Eu me senti extremamente desrespeitada pela criadora de She-ra, Noelle Stevenson, no que diz respeito aos seus atos no twitter direcionados a mim há alguns dias.

Não é segredo para as pessoas que me seguem e que gostam das coisas que publico aqui que tenho opiniões muito fortes sobre a ética desse desenho, algo relacionado ao que penso sobre a chamada “comunidade LGBT”. Molly, esposa de Noelle, tuitou sobre como ela gosta quando as pessoas respondem à discriminação com um ícone da personagem Felina com a bandeira lésbica ao fundo. Eu não queria ficar calada e disse ficar brava porque elas usam a bandeira errada, respondendo com minha fanart do ship canônico Catradora com as meninas vestindo uma camiseta com a bandeira Labrys.

“Eu geralmente fico brava com eles porque usam a bandeira errada, então fiz um rascunho rápido”

Alguém nos comentários me perguntou sobre essa bandeira e eu respondi com o meu conhecimento básico, mas correto para qualquer um que fez uma pesquisa de google, de que era a bandeira lésbica mais antiga que está associada ao feminismo e à libertação feminina. Na verdade, esse não é meu principal foco de interesse e estava apenas sendo militante como feminista. Nós discutimos sobre isso por um tempo até que alguém disse que as novas bandeiras também eram boas. Então, eu respondi que não há razão para a bandeira lésbica mudar com tanta frequência que não seja o apagamento lésbico.

Bandeira Labrys

Em seguida, Noelle apareceu por lá, disse que não havia lugar em seu fandom para transfóbicos e me bloqueou. Eu nem havia mencionado pessoas trans.

Retuitei o que Noelle disse sobre mim e um monte de lésbicas que me seguem ficaram profundamente ofendidas. Outras lésbicas que não me seguiam também ficaram ofendidas e começaram a me seguir. Elas responderam Noelle irritadamente, dizendo que ela estava se voltando contra a bandeira lésbica ao chamar quem a usa de “transfóbica”. Uma moça mais esclarecida do que eu falou falou sobre como era importante conhecer a história lésbica e que ela não usaria uma bandeira que não possui história, além de mencionar como Noelle estava sendo desrespeitosa por despejar ódio a uma fã de seu trabalho acusando-me de uma discriminação que não cometi.

Ela respondeu a esses comentários nos tweets abaixo, antes de excluí-los com o aumento de comentários negativos a ela. Como eu estava bloqueada, alguém tirou print para mim.

“Você precisa amar pessoas trans para assistir She-ra, minha casa, minhas regras” | “Eu sei o que a bandeira labrys é e ela tem sido apropriada por TERFs como a “verdadeira” bandeira lésbica, como essa pessoa deixou claro no tuíte dela e nas respostas. O que é péssimo porque machados são demais e a gente precisa pegar a bandeira de volta”

Ela me chamou de “TERF” baseado no fato de alguém nos comentários à fanart ter me dito que essa bandeira está associada a TERFs e eu ter respondido com “TERF é um insulto”. Aparentemente, dizer isso me faz uma TERF… Sabe quando uma criança te chama de burra e você, sendo outra criança, responde “Eu não sou burra”, e a criança continua com “então você é burra, sua burra”. Bem, esse foi o nível de maturidade que percebi da Noelle.

Eu disse “TERF é um insulto” por causa da maneira como esse acrônimo ridículo está sendo usado contra mulheres, principalmente lésbicas. As pessoas ficaram me dizendo que não é uma ofensa e que significa apenas “feminista radical excludente de trans” (elas me disseram isso enquanto me mandavam calar a boca, dizendo que TERFs merecem levar um soco e me enviando memes de armas e de peitos, provando meu ponto, mas enfim). A verdade, no entanto, é que você não precisa se considerar uma feminista ou praticar discriminação contra pessoas trans para ser chamada por esse termo. Por exemplo, há uma artista brasileira chamada Juliana Lossio que está escrevendo uma história em quadrinhos anti-pedofilia para falar sobre seu trauma de infância. Ela não considera a abordagem feminista relevante para seu ativismo. No entanto, como ser anti-pedofilia é algo que feministas radicais fazem, as pessoas começaram a perguntar se ela era transfóbica e lhe enviaram ódio (eu não estou certa se ela foi chamada de TERF, porque aqui no Brasil vejo as pessoas xingando de “radfem”, mas é a mesma ideia). Ela decidiu deixar as mídias sociais por um tempo depois disso, para que parasse de sofrer assédio por lá. Outro exemplo famoso é o de Magdalen Berns, que se tornou feminista (embora não feminista radical) depois de ser aleatoriamente chamada de TERF por se opor à exclusão de homens gays em um evento de Drag Queen de sua universidade. Ela passou a achar que mulheres, principalmente lésbicas, precisam se defender desse termo, porque estava sendo usado apenas contra elas por motivos absurdos.

Além disso, obviamente existe a JK Rowling agora. A única coisa que ela disse sobre pessoas trans foi “Eu conheço e amo pessoas trans”. Entretanto, porque ela disse “sexo é dimórfico” e seguiu a Magdalen Berns no twitter, ela foi chamada de TERF.

Então, eu respondi a essa situação tuitando o seguinte:

“Não, Noelle Stevenson, você criou um desenho para qualquer um assistir. Você não escolhe quem consome o seu trabalho. Chamar feministas de transfóbicas está chateando um monte de fãs feministas suas, mostrando o quão desrespeitosa você é com elas”

Depois disso, como esse era um tweet meu e não uma resposta a Molly, as pessoas se sentiram confortáveis ​​o suficiente para me enviar fotos delas fazendo cocô, bebendo o próprio xixi e outras coisas. Mais uma vez, isso prova o quanto ter um posicionamento político em favor da história lésbica pode gerar assédio.

Eu tenho muita produção relacionada a She-ra. Adoro analisar desenhos animados e adoro o fato de She-ra ter uma personagem como Felina, uma lésbica sem vergonha que fica flertando com garotas, enquanto é uma pessoa interessante, com problemas válidos a serem resolvidos e muitos dilemas internos que giram em torno de sua dignidade e da dignidade de todas as pessoas. Não concordo com a maneira como ela foi vilanizada, foi classicista e fruto de homofobia e misoginia internalizadas. Agora ficou mais que óbvio o porquê. Noelle Srevenson não se preocupa em priorizar lésbicas.

De minha parte, essa situação ainda é tranquila. Sou atraída pelo sexo oposto, o que me dá uma vantagem, mas questiono se posso ser bissexual. Analisar e falar sobre a Felina foi uma maneira divertida de explorar isso. É para isso que serve a arte, para dar sentido às suas experiências e desejos. Mas imagine se isso tivesse acontecido com uma lésbica, atraída apenas por mulheres, que está no armário e descobrisse a história lésbica como forma de achar sentido ao que sente. Descobrisse a bandeira labrys ou o velho movimento feminista, e como eles tornaram popular o conceito de lesbianismo. Imagina que essa pessoa é jovem e goste de desenho animado, usando as séries como forma de diversão e apreciação (sei que essas meninas existem, muitas me seguem). E que então a criadora de uma das únicas obras de entretenimento sobre lésbicas lhe dissesse: “você não é bem-vinda aqui, não pode falar sobre a história lésbica, não tem permissão para falar sobre o meu programa, de alguma forma você é preconceituosa e eu não vou me opor àqueles te assediando, mas vou apoiá-los usando a mesma calúnia que eles estão usando contra você”. (A propósito, ela não tem o direito de impedir ninguém de falar sobre o programa dela. É contra liberdade de expressão).

A vilanização de Felina sempre me fez sentir vergonha de mim mesma e não querer participar de discussões sobre mulheres que se atraem por mulheres, pensando que eu seria vista como vil (na verdade, isso também diz respeito à forma como a personagem mimetiza questões tipicamente vividas por mulheres sob o controle patriarcal, estigmatizando quem se sente perturbada emocionalmente com esse controle). Se já é assim para mim, imagino como lésbicas devem se sentir. Noelle Stevenson, que afirma estar defendendo elas, está as jogando à própria sorte apenas para ficar bem na fita com transativistas. Que tome vergonha na cara!

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