Mulheres, abandonem o movimento LGBT
"Mulheres, se unam. Solidariedade com as lutas das mulheres em todo o mundo"

É compreensível que mulheres acreditem que possuem pautas em comum com a “comunidade” LGBT. Afinal, há lésbicas e bissexuais mulheres, e tal movimento supostamente as incluiria em sua militância. E é fato que homens gays sofrem preconceitos e que a homofobia é um problema sério que ainda causa muita dor e morte. O discurso do movimento LGBT é sedutor — a inclusão de toda e qualquer pessoa “desviante” sob o conceito guarda-chuva de diversidade, e a luta por direitos e proteção.

Ignora-se, no entanto, que a “comunidade” LGBT, como um espaço para acolher todo aquele que não se adequa aos ditames da heterossexualidade compulsória, não existe materialmente falando. Toda mulher que passou pela experiência de militar em espaços LGBT experienciou como todas as questões são principalmente sobre homens gays e pessoas do sexo masculino. Mulheres lésbicas e bissexuais não têm suas pautas sequer reconhecidas e isso não acontece por acaso. No patriarcado a lógica da manutenção da hierarquia entre as classes sexuais “homem” e “mulher” permeia tudo, inclusive a esquerda. Homens sempre serão priorizados em todos os movimentos, exceto no feminismo radical (que por esse motivo é perseguido).

Quando mulheres lésbicas e bissexuais percebem que são uma parcela ostracizada dentro da “comunidade” LGBT, o primeiro ímpeto é a reivindicação por uma inclusão de fato dentro do movimento. Isso parece válido, mas ignora que os pontos chave dessa militância são incompatíveis com ideais de uma verdadeira libertação para mulheres, já que no seu desenvolvimento abarcou ideais que pulverizaram qualquer análise material das condições que transformaram pessoas não-heterossexuais em seres desviantes e marcados para serem perseguidos e punidos. Sem um entendimento das condições dadas pela hierarquia de classes sexuais no patriarcado, subsistida por um regime de heterossexualidade compulsória, fica impossível travar uma discussão digna e assertiva sobre sexualidade. E ao recusar esse viés (que é o proposto pelas feministas radicais) e abarcar teorias que abraçam a subjetividade a todo custo, e a inclusão sem medida, no fim são prejudicadas as de sempre em toda essa configuração social: mulheres, que permanecem sofrendo a exploração material de suas capacidades laborais, emocionais e reprodutivossexuais.

Um breve histórico

Sheila Jeffreys, em Unpacking Queer Politics, desenvolve um histórico bastante fundamentado do contexto dos novos movimentos sociais dos anos 60 e qual foi o palco do surgimento do feminismo lésbico. O movimento de libertação gay, em sua origem, entendia que a homofobia era fruto do patriarcado e só com a sua abolição a opressão dos homens gays e das mulheres lésbicas acabaria. Com isso, havia uma oposição ferrenha aos chamados papéis sexuais — estereótipos atribuídos a mulheres e homens que são socialmente construídos para manter a supremacia masculina -, a masculinidade e a feminilidade. O movimento também se opunha à exploração sexual de homens gays na indústria do sexo, e não se abstinha de questionar a própria cultura e como a heterossexualidade compulsória os fazia reproduzir comportamentos de dominação e submissão dentro de suas relações.

A opressão dos homossexuais e a opressão das mulheres eram ambas vistas como resultado da imposição do que era chamado de “papéis sexuais”. (…) Assim, ambos gays liberacionistas e feministas viam os papéis sexuais, o que agora é provavelmente chamado de “papéis de gênero”, como sendo construídos politicamente para assegurar a dominação masculina. Mulheres eram relegadas aos papéis sexuais femininos da esfera privada, nutrindo e se preocupando com o embelezamento do corpo a fim de ser um objeto sexual apropriado. Lésbicas eram perseguidas porque desafiavam o papel sexual feminino de passividade sexual e servidão ao homem. Homens gays eram perseguidos porque desafiavam o papel sexual masculino, o qual, além de requerer comportamento masculino, era fundamentado sobre a heterossexualidade e intercurso com mulheres.

(Sheila Jeffreys, Unpacking Queer Politics)

Porém, esse debate logo deu lugar a um outro tipo de militância, que celebrava os aspectos nocivos da cultura gay como uma experiência autêntica da homossexualidade. A masculinidade, que antes era algo a ser destruída, foi potencializada ao ponto de ser criada uma prática que Marilyn Frye, em “Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista”, de 1983, chama de hipermasculinidade gay — a exaltação da masculinidade pela adoração ao falo, pelo ódio às mulheres, entre outros fatores. Termos misóginos para se referirem à lésbicas, o ódio ao corpo das mulheres em oposição à adoração ao falo, o abandono das pautas feministas que alavancaram o início do movimento: tudo isso exauriu as lésbicas que tentavam construir conjuntamente.

Ao mesmo tempo, o movimento de libertação das mulheres também excluía lésbicas. Betty Friedan chamou as lésbicas que povoavam o movimento feminista de “ameaça lavanda” quando tentaram incluir suas questões, ignorando o fato de que lésbicas também lutavam pelas pautas prioritárias de mulheres que se relacionavam com homens, como o aborto. Dentro desse contexto, o feminismo lésbico surgiu da debandada de mulheres lésbicas desses movimentos, as quais aprofundaram-se na análise e contestação da opressão masculina e teorizaram sobre sua aniquilação.

Na verdade, nos anos 1970, e não sem conflitos, o movimento lésbico surge e se espalha por toda parte do mundo, assumindo sua autonomia ao mesmo tempo em relação ao feminismo e ao movimento homossexual misto, e mais amplamente em relação às organizações “progressistas” das quais frequentemente suas militantes saíram.

(Jules Falquet, Romper com o tabu da heterossexualidade.)

A comunidade gay perdeu o caráter revolucionário de forma gradual e resignou-se a buscar aceitação e inclusão na presunção de cidadania masculina. O casamento, antes questionado como mecanismo de dominação e submissão das mulheres, virou pauta. A construção social da sexualidade, crucial para o feminismo lésbico, foi substituída pelo discurso de inatismo da sexualidade. O movimento deixava de advogar por uma mudança radical na sociedade e transformava-se num movimento raso por direitos civis.

É importante ressaltar que é muito mais fácil para homens gays se absterem de um debate sobre estrutura, opressão e classes sexuais do que para mulheres, de qualquer sexualidade. Homens gays ainda são da classe sexual masculina, e portanto, ainda que sejam punidos por recusar a heterossexualidade compulsória, são beneficiados com inúmeros privilégios, e não deixaram de pertencer à classe opressora das mulheres. Sua insatisfação com a sociedade, aliás, como ressalta Marilyn Frye, vem do entendimento de que seriam igualmente merecedores da clássica posição de poder do homem heterossexual, cujo acesso lhes é dificultado (embora não necessariamente negado).

Como a constituição dos movimentos de direitos dos gays é constantemente e definitivamente classificada e degradada como “feminina” ou “afeminada”, parece que uma lógica e orgulhosa estratégica política dos gays seria demandar cidadania enquanto “mulheres” — a estratégia de desafiar a presunção da cidadania masculina. Alguns indivíduos homens gays se inclinam a isso, e por tanto, a um parentesco político com as mulheres, mas o movimento pelos direitos dos gays num geral tomou o curso de afirmar a masculinidade dos seus constituintes, supondo que a presunção dos direitos dos homens gays seguirá após o reconhecimento desta. Ao fazê-lo, eles concordam em apoiar a reserva de uma cidadania plena para os homens e, assim, alinham-se com os adversários políticos do feminismo.

(Marilyn Frye, Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista)

A política rasa sobre direitos civis do movimento gay escalou a partir do surgimento da Teoria Queer, nos anos 90, que abraçava o que se chama de gênero como performance, ao invés de problematizar a existência dos papéis sexuais. A lógica da adoção da palavra queer, como inclusão que ignora as especificidades das mulheres, foi aplicada a todo o movimento: cada vez mais identidades foram criadas e incluídas sem questionamento, a partir da personalidade individual de seus participantes, que defendiam que eram categorias políticas específicas. Tais teorias foram incentivadas por um extremo liberalismo, que faz com que tudo que é político seja sobre indivíduos, e não classes.

O movimento LGBT, como é chamado hoje, reduziu a questão da sexualidade a um motivo moral, como se os conservadores que se opõem a eles estivessem fazendo uma mera defesa dos “bons costumes”. Ignora que quando conservadores defendem a “família”, estão defendendo uma instituição patriarcal de exploração de mulheres. Assim, coloca que qualquer desviante é parte dessa luta pela transgressão pura e simples, transgressão essa que, como coloca Jeffreys novamente em Unpacking Queer Politics, só pode existir em oposição ao moralismo e não subverte realmente a lógica patriarcal.

A transgressão é um deleite dos poderosos, que podem se imaginar deliciosamente desobedientes. Ela depende da manutenção da moral convencional. Não haveria nada para ofender e a deliciosa desobediência desapareceria se uma mudança social séria acontecesse. Os transgressores e os moralistas dependem mutuamente uns dos outros, em uma relação binária que derrota ao invés de permitir mudança. Além disso, a transgressão depende da existência de subordinados sobre os quais a transgressão sexual pode ser dramatizada. Não é uma estratégia viável para a dona de casa, a mulher prostituída ou para a criança violentada. Estes são objetos da transgressão, não seus sujeitos.

(Sheila Jeffreys, Unpacking Queer Politics)

O atual movimento LGBT é fruto da traição do movimento gay às mulheres feministas e/ou lésbicas, e sua resignação a conceitos liberais e capitalistas, que os encaravam e encaram como um nicho de mercado. Reivindicaram a palavra queer como termo guarda-chuva para todos os desviantes, ignorando que lésbicas precisaram lutar pela denominação de mulheres que amavam exclusivamente mulheres e pela inclusão de sua existência no movimento gay masculino. Sheila Jeffreys coloca, sobre esse ponto, em Unpacking Queer Politics:

“As que mais ficaram indignadas com o novo termo foram as feministas lésbicas, que observaram que, embora o termo fosse supostamente inclusivo, ele parecia excluir especificamente lésbicas e feministas lésbicas. A experiência das lésbicas tem sido que palavras genéricas para homossexualidade masculina e feminina rapidamente passavam a significar apenas homens. Livros inteiros foram escritos por escritores gays sobre “história homossexual” ou “desejo homossexual” nos quais lésbicas não eram mencionadas (Rowse 1977; Hocquenghem 1978). As palavras “homossexual” e “gay” não começaram significando apenas homens, mas passaram a fazê-lo como resultado de uma simples realidade política material, do maior poder social e econômico dos homens, do poder que permitiu aos homens definir o que a cultura é e torna as mulheres invisíveis. Para lésbicas, ter um nome específico para mulheres que amam mulheres tem sido crucial para afirmar a existência e a diferença de lésbicas e para afirmar um orgulho lésbico baseado em não ser uma variedade inferior de homens gays, mas em mulheres selvagens e rebeldes que recusam status subordinado. De fato, feministas lésbicas lutaram arduamente por vinte anos para colocar a palavra que escolheram para expressar sua história, cultura, prática e política específicas e diferentes no mapa político. (…) A adoção da palavra “queer” mudou tudo isso. A luta para incluir a palavra “lésbica” mal foi vencida quando as mesas foram viradas e as lésbicas foram enterradas novamente sob “queer”

Velhas táticas

O discurso vago de inclusão do movimento LGBT atrai mulheres principalmente porque foram ensinadas a empatizar, o que torna difícil refutar a alegação de outrem de que precisam ser incluídos em todos os espaços quando essa alegação é baseada em chantagem emocional, e não em argumentos. É uma armadilha muito engenhosa do patriarcado, que como sempre se adapta à resistência das mulheres. A socialização para a feminilidade é usada contra a classe sexual feminina para mantê-las em silêncio sobre reivindicações que nem sabem se concordam de verdade. Alguns dos meios pelos quais o movimento LGBT não só não inclui, mas prejudica a luta feminista, serão listados a seguir.

Assimilação

Para viver seu corpo, exercer sua sexualidade e simplesmente, viver, as mulheres se encontram em condições bastante menos vantajosas que os homens, embora sejam estes homossexuais. Usar o termo “lésbica”, portanto, permite evitar a confusão entre práticas que se bem são todas homossexuais, não têm em absoluto o mesmo significado, as mesmas condições de possibilidade nem sobretudo o mesmo alcance político segundo o sexo de quem as leva a cabo.

(Jules Falquet, Breve Resenha de Algumas Teorias Lésbicas)

Assimilar as mulheres lésbicas e bissexuais sob a ideia de que todos os desviantes formam uma “comunidade” é conseguir massa de manobra acrítica, utilizada para advogar pelas pautas vazias que beneficiam pessoas do sexo masculino em detrimento das mulheres. Mulheres do movimento LGBT raramente sabem suas próprias pautas. Muitas ainda se reivindicam gays, ou não usam o termo lesbofobia por acharem que é a mesma coisa que homofobia. Muitas acreditam que homens gays sofrem mais opressão do que elas, e ignoram que as violências contra mulheres lésbicas e bissexuais mal são contabilizadas. Estupro corretivo, fetichização, marginalização econômica de lésbicas lidas como masculinas — nada disso é abordado.

Não há materialidade no discurso do movimento LGBT. Assimilar tantas pautas diferentes numa massa acrítica faz com que as novas identidades reivindicadas também demandem a nomeação de novas e inúmeras formas de opressão, criando rachaduras entre as mulheres. Atualmente, há praticamente uma guerra entre mulheres bissexuais e lésbicas dentro do movimento LGBT, guerra essa que pessoas do sexo masculino não só não problematizam como incentivam. Essa guerra não é ao acaso — não é à toa que quem guerreia dentro do discurso de comunidade são mulheres. Minar uniões entre mulheres serve ao patriarcado.

O discurso de comunidade é sedutor a tal ponto que falar contra ele é considerado exclusão. Mas exclusão do que? Do movimento feminista? Do movimento LGBT? Da luta de esquerda? Todos esses movimentos se misturam, apolitizados, sob a lógica liberal de que todos devem lutar contra todas as opressões, impedindo que mulheres foquem em lutar pelas pessoas do sexo feminino, de todas as etnias, de todas as sexualidades. Não é à toa que o movimento LGBT ignora classes sexuais: essa realidade material cria uma transversal no que chamam de comunidade, ameaçando sua agenda assimilacionista.

“Uma cultura hostil a qualquer sexualidade que não a sexualidade missionária é também hostil às mulheres — porque essa cultura é sexista, misógina e gira em torno da supremacia masculina. Por causa da realidade dessa cultura, os mundos que os clínicos chamariam de “homossexual” são muito diferentes para lésbicas e homens gays: nós desviamos de normais muito diferentes; nossos desvios estão situados em locais distintos na estrutura política e visão de mundo da supremacia masculina; nós não somos objetos das mesmas fobias e repugnâncias. Se algumas de nós sentem fios de simpatia nos conectando e por tanto querem que nós sejamos causas “amigas”, a primeira coisa que deveríamos fazer é nos dedicarmos a entender as diferenças que nos separam. E porque essas diferenças se revelam tão profundas, elas põem em dúvida se existe sequer qualquer base para uma afinidade cultural e política sob as quais poderíamos construir alianças.”

(Marilyn Frye, Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista)

Pautas reformistas e misóginas

Atualmente o movimento lésbico-homossexual está em luta pela igualdade, sobretudo pelo direito a se casar e constituir família, a incorporar o casal lésbico ou homossexual dentro dos parâmetros do casal reprodutor, construindo simbolicamente a “família feliz”

(Margarita Pisano, O Amor Homo-Lésbico)

Já foi falado que o movimento LGBT perdeu de vista pautas como o fim do casamento e fim da família, que são questões feministas desde o início do movimento. A família é uma instituição, que esconde sobre a romantização de ligações afetivas o fato de que é utilizada para explorar mulheres. Essa concepção de família LGBT é utilizada para legitimar o direito à paternidade de homens gays, mesmo que esse seja justificativa para exploração reprodutiva de mulheres. O movimento LGBT defende a barriga de aluguel, prática que explora mulheres pobres e racializadas. Essa é uma prática misógina em sua essência.

Então, de quais direitos estamos falando aqui? Precisamos falar sobre os direitos das mulheres pobres, das mulheres cuja pobreza ou desespero é causada pelo racismo estrutural, das pessoas com deficiência rejeitadas porque não se encaixavam no modelo do bebê perfeito; de mulheres mais uma vez submetidas à misoginia.

(Susan Hawthorne, Questões de Poder e Direitos na Maternidade Sub-Rogada)

O feminismo lésbico politizou a própria sexualidade, entendendo que ela não é natural, ou biológica, mas construída numa sociedade patriarcal. A concepção de que a sexualidade é socialmente construída é, além de acertada, crucial para a análise feminista radical da sociedade. O movimento LGBT se afasta dessa premissa quando defende que pessoas desviantes nascem assim, escondendo-se no discurso de que não têm culpa pela própria desviância, e buscando pela aceitação dessa coincidência biológica. É uma retórica mais palatável e, como sempre, nada revolucionária. Esse tipo de discurso é útil para homens gays, principalmente, na busca pela aceitação reformista de homens gays no status de cidadania masculina — mas, ao mesmo tempo, prejudica a luta das mulheres, que nunca serão prioridade dentro de um movimento misto.

O pessoal é político

Existem agora setores inteiros de comunidades femininas, lésbicas e gays onde qualquer análise crítica da prática sexual é vista como um sacrilégio, estigmatizada como “conservadorismo”.

(Sheila Jeffreys, Como as Políticas do Orgasmo Sequestraram o Movimento Feminista)

O movimento LGBT barra a reflexão sobre as próprias práticas, celebrando-as independente do que significam politicamente. A impossibilidade de se analisar práticas sexuais torna impossível a libertação das mulheres. O patriarcado funciona através de relações pessoais de dominadas e dominadores; Carol Hanisch cunha o termo O pessoal é político, em 1969, na tentativa de politizar as relações de poder do espaço privado.

A partir do discurso LGBT, o prazer sexual — e apenas ele — é a forma de medir se uma prática sexual é saudável ou não. Ignora-se que o patriarcado constrói nossa sexualidade para a erotização da submissão e da dominação, o que faz com que precisemos analisar politicamente o significado do nosso prazer. O movimento LGBT celebra o BDSM como prática saudável e consentida, ignorando que erotização de violência é mais da mesma lógica patriarcal.

O conceito sadomasoquista de sexo “baunilha” é sexo desprovido de paixão. Eles estão dizendo que não pode haver paixão sem poder desigual. Isso parece muito triste e solitário para mim, e destrutivo. A ligação da paixão à dominação/subordinação é o protótipo da imagem heterossexual das relações homem-mulher, que justifica a pornografia. As mulheres deveriam amar ser brutalizadas. Essa também é a justificativa prototípica de todos os relacionamentos de opressão — que o subordinado que é “diferente” desfruta da posição inferior. O movimento gay masculino, por exemplo, investe na distinção entre pornografia gay sadomasoquista e pornografia heterossexual. Os gays podem se dar ao luxo de não ver as consequências. Nós, como mulheres e feministas, devemos examinar nossas ações e ver o que elas implicam, e sobre o que elas são baseadas. Como mulheres, fomos treinadas para seguir. Devemos olhar para o fenômeno sadomasoquista e educar a nós mesmas, e ao mesmo tempo estarmos cientes das complexas manipulações externas e internas.

(Audre Lorde, Não é Sobre Condenação)

Pelo mesmo discurso do prazer, o movimento LGBT se recusa a analisar a indústria do sexo enquanto exploração sexual de mulheres pobres e racializadas, apesar das inúmeras análises feministas sobre o assunto. É mais uma amostra do quanto se negligencia as pautas cruciais à vida das mulheres.

Reprodução de masculinidade e feminilidade

A lésbico/homossexualidade vivida por uma pessoa, cuja mente e corpo estão impregnados (colonizados) de ideologia patriarcal essencialista, não é uma experiência libertadora por si só, já que reproduz a ordem simbólica/valórica patriarcal, reproduz a propriedade sobre as pessoas e reproduz o sistema amor/ódio patriarcal.

(Margarita Pisano, O Amor Homo-Lésbico)

Na mesma lógica de preservar o espaço do privado enquanto livre de politização, a reprodução de feminilidade e masculinidade dentro de relacionamentos homossexuais e lésbicos é vista como algo natural, uma prática LGBT comum e livre de questionamentos. Enquanto o movimento de libertação gay entendia que precisava acabar com a masculinidade, o movimento LGBT hoje celebra papéis sexuais que reproduzem heterossexualidade dentro de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. É a lógica ativo/passivo, predador/presa, butch/femme, dominação/submissão novamente erotizada e naturalizada.

Homens gays reivindicam masculinidade e ódio às mulheres. Marilyn Frye também analisa a reprodução de feminilidade teatral de homens gays como um escárnio às mulheres tradicionais. Criar um espetáculo baseado num mecanismo de dominação das mulheres é ressaltar que homens gays, por mais que o reproduzam, nunca serão os afetados por esse mecanismo, que estão isentos de serem forçados a esse papel como são as mulheres. Novamente: a transgressão é um deleite dos poderosos.

O coletivo homossexual masculino, por sua vez, exacerba a construção patriarcal da masculinidade em suas expressões mais fálicas; ao amar e erotizar-se com um homem, eles o fazem com um igual, de poder a poder. No entanto, também eles incorporam a simbologia amorosa patriarcal (os papéis feminino/masculino), quando aludem ao estereótipo do feminino que historicamente leva implícito a ridicularização e a humilhação da mulher.

(Margarita Pisano, O Amor Homo-Lésbico)

Gênero e heterossexualidade compulsória

A versão de gênero introduzida pela teoria lésbica-e-gay é muito distinta do conceito de gênero das teóricas feministas. Trata-se de um gênero despolitizado, asséptico e de difícil associação com a violência sexual, a desigualdade econômica e as vítimas mortais de abortos clandestinos. Aqueles que se consideram muito distantes dos escabrosos detalhes da opressão das mulheres redescobriram o gênero como jogo. E essa perspectiva é bem recebida no mundo da teoria lésbica-e-gay porque apresenta o feminismo como uma diversão, e não como um desafio irritante.

(Sheila Jeffreys, A Heresia Lésbica)

O entendimento de gênero — e a exaltação da palavra — do movimento LGBT é incompatível com o feminismo. Ele é propagado como performance, identidade, essência; não como mecanismo de dominação das mulheres. As feministas e lésbicas que teorizaram a dominação masculina nem utilizavam esse termo: o que se chama de gênero hoje, dentro do feminismo radical, era chamado de papéis sexuais.

A maior consequência disso para lésbicas é o fim da sexualidade como ela sempre existiu: baseada em sexo. Atualmente, defende-se a sexualidade baseada em gênero, e criaram-se inúmeras novas identidades, supostamente “orientações sexuais”, a maioria nem concernente a por quem se sente atração. Isso significa que mulheres lésbicas não podem mais reivindicar sua atração a pessoas do sexo feminino sem serem acusadas de opressoras por não incluir pessoas do sexo masculino.

Esse fenômeno é chamado de teto de algodão, algodão sendo uma alusão à barreira que é a calcinha de mulheres lésbicas ao acesso masculino. O movimento LGBT, ao defender que lésbicas são obrigadas a se atrair por pessoas de ambos os sexos, pratica o estupro corretivo; mulheres lésbicas cedem à pressão de serem acusadas de opressoras e incluem pessoas do sexo masculino dentro de suas possíveis parceiras sexuais.

Gradualmente, termos mais antigos para descrever esse sistema, tais como dominação masculina, classe sexual e casta sexual saíram de moda e, consequentemente, se apagou a identificação direta dos agentes responsáveis pela subordinação de mulheres — os homens — estes não poderiam mais ser nomeados. O gênero, como um eufemismo, deu sumiço nos homens como agentes responsáveis pela violência masculina contra mulheres, a qual é comumente referida como “violência de gênero”. Cada vez mais, o termo “gênero” é usado, em formulários oficiais e legislação, por exemplo, para ficar no lugar do termo “sexo”, como se “gênero”, por si mesmo, fosse biológico, e esse uso tem destruído o entendimento feminista de gênero.

(Sheila Jeffreys, Gender Hurts)

Backlash

A análise da realidade desde a cultura vigente e suas propostas, é uma realidade que não existe para nós, é uma realidade onde nunca estivemos, nem estaremos, nem estamos, nem nos pertence como análise, por isso devemos revisar muito cuidadosamente a necessidade de aderir-nos a qualquer análise ou proposta de mudança que não provenha de nós mesmas, recuperar nossas próprias reflexões, nossa própria história política, pois obviamente não temos os mesmos interesses de outros grupos marginalizados; podemos fazer alianças circunstanciais, mas não deixar que nosso discurso seja tomado por outros, que se perca em outros.

(Margarita Pisano, Incidências Lésbicas ou o amor ao próprio reflexo)

O movimento LGBT atual ignora o que lésbicas escreveram e teorizaram sobre sua própria opressão. Barra o acesso de lésbicas e bissexuais integrantes do movimento a esse conhecimento. Acusa de opressor qualquer um que ousa discordar das inúmeras práticas misóginas que carrega. Retira das mulheres a autonomia de definir a própria natureza. Não há como não defini-lo como backlash — a reação do patriarcado ao movimento de libertação das mulheres.

Mulheres, abandonem o movimento LGBT. Priorizem a si mesmas. Não gastem suas energias reivindicando inclusão num movimento essencialmente liberal — e focado em homens. Reconheçam o backlash. Não tenham medo de serem acusadas de opressoras por pleitear um feminismo que não inclui pessoas do sexo masculino. Mulheres já são odiadas e sempre serão até que o patriarcado seja derrubado, e o único caminho realmente revolucionário é o do feminismo radical. Subvertam a feminilidade — não pratiquem a maternagem de toda e qualquer pessoa que se reivindica oprimida. Empatizem com outras mulheres. Não dêem ouvidos à culpa que não lhes pertence.

Mulheres, abandonem o movimento LGBT. Estudem o feminismo lésbico. Honrem as que vieram antes de vocês.

“Mas a verdadeira feminista lida com uma consciência lésbica tenha ou não qualquer vez dormido com uma mulher.”

Audre Lorde, Sendo uma feminista lésbica negra

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