Você sabe o que significa ser feminista? Pode ser que você de alguma forma tenha tomado contato com a palavra FEMINISMO. Pode ter sido na TV, na internet, alguém pode ter te falado, você pode ter lido em algum lugar. Pode ser que você tenha entendido um pouco da ideia geral, que é sobre igualdade para mulheres, alguma coisa assim. E aí você pensou que realmente mulheres não tem a melhor das vidas e que você concorda que somos todos iguais, temos os mesmos direitos, e aí você pensou: “isso! Eureca! Quero ser feminista, e agora?

Agora tem algumas coisas que você precisa fazer. Isso mesmo, fazer. Porque feminismo não é um sentimento: você não “se sente feminista” só porque você concorda com uma premissa ou duas. Ou uma identidade onde você “se identifica como feminista”, faz tatuagens, usa camisetas, e textão no facebook. Tampouco feminismo é uma crença, baseado em coisas que você “acredita que são assim”, ou “sente que são assim”, ou que você conclui baseado nas suas experiências pessoais, subjetivas e individuais. O feminismo também não é uma religião, ou um grupo terapêutico, que vai trazer alívio, consolo, salvação, iluminação ou te tornar uma pessoa melhor ou diferente. Não é uma seita que possui “líderes”, ou “dirigentes”, ou “expoentes”.

O feminismo é a ação organizada de mulheres contra um sistema que as oprime. Feminista é a mulher que atua organizada com outras em ações para combater esse sistema. Para tornar-se feminista é preciso entender contra o que lutamos, organizar-se com outras mulheres, e ativamente atuar para o desmantelamento dessa estrutura opressora. É isso, nada mais, nada menos. E se é realmente isso que você quer, saiba o que é preciso para começar:

Ser feminista. Por onde começar.

  1. Compreender o que enfrentamos.
    A primeira coisa que precisamos para nos tornarmos feministas é entender a sociedade e o sistema estrutural de opressão em que estamos inseridas. Se não conhecemos, se não nomeamos os problemas contra o qual lutamos não seremos capazes nem de nos defender e nem de traçar estratégias de luta. Quando falamos que é preciso estudar um pouco que seja, não é sobre ler uma tonelada de livros — mas se quiser pode — mas sobre consumir informação que vai proporcionar um despertar crítico que é fundamental para nossa ação política. Além do mais EXISTE uma teoria feminista. As ações que são pensadas e os pressupostos que guiam não foram tirados de imaginações delirantes. Muitíssimas mulheres antes de nós debruçaram-se para compreender os fenômenos sociais que cercam as nossas condições materiais da vida. Existe toda uma teoria muito bem fundamentada e que explica muito bem a realidade de ser uma mulher, que explica todos os mecanismos, cada engrenagem, dessa estrutura que nos oprime, chamada patriarcado. Não inventamos nem criamos nada novo a esta altura, nós continuamos a partir do trabalho de todas que nos antecederam. Então se inteirar minimamente desses pressupostos é fundamental para começar a caminhar. E o que é preciso saber exatamente? Bom, o mínimo que você precisa entender é:
    a) contra o que lutamos e como esse sistema funciona: É aí vale saber o que é o patriarcado, socialização, misoginia, machismo, divisão sexual do trabalho, trabalho reprodutivo, estereótipos de gênero, maternidade compulsória, heterossexualidade compulsória, liberalismo, backlash.
    b) como podemos lutar contra esse sistema? Entender realmente o que é o feminismo, e principalmente o NÃO É feminismo. Um pouco da história do movimento também é importante, de onde viemos, o que já conquistamos, onde estamos agora, que vai levar você a saber um pouco sobre as ondas do feminismo, a equivocada ideia de vertentes. Saber um pouco sobre como mulheres se organizaram e vêm se organizando e como estamos avançando em nossos objetivos.
  2. Perceber como pode contribuir
    Uma vez que você entenda que esta é literalmente uma luta, conhecer o inimigo e entender como é o território de batalha, é hora de fazer uma reflexão sobre como você pode contribuir ativamente. E existem inúmeros fronts, porque há muito o que fazer, há muito contra o que lutar, muito a ser construído. É preciso atuar no despertar da consciência crítica de outras mulheres, porque precisamos de cada vez mais companheiras, é preciso aprender — e ensinar — mulheres a defender-se ativamente, é preciso uma ação onipresente de denúncia e exposição das estratégias patriarcais de dominação, precisamos lutar por leis e medidas para o avanço de pautas que vão trazer mais equidade para a mulher na sociedade, precisamos desmantelar os mecanismos de socialização de crianças, proteger mulheres das violência masculina, acabar com a exploração reprodutiva e do trabalho doméstico. E para isso precisamos de pessoas para informar, agitar, organizar, reivindicar, liderar movimentações. Há muito, muito a ser feito e com certeza tem algo que você pode efetivamente fazer dentro do movimento feminista. E quando você sentir que realmente quer fazer isso, é hora de buscar organizações para atuar.
  3. Buscar movimentos organizados
    O feminismo é uma luta política. Se você não está atuando estrategicamente com outras mulheres, e só está fazendo contribuições individuais, isso é muitíssimo bem vindo, você certamente é uma aliada do movimento feminista, mas não é uma feminista organizada. E é importante delimitar isso porque muitas mulheres que têm muito fôlego de engajamento mas acabando limitando-se a ações pontuais que podem ser efetivas ou não e realmente acreditam que estão contribuindo com seu máximo e no seu melhor. E do outro lado temos diversas organizações, com muito trabalho a ser feito, com pautas definidas, com estratégias prontas, precisando de pessoas que tenham motivações propositivas. Quando você age sozinha, deixando de compor algum movimento organizado que atue em causas pró-mulheres todo mundo perde. Perde você, que muito facilmente irá se perder e se frustrar no caminho. É muitíssimo comum que mulheres extremamente ativas e propositivas se “decepcionem” e “saiam” do movimento feminista, sem nem saber que nunca chegaram a compor o movimento feminista de verdade, nunca atuaram organizadas, nunca estiveram em uma coletiva, nem mesmo um grupo de estudos. 
    E onde encontrar então organizações feministas para contribuir? E o que devo procurar? Bom, em primeiro lugar se você cumpriu direitinho a etapa 1, de se informar vai saber filtrar que tipo de organizações e pautas estão verdadeiramente alinhadas com as causas feministas: grupos que lutam pelo direito de autonomia reprodutiva, aborto, pela abolição da prostituição, pela abolição da pornografia, pelos direitos das crianças e adolescentes, direito a terra e moradia; contra violência doméstica, violência obstétrica, violência sexual, contra o machismo nas instituições, o tráfico sexual, casamento infantil, exploração do trabalho doméstico; grupos que apoiam mulheres em situação de risco, vulnerabilidade e pobreza extrema, grupos de estudo e conscientização feminista. E aí você pode procurar no google, nas redes sociais, pedir referência para outras feministas, e buscar contato. É importante pesquisar a atuação do grupo que você gostaria de integrar para entender se ele alinha minimamente as suas expectativas. E se não tiver nada na sua cidade, ou nenhum grupo onde você pode contribuir de maneira efetiva, você sempre pode reunir-se com um grupo de mulheres interessadas e formar uma coletiva. O importante é ter um foco e uma estratégia de atuação e atuar em rede junto com todos os outros grupos organizados, porque sozinhas nunca avançaremos.

O que mais preciso saber?

Não existe nenhum pré-requisito para você tornar-se feminista. Você ser pode ser mãe ou não, relacionar-se com homens ou não. Toda e qualquer reverberação que a prática feminista possa vir a ter em você, no âmbito pessoal, tem a ver com o despertar de consciência que inevitavelmente a compreensão da nossa opressão provoca. Mulheres não precisam abandonar a depilação ou a maquiagem para serem feministas, por exemplo, mas é comum que feministas deixem de depilar-se ou maquiar-se simplesmente porque não sentem mais essa necessidade. Mulheres não precisam deixar de relacionar-se com homens, mas muitas transformam radicalmente sua maneira de estar em relações heterossexuais. Mulheres não precisam “virar lésbicas” para serem feministas, mas muitas mudam completamente a maneira de relacionar-se com mulheres. O despertar crítico, aos poucos, liberta de muitas amarras, e tende a transformar.

O feminismo é uma prática combativa organizada e o seu foco é o desmantelamento do patriarcado.

Manter isso em mente, e também no coração, é muito importante porque essa luta é travada por mulheres e para mulheres. E mulheres são pessoas. E temos inúmeros desafios internos para nos manter organizadas, desde a expectativa de que ser feminista te torna alguém ‘diferenciado’ que nunca comete erros, até as dificuldades próprias da nossa socialização como a rivalidade feminina, o abuso de empatia, a maternagem de homens, que tanto dificultam a manutenção de uma prática organizada. Então saiba, ao entrar em um grupo organizado você não vai encontrar o paraíso feminista, com mulheres entoando canções de amor e bailando a luz da lua. Na verdade uma das primeiras coisas que vai acontecer é: você vai se frustrar. E isso faz parte é importante, porque se você respirar fundo e olhar de novo verá mulheres maravilhosas, corajosas, que estão doando seu tempo, vivenciando todo tipo de dificuldade, dissensão e conflito, tentando continuar caminhando com um foco comum: combater o patriarcado. E é só isso que importa.

Muitas mulheres nos antecederam e elas passaram por todo tipo de problemas, que ainda passamos. Elas permaneceram e deixaram seu legado. E por isso estamos aqui hoje com direitos e com uma vida que foi inimaginável para muitas delas. O único motivo justo para você querer ser feminista é porque você entende a importância dela luta, porque você também quer fazer parte dessa guerra: combater o patriarcado. E isso não por você, sequer pelas mulheres de hoje. E em honra de todas as mulheres que nos antecederam e permitiram que estivéssemos aqui agora e por cada menina que está nascendo nesse exato momento em um mundo que ainda é muito injusto e cruel para ela.

Compreender, sentir, agir. Vamos juntas?

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