Mas vocês notaram que a JK Rowling “inventou” as questões identitárias?
O tão especial Harry Potter

A criadora de Harry Potter, JK Rowling escreveu recentemente sobre as “TERF Wars”, falando a respeito do que tem aprendido da questão trans e comparando com suas experiências de vida enquanto filantrópica que faz doações para a causa das mulheres, e enquanto sobrevivente de abuso masculino.

Isso gerou uma grande polêmica entre transativistas e feministas radicais/críticas de gênero. Os transativistas não calavam a boca sobre a importância de respeitar a identidade de gênero das pessoas para não incentivar o discurso de ódio da extrema direita, enquanto feministas radicais lembravam a todo mundo que mulheres tem o direito de falar sobre situações de abuso envolvendo um movimento em particular sem que isso seja visto como um algo da extrema direita.

Coincidentemente, eu estava assistindo Harry Potter esses dias e fiquei pensando sobre algumas coisas que não estão sendo discutidas sobre a figura da JK Rowling e sua relação com as pautas identitárias. Ela pode ter mais agência do que se pensa na popularização da ideia de ignorar sua própria socialização para se tornar uma nova pessoa, como os adeptos do conceito de identidade de gênero defendem. Eu tenho o costume de analisar obras de entretenimento e acho importante pensar no papel da narrativa midiática que ela criou.

No cinema mainstream atual há uma tendência que já está durando tempo demais de fazer grandes produções do gênero fantasia com a forte presença da dicotomia entre realidade e magia/ficção científica. A Marvel está fazendo bilhões assim com seus filmes de super herói mais “adultos”. Já a Disney está refazendo todos os seus desenhos em live-action (live-action é o cinema filmado e não animado, para quem não sabe).

Fala-se muito sobre a Disney estar tentando ganhar dinheiro fácil com isso, pois os reboots são desnecessários e fazem o desserviço de menosprezar o meio da animação por uma atualização mais “madura” das obras em live-action.

Também ouvi críticas à Disney por tentar justificar os reboots desnecessários com o fato de as novas produções serem mais “esclarecidas”, ou seja, com mais gays, mais mulheres fortes e não sexualizadas, mais negros. O que é ridículo, porque até parece que a Disney liga.

Mas muito pouco se fala sobre um dos criadores de toda essa tendência… Harry Potter.

Harry Potter reconfigurou a fórmula de sucesso do cinema comercial. Percebam como o enredo se leva a sério como um filme sobre bruxaria com lições de moral importantes.

Um filme sobre BRUXARIA. Isso é irônico em dois sentidos.

Um deles se refere a ser uma história infantil que ganhou prestígio entre adultos num tanto que nem mesmo Star Wars havia feito (e se vocês querem saber, Star Wars voltou a fazer sucesso e ganhar investimento para novos filmes por causa dessa tendência também).

Sabe, bruxas são coisas tão presumivelmente associadas ao que você vai contar para suas crianças ficarem com medinho ou fazerem brincadeirinha de Halloween que era difícil conceber uma história moralmente complexa, até “em live-action”, do jeito que foi. Tratava-se de um filme com cores sóbrias, temas do cotidiano, dramas de “vida comum”, no qual a magia era uma coisa que só estava lá, que era difícil de fazer a ponto de você ter que ir para uma escola aprender, numa organização mais chata e problemática do que incrível.

Percebam que mesmo nos filmes de super herói ou de fantasia pré-Harry Potter são sobre uma mística idealizada e um protagonista com dramas específicos ao fato de ele ser super herói, nada relacionado a uma escola comum ou burocracia. Ou então esses filmes eram completamente mágicos, tipo O Senhor dos Anéis, nada de “menino comum”.

Além dessa novidade, o segundo sentido para a bruxaria de Harry Potter ser irônica é que estamos falando de uma assunto macabro. Não é a toa que os cristãos ficaram defensivos quanto a esses livros, Harry Potter é mesmo sombrio pra caramba, perturbadoramente assustador às vezes.

Quando se pensa em coisas “infantis”, se pensa em cor, em alegria, em energia positiva. No entanto, essa franquia é cheia de medos e inseguranças. Suas temáticas incluem “o mal que possa retornar”, o perigo de morte iminente em cada cena, o abuso que Harry sofreu e como isso o fez usar a desencaminhada escola de magia como mecanismo de enfrentamento, uma série de ameaças monstruosas atacando o suposto “local seguro” de Hogwards, um ministério tão corrupto que casualmente mandou criaturas sugadoras de alegria para perto dos alunos. O Harry, incorporando anseios na realidade muito próprios da JKRowling, vive apavorado com a possibilidade de se corromper a tal ponto que não haveria mais bondade nele. Seu inimigo asqueroso, que não sai de sua cabeça, se tornaria ele próprio. Ele tinha que ser corajoso e se jogar na luta contra aquele mal a todo custo, mesmo sendo quase suicida, pois era inconcebível permitir que se instaurasse.

Uma geração de crianças cresceu com essa ansiedade de ter que tomar responsabilidade por todos os problemas do mundo, tendo como espelho a obra de Rowling, para bem ou para mal.

É bem simbólico em relação à geração de millenials. Uma infância na qual a instituição da escola era vista como um monte de feitiçarias misteriosa e indecifráveis com as quais teríamos que conviver. Existe uma profunda melancolia nessa história, de alguém com uma grande angústia pelo futuro e incerteza quanto ao presente.

Quando a JK Rowling falou sobre as situações de abuso que sofreu, sobre o transtorno de ansiedade que tinha na adolescência, para ser sincera, eu li e pensei “Ah é, faz perfeito sentido”.

Existe uma entrevista que ela deu na qual responde à pergunta de se ela sabia do sucesso que estaria por vir. A resposta dela foi “Eu sabia. Enquanto escrevia, pensava ‘isso vai ser grande’”. Assistindo o filme de novo, é claro que seria.

Uma série de livros com uma acumulação de mitologia comparável ao que O Senhor dos Anéis fez, com infinitos detalhes minuciosos a serem absorvidos pelos fãs mais ávidos. Essa característica viria a ser copiada depois por muitas obras; a exemplo de Gravity Falls, série que fez sucesso pela diversão proporcionada aos espectadores de ter que achar as pequenas pistas para o mistério principal escondidas em cada detalhe de cenas super trabalhadas.

Contudo, em oposição a O Senhor dos Anéis e séries do gênero, Harry Potter era sobre um menino comum que escapava para esse outro universo. O fantástico existia nas brechas, no contraste com a realidade. Todavia, ao contrário de Nárnia, por exemplo, parecia mais real e pé no chão do que o mundo comum. É um mundo cotidiano, difícil, burocrático e… mágico, claro.

Além disso, a franquia também é baseada em mistérios a serem desvendados, o que especialistas em narrativa apontam como sendo quase uma fórmula de sucesso. O enigma envolvendo Voldemort e o que teria acontecido à família que Harry perdeu é envolvente, mesmo que nunca satisfatoriamente bem resolvida, talvez por causa disso. É um dilema sem respostas — como superar o fato de terem te tirado algo tão fundamental como sua família?

É infinitamente dramático e impactante. Mas não necessariamente saudável, quando se pensa que pode facilmente virar uma fetichização do abuso. Por isso que eu sempre bato na tecla da importância de existirem personagens “sem filtros” que sofreram com isso, como a Catra (de preferência sem que sejam vilanizados).

Isso gerou uma contradição no imaginário popular entre estar acostumado a histórias “complexas” e ao mesmo tempo bobas, infantis, escapistas. Sabem, histórias que faziam você achar que sua realidade era magia, que a materialidade estava na sua cabeça, pronta para sair com um feitiço.

Que era possível escolher um mundo extraordinário onde você era um corajoso herói mágico por ter sobrevivido ao seu sofrimento, não ter “deixado aquilo te consumir”.

Soa familiar, críticos de gênero?

Isso não foi de todo positivo. Eu fico pensando o quanto que a JK intuitivamente sabia que não seria ao assinar o contrato para fazer aqueles filmes. Não tinha como não saber, era óbvio que aconteceria, ela própria o disse. Filmes inconclusivos, leves, mas dramáticos e pesados.

Hoje em dia os adultos vão ao cinema pagando caro para ver aqueles filmes feitos desnecessariamente por meio de bilhões de dólares, só para verem seu super herói com roupa ridícula fazer algum comentário mais ou menos útil sobre as dificuldades da vida cotidiana. O fato de o Capitão América ser digno o bastante para carregar o martelo de Thor na luta final contra o mal que representa algum aspecto do fascismo é o novo “felizes para sempre” da grande tela. Comparável a grandes superações em filmes sobre pessoas comuns de outras épocas, ou a feitos épicos e altamente alegóricos de antigos filmes de fantasia. O patético super herói americano quase que cartunescamente pegando o martelo enfeitado do outro herói patético é “épico”, é “superação”.

Algumas obras corajosas já tentaram desfazer essa contradição, como Hora de Aventura. Para o Finn, o mundo é tão loucamente cartunesco e bobo que ele não se sente mais especial em ser um herói fora da realidade. Aquela É a sua realidade.

Hora de Aventura enxerga a vida e os problemas de forma leve, no meio do furacão de mitologia confusa criada apenas para entreter e elevar artificialmente a profundidade da obra. Para esse desenho, tudo é raso. A guerra mais cruel é só parte da ilusão do tempo.

E querem saber, não é infantil. Hora de Aventura nunca abaixou o tom. Era para qualquer um ver e, na verdade, avassalador demais para uma criança desavisada assistir. Muito mais que Harry Potter, com toda a sua “complexidade”. Hora de Aventura te tira do sério, te faz pensar, te perturba, sendo casual e simples. A minha maior tristeza é saber que as pessoas ainda não perceberam isso, ainda se voltam para a ideia de que Hora de Aventura é só um desenho animado qualquer um pouco mais interessante, mas que ainda sim é para criança — não é. Isso me mostra que a sociedade ainda não aprendeu com ele e com tudo o que ele quis dizer sobre literatura.

Talvez a JK tenha aprendido, se não com Hora de Aventura, com o resultado da própria obra. Ela, que fez a história modelo sobre ir criar um mundo ilusório para substituir a realidade, falou “minhas experiências de vida foram marcadas pelo fato de eu ser mulher, é extremamente importante reconhecer a realidade sexual”.

Parece que alguém resolveu seus dilemas do passado, não é mesmo? Não surpreende que tantos fãs estejam desapontados, falando para ela como os livros dela os tinham ajudado a lidar com sua questões, sem se dar conta que seu enredo não é satisfatório.

Alguns não evoluíram a partir daquilo. Talvez, estejam felizmente assistindo aos reboots da Disney por pura nostalgia, ou criando novas narrativas com o tema “se identificar para fora da opressão”.

Mas eu duvido que a JK teria ficado bilionária se sua narrativa não tivesse um caráter de entretenimento tão grande, se não menosprezasse a questão do abuso. Não muda o fato de que foi ela, em primeiro lugar, criou tudo isso. Como conviver com sua própria criação? É uma criação linda, é claro. Tem muitas ideias realmente geniais lá, que agregaram positivamente na vida das pessoas. Afinal, era mesmo importante que se quebrasse com essa narrativa bonitinha e alegre que passam a crianças, como se elas devessem viver numa bolha. Mas a acessibilidade custou um preço. Como consertar isso?

Retribuindo sua fortuna para a caridade? Quem sabe. Ela com certeza tirou lições dessa prática.

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