O que teria ajudado a lidar com a experiência de abuso/assédio?

Esta semana, fiz uma enquete perguntando com quantos anos as mulheres tinham tido sua primeira experiência de assédio ou abuso sexual. Com um total de 244 respostas, 55% tinha até 10 anos. A média geral foi de 9 anos.

Gráfico das respostas com as faixas etárias

Veja bem, a maioria estava na faixa entre 9 e 11 anos! Eu própria comecei a sofrer assédio e abuso aos 5. Hoje, mãe, tenho um filho de 6 anos — e, sim, morro de medo que ele passe o que eu passei quando tinha a idade dele.

Numa segunda rodada, perguntei o que elas gostariam de ter sabido naquela altura e que poderia ter ajudado a lidar com esse trauma. As respostas dizem muitos sobre as relações entre pais e filhos, de modo que achei importante compartilhar.

  • “Se meus pais fossem menos rígidos, eu não teria ficado receosa em contar. Eu tinha 4 anos”
  • “Não sentir vergonha de contar o assédio. Tinha certeza que me diriam que o problema era algo que eu fiz”
  • “Que por mais que ele fosse respeitado e conhecido da família, eu era mais importante”
  • “Toda vez que ele me abusava, eu tinha medo de falar porque achava que falar de sexo era errado”
  • “Queria ter tido orientação dos meus pais para não deixar ninguém tocar meu corpo, e ter abertura para relatar os abusos”
  • “Saber reconhecer o que é um assédio e como proceder”
  • “Ter noção de quais partes do meu corpo era inapropriado que outros tocassem”
  • “Que o corpo é meu e que eu posso dizer não quando um toque me deixa desconfortável”
  • “Queria saber o que era abuso sexual e ter coragem de falar para alguém sem achar que duvidariam de mim”
  • “Educação sexual em casa. Diálogo aberto. Tinha medo de tudo, não podia nem falar certas coisas”
  • “Gostaria que alguém tivesse me ensinado desde cedo a dizer não, a não ser submissa”
  • “Gostaria de ter aprendido que meu valor não está no meu corpo”
  • “Saber que não é normal que os meninos toquem nossos corpos sem nosso consentimento. No meu caso, o menino tentava passar a mão em mim na igreja, mas eu via isso como comportamento natural dos meninos”
  • “Se a minha mãe tivesse acreditado em mim e não me culpado por isso”
  • “Que meus pais conversassem sobre assédio, que a escola abordasse esse tema”
  • “Informação honesta dos adultos. Só comecei a reconhecer aos 14, com o feminismo”
  • “Queria orientações, queria que falassem que não era culpa minha, que homens não são assim por natureza”

O que essas respostas têm em comum?

A maioria delas fala de uma relação para com os pais que é baseada na ausência de confiança e na presença do medo. Medo de falar sobre certas coisas (os tabus familiares). Medo de ser culpada e desacreditada.

Muitos pais e mães acham importante estabelecer uma relação de autoridade em casa para “manter tudo sob controle”. Essa autoridade geralmente é estabelecida pelo medo e pela ameaça (“se fizer isso…”, “se eu pegar você fazendo…”, “quer apanhar?”, etc). O medo, via de regra, é eficiente para estabelecer a hierarquia e restabelecer a “ordem”, porque ele funciona não pelo aprendizado, pela confiança ou pela cooperação, mas pela humilhação e pela submissão do outro.

E a falta de confiança aqui pode ser a diferença entre conseguir ajudar seu filho ou filha que está sofrendo abuso OU colaborar que eles sofram abuso sexual por anos a fio sem que você possa protegê-los ou sem que possa fazer qualquer coisa.

Os tabus em casa são um terreno comum aqui. E sexo é quase sempre um deles, como se a criança não fosse ouvir sobre isso em outro lugar de qualquer maneira… a diferença é só que ela vai ouvir sem referência dos pais; pode ser que ela ouça na escola ou, mais provavelmente, ela podedescobrir na pornografia, com imagens de violência e humilhação. Se a criança não sabe o que é sexo, ela não saberá identificar o abuso sexual quando lhe acontecer.

Consentimento é outro problema em comum que as respostas demonstram: a maioria das respostas indica uma experiência de abuso ainda na infância (lembre: mais de metade das respostas correspondem a vítimas com menos de 10 anos). Elas não sabiam identificar o que era normal ou não, o que era um relacionamento “normal” ou “aceitável” entre adultos e crianças, ou mesmo crianças e outras crianças mais velhas, e o que era “ultrapassar as linhas”. Esse certamente também foi o meu caso.

Um adulto pode se questionar, do alto da sua experiência e compreensão de mundo já tão distante da infância, como alguém pode não identificar quando está sendo abusado? Bom, eu posso te responder essa da minha própria experiência e de fatos estatísticos.

Manchete do jornal G1, de Junho de 2018, pela jornalista Tatiana Coelho

A maioria dos abusos contra crianças acontece dentro de casa e os agressores são pessoas do convívio das vítimas, geralmente são pessoas da própria família e o abuso, por norma, acontece mais de uma vez (fonte). Como essa figura é supostamente de confiança, a criança tem dificuldade em identificar quando é só carinho, quando é brincadeira e quando é abuso — mesmo que ela saiba que está desconfortável com a situação.

Isso tem um peso especial porque a criança quase nunca é ensinada que o corpo dela é dela. Ela aprende de variadíssimas formas que o seu corpo está à disposição do adulto para ser manipulado e manejado.

Por exemplo, quando não quer dar um beijo para cumprimentar ou despedir de alguém e, invés de dizer que está tudo bem não beijar outra pessoa desconhecida (ou mesmo conhecida) quando não se está à vontade, os pais forçam geralmente a chantageiam ou forçam a beijar outros adultos para não criar “mau ambiente” (para eles, é claro). Pode ser a avó, o tio, o amigo. A criança diz que não quer, os pais forçam. Ela aprende ali que não tem direito a recusar — e isso é basicamente a base do abuso e da confusão.

Outro exemplo é quando a criança se recusa a tomar banho ou a se vestir para ir à escola e os pais, pela pressa do dia a dia, tiram sua roupa à força, pegam na criança e levam à força para onde pretendem ir. Isso mostra que a voz e vontade dela não conta. O poder de manejar o corpo dela é do adulto, é soberano e inquestionável — por mais que ela grite ou chore.

Você fala com seus filhos e filhas sobre consentimento? Sobre quem pode ou não pode e ONDE PODEM tocar no corpo delas? Que elas podem recusar beijos, abraços e toques de adultos se estiverem desconfortáveis? Ou estamos ensinando às crianças como serem a vítima perfeita de pedófilos e abusadores?

Além disso, a ideia de que o comportamento de assédio e abuso é natural dos meninos e homens também precisa ser destruída. Quantas vezes pais e mães naturalizam essa ideia — preparando meninas para serem vítimas perfeitas e meninos para serem predadores perfeitos? Quando dizem que o menino que fica pegando ou agredindo porque gosta e quer chamar a atenção; quando justificam o comportamento errado dele com “menino é assim mesmo”; quando dizem que o filho é “garanhão” e “vai passar o rodo” (e suas variações). É especialmente chocante entre famílias que têm tanto filhos quanto filhas — não é evidente que se todos disserem isso aos seus filhos, outros farão às suas filhas?

Orientem seus filhos e filhas sobre o que é assédio e o que é abuso. Ensinem sobre consentimento. Ensinem que o corpo é da criança e que ninguém pode tocar sem consentimento. Que ninguém pode tocar se isso deixá-las desconfortáveis — independente de quem for . Que qualquer pessoa precisa pedir permissão para tocá-la.

Sobretudo, construam confiança.

Sejam as pessoas que seus filhos e filhas poderão contar, confiar e se refugiar quando precisarem, quando passarem uma situação de violência. Que eles sabem que estarão lá para eles e que seu depoimento será valorizado e ouvido, não ignorado ou culpabilizado.

E, por favor, absolutamente PAREM de naturalizar comportamentos predatórios em meninos e ensinar submissão para meninas.


Vídeos para ensinar sobre consentimento e assédio às crianças:

Defenda-se: Sentimentos

Defenda-se: Conheça O Seu Corpo, Cuide Da Sua Privacidade (Libras)

Defenda-se: Denúncia

Feminismo com Classe

Por um feminismo classista e revolucionário!

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