Por que as atletas são sempre hipersexualizadas?

Resposta curta: porque sexo vende, esportes praticados por mulheres, não

2019 viu a Copa do Mundo de Futebol sob um novo ângulo. Apesar de ser chamada de Copa Feminina, muitos adoradores do esporte não só assistiram, mas assistiram com o vigor da Copa do Mundo masculina. O evento foi acompanhado por prestígio e debate, embora tenha encontrado ainda resistência de parte do público.

Durante muito tempo, as mulheres foram proibidas de participar de atividades esportivas ao nível profissional. Durante as duas Grandes Guerras, com muitos homens nos fronts de batalha, coube às mulheres preencher vários setores, de fabricação de armas, comida e vestuário aos… esportes. O filme Uma liga muito especial (A League of their own) ilustra bem as motivações pelas quais times femininos foram criados — fomentar a demanda pelos jogos como atividade de lazer — e também porque os mesmos foram posteriormente deixados de lado após o retorno dos soldados à pátria — já que eles voltaram, não era mais preciso ter mulheres jogando/competindo.

E o problema da desvalorização do esporte praticado por mulheres persiste nos dias atuais. Ainda existem categorias esportivas onde não há categorias femininas oficiais, como o evento ciclístico Tour de France. Tenis é uma das poucas categorias onde mulheres conseguiram ter algum reconhecimento parecido com o que os homens têm. Serena Willians é um dos nomes que desponta sempre, e muitos atletas homens da categoria, como Andrew Murray, têm “corrigido” jornalistas quando eles dizem que o atleta tal conseguiu tal feito, denunciando que a primeira pessoa teria sido uma mulher.

Muita se especula como proceder para que as mulheres tenham mais visibilidade e reconhecimento nos esportes onde competem: incentivo à prática, financiamento e patrocínio, visibilidade da mídia nos eventos. São todas boas e necessárias ideias, muito melhores do que o estado atual em que as coisas se encontram. Porque, em uma sociedade patriarcal, a aparência de uma mulher vale mais do que as suas habilidades. E a aparência das atletas está, muitas vezes, no foco das atenções, em vez do seu talento. Dentro e fora da arena esportiva.

Algo que se torna preocupante nesse tema são os uniformes exigidos das atletas. O maior símbolo disso é, certamente, o maiô das ginastas, enquanto os ginastas usam uniformes mais “cobertos”. Não é puritanismo, se olharmos as diferenças entre os uniformes das jogadoras de vôlei, comparados com os dos jogadores. Se o motivo das jogadores usarem shorts tão curtos é para maior flexibilidade, então por que os homens não usam também? A explicação mais simples é: a mulher é avaliada pela sua aparência.

E isso também é válido para a audiência. Será que um dos principais motivos que as atletas femininas usam roupas tão curtas em tantos esportes é justamente para “atrair” o público masculino? A própria Serena Willians foi proibida de usar shorts para jogar. Literalmente forçada a usar saias — ela recebeu uma advertência por essa razão. Isso parece ser um pouco antiprofissional da parte dos órgãos reguladores de tênis. Ou pode estar realmente ligado ao que, em inglês, se chama “upskirting” — homens que levantam as saias/vestidos das mulheres em público. Porque, convenhamos: uma mulher jogando tênis de saia têm muitas, muitas chances de estar mostrando o que está por baixo das saias.

Analisando por esse lado, é preciso lançar um novo olhar aos uniformes das atletas e colocar a ciência para trabalhar para elas. Esse uniforme está realmente melhorando a capacidade atlética? Ou está assim designado para hipersexualizar as atletas? Questionar nunca é demais. Além disso, a sociedade precisa muito começar a desmantelar a ideia de que o único valor de uma mulher é a sua aparência.

Andreia Nobre

Jornalista, blogueira, poetisa, feminista, amante de antropologia e professora primaria que pratica desescolarizacao

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