Sobre sexo “de verdade”

Num dia desses eu me deparei com um texto gringo de uma moça que relatava seus traumas com sexo e, consequentemente, com homens. Ela conta que, desde a primeira relação sexual, ela sentia muita dor, a ponto de quase chorar, mas ela não deu atenção porque achava que isso era normal.

Pelo pouco que ela conversava com as amigas, no início de sua vida sexual, era normal sentir desconforto e que com o tempo ela se acostumaria. Então ela esperou. E esperou. Mas ela nunca se acostumou, e o sexo sempre era um sacrifício.

O resultado? Depois de muitos caras se afastarem por conta da (óbvia) falta de sexo (mesmo que não justificassem assim), sempre que as intimidades começavam a florescer em um relacionamento novo, ela se afastava, pra não ter que passar pelos mesmos velhos traumas. O fato de que nenhum dos caras mostrava a menor preocupação com suas dores, apenas com seu próprio prazer e suas próprias necessidades fisiológicas, também não ajudou.

Mais velha — depois de passar muitos anos sofrendo muito no ato sexual — ela foi descobrir que tinha vaginismo, e que essa condição é que tornava extremamente dolorosa a penetração. A resposta que trouxe um alívio também trouxe um fardo: como ela teria um relacionamento sem sexo? Será que ela teria que se relacionar com uma pessoa assexual? Ela conseguiria ter um relacionamento de verdade?

Mas a história, felizmente, acaba bem: ela começa uma amizade com um colega de trabalho e, quando contou sua história pra ele, ele mostrou real preocupação por sua condição. Pesquisava sobre tratamentos e formas de ela sentir menos dor durante o dia e lia até artigos científicos a respeito. Eventualmente, engataram num relacionamento e ele respeitou seu tempo para terem intimidade sexual — e ela finaliza dizendo que, sim, fazem sexo, mas do jeito deles.

Fiquei pensando que isso deve ter sido o jeito dela de falar que o sexo deles não envolvia penetração.

Bill Clinton ficou famoso por alegar que a definição senso-comum de sexo não envolve receber sexo oral

Em algum momento da iniciação sexual, toda mulher ouve isso: masturbação e sexo oral fazem parte das “preliminares”; são algumas das safadezas que precedem o principal, o mais importante, o objetivo: a penetração.

A primeira consequência lógica disso é a ideia de que se não rolou penetração, basicamente, não teve sexo. Penetração é elemento essencial do tipo “sexo”. Pra você falar que fez sexo, só se tiver sido penetrada. E por um pênis — dedos não contam.

A segunda consequência lógica disso é a ideia altamente presente no imaginário social de que sexo lésbico não é sexo de verdade — a não ser que envolva um pinto de borracha. Aliás, não é incomum que associem a virgindade ao status de impenetrada por um pênis (o que faria muitas lésbicas serem virgens, bem, pra sempre, mesmo que elas tenham uma vida sexual bastante ativa. Percebe como não faz sentido?).

A terceira consequência lógica (e a mais triste, na prática, para as mulheres heterossexuais) é que o nosso órgão responsável única e exclusivamente para nos dar prazer — o famigerado clitóris — é jogado pra escanteio assim que começa o chamado “sexo de verdade”.

Vejam bem: as partes mais sensíveis da mulher e que, portanto, lhe dão mais prazer quando estimuladas são externas, não internas. O clitóris possui (muito) mais terminações nervosas que o pênis. E faz total sentido que ele seja mais sensível a estímulos do que a vagina, por um motivo simples: o parto.

feminismo

Não é à toa que uma maioria maciça das mulheres (heterossexuais) nunca experimentaram um orgasmo com seus parceiros. É natural (na verdade, é óbvio) e esperado que o sexo estilo britadeira não seja prazeroso para a mulher. E a necessidade de penetração em detrimento da necessidade de prazer no sexo heterossexual é, sim, uma forma de controle, é uma imposição social, é maldoso, pra dizer o mínimo.

Pensa o seguinte: se nunca ninguém tivesse te dito que sexo equivale a penetração, você, mulher, acha que isso seria o ponto alto de quando você fosse transar? Você conhecendo seu corpo, conhecendo seu clitóris, sabendo que sozinha com seus dois dedos você alcança o clímax numa boa — a penetração seria tão importante assim?

Provavelmente não.

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Mas nós crescemos vendo pra todo lado, desde mídias até escola, que sexo é penetração. E, pra piorar, que nosso corpo é sujo, que masturbação feminina é feio e condenável, que devemos ser recatadas e que gozo e prazer sexual é coisa de puta.

A gente se acostuma com a ideia de não gostar de sexo. A gente meio que espera isso. A dor, o desconforto, o cara se jogando cansado do nosso lado depois de se satisfazer. E a gente também se acostuma com a recusa deles em nos fazer sexo oral, pelo motivo que for, não importa o quão cretino (comentários em relação ao gosto e aos pêlos toda mulher já deve ter ouvido de um homem pelo menos uma vez na vida. Engraçado que eles não precisam nem estar com o pinto limpo pra receber o boquete obrigatório, né nom? Mas isso é tema pra um texto inteiro, à parte).

E as centenas de revistas femininas que, quando mencionam o assunto, só tratam sobre o prazer dele e no que você pode fazer pra dar mais prazer pra ele. Ou, ainda, quando muito, pode trazer algumas dicas de posições que você pode fazer pra ter mais prazer… enquanto estiver sendo penetrada. Mas, naturalmente… a obrigatoriedade da penetração, em si, não é colocada em debate. Nunca. (Até porque… você consegue imaginar a cara de um homem lendo esse texto e tendo sua sagrada penetração questionada? rs)

Então, minha querida: se penetração não é sua praia, fique tranquila. Se você não consegue gozar só com penetração, fique mais tranquila ainda. O problema não está em você, mas na incompetência do seu parceiro (que deveria se importar com seu prazer tanto quanto ele se importa com o dele). Afinal, como diria Karol Conka:

tem que saber fazer senão gera contradição / direitos de prazer iguais, mais compreensão

Furiosa

feminismo radical e materialista de forma didática. textos autorais e traduções. fúria, cultura do estupro, política, prostituição e teoria feminista.

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