Radicalizando o seu cotidiano: organizando-se politicamente

Porque a teoria é baseada nas experiências das vidas de mulheres, é parte do sistema de valores do feminismo radical que “o pessoal é político”. Nas palavras de Gail Chester (1979, p. 13): “A teoria feminista radical é de que a teoria advém da prática e de que é impossível de ser desenvolvida na ausência de prática, porque nossa teoria é tal prática e nossa prática é nossa teoria”. Mal-entendidos têm ocorrido porque críticos alegam que o feminismo radical rejeita a teoria. Mas [o feminismo radical] sempre sustentou que nós precisamos de teoria para entender as experiências de mulheres, para avaliar as causas da opressão feminina, e para revisar estratégias de ação. Mas nós rejeitamos teorias que são esotéricas demais, apartadas demais da realidade das experiências de mulheres, e inacessíveis demais para a maioria das mulheres a quem o feminismo deve servir: teoria que nós intitulamos de “teoria de desengajamento”. (Robyn Rowland, Renate Klein. Radical Feminism: History, Politics, Action. in: Diane Bell, Renate Klein (org). Radically Speaking: Feminism Reclaimed. Tradução minha.)

Prática e teoria são uma coisa só. Como escrevemos e elaboramos nosso pensamento a partir de nossa vida cotidiana, de nossas experiências, de nossa luta e de nossos relacionamentos, a teoria feminista radical existe na prática, e a prática feminista radical é de onde vem sua teoria.

Principalmente porque o feminismo é um movimento de libertação coletiva, nossas ações e práticas não podem ser voltadas só para nossas correntes individuais. Por mais que a produção de conhecimento feminista nos empodere, por mais que nos ajude a nos sentirmos menos loucas e mais acolhidas, por mais que nos ajude a repensar e a efetivamente mudar diversas atitudes e pensamentos individuais nossos, é preciso lembrar que o foco é a emancipação coletiva. Por óbvio, é algo que somente conquistaremos quando todas estivermos conscientes de nossa condição social, dos lugares que ocupamos na sociedade enquanto mulheres. Porque, como Audre Lorde já disse,

Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.

1. Estude

Existem muitas formas de se organizar politicamente e existem muitas formas de atuar em prol de uma causa. Mas mesmo as pessoas que se juntam pra fazer ações pontuais precisam, em algum momento, se reunir para debater e ler, minimamente, o que já foi produzido sobre aquelas ações.

Pensando em termos de libertação das mulheres, o estudo se faz ainda mais necessário porque é somente por meio da leitura que conseguimos identificar de onde surgem nossos problemas, como enfrentá-los, quais objetivos queremos. É somente com a leitura e com o estudo que conhecemos o que já outras mulheres já pensaram e a quais conclusões elas chegaram; quais experiências práticas já foram feitas; o que ainda é preciso desbravar.

Quando não lemos, quando não fazemos levantamento bibliográfico e científico das experiências e conclusões de outras mulheres, ficamos presas no mesmo nível de desenvolvimento intelectual eternamente. Reinventando a roda. Sem sair do lugar.

Nós estamos em 2020. Temos 60 anos de teoria feminista sendo consistente e constantemente produzida. Indo além, temos pelo menos 200 anos de mulheres consistente e constantemente escrevendo sobre sua condição na sociedade. Indo além, temos registros de mulheres insubmissas e furiosas ao longo de toda a história. Nós não precisamos reviver o que elas viveram e não precisamos passar por o que elas passaram. O legado das mulheres que vieram antes de nós deve nos servir justamente para que possamos evitar cair nas armadilhas e nas dificuldades que foram a elas impostas.

Assim, é nosso dever, enquanto feministas sérias e comprometidas, organizar-nos para estudar e difundir teoria feminista.

Isso pode ser feito de diversas formas. Montar grupos de estudos é sempre uma ótima ideia, porque estar em grupo torna a leitura mais prazerosa e o processo de troca de ideias é sempre muito enriquecedor. Textos feministas sempre nos fazem remeter a experiências de nossas vidas, e o compartilhamento dessas experiências também é muito valioso — porque, de novo, teoria é prática e vice-versa. Combinar de ler alguns textos com amigas, colegas de sala; mandar um texto pra alguém por whatsapp e trocar ideias; mostrar um trecho ou uma frase pra sua mãe enquanto vocês andam juntas por aí — as possibilidades de troca são infinitas, e material não falta.

Sim, eu garanto: em algum momento, você vai começar a ler os textos e vai pensar: é muita coisa. eu não sei nada disso. eu nunca vou conseguir entender. tem coisa demais pra ler. E é verdade, nós sabemos muito pouco, a produção é muito extensa e nunca, jamais, estaremos “em dia” com o que está sendo produzido. Mas isso é consequência do fato de a luta estar em constante desenvolvimento; o feminismo está em constante desenvolvimento; nós, como pessoas, como mulheres, estamos em constante mudança e amadurecimento. Você certamente vai ler e compreender de forma diferente, daqui dez anos, um texto que está lendo hoje. O que não significa que você não o tenha entendido hoje.

Sempre começamos de algum lugar.

Amruta Patil, Kari, Ruth and the Extended Sisterhood (2013).

2. Organize-se

Existem muitas formas de contribuir para a emancipação de mulheres. Como nossa experiência de opressão e de privação de direitos é sentida e vivenciada em todas as áreas de nossas vidas, é possível atuar em todas: mercado de trabalho, maternidade, sexualidade, relacionamentos, educação e instrução… É possível atuar individual e coletivamente, autônoma ou institucionalmente. É possível ajudar na elaboração de leis que servirão de base para políticas públicas. É possível ajudar fazendo pesquisa, que está na base de tudo. Você pode fazer como nós e auxiliar na difusão de conhecimento (traduzindo, tornando as ideias mais acessíveis, produzindo material). Você pode se organizar com outras mulheres e, juntas, pensar em ações coletivas: encontros, feiras, arrecadações, protestos e atos, intervenções.

Mais cabeças pensam melhor do que uma só. Mais mãos manuseiam mais do que só duas. Mais costas aguentam mais peso do que só uma.

É também na estrutura e no funcionamento dessas organizações (coletivas, frentes, etc) que colocamos em prática ideias feministas a respeito de como a sociedade deve ser. Uma vez que o feminismo prega autonomia, combate hierarquias e sistemas de poder, e preza pela irmandade e pelo cuidado mútuo, é incompatível com ideais feministas estruturas hierarquizadas, com tomadas de decisão centralizadas. Coletivas feministas devem ser horizontalizadas — todas têm a mesma voz. Todas devem ser ouvidas e todas têm o direito de falar.

Não podemos reproduzir, entre nós, formas masculinas de controle, de humilhação e de exclusão — o que não significa passar a mão na cabeça e fazer vista grossa para atitudes ou comportamentos discriminatórios dentro do próprio grupo (como racismo, lesbofobia, classismo, intolerância religiosa, e qualquer forma de preconceito). É necessário, para isso, que estejamos dispostas a aprender umas com as outras; que saibamos reconhecer quando estamos erradas; que realmente escutemos umas às outras quando algo machuca ou ofende; que estejamos dispostas a rever ideias e comportamentos que sempre fizeram parte da nossa realidade.

O que também não significa silenciar-se ou silenciar as outras. Novamente: estamos em constante (e eterna) construção e reconstrução. Estamos sempre aprendendo e reformulando e aprimorando teorias/práticas. E a nossa utopia feminista será alcançada com criatividade, diálogo, dialética e construção coletiva: sempre juntas.

3. Construa uma rede de apoio

Estudar, movimentar-se, organizar-se, fazer trabalho de base — são ações exaustivas física, mental e emocionalmente. Talvez por motivos menos óbvios: é angustiante tomar real consciência da nossa condição e de todas as implicações de se ser mulher nesse mundo; é desesperador ler relatos, experiências, relatórios, entrevistas e pesquisas a respeito da condição das diversas mulheres no mundo. É muito doloroso conhecer nossa história. É avassalador parar e perceber o quanto ainda falta, o quanto ainda precisamos caminhar. E você não precisa lidar com nada disso sozinha.

Porque você não está sozinha. A força do movimento feminista está, precisamente, no fato de que é um movimento coletivo com a capacidade de abarcar mais da metade do mundo. Os objetivos que traçamos, as estratégias que elaboramos — a coletividade está em sua essência.

Uma rede de apoio é uma estratégia política de sobrevivência numa sociedade que nos isola justamente para nos fragilizar.

É preciso organizar mulheres para cuidar umas das outras e de si mesmas. E por cuidado eu quero dizer escuta, acolhimento, fortalecimento, orientação, mas também ajuda material: opte por comprar produtos feitos por outras mulheres, por contratar serviços de mulheres, por recomendar mulheres. Priorize mulheres pobres, mulheres negras. Ofereça-se para cuidar da cria da sua amiga, ofereça ajuda, chame ela pra sair pra vocês irem a algum lugar que acolha crianças — mães são as mulheres mais desamparadas da sociedade. Incentive suas amigas e companheiras a cuidarem da própria saúde mental: fazer terapia, procurar ajuda psiquiátrica. Esteja lá pra elas, mostre que é possível, que juntas nós conseguimos. Acolha aquela sua amiga que está passando por um momento difícil em casa. Não feche os olhos pro relacionamento abusivo pelo qual está passando sua outra amiga. E esse cuidado também deve ser estendido a desconhecidas: interfira em situações de abuso (na medida em que isso não colocar você em risco. Existem diversas formas de atrair a atenção de uma mulher e de levá-la pra longe de um abusador/assediador). Cuide daquela menina bêbada que parece sozinha no rolê. Com certeza isso fará diferença pra mulher que você estiver ajudando; ela vai se lembrar disso e vai passar esse cuidado adiante.

Esse cuidado — de si e das outras — fortalece as possibilidades de organização e união políticas. Porque esse cuidado de que eu falo aqui envolve estar no mundo, participar ativamente dele, tentar mudá-lo; não tem nada a ver com se isolar, com fugir dos dramas e das angústias, com “dar um tempo”, com “deixar de seguir”, com “bloquear” — todas estratégias que te afastam da luta e nos afastam de nossos objetivos.

Nunca se esqueça: a irmandade entre mulheres é poderosa.

Furiosa

feminismo radical e materialista de forma didática. textos autorais e traduções. fúria, cultura do estupro, política, prostituição e teoria feminista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *