O backlash Queer

Recentemente, a palavra “queer”, por muito tempo usada como um termo de insulto e de auto-ódio, tem sido reivindicada por lésbicas, homens gays, bissexuais, travestis, transsexuais — e até por (algumas) pessoas heterossexuais — como uma declaração orgulhosa de sexualidades não-conformadas: “estamos aqui, somos queer; acostume-se a isso!”. No lugar do termo médico-psiquiátrico “homossexual”, ou do eufemístico e auto-justificativo “gay”, a palavra “queer” é vista como afrontosa e como se estivesse sublinhando o fato de que somos “queer” (“desviantes” e “anormais”) a um mundo em que a normalidade é definida em termos rígidos e sufocantes. No artigo que se segue, apresentamos as estratégias políticas e teóricas do movimento queer, com referência em particular à sua estratégia-chave, “foder o gênero”, e tentamos explicar a aparente popularidade do queer, tanto dentro quanto além da academia. Finalmente, apresentamos uma crítica feminista radical à teoria queer, e mostramos que o queer é centralmente antagonista ao feminismo radical.

O que é o queer?

Influenciada por, e de muitas formas uma ramificação do pós-modernismo, a teoria queer visa desconstruir e perturbar categorias normativas de gênero e sexualidade, expondo sua inaturalidade fundamental. Não existem “verdadeiras” identidades de gênero nem “verdadeiros” sexos: ao invés disso, masculinidade e feminilidade são “performances” ou “simulações”. De acordo com Butler, masculinidade e feminilidade são:

(…) performativas no sentido de a essência ou identidade que elas de outra forma simulam expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por meio de signos corporais e outros meios discursivos (…), uma ilusão mantida discursivamente para os propósitos de regulação da sexualidade dentro dos limites obrigatórios da heterossexualidade reprodutiva (1990, p. 136).

“Simulação” significa não uma réplica de algo que de fato existe, mas uma cópia idêntica da qual nunca houve um original. A Disney, por exemplo, já foi descrita como uma simulação cuja função em proclamar seu status como “irreal” é precisamente para fazer o resto dos EUA parecer “real” (Baudrillard: 1988). O gênero também é concebido como uma cópia exata de algo que nunca de fato existiu em primeiro lugar: não existe uma masculinidade ou feminilidade “real”, “subjacente”, na qual baseamos nossas performances. O corpo pós-moderno “é o corpo do Trickster mitológico, o metamorfo de sexo indeterminado e gênero mutável (…) que continuamente altera seu corpo, cria e recria uma personalidade (…) e flutua ao longo do tempo de período em período, de lugar em lugar” (Bordo: 1993, p. 144, parafraseando Smith-Rosenberg: 1985). Isso é, na linguagem do pós-modernismo, indicativo de uma identidade em fluxo, uma fantasia volátil, uma dança textual complexa, uma heteroglossia narrativa, uma coreografia de multiplicidade, e uma celebração de um eu polivocal transcendente em um momento em que “as rígidas demarcações do distinto e claro universo Cartesiano estão se desintegrando, e a negação do ‘sujeito’ unificado não é mais sustentável” (Bordo: 1993, p. 144). Nessa teoria de sujeitos flutuantes e continuamente mutáveis, “sexo” é uma área “de moda e de estilo mais do que de biologia e de identidade” (Chapkis: 1986, p. 138). “Ser” homem ou mulher é conceituado não como uma identidade central, mas mais como “um adereço, um brinquedo sexual” (Schwichtenberg: 1993a, p. 135) ou como um “posicionamento temporário” (Gergen: 1993, p. 64).

Ao conceituar o que anteriormente era visto como identidades “centrais” (homem/mulher, hetero-/homossexual) como não mais do que tendências ou performances flutuantes, a teoria queer, como o pós-modernismo de forma geral, incorpora uma esperança para a abolição futura desses binarismos patriarcais divisivos, inaugurando a era do pós-lesbianismo e, é claro, do pós-heterossexual. Nesse mundo imaginado, homem não existe, nem mulher; portanto os conceitos de heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade são literalmente impensáveis. O “sexo” de uma pessoa com quem você transa não é somente irrelevante em termos de significado social e identidade: é também algo inespecificável, porque “sexo-enquanto-gênero” não é mais um conceito significativo. Tal visão do futuro não é, obviamente, específica do pós-modernismo e da teoria queer: tem um longo histórico dentro dos movimentos de libertação feministas, gays e lésbicos (por exemplo, Radicalesbians: 1970; Piercy: 1979). O que é específico da teoria queer e pós-moderna (enquanto oposição à teoria feminista lésbica) é a estratégia imaginada para chegar “lá” a partir “daqui”.

A noção de “heterossexualidade queer” é um componente da estratégia pós-moderna para adentrarmos o admirável mundo novo do futuro. Tal mundo não veria uso para o conceito de “heterossexualidade queer” porque não existiria algo como “heterossexualidade”, não haveria “homens” ou “mulheres” para performá-la, nem haveria uma heteronormatividade contra a qual as pessoas seriam posicionadas como “queer”. Mas, no ínterim, teóricos queer dão aos “heterossexuais queer” um papel de figurante. “Há momentos”, diz a teórica queer Cherry Smyth (1992), “em que queers possam escolher chamar a si mesmos de heterossexuais, bissexuais, lésbicas ou gays, ou nenhum desses termos”. Segundo Cathy Schwichtenberg (1993a, p. 141), uma pessoa poderia “sair do armário” e participar de um leque de identidades “tal qual heterossexual lésbica, lésbica heterossexual, lésbico homem, homem gay feminino, ou até uma feminista sexo-radical”. Outro autor oferece essa lista: “Existem queers heteros, biqueers, queers trans, queers lés, queers bichas, queers sadomaso, queers que praticam fisting” (panfleto anônimo: 1991, citado em Smyth: 1992, p. 17). O queer celebra sua própria “inclusividade”.

Fodendo o gênero

Se tudo é artifício, simulação e performance, se “sexo” é só uma tendência passageira, não há razão para se opor a isso buscando por alguma realidade ou verdade subjacente sobre “homens” e “mulheres”; a estratégia se torna, por outro lado, ativamente participar no artifício precisamente para sublinhar a fragilidade de “sexo” e “gênero” enquanto artifícios. Essa estratégia é descrida como “brincadeira de gênero” (Schwichtenberg: 1993b), “subversão de gênero” (Braidotti: 1991), ou, mais popularmente, como “foda de gênero” (Reich: 1992) ou “foder o gênero”. A foda de gênero intenciona “destituir as narrativas naturalizantes da heterossexualidade compulsória de seus protagonistas centrais: ‘homem’ e ‘mulher’” (Butler: 1990, p. 146) e ilustrar a construtividade social do “sexo”, em todos os seus múltiplos significados.

Essa estratégia-chave queer, foder com o gênero, é sobre paródia, pastiche e exagero. Ela substitui a resistência a significados culturais dominantes de “sexo” com reversões carnavalescas e transgressões de papéis de gênero e sexualidades tradicionais, que se deleitam em sua própria artificialidade. Figuras midiáticas como Prince, Boy George e Annie Lennox são citadas como “subversivos de gênero” (Braidotti: 1991, p. 122–123), mas o exemplo mais famoso de foda de gênero contemporâneo é, sem dúvidas, Madonna:

Madonna também apresenta um disfarce mas menos como uma dissimulação do que como uma relevação impetuosa de artifício. É a essência do camp — quebrar o espelho, vestir-se e atuar para expor a construtividade do que em outras configurações passa como homem, mulher ou heterossexual “natural”. (Henderson: 1993, p. 122)

Essa celebração da desnaturalização é típica da foda de gênero, e Madonna tem sido descrita como ambas uma “heroína feminista pós-moderna” (Kaplan: 1987, in Mandzuick: 1993, p. 169; Schwichtenberg: 1993, p. 132) e um “ícone queer” (Henderson: 1993, p. 108, 119, 122).

À esquerda, capa da coleção “Stolen Glances”, de Jean Fraser e Tessa Boffin. À direita, “Lesbian Cock”, de Della Grace.

Fotógrafas lésbicas frequentemente nomeadas como “queer” incluem Jean Fraser e Tessa Boffin, cuja coleção controversa de fotografias lésbicas, Stolen Glances (“Olhares Roubados”, Beloff: 1993), foi compilada, dizem, não na “tentativa de naturalizar uma ‘estética lésbica’ (…) mas para celebrar que não existe de forma alguma uma sexualidade natural”, e pelo interesse em “estratégias subversivas de representação” (1991, p. 20–1). Love bites (“picadas de amor”), uma coleção de fotografias de Della Grace, também é citada como exemplo de foda de gênero: uma fotografia, “Piroca Lésbica”, mostra duas lésbicas vestidas de couro e capacetes de moto, usando bigodes, e uma delas segurando um dildo saliente bem realista de sua virilha:

Feministas lésbicas pensam que coisas como lésbicas fazendo boquetes em dildos deveriam ser mantidas em segredo (…) porque mulheres se deliciarem com a foda de gênero, de alguma forma, não é aceitável. Mas lésbicas fazem isso. Lésbicas fazem até “sexo gay masculino”. (Grace, citada em Smyth: 1992, p. 44)

Uma casta variada de personagens tem reivindicado (ou tem sido atribuída) a categoria “queer” e louvado sua valentia de foda de gênero. Em nome do “queer”, algumas lésbicas reivindicam papéis butch/femme (como “figurinos intercambiáveis”, MacCowan: 1992, p. 300), e alguns homens gays reivindicam o camp (“a vingança do pervertido sobre a autenticidade”, Dollimore: 1991). Travestismo e cross-dressing “colocam a lógica binária da identidade sexual em quesstão” (Bristow: 1992) e por apenas $25 você pode comparecer a um “Workshop de Cross-dressing” intensivo com direção de movimento, técnica de maquiagem cross-gênero, dicas de fantasia e demonstrações de penteados, tudo incluso (panfleto de anúncio: 1992).Transsexuais também desempenham um papel porque “a remoção e implantação cirúrgicas de partes do corpo revelam que a carne de alguém pode ser cortada, digamos, como um terno” (Bristow: 1992) e porque, simbolicamente falando, “todos nós somos transsexuais” (Baudrillard: 1988). Hermafroditas, também, são “um escape pornotópico do (…) binarismo rígido” (Williams: 1992, p. 261) e Annie Sprinkle, “Pós-modernista Pós-pornô” e “garota-bi” (Sprinkle: 1992), às vezes agrupada com Madonna enquanto artista de performance queer (veja-se Williams: 1992, p. 234), se deleita na ambiguidade fodedora de gênero de sua “primeira vez com um hermafrodita homem-trans-cirurgicamente-construído”.

Atrações queer

Com apoio “queer” para tal variedade deslumbrante de “perversões”, e dado que o sexo biológico de parceiros sexuais é ignorado em prol do gênero enquanto performance, não é de se surpreender que “muitos ativistas queer estão questionando o que está impedindo homens gays e lésbicas de desenvolver uma política sexual que também inclua bi- e heterossexuais” (Pickering: 1992). Dentro da academia, existem, de fato, alguns sinais disso, com o louvor da teoria queer por ambas sua “inclusividade” e sua “oposição discursiva”:

(…) acima de tudo, o desenvolvimento do termo “queer” promete incorporar assim como criar um alcance inteiro de identidades sexuais — inclusive as heterossexuais dissidentes — dentro de seu projeto político. (Bristow e Wilson: 1993, p. 9)

Nessa visão, todas as pessoas que são similarmente “transgressores” compartilham afinidade e igualdade; “minorias sexuais” se organizando juntas podem constituir um potencial revolucionário.

Para feministas, as atrações da teoria queer incluem um poderoso senso de possibilidade e do poder de mudança. Feministas passaram mais de um século desafiando os conceitos de “natural” que relegam mulheres à cozinha e ao quarto, e justificam e perdoam sua subjugação pelos homens; e agora enxergam o potencial da teoria queer para desnaturalizar — e subverter — conexões essencialistas entre “sexo” e “gênero” como um potencial considerável. Para feministas lésbicas, a destruição compreensiva, pela teoria queer, da heteronormatividade também é particularmente chamativa. Sheila Jeffreys (1993, capítulo 6) apontou para o romance lésbico — e feminista lésbico — enquanto “fora da lei”, e o elemento “outsider” do queer pode se alimentar disso, particularmente quando combinado com o frisson de “garota má” fornecido pelas noções queer de “transgressão”.

Para o paladar acadêmico exausto, farto com a seriedade, o flerte com o queer promete “diversão”; e celebrações de “prazer” podem parecer mais sedutoras que preocupações com o “politicamente correto”. Não é difícil ser seduzido pela “perspicácia”, “engenhosidade” e “gingado” da teoria queer (Beloff: 1993). Fora da academia também o queer tem cativado a imaginação do público de uma forma que o feminismo nunca conseguiu. As noções do queer se infiltraram na cultura contemporânea cotidiana — especialmente na moda e na publicidade. O queer é uma etiqueta de designer no acessório do momento. O jornal britânico the Guardian (22 out. 1994) nos diz que os “acessórios obrigatórios” de 1994 (relógio, óculos de sol, estojo) são “subversivos de gênero”, “não conhecem fronteiras”. A revista feminina Elle chama atenção para um estilo chamado “O Novo Unisex” (Briscoe: 1994, pp. 91–96), “um estilo e forma de comportamento que beneficia ambos os sexos, e, ao fazê-lo, transcende o próprio sexo (…) com ambivalência sexual calculada”. Tal estilo é surpreendentemente ilustrado por anúncios de moda (Dolce e Gabbana, Armani, Oliver) nos quais homens e mulheres modelos estão “tão próximos em aparência e espírito que são como gêmeos incestuosos”. Os desfiles de Paris de 1994 incorporam “o novo unisex” e a alta costura subversiva de gênero de Jean Paul Gaultier (Patton: 1993, p. 95) e incluem uma coleção chamada “Transcendendo o gênero: o pressentimento da feminilidade no jogo de seu desaparecimento”, com modelos usando “jaquetas austeramente costuradas, sob as bainhas das quais explodiam saias enormes feitas de uma massa de camadas de organza e babados de chiffon” (Brampton: 1994, p. 2). A apropriação entusiástica do queer em ambos contextos acadêmico e popular pode levantar suspeitas sobre seu valor a longo prazo enquanto fonte de mudança.

O que há de errado com o queer?

Ainda que superficialmente atrativo por seu vigor, sua perspicácia, seu senso de possibilidades e seu potencial transformativo, o movimento em direção ao queer é, na verdade, um movimento conservador — e um que é profundamente perigoso para o feminismo radical. Dentro do queer, análises feministas radicais são, no melhor cenário, ignoradas ou marginalizadas, ou, no pior cenário, subvertidas ou ridicularizadas. Apesar de seu potencial “desnaturalizante”, a teoria queer é centralmente antagônica ao feminismo. Isso é parcialmente porque teóricos queer veem o feminismo como uma “grande narrativa” totalizante, cujos significados e valores devem ser subvertidos e questionados, junto com outras estruturas explicativas na política, na ciência e na filosofia — meros materiais para desconstrução na era pós-moderna. Mais do que isso, entretanto, a política queer é frequentemente expressa em termos explicitamente opositivos ao feminismo — especialmente ao feminismo radical, caracterizado como “separatismo feminista moralista” (Smyth: 1992, p. 36). Lyndall MacCowan (1992, p. 323) quer “reivindicar o direito de foder o gênero” mas também insiste que “nós precisamos retomar ‘lésbica’ enquanto uma definição sexual livre de qualquer justificativa política”. Dentro da teoria queer, não há nenhuma tentativa de problematizar o prazer, menos ainda de participar das tentativas feministas radicais de fazê-lo (ver Jeffreys: 1990, Kitzinger e Wilkinson: 1993; Kitzinger: 1994), além de caracterizar tais tentativas como repressivas, restritivas, e totalitárias em efeito ou em intenção. O queer funciona como uma apologia ou justificação para muitos comportamentos vistos por feministas radicais como prejudiciais às mulheres e — especialmente — às lésbicas. A crítica queer não só ignora, mas às vezes reverte críticas feministas chave, particularmente críticas feministas radicais: do sadomasoquismo, da cultura gay masculina, da transsexualidade/do travestismo, da bissexualidade, e da heterossexualidade.

O queer implicitamente — e, por diversas vezes, explicitamente — apóia e encoraja o sadomasoquismo (ambos heterossexual e /gay/lésbico). O movimento queer demonstra uma fascinação contínua com violência e degradação, inclusive reivindicando-as como suas — e, se necessário, como apoiadores queer “avant la lettre” (n/t: “de vanguarda”) (Merck: 1993, pp. 1, 9) da pornografia e do sadomasoquismo. A campanha Operação Spanner foi um bom exemplo dessas preocupações: tal campanha, ao buscar descriminalizar sexo masoquista “consensual” entre homens gays, se tornou uma cause célèbre (n/t: episódio que despertou grande interesse e repercussão) para o movimento queer britânico. Análises feministas radicais do sadomasoquismo lésbico enquanto moldado em práticas heterossexuais (por exemplo, Linden et al.: 1982) são explicitamente opostas à valorização queer do sadomasoquismo enquanto prática sexual “transgressora”:

É importante frisar a batalha sexual SM uma vez que ela exprime por que tantas sapatão desenvolveram insatisfação e desafeto pelo ‘feminismo lésbico’ e consequentemente se sentem atraídas pelos elementos transgressivos supostamente oferecidos pelo queer. (Smyth: 1992, p. 38)

Cherry Smyth (1992, p. 36) levanta até como possibilidade (e deixa sem resposta) a questão: “será o SM heterossexual automaticamente queer, enquanto que um casal lésbico monogâmico ‘baunilha’ não?”. Esses endosso e validação explícitos do sadomasoquismo às custas do lesbianismo é um desenvolvimento preocupante da teoria queer.

Também particularmente surpreendente é a valorização da cultura gay masculina por parte da teoria queer. Predominam preocupações homossexuais masculinas (notavelmente, as tradições do camp e drag e uma preocupação com o erotismo anal), até mesmo entre as teóricas (por exemplo, Butler: 1993b; Sedgwick: 1993); e a emulação lésbica de homens gays (“Aprendendo com os meninos”, como posto em uma legenda [Smyth: 1992, p. 42]) é frequentemente defendida. Queers lésbicas defendem [essas práticas] como “alianças [progressistas] entre lésbicas pró-sexo anti-censura e homens gays que pensam da mesma forma (…) então abrindo as possibilidades de novos modelos para a expansão de possibilidades eróticas lésbicas” enquanto que o sexo “de cuidados mútuos” é caracterizado como “infantil” (Smyth: 1992, p. 37). Não só essa dominância de interesses gays masculinos serve compreensivamente para fazer lésbicas “desaparecerem” da agenda queer (Jeffreys: 1993; 1994), também corre ao embate com uma longa história de trabalho político feminista lésbico separado de homens gays (vide Stanley: 1992; Hoagland e Penelope: 1988).

Críticas feministas radicais dos anos 70 em diante (vide Raymond: 1979/1982/1994a) têm argumentado que as cirurgias e os tratamentos transsexuais servem apenas para reforçar a conformidade de gênero. O “processo de fabricação transsexual” serve simplesmente para substituir um estereótipo de papel sexual por outro, trazendo zero conflitos para os estereótipos dominantes em uma sociedade definida por papéis. Homens são transformados em mulheres-artefatos, em estereótipos (hetero)patriarcais de feminilidade. 15 anos depois da publicação original do The Transsexual Empire (n/t: sem tradução em português), Raymond (1979/1982/1994a) argumenta que os desenvolvimentos contemporâneos no “transgenerismo” (incluindo “toda gama de termos como ‘transgênero’, ‘re-generado’, ‘mistura de gênero’, ‘subversão de gênero’, ‘foda de gênero’ e ‘trans-homossexualidade’”) não fazem mais do que amplificar o léxico de comportamento pretensamente dissonante de gênero. Talvez agora haja “um continuum de expressão generificada”, mas ainda não há sinal nenhum de uma política sexual transformadora (vide a introdução de Janice Raymond, 1994).

Políticas queer são “bi-amigáveis” (Weise: 1993, p. xiv). Sob a bandeira queer, “casamentos transgressores” (por exemplo, mulheres em casamentos heterossexuais fazendo sexo “lésbico”; French: 1992) são propostos como uma “validação” da bissexualidade (Eadie: 1993, pp. 148–149); e atos heterossexuais específicos são considerados “transgressores”: “Quando eu coloco um strap-on e fodo meu companheiro homem, nós estamos nos engajando em ‘comportamento heterossexual’, mas (…) a sensação é queer” (mulher anônima, citada em Wilson: 1993, p. 113). “Heterossexuais queer” são anunciados como “mais divertidos para bissexuais socializarem” do que “queers heterossexuais” (Eridani: 1992, p. 180), e a Universidade da Califórnia no coletivo estudantil gay de Berkeley (a “Associação Gay Lésbica Bissexual Multicultural”) recentemente deu o prêmio de “casal mais queer” para “uma mulher bissexual e seu namorado hetero” (Trnka: 1992, pp. 110–111). Todos esses exemplos fornecem apoio implícito a “lésbicas” (ou bissexuais lesbo-identificadas) engajarem em sexo heterossexual. Sexo com homens é apresentado como especialmente excitante ou “transgressor” porque é “proibido” por feministas lésbicas (por exemplo, Terris: 1991), que são amplamente castigadas por seu “politicamente correto” (por exemplo, Elliott: 1992, p. 234) ou “moralismo crítico” (George: 1993, p. 57). Seja ao celebrar as delícias do sexo bissexual, ou ao promover a bissexualidade com argumentos explicitamente anti-lésbicos, esses proponentes inspirados pelo queer de uma “nova” política bissexual não levam em consideração análises feministas (ver Wilkinson: 1995, para uma discussão mais extensa).

De forma semelhante, a teoria queer também ignora as análises feministas radicais da heterossexualidade. Não há representação nenhuma do sexo heterossexual enquanto dominação e submissão erotizadas (por exemplo, Dworkin: 1976/1982, 1987; Jeffreys: 1990), ou da heterossexualidade enquanto uma instituição opressiva e compulsória (por exemplo, Rich: 1980; Wilkinson e Kitzinger, 1993). Ao invés disso, o queer reivindica como “feministas” as cenas de dominatrix femininas da pornografia masculina (sendo que até revistas britânicas oferecem exemplos arrepiantes de tendências na moda e no cinema que combinam “uma visão da arte kitsch com sexo safado” [por exemplo, McDowell: 1994, p. 9]). A teoria queer fornece uma justificativa renovada para a recusa de feministas heterossexuais de perceber que elas são heterossexuais — ou para sua tendência de desconsiderar sua heterossexualidade como se não fosse importante, baseada em atributos transitórios ou provisórios. Quando pedidas para se identificarem como heterossexuais, muitas feministas reagem com raiva defensiva (Kitzinger e Wilkinson: 1993, p. 5).

A omissão queer da heterossexualidade e da homossexualidade enquanto sexualmente — e, portanto, politicamente — equivalentes ou intercambiáveis não é tão radical quanto os teóricos queer querem que acreditemos. Foi a famosa invenção de Kinsey (1948) do “continuum heterossexual-homossexual” (emprestado em parte das teorias de Freud da bissexualidade inata e da perversidade polimorfa) que preparou o terreno para uma dissolução generalizada dentro da psicologia de quaisquer diferenças específicas entre lésbicas e mulheres heterossexuais (vide Kitzinger: 1987). A apresentação do lesbianismo e da heterossexualidade enquanto equivalentes denuncia o liberalismo subjacente à teoria queer — um liberalismo que nega ambas a força política do lesbianismo enquanto uma recusa da ordem heteropatriarcal, e a análise feminista radical da heterossexualidade enquanto campo central das opressões das mulheres. Conforme os significados de heterossexualidade e homossexualidade se embaçam dentro de um mundo de fantasia de ambiguidade, indeterminação e charadas, as realidades materiais de opressão e a política feminista de resistência são esquecidas:

É difícil (…) reconhecer o eu dividido e tomar parte no prazer do baile de máscaras ao mesmo tempo em que se luta contra um sistema social e legal surpreendentemente antagonístico em prol de sua saúde, sua segurança, seu trabalho, sua moradia, ou seu direito de criar suas crianças (Henderson: 1993, p. 123).

Em suma, portanto, o impulso “transgressor” da teoria queer se manifesta no mínimo tanto contra o feminismo quanto contra o heteropatriarcado. Tais aspectos do movimento queer os tornam menos um sintoma da “derrota” do, e mais uma indicação do crescente “backlash” [reação contrária] ao, feminismo, particularmente o feminismo radical (ver também Parnaby: 1993; Miller e Harne: 1995). O prazer é priorizado em detrimento da análise política, e as preocupações de lésbicas, particularmente, são frequentemente invisibilizadas. Como feministas radicais, precisamos resistir à incorporação e à despolitização de nossa agenda pelo movimento queer. Não devemos nos tornar parte do backlash queer.


Tradução livre do artigo de Sue Wilkinson e Celia Kitzinger que foi publicado no livro Radically Speaking: Feminism Reclaimed. Você pode baixar o livro completo aqui.


Referências

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