Menopausa como Construção Social
Imagem base por Freepik, alterada pela autora.

É comum na nossa cultura percebermos a menopausa como uma época de instabilidade emocional e comportamental de uma mulher mais velha. Isso é tão forte que muitas mulheres que estão passando por essa fase poderiam afirmar que se sentem desequilibradas mesmo, mas essa é uma generalização estereotipada. A maioria das mulheres atravessa essa fase sem maiores problemas. Esse estereótipo é uma construção social sobre um acontecimento biológico. É possível saber que tais percepções são construídas quando se faz o estudo comparado de diversas sociedades, porque há uma variação cultural na percepção da menopausa.

Basicamente, percebe-se dois modelos de construção sobre a menopausa. Um deles associa a uma época de decadência da mulher; esse modelo é percebido em sociedades que exaltam a juventude. Assim, uma mulher passando pela menopausa estaria numa fase complicada e embaraçosa. Essas culturas costumam tratar a menopausa como uma doença, medicalizando e atrasando sua chegada. O outro modelo é uma construção que costuma celebrar a menopausa como um advento vantajoso para a mulher, porque tiraria dela o fardo da menstruação. Esse modelo aparece em sociedades que estigmatizam a menstruação, muitas vezes por meio da ostracização das meninas e mulheres durante o período menstrual.

Esses modelos são generalizações; eles não esgotam todas as noções humanas acerca do assunto e tampouco são excludentes, apesar da aparente contradição, é possível vê-los agindo de forma conjunta em algumas culturas. Ambos são misóginos. Tanto a ideia que coloca o período fértil da mulher como vantagem (porque estaria apta a cumprir seu papel de mãe na sociedade ou porque seria mais atraente aos homens), quanto a que coloca como desvantagem (porque agora a mulher não oferece mais um perigo aos homens), só são possíveis porque as sociedades entendem as mulheres a partir de suas relações com os homens, não sendo elas sujeitos em si.

Sociedade ocidental e a medicalização da menopausa

A nossa sociedade considera a menopausa como uma época de decadência de uma mulher mais velha, quando, na verdade, em muitos casos as mulheres ainda não chegaram nem à metade de suas vidas quando passam por essa fase.

Além disso, tratamos a menopausa como uma falha do organismo da mulher, quando os ovários passam a mudar a quantidade de hormônios que produzem. Textos médicos chegam até a tratar a menopausa como um perigo para o corpo da mulher. Assim, quando as quantidades de estrogênio e progesterona mudam, eles consideram que os ovários não estão mais produzindo a quantidade adequada desses hormônios e, por isso, a mulher precisaria da Terapia de Reposição Hormonal (TRH), para suplementar o corpo com níveis “adequados” deles.

Colocar algo que não é médico sob o poder e o controle da biomedicina é justamente o que significa medicalizar. Quando se diagnostica uma condição natural, como a menopausa, como uma doença que necessita de tratamento médico, se medicaliza. Isso também é construído e muda no tempo e nas sociedades.

O estudo comparado permite até que se questione aquilo que é considerado sintoma clássico da menopausa no ocidente (ondas de calor, suores noturnos, secura vaginal), porque mulheres de outras culturas não os experimentam da mesma forma. Isso não significa que se deve duvidar dos sintomas que as mulheres experimentam, mas questionar de onde esses sintomas vêm.

Nossa medicina é bastante masculinista. Tudo o que acontece exclusivamente com o corpo das mulheres é considerado uma coisa estranha, suspeita e que precisa ser controlada. É preciso retirar o estigma da menopausa, vê-la como natural e dar o suporte e conhecimento necessário às meninas e mulheres sobre o que acontece com seus corpos. É trabalho do feminismo falar sobre biologia feminina também.

Variação Cultural na Construção e Experimentação da Menopausa

Apresenta-se a seguir o resumo de alguns estudos acerca da percepção da menopausa em diversas culturas. Apesar de haver pouca literatura, é possível perceber a variação da construção social acerca do assunto.

Canadá: Patricia A. Kaufert entrevistou mulheres canadenses e descobriu que elas tendiam a se definir como menopáusicas se houvesse uma mudança em seu padrão habitual de menstruação. Essas mulheres não esperaram até que a menstruação parasse completamente. A menopausa foi tida como um processo baseado na percepção e interpretação.

País de Gales: a menopausa é percebida como angustiante e constrangedora, exigindo tratamentos como TRH. Um grupo de mulheres que mora em uma pequena vila em Gales do Sul, estudado por Vieda Skultans, relatou que acredita que a menopausa é uma ameaça à sua identidade feminina e é vista como uma desvantagem porque estão envelhecendo e perdendo o controle sobre seus processos corporais.

Egito: Isis Gohar descobriu que mulheres egípcias não demonstraram muito conhecimento sobre a menopausa, exceto que a osteoporose aumenta após o fim da menstruação. As entrevistadas relataram que obtiveram informações sobre a menopausa na mídia de massa (42%), de seus colegas (36%), de seus médicos (17%) e de seus parentes (15%). Um grande número de mulheres egípcias disseram controlar a menopausa usando sedativos (35%) e TRH (18%). No entanto, suas atitudes em relação à menopausa são geralmente positivas e dizem que não tiveram alteração no seu cotidiano.

Índia — Área rural ao norte: Em um estudo conduzido por A. Singh e A. K. Arora, o sintoma relatado mais comum atribuído à menopausa foi perda de visão. Muitas dessas mulheres não consultaram ninguém sobre os sintomas que experimentaram, embora algumas delas concordassem que uma consulta seria necessária para obter alívio dos sintomas da menopausa. A maioria das mulheres admitiu que a menopausa afetou sua saúde física, enquanto outras disseram que sua rotina diária foi alterada após a menopausa. As mulheres não relataram uso de medicamentos ou TRH para o tratamento dos sintomas. A maioria das mulheres saudou a chegada da menopausa e considerou-a um rito de passagem para um novo estágio de suas vidas. Elas se consideravam “mais limpas” após a menopausa, pois se sentiam aliviadas da “sujeira” associada à menstruação. Mais de um terço das mulheres relataram que começaram a fazer atividades adicionais após entrarem na menopausa, porque estavam livres de várias restrições após o término da menstruação.

Índia — Rajastão: mulheres que tinham que viver veladas e isoladas por causa da menstruação relataram que a menopausa mudou enormemente seu papel na sociedade, porque agora podiam interagir publicamente com os homens. Marcha Flint argumenta que essas mulheres não experimentaram sintomas com a transição da menopausa, porque ela foi associada a mudanças positivas. A maioria considerou a menopausa socialmente vantajosa. Uma vez que a mulher está livre da menstruação, ela não é mais considerada uma ameaça para o homem e agora ganha autoridade cada vez maior sobre os outros, especialmente os membros mais novos de sua família. Ela também pode ser elegível para funções fora da instância doméstica, o que fornece acesso a um maior reconhecimento social e controle sobre coisas anteriormente indisponíveis para ela. Assim, na meia-idade, a mulher atinge o que é, em muitos aspectos, o ponto alto de sua vida.

México — Puebla: Lynnette Leidy Sievert e Graciela Espinosa-Hernandez descobriram que mulheres na pós-menopausa com menos tempo de escolarização eram significativamente mais propensas a relatar sintomas como ondas de calor, dores nas articulações e tensão nervosa. Uma série de sintomas negativos foi narrada, como tensão nervosa, depressão e dores de cabeça. As mulheres descreveram seus sintomas da menopausa como normais, e a menopausa como uma oportunidade de economizar dinheiro gasto com absorventes menstruais, como um tempo de amadurecimento feminino, como sinônimo de liberdade e como uma fase da vida ordenada por Deus. No entanto, a maioria das entrevistadas disse que uma mulher na menopausa se sente “insegura” e “pouco atraente”, mas “completa” e “bem-sucedida”. As mulheres de Puebla adquiriram informações sobre a menopausa por meio de programas de televisão e rádio.

México — Oaxaca: a população relatou que as mulheres na menopausa eram uma ameaça para o lar. Michelle Ramirez relata que as mulheres na menopausa frequentemente enfrentam problemas com seus filhos, pais ou maridos. A menopausa representa uma ruptura com o papel valorizado das mulheres na sociedade mexicana, que é o da maternidade.

México e Guatemala — Área rural de Yucatán: D. Mills entrevistou mulheres sobre a saúde da mulher e, em particular, a menopausa. Muitas disseram não se lembrar de sintomas significativos da menopausa. Mulheres maias na menopausa podem se tornar parte de sua comunidade espiritual ao atingir um nível de liderança. Elas relataram que anseiam pela menopausa e por sua liberdade e novo status.

Taiwan: De acordo com um estudo de Hsien-An Pan, Meng-Hsing Wu, Chao-Chin Hsu e Bor-Lin, a fonte de informação mais comum indicada sobre a menopausa foi a mídia impressa, como jornais e revistas (43%). Entre as mulheres do estudo, 71% achavam que deveriam receber TRH. Mulheres taiwanesas relataram lumbago (68%), fadiga (59%), comprometimento da memória (55%), secura vaginal (50%) e ondas de calor e suor (49%). Estima-se que 80% das mulheres taiwanesas iniciaram a TRH para alívio dos sintomas da menopausa. O estudo conclui sugerindo que, uma vez que 30% das mulheres na menopausa em Taiwan são viúvas ou solteiras, é necessário criar programas que ofereçam apoio psicossocial, bem como cuidados médicos abrangentes.

Japão: A cultura japonesa não considera as ondas de calor e os suores noturnos como sinais normativos da menopausa. O respeito cultural do Japão pelos mais velhos torna a transição da menopausa mais confortável e fácil, segundo D. Mills. A mulher tem um senso de importância maior do que antes porque ela agora muda para um lugar de honra. D. Vander e D. Mills relataram que a maioria das mulheres japonesas não se preocupa com a menopausa. A transição para a menopausa traz mais valor e honra, esta é uma das razões pelas quais a menopausa é vista como uma ocorrência muito positiva, sendo que algumas relataram que esperam ansiosas por ela, para se livrarem de fardos sociais. A palavra japonesa para menstruação é konenki: a definição de “ko” é renovação e regeneração, “nen” significa anos e “ki” significa energia; o que pode dar uma ideia do significado social da menopausa no Japão.

Conclusão

Os sintomas da menopausa variam entre as sociedades. Foi focado aqui os aspectos sociais, com isso, não se está dizendo que não possa haver influência de outros fatores, como dietas e exercícios, mas que é preciso levar em contra também o meio cultural da mulher.

Mitos sobre a menopausa atormentam as mulheres, mas suas reservas e ansiedade sobre “a mudança” variam de acordo com a sociedade. Mulheres árabes acreditam que a menopausa pode causar a perda de desejo sexual de seus maridos porque elas não poderão mais ter filhos. Mulheres norte-americanas costumam ter medo de se tornar um desastre emocional bipolar. Mulheres judias orientais estão mais preocupadas com sua saúde corporal, enquanto mulheres da Europa Ocidental estão preocupadas com sua saúde mental.

Não importa de que parte do mundo uma mulher venha, ela experimentará a menopausa. A sociedade e as crenças e práticas culturais ditam a autoestima e a autopercepção de uma mulher. Nas sociedades em que o envelhecimento é considerado um defeito, como na nossa, a menopausa acaba sendo período bastante estressante para as mulheres, mas não precisa ser assim. O estudo comparado permite criticar de perto os mecanismos utilizados em cada cultura para construir discursivamente a experiência da menopausa pelas mulheres, que trazem implicações pessoais, sociais, culturais e materiais.

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Este texto foi escrito depois da leitura do artigo acadêmico “Menopause as a Social and Cultural Construction”, da socióloga Bre’on Kelly, disponível aqui, trazendo informações que ela coloca e reflexões minhas sobre o tema. Todas as informações estão referenciadas no artigo, consulte-o para ter acesso às fontes originais.

1 COMENTÁRIO

  1. Retirei o útero há coisa de uns 20 anos por causa de um mioma. Na minha última consulta com uma ginecologista, ela me disse que devo ter passado pela menopausa há coisa de uns 7 anos. Todo o mundo sempre me disse que a menopausa seria “terrível”. Eu nem percebi.

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