes, também, ainda vivem sob risco de terem dedos apontados para elas publicamente e serem tachadas de “putas”. Ex-compradores de sexo, que não são estigmatizados pela sociedade, gabam-se publicamente de “ter pegado umas por aí”. Também há sempre o risco de que gravações de vídeo de uma mulher em situação de prostituição serem publicizadas a qualquer momento após a saída dela.

Não é suficiente satisfazer as necessidades puramente materiais, tais como dar a ela um teto sobre a cabeça ou um emprego. Sair da prostituição com sucesso também envolve um processo psicológico complicado de cortar o cordão de uma vida de comércio sexual.

“A autopercepção desordenada e a autoestima extremamente baixa isolam a maioria das prostitutas dos seus entornos não prostituídos. Depois de passar anos nesse ambiente, a maioria das mulheres simplesmente só conhecem outras que estão nessa vida. É como um mundo paralelo. E às vezes apenas parece ser ‘o mundo verdadeiro’ para você. Pois você não sente qualquer confiança nos outros seres humanos, e sobretudo não nos homens. Você agora sabe e já vivenciou o que são capazes de fazer com o teu próprio corpo, e portanto sabe o que pensar sobre a fachada burguesa que está ‘por aí’. Pois os compradores de sexo não apenas desfilam no ‘submundo’, mas também ‘por aí’, no ‘mundo normal’. Só que lá o que acontece é que você está sendo humilhada como a (ex-)prostituta não somente por eles, mas pelos outros, enquanto os compradores de sexo de fato não sentem vergonha nem cobranças de responsabilidade. Então você pode muito bem permanecer na prostituição: em comparação esse lugar parece um tanto honesto pelo menos, violência em troca de dinheiro, todo mundo sabe o que você está fazendo, faz o mesmo, as regras são claras, assim como os mecanismos.” – Huschke Mau

A idade de ingresso na prostituição é em média de 14 anos. Quando uma menina entra no mundo do comércio sexual e cresce dentro dele, ela tem pouca chance de se orientar fora daquele meio social. O mesmo vale para mulheres que passaram a grande parte da sua vida adulta dentro da prostituição.

Isso significa que uma mulher que deixa a prostituição muitos anos depois não apenas precisa encontrar uma nova forma de garantir uma renda estável, mas também tem de se adaptar à vida e aos desafios cotidianos fora do comércio sexual. Ela pode precisar reconstruir a sua rede social do zero.

“Quando deixamos a prostituição, é só o começo de uma longa batalha de volta para a humanidade, de volta à dignidade, de volta ao autorrespeito e de volta a uma vida que pode se tornar segura. É um renascer, e como um recém nascido não sabemos ou entendemos as regras do mundo ‘real’. Lembro que não sabia como fazer compras, porque os compradores de sexo traziam tantas coisas. Eu não fazia ideia de como pagar as contas, como procurar um lugar seguro para morar, como procurar emprego. Eu não fazia ideia de como ser uma pessoa adulta, pois eu ainda trazia dentro de mim a criança e a adolescente machucadas. Eu estava me afogando, mas não recebia socorro nem apoio – tive que lutar a cada passo do caminho para voltar a algum tipo de vida real.” – Rebecca Mott

“Uma pessoa que tem seus limites violados diariamente e de hora em hora pode não ser capaz de permanecer no meio de outras pessoas, pois o seu sistema interno de alarme irá ficar em alerta direto: ‘Isso é um homem, perigo!’ Eu nem quero começar a falar aqui sobre o que significa estar do lado de fora e ficar engatilhada, ter retrospectivas. Pesadelos e transtornos do sono são exaustivos. É quase impossível manter as aparências e passar para uma ‘vida normal’. E você se sente ‘diferente’ das outras, inferior, mais machucada. Estragada. As pessoas parecem assustadoras, as ‘normais’ mais do que as outras, porque elas a fazem enxergar o que você mesma não é mais: sem preocupações, sem machucados, sem medos. Inteira. Gentil. Bem-humorada.

“Para aguentar a prostituição, você precisa dividir a sua consciência do seu corpo, dissociar. O problema é que você não consegue simplesmente colocar de volta depois. O corpo permanece sem contato com a sua alma, sua psiquê. Você simplesmente não sente mais a si mesma. Levei vários anos para aprender que o que às vezes sinto é a fome. E que isso significa que se deve comer algo. Ou que há uma sensação que quer dizer que estou com frio. E que devo me agasalhar.

“É esgotante aprender ou reaprender que o seu corpo tem as suas necessidades, sentir essas necessidades, e é mais esgotante ainda praticar o ‘autocuidado’. Não mais se tratar como lixo. Dormir quando você está cansada – porque você não está sentada num bordel 24 horas obrigada a receber o próximo comprador de sexo. Que você não precisa mais passar frio porque está se prostituindo na rua com temperatura abaixo do zero. Que você pode mudar as situações que causam dor em vez de eliminar a dor por meio da dissociação, das drogas ou do álcool.

“Mas o trauma não vai te deixar tão facilmente: você se acostumou. Esse fenômeno se chama ‘ligação traumática’ e o motivo pelo qual as mulheres agredidas pelos seus parceiros voltam para eles de novo e de novo.” – Huschke Mau

O que é normal para outras pessoas precisa ser reaprendida, como uma criança que aprende a caminhar. Aquele desafio deve ser enfrentado – sem contar a batalha diária para sobreviver e processar o trauma.

“DESISTIR DA PROSTITUIÇÃO É DIARIAMENTE CRIAR A CORAGEM DE SABER DE ONDE VOCÊ VEIO, E USAR AQUELE CONHECIMENTO PARA RECUSAR A AUTOMUTILAÇÃO QUE FAZ PARECER MAIS FÁCIL VOLTAR À MORTE QUE É A PROSTITUIÇÃO. DIARIAMENTE FICO ATORDOADA E MARAVILHADA PELAS MULHERES DESISTENTES QUE FIZERAM ESSA VIAGEM SEM TERAPIA COM ESPECIALISTA, SEM AJUDA COM HABITAÇÃO, SEM SABER SE PODERÃO FICAR COM AS SUAS CRIANÇAS, SEM UM EMPREGO AONDE IR, E GERALMENTE COM QUESTÕES DE SAÚDE FÍSICA E MENTAL VIA DE REGRA. AS MULHERES DESISTENTES SÃO AS PESSOAS MAIS CORAJOSAS QUE EU CONHEÇO – POIS O MUNDO DÁ A ELAS POUCO OU NADA, MAS ELAS TÊM A DIGNIDADE E AUTORRESPEITO DE QUERER ENSINAR A VERDADEIRA LIBERDADE E TRANSFORMAÇÃO PARA TODAS AS PESSOAS PROSTITUÍDAS.” – REBECCA MOTT

Sair do sistema de prostituição é um longo processo e realizar isso não é de todo um dado e merece o nosso maior respeito. Quando uma organização como Talita na Suécia consegue oferecer programas de desistência e reabilitação com duração de um ano – é algo a ser comemorado. Mas na maioria dos países aqueles programas de apoio não existem.

Considerando isso, não deveria nos surpreender que muitas mulheres não encontram a porta de saída da prostituição. Ou que muitas vezes são necessárias várias tentativas e muitos contratempos até chegar até o fim do caminho.

Isso é algo que temos que considerar seriamente quando olhamos para mulheres que mudam para o lado dos cafetões – os prostituidores.

Tornando-se uma madame

Mulheres que são traficadas para outros países e vivem sob uma escravidão por dívida podem às vezes se livrar recrutando “a próxima geração” do seu país de origem. Algumas são de fato dispensadas de suas dívidas, mas não outras que são obrigadas a seguir se prostituindo.

“Eu construí um bordel sozinha. Via aquilo como uma maneira de escapar do controle e da direção de outras madames e como uma forma de fornecer um lugar seguro e feliz para as mulheres conduzirem seus negócios. Tentei me convencer de que meu bordel seria diferente. Logo descobri que não era nada diferente.” – Kendra Chase

“Permaneci na indústria do sexo por mais cinco anos. Durante esse tempo eu mesma até virei madame. Isso aconteceu naturalmente pois eu tinha ficado no jogo tempo suficiente para conhecer bem os truques da profissão dos dois lados. Consegui convencer mulheres jovens a começar as suas carreiras como prostitutas. […] Eu me odeio por isso. Não demorou muito para que eu voltasse a trabalhar, a atração do dinheiro para comprar drogas era demais.” – Jade

O ramo da prostituição é autônomo com suas próprias regras e leis. Esse “milieu” [meio social] é uma sociedade paralela em que as instituições comuns não são aquelas que “ditam as regras”. Mulheres pagam para ficar em certos pontos na rua, bordéis e apartamentos de bordéis são mantidos com o objetivo de lucrar. Estudos definitivamente mostram que quem fatura mais não são as mulheres prostituídas, a maioria das quais são dependentes de algum tipo de benefício mesmo durante o tempo em que estão ativas na prostituição.

Mulheres que (parcial ou completamente) mudaram para o lado dos cafetões e começam a ganhar dinheiro prostituindo outras pessoas podem ser capazes de elas mesmas limitar ou desistir da prostituição. Na hierarquia do comércio, entretanto, elas não subiram de degrau substancialmente. Elas são a casta mais baixa da cafetinagem – elas não ganham nem perto do que ganham os “peixes grandes”.

A vantagem de se tornar uma cafetina – em comparação a desistir – é que obviamente a identidade da mulher, que está ligada ao comércio sexual, não está em si ameaçada. Ela não precisa abrir mão da ideia da prostituição como “um trabalho como outro qualquer” e ela permanece no seu entorno familiar, sem ter que aprender a navegar um ordem social inteiramente nova.

Jacqueline Gwynne veio do lado de fora e começou a trabalhar como um recepcionista num bordel, pois a normalização da prostituição na sociedade havia deixado ela sem escrúpulos sobre o “trabalho sexual” e sobre participar desse comércio. Apenas com o tempo ela percebeu que tinha sido de fato uma cafetina. Ela teve de primeiro refletir sobre o que havia acontecido, para entender o seu próprio papel na indústria do sexo.

A importância de respeitar as mulheres prostituídas que discordam de nós

“Ela ficou em pé sobre uma cadeira, imponente over uma audiência que queria me escutar; vaiando, interrompendo e berrando. Eu não sentia raiva ou mesmo incômodo. Estranhamente me identificava com ela. [Pensei que] ela estava com medo. Eu posso enxergar isso porque já senti essa defensividade. ‘Não tire o meu meio de sobrevivência. Não tenho mais nada. Não tenho a quem recorrer.’” – Sabrinna Valisce

Mulheres que estão em situação de prostituição muitas vezes reagem fortemente a mulheres que falam a verdade sobre a prostituição, porque isso ameaça os seus mecanismos de autodefesa e a sua identidade dolorosamente adquiridos.

É por isso que é importante sempre lembrar: as mulheres prostituídas não nos devem nada. Elas podem se denominar da forma como quiserem e interpretar a sua situação de vida como quiserem. Elas não precisam estar sujeitas à nossa opinião sobre a prostituição e elas merecem o nosso respeito independente de se elas partilham do nosso posicionamento político. Estar do lado de fora do comércio sexual e dizer a uma mulher prostituída que ela não está percebendo estado terrível em que está e que ela está minimizando e enfeitando a situação, não a ajuda a lidar com isso – muito pelo contrário: em vez disso ela está sendo humilhada de uma maneira verdadeiramente paternalista.

Todas as mulheres prostituídas têm o direito de participar do debate público sobre a prostituição e as suas vozes são relevantes, mesmo que não necessariamente concordemos com elas – novamente independente de se ela está se prostituindo na rua ou em um estúdio dominatrix. Mesmo com aquelas que não partilham das nossas visões políticas podemos aprender sobre a realidade e o sistema da prostituição.

“Todo marco legal que eu e muitas outras mulheres ao redor do mundo que estão lutando pela legislação alcançarmos, precisamos pagar por isso nos tornando vítimas de uma campanha organizada de abuso e intimidação. Aqueles que fazem campanha contra as leis pelas quais eu luto já têm o meu endereço residencial, dados bancários e e-mail pessoal. Agora o abuso cai direto na minha caixa de correio, além do meu blog, e eu já tive parte do meu endereço residencial tuitado para mim numa ameaça estilo ‘sabemos onde encontrá-la’ […] As pessoas ativamente engajadas nesse comportamento se descrevem como ativistas pelos direitos das ‘trabalhadoras sexuais’. A maioria são mulheres e muitas nunca estiveram em situação de prostituição elas mesmas.” – Rachel Moran

Mas se uma pessoa humilha as mulheres prostituídas que não partilham da visão dela de que prostituição é exploração, que as insulta ou ameaça ou sugere que o que os homens fazem com as mulheres prostituídas é culpa delas, ela merece a nossa mais dura crítica – mesmo que essa pessoa esteja atual ou anteriormente prostituída.

Uma mulher que avança para o posto de madame (sem ter sido contra a sua vontade expressa) deveria obviamente enfrentar consequências legais como qualquer pessoa que se aproveita da prostituição alheia. Eximi-la de toda responsabilidade seria injusto com todas aquelas que decidiram não ir por esse caminho. Ela, contudo, não deve ser colocada no mesmo nível que os homens, que nunca se prostituíram.

O papel da prostituição na manutenção do status de segunda classe de todas as mulheres

Quando a prostituição cumpre a sua função social – ou seja, dar continuidade ao status de cidadã de segunda classe de todas as mulheres sob a hierarquia entre os sexos – nenhuma mulher se aproveita disso socialmente, nem mesmo quando ela está tomando parte do lucro econômico.

“A prostituição não está à parte da sociedade, mas sim precede e é necessário para cimentar o papel tradicional [das mulheres e dos homens] sucessivamente.” – Huschke Mau

A prostituição não é apenas um problema, por conta da exploração de mulheres marginalizadas, desfavorecidas pela sua condição de sexo, raça e classe. Isso também é um problema, pois traz efeitos adversos a TODAS as mulheres, aquelas que se prostituem e aquelas que não. Não apenas em nível individual (infecção por doenças sexualmente transmissíveis, extorsão para favores sexuais etc.), mas também em nível social. Em 1981 Kate Millet rotulou a prostituição como “o exemplo para a situação social das mulheres, uma vez que ela fundamentalmente ainda existe.”

Os rituais sociais assumem a função de separar as mulheres e os homens entre si. Por meio desses rituais os homens travam batalhas simbólicas, que servem ao processo de “desfeminização” ou de maioridade dos homens. O habitus masculino é formado dentro de espaços reservados para homens, onde eles provam a sua masculinidade uns aos outros e reafirmam mutuamente que eles pertencem à classe de “homens verdadeiros”. O corpo feminino é um objeto, circulado entre homens, que serve para aumentar o seu próprio capital simbólico [da masculinidade]. A prostituição é, portanto, uma prática coletiva, tanto quanto individual, que garante a supremacia e o privilégio masculinos (sejam eles compradores de sexo ou não).

O sociólogo Michael Meuser resumiu isso nas seguintes palavras: “A homossocialidade descreve a reserva de certos espaços como esferas restritas aos homens, criando, assim, espaços de onde as mulheres estão excluídas. As sociedades dos homens homossociais são lugares que existem para que homens se assegurem da normalidade e da adequação da dinâmica social deles mesmos. […] Em uma época em que a supremacia masculina está sendo cada vez mais questionada, tais espaços se tornam ainda mais significativas do que eram antes para garantir a hegemonia masculina.”

“Primeira ela precisa provar que possui as visões corretas – só então ela está autorizada a falar – na revista, na TV, nos grupos políticos.” – Andrea Dworkin

Quando nos perguntamos por que é concedido mais tempo de transmissão àquelas [mulheres prostituídas] que defendem a preservação da prostituição, o simples motivo é que isso serve à continuação do status quo. Responsabilizar [essas mulheres] pela existência da prostituição significa transferir a culpa daqueles que possuem poder social e proeminência cultural para aquelas que mal são levadas a sério e são meras fantoches dos poderosos.

Obviamente, nem todas as mulheres são afetadas pela prostituição no mesmo grau, já que é naturalmente faz diferença se uma mulher tem o seu corpo usado sexualmente pelos homens.

Ainda assim é importante notar que a existência da prostituição possui efeitos adversos para todas as mulheres e que por isso todas as mulheres são (principal ou secundariamente) afetadas. O coletivo masculino pode, por meio da prostituição, obter acesso ilimitado ao corpo feminino. Temos que entender que as mulheres prostituídas não são “outro tipo de mulher”, mas sim que QUALQUER UMA de nós poderia estar no lugar dela.

Em vez de sermos paternalistas com as mulheres prostituídas, esperando que elas justifiquem a própria situação e humilhando-as – nosso foco deveria ser diretamente sobre aqueles que são a razão pela qual a prostituição existe: os compradores de sexo e todos os homens que não se posicionam abertamente contra eles, porque estes, também, são beneficiários dos sistema de prostituição – diferente das mulheres.

Exceto onde um link indique o contrário, todas as citações de sobreviventes são do livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade [Narrativas da Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio Sexual], editado por Caroline Norma e Melinda Tankard Reist, Spinifex Press: 2017.


Original: Manuela Schon para Abolition 2014, 15/02/2018, https://nordicmodelnow.org/2018/02/15/survival-mechanisms-and-trauma-bonding-in-prostitution/

Tradução: Winnie Lo

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