Pornografia, juventude e prostituição
Pornografia, juventude e prostituição

Duas coisas conectam prostituição e juventude: pornografia e pobreza.

Diferentemente daqueles que cresceram nos anos 50, 60 ou 70, nossa geração está crescendo imersa em uma cultura hipersaturada por imagens. E as imagens são uma grande parte de como aprendemos e o que aprendemos sobre as normas sociais, comportamentos sociais e até como percebemos a nós mesmos e aos outros.

Essa é uma das razões por que muitos países proibiram símbolos que fazem alusão ao nazismo e ao fascismo, certo? Porque entendemos como esse tipo de alusão, como a reprodução dessas imagens são também mensagens, e mensagens que transmitem à sociedade ideias que colocam em risco uma parte significativa da população. Nós entendemos que essas representações ameaçam os Direitos Humanos.

Infelizmente, ainda temos muito que progredir no que toca ao discurso e as representações sobre mulheres e estereótipos sexuais. Insistimos e falhamos em compreender como essas imagens perpetuam a misoginia e abastecem o imaginário popular e a violência contra as mulheres, como se já não fosse suficiente. E a pornografia, essa enorme indústria que produz narrativas e imagens sobre classes inteiras de pessoas e sobre as relações humanas, é uma peça fundamental aqui.

A idade média da primeira exposição de uma criança à pornografia é de 11 anos. O fato de ser uma média significa que é comum que algumas crianças sejam expostas à pornografia aos 5 ou 7 anos.

E a pornografia de agora definitivamente não é a mesma que a pornografia das gerações anteriores. Não é uma revista escondida debaixo da cama dos pais com imagens de mulheres seminuas, intercaladas com notícias sobre carros e futebol; tampouco é uma fita de vídeo que você tem de fazer planos mirabolantes para conseguir arranjar, com vergonha e dificuldade, se tiver menos de 18 anos. A pornografia agora é uma produção massiva, globalizada, gratuita e está a apenas um clique de distância.

E o que essas crianças de 5, 7 ou 11 anos encontrarão quando pesquisarem sexo, porque ouviram falar em algum lugar e ficaram curiosas a respeito, é um site repleto de imagens de mulheres sendo penetradas por múltiplos homens de uma vez por múltiplos buracos, ou mulheres amarradas com cordas, estranguladas, humilhadas, sendo cuspidas e ejaculadas em todo lado… E que mensagens a pornografia está transmitindo a essas crianças? O que elas aprendem ali?

O que elas estão aprendendo é a sexualizar a violência.

Elas estão aprendendo que sexo e violência são indissociáveis, que as mulheres gostam de ser humilhadas e torturadas e que ficar excitado com isso é precisamente o que fará desses meninos homens. Eles estão aprendendo quais papéis devem desempenhar como meninos ou como meninas. A indústria pornográfica foi muito bem-sucedida em posicionar a pornografia como a principal, e muitas vezes a única, referência de educação sexual da minha geração e das gerações posteriores à minha.

Não podemos discutir a prostituição sem olhar para a cultura e a dinâmica de poder do contexto em que qualquer tipo de política será aplicada, é por isso que estou falando sobre pornografia. E como a pornografia agora é uma mercadoria globalizada, esse é o contexto em praticamente todos os lugares.

A conexão principal entre juventude, pornografia e prostituição é que é muito mais fácil normalizar o ato de comprar acesso sexual ao corpo de outra pessoa se você já as ensinou a objetificar e desumanizar outras pessoas, desde a infância. Você já as ensinou, através da pornografia e do abuso sexual (geralmente a primeira experiência sexual de muitas meninas) que é perfeitamente aceitável se outra pessoa for estuprada, torturada ou abusada para que você obtenha prazer disso, desde que isso seja chamado de sexo. Ou trabalho. Eles já foram dessensibilizados. Eles não reconhecem a pessoa sendo fodida como uma pessoa real, mas sim como um mero objeto sexual anônimo. Sem rosto, sem subjetividade, sem aspirações, sem filhos pra criar ou vontade de ser engenheira espacial um dia. São como bonecas sexuais: objetos antropomorfizados.

A pornografia diz aos meninos o que é sexo e o que eles devem fazer para se tornar homens. O abuso sexual diz às meninas qual é o seu valor, para que servem e que não existem limites para os seus corpos. É assim que somos diferentemente preparados: meninos para se tornarem compradores de sexo em potencial, e meninas como potenciais prostitutas.

Segundo o Relatório Global da ONU sobre Tráfico de Pessoas, 70% das vítimas de tráfico são mulheres e meninas, e a exploração sexual é o principal objetivo. Meninas eram 10% das vítimas em 2004; em 2018, eram 23% do total de vítimas. Além disso, populações em extrema pobreza são especialmente vulneráveis. A cereja no topo do bolo: imagens e vídeos de abuso sexual infantil na Internet cresceram literalmente 100% de 2008 a 2018, estamos falando de mais de 48 milhões de materiais disponibilizados como “entretenimento” nos quais crianças são sexualmente abusadas. Portanto, se você é mulher e pobre, já tem um pé ali dentro. E se você é uma mulher adulta que não “escolheu” a prostituição, não se anime: o tráfico está sempre lá para lembrar que você pode acabar na prostituição, quer queira que não.

A pornografia também está mudando a cara da prostituição para torná-la mais palatável para as camadas mais jovens. Por exemplo, a relação “sugar baby / sugar daddy” é agora um fenômeno bem conhecido entre a juventude.

Uma rápida pesquisa no Google me diz que existem 557 000 000 resultados para a minha pesquisa “sugar dady”. Há um sem fim de sites criados especificamente para ensinar jovens a se tornarem “sugar babies”; e outra imensidão de canais no YouTube, em diversos idiomas, fazendo o mesmo. Lendo os comentários de um vídeo brasileiro com quase 200.000 visualizações, o canal voltado exclusivamente para a temática, com quase 80 mil seguidores, li o seguinte comentário de uma menina: «Tenho 14 anos e mal posso esperar para fazer 18 anos para encontrar um “sugar daddy”».

Nos murais das universidades de países onde o comércio sexual foi regulamentado, já se encontra facilmente anúncios recrutando “sugar babies”. Um artigo publicado em março deste ano no Mail Online, por exemplo, disse que mais de 1000 estudantes da Universidade de Cambridge estão recorrendo a “sugar daddies” para pagar suas dívidas estudantis.

Deixa-me contar uma coisa. Eu estava na faculdade quando conheci pela primeira vez os ativistas do “trabalho sexual”. Eles andavam sempre pela universidade, aparentemente havia um foco muito específico no alvo da sua militância. Naquela altura, conseguiram me convencer que a regulamentação da prostituição era o melhor que podia ser feito. “Portugal não é o Brasil”, eles me lembravam o tempo todo (ainda hoje!). Eles diziam que a prostituição de rua quase não existia em Portugal; algumas pessoas gostavam e escolhiam; e que um contrato de trabalho sexual significava direitos; e as prostitutas não precisavam da ajuda de ninguém, elas até estavam na faculdade!

Essa imagem de uma prostituta jovem, esclarecida e acadêmica se encaixa melhor no discurso da “livre escolha”. É o que Rae Story, ex-prostituta e hoje abolicionista, chama de “classe-medização da prostituição”. Mas essa definitivamente não é a realidade da maioria das pessoas na prostituição.

Se é mais comum encontrar estudantes na prostituição em Portugal do que é no Brasil — onde é muito óbvio que a prostituição está diretamente ligada à falta de acesso às políticas públicas, à falta de moradia e pobreza — é porque até faculdades públicas são caras e inacessíveis para a maioria da população. As universidades e suas taxas caríssimas provavelmente está empurrando pessoas jovens para a prostituição. É mais provável que a prostituição seja o último recurso de muitos estudantes para conseguirem bancar sua formação. Claro que isso tem um peso especial se você for mulher e já foi sexualizada e objetificada a sua vida com inúmeras referências sobre como seu valor social está diretamente relacionado à sua disponibilidade sexual.

A pobreza e o machismo criam a prostituição, e a nossa geração e as gerações mais novas estão levando com isso pesadamente, pois crescemos numa cultura exacerbadamente pornificada na qual a prostituição é empoderadora e a precariedade é a regra.

Reconhecer a prostituição como um “trabalho como outro qualquer” não oferece qualquer possibilidade de saída. Não evita nem reduz danos. O dano que já foi causado pela pornografia e pelas experiências de abuso sexual; e o dano que é necessariamente causado quando você está na prostituição. Tudo o que essa política faz é perpetuar um ciclo vicioso de exploração sexual legitimada pelo Estado, disfarçada de emprego contratualizado. Como disse Rachel Moran, sobrevivente do sistema de prostituição e hoje abolicionista e membro da SPACE International: “a prostituição é a comercialização do abuso”.

Portanto, como mulher, feminista e mãe de um pequeno menino, rejeito absolutamente que o Estado me ofereça a profissionalização da violência sexual contra mulheres como uma alternativa para ter acesso aos nossos direitos humanos mais básicos: moradia, saúde, educação, alimentação e soberania corporal.

Nós, jovens abolicionistas, exigimos que sejam dadas respostas políticas adequadas para as condições que tornam a prostituição uma realidade: a violência sexual, a pornografia, o desemprego, a falta de moradia, a falta de direitos de cidadania para migrantes e refugiados, a falta de política de assistência às famílias, a privatização da educação e saúde.

Exigimos que alternativas reais sejam oferecidas às mulheres que desejam sair do sistema de prostituição e uma vez que a prostituição é totalmente uma forma de violência contra a mulher e uma violação dos direitos humanos das pessoas prostituídas, então as pessoas que perpetuam essa violência — seja como compradores, vendedores ou compradores — sejam responsabilizadas e reeducadas.

Não aceitaremos a cafetinagem e o tráfico das mulheres jovens, seja nas mãos do mercado privado ou para benefício do Estado, como uma alternativa para ter acesso aos nossos direitos humanos universais.

Não em nosso nome.

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