A dominância do sexo masculino sobre o feminino não é totalmente evidente. A maioria das pessoas acredita que machismo é apenas aquela parte visível, caracterizada por violência extrema, que sai nas notícias: o estupro denunciado, os assassinatos, a discriminação no trabalho.

Mas o mundo atual é feito para os homens. Embora algumas pessoas tenham a consciência de que há poucas mulheres nos cargos mais altos, ou que qualquer mulher, seja em que cargo e posição social esteja, está suscetível a assédio sexual, é difícil correlacionar esses fatos com a verdadeira dimensão do problema.

É preciso haver políticas voltadas apenas para mulheres porque as políticas atuais ainda não levam em consideração a sua biologia. Mulheres que menstruam precisam que a sua biologia seja considerada como real. Um exemplo disso é o fato de que adolescentes britânicas de baixa renda, em pleno século 21, estão deixando de frequentar a escola porque o Reino Unido possui um imposto sobre os absorventes e tampões, que os torna inacessíveis financeiramente. Meninas estão sendo privadas do seu direito à educação por não terem dinheiro para comprar absorventes em um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Mulheres que podem engravidar precisam ter direito ao aborto, a um parto respeitoso (quando decidem levar uma gestação adiante), à licença maternidade para manter a sua empregabilidade, a creches no local de trabalho ou estudo. O desrespeito e a desconsideração à biologia feminina conseguem ir ainda mais longe e ameaçar a vida das mulheres, que são obrigadas a ter filhos gerados após abuso sexual, ou seguir com gestações de risco.

Políticas voltadas para as mulheres não são exclusionárias de outros grupos. São políticas necessárias para a sua sobrevivência. Dois outros exemplos de completo apagamento da biologia feminina podem dar uma ideia do quanto elas podem ser desprivilegiadas no mundo atual: os air-bags e a manobra de ressucitação. O que parece ser, a princípio, um exagero, pode ter uma consequência drástica nas estatísticas.

Os testes feitos em laboratório para comprovar a eficácia dos airs-bags dos carros tem uma falha inata: ao usar manequins que possuem somente as características de um homem adulto, esse sistema de segurança ignora a existência dos seios e como eles se comportam durante um impacto. Estudos recentes também alertam para o fato de que as mulheres mais baixas também correm maiores riscos de se machucarem fatalmente porque os air-bags, colocados em local alto para atingir o peito de um homem adulto mediano, podem na verdade atingir a mulher no queixo, jogando a sua cabeça para trás.

Na manobra de ressucitação, a questão é ainda mais aterrorizante. Segundo vídeo da organização ATTN, também usam-se manequins que representam homens adultos para o treinamento da massagem cardiovascular. Por isso, muitos profissionais desconhecem que, em uma mulher, você deve fazer a massagem também no esterno, acima dos seios, e não sobre os seios. As implicações disso são várias: ao fazer a massagem sobre os seios, o profissional não terá a eficácia pretendida, o que pode levar a mulher a óbito.

Outro problema que a organização aponta é a hiperssexualização dos seios das mulheres. Muitas pessoas que possuem um treinamento mínimo para fazer a manobra relatam que ficam envergonhadas de tocar nos seios da mulher desacordada (chamando a atenção para o fato de que muitos homens se acham no direito de tocar nos seios de mulheres sem o seu consentimento explícito), o que caracteriza grande risco para elas, que terão ajuda negada por princípios de falso moralismo.

Além da violência doméstica e obstétrica, da cultura do estupro e da discriminação geral quanto às capacidades físicas e intelectuais, esses fatos podem ser caracterizados como feminicídio também porque colocam a vida das mulheres em risco desnecessário. É uma forma velada de feminicídio porque milhares delas morrem por fatores que poderiam ser evitados caso a sua morfologia fosse levada em conta. Políticas para mulheres devem incluir a sua biologia como fator chave de prevenção a mortes evitáveis e perdas de direitos. Isso não é vitimismo: é consciência sobre a materialidade das mulheres.

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