Prezadas mulheres, uma carta sobre como conduzir seu movimento.

(Obs: Caso falte interpretação de texto: as opiniões aqui são irônicas.)

Prezadas mulheres,

A luta de vocês é realmente muito importante. Eu compreendo que vocês são violentadas todos os dias. Quero dizer, só no Brasil, os dados são fantásticos: 10 estupros coletivos todos os dias; 1 estupro a cada 11 minutos (dos que chegam às autoridades — aproximadamente 10% dos estupros e tentativas de estupro que realmente acontecem); 4,8 feminicídios por 100.000 habitantes, sendo a quinta maior taxa do mundo.

Mas, mulher, dá uma segurada nesse seu punitivismo! Vocês, mulheres, feministas, estão fazendo o Estado abusar de poder punitivo. Entendemos que vocês também são vítimas e tal, e que também têm seus direitos violados toda vez que acontece alguma violência, e que o Estado pouco faz para coibir ou prevenir essa violência em outras esferas que não a penal e que vocês consequentemente ficam à revelia, mas isso não é desculpa pra vir com discurso punitivista e com Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio não, ouviram?! Porque vocês são mulheres, mães, então devem acolher todas as demandas e lutas do mundo, mesmo que sejam contrárias às suas necessidades materiais do momento (tipo, impedir que vocês sejam mortas e tal). O sistema prisional é uma máquina de moer gente! Vocês não se importam com isso?!

Sabemos que o Brasil é o quarto no raking global de casamento infantil, com 36% da população feminina casando antes dos 18 anos; que o governo federal recebe cerca de 70 denúncias por dia relacionadas a violência sexual praticada contra crianças; que a violência sexual contra crianças e adolescentes representa 20% das denúncias recebidas; que em 65% dos casos o agressor é conhecido, muitas vezes faz parte da família da vítima; e que o Brasil é o quarto no ranking mundial de pedofilia; que a pornografia infantil é o crime virtual mais comum do Brasil, correspondendo a quase metade dos crimes virtuais cometidos; que existem em torno de 700 mil sites de pornografia infantil circulando na rede (sem contar a deep web) e que menos de 1% das vítimas de pornografia infantil são identificadas (estatística global).

Mas, mulher, isso não é motivo pra nóia; sua filha não está sendo abusada por seu marido. Inclusive, se passar aquela lei, você pode ser punida por alegar isso, ouviu?! Basta de falsas denúncias!

Sabemos que o feminicídio de pretas aumentou 54% nos últimos dez anos enquanto o de brancas diminuiu; que as pretas estão em maior número dentre as vítimas de estupro; que quase 66% das pretas são vítimas de violência obstétrica e que pretas recebem até menos anestesia durante o parto do que brancas.

Mas, preta, isso não é motivo pra sair por aí com ódio de mulher branca e arrancando o turbante dela, viu?! Vocês têm que ter paciência e didática — sororidade, manas! Não é culpa dessas brancas que elas são racistas, afinal, foram criadas numa sociedade racista, né? E não se combate violência com mais violência; mas, sim, com doçura, já disse aquela cantora!

Sabemos que, pelo menos no Brasil, as mulheres estão presentes no ensino superior e, de forma geral, possuem mais tempo de estudo do que os homens; mas isso não se reflete em seu ganho econômico, uma vez que em algumas áreas chegam a ganhar menos da metade de homens executando a mesma função — e isso sem considerar o fator “etnia”, que também diminui o ganho. Também sabemos que, entre a população desempregada, a mulher é maioria, e que o desemprego feminino aumentou mais do que o masculino nos últimos anos (provavelmente nada a ver com a maternidade, né nom?!).

Mas, mulher, você nem tinha que estar fora de casa, porque seu lugar é junto ao lar, cuidando da casa e das crianças, acompanhando as flutuações de preço dos produtos no supermercado, cuidando do seu rosto e do seu corpo pra ser a esposa perfeita! Não precisa ter graduação pra isso. E, mulher, por que você tá reclamando dessa desigualdade se você tem licença maternidade? Salário maternidade? Não-sei-o-que-maternidade? Vocês já pararam pra pensar que tem mulher que engravida todo ano só pra continuar recebendo salário maternidade e mamar nas tetas do governo? Ninguém mandou engravidar. Agora aguenta!

Sabemos que, só em nosso país, 800 mil mulheres praticam abortos todos os anos; que o aborto malsucedido é a quinta maior causa de morte materna; e que em média morrem quatro mulheres por dia por conta de complicações no aborto.

Mas, mulher, e a vida do seu feto, não importa? Você só é capaz de opinar porque já nasceu! O corpo não é só seu, é a morada do feto, uma vida, e você não tem o direito de retirá-la! Não interessa quantas de vocês morram todos os anos praticando aborto, porque não deveriam tê-lo tentado pra começo de conversa. Por que você julga que sua vida é mais importante?

Sabemos que lésbicas sofrem estupro corretivo (inclusive, em torno de 6% das vítimas de estupros que chegam ao poder público são lésbicas) e que há pouquíssimos dados e estatísticas sobre lesbofobia e suas vítimas — que são todas inseridas no espectro LGBT, na maior parte das vezes.

Mas, mulher gay ou homossexual(porque lésbica é palavrão!), você é super bem aceita na comunidade LGBT, não precisa de um movimento só pra você, nem de estatísticas só pra você, porque, afinal, na verdade, lesbofobia enquanto opressão específica de lésbicas nem existe, é tudo homofobia, ou homo-lesbo-transfobia, ou LGBT-fobia. É claro que algumas de suas pautas vão sumir frente à nossa coletividade, mas, fazer o quê, né?

Sabemos que em torno de 200 milhões de meninas por todo o mundo são vítimas de mutilações genitais, e que a maioria dessas meninas é menor de 5 anos; que são registrados (ou seja, de novo, tal número não corresponde à realidade) em média 1500 casos de mulheres desfiguradas por ácido; que, no mundo, há quase 14 milhões de mulheres em situação de prostituição, sendo que, só no Brasil, há 250 mil crianças; e que 79% de todo o tráfico de pessoas do mundo é pautado na exploração sexual.

Mas, mulher, tem gente que sofre mais que você, você é privilegiada, viu? E, olha, ninguém faz estatística de masculinicídio, você não é obrigada a se alistar no exército, você pode se aposentar mais cedo e o pagamento do bolsa família deve ser feito preferencialmente pra você. Quer mais?! Ainda por cima, não se pode nem fazer um movimento por direitos dos homens que chovem as críticas. Não são os homens humanos também?

Então, mulher, por favor. Menos. Bem menos. Porque suas conquistas estão incomodando.

Furiosa

feminismo radical e materialista de forma didática. textos autorais e traduções. fúria, cultura do estupro, política, prostituição e teoria feminista.

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