Sabemos o que estamos consentindo?
Sabemos o que estamos consentindo?

Sabemos que o consentimento não é suficiente, mas o que importa é o motivo . 

Antes de começar vou contar uma história:

“Ane (nome fictício) tinha 21 anos e estava desempregada. Ane viu uma oportunidade de ter dinheiro sendo atriz de filme pornográficos e ser prostituída. Ane disse ‘sim’.” 

Mas sabemos que a indústria do sexo é uma das grandes responsáveis por perpetuar ainda mais a violência contra a mulher, principalmente sexual. Ela tem como grande cavalo de troia o seu estupro pago e filmado, o que alguns e algumas entendem como sexo, mas não é sexo. Porque sexo não deveria ser um “bem” a ser comprado, o problema é que isso acaba como incentivo para o público que consume, ainda mais se for levado em conta todo o mecanismo de manter a mulher objetificada e submissa ao homem. A pornografia e a prostituição vendem essa ideia, independente do “sim” de Ane.

Então, com isso, quero dizer que o “sim” não valeu de nada. Além de entendermos que só o consentimento não se compra e não basta. Por que não basta?

A maneira como tratamos o consentimento nos coloca como se fôssemos mulheres passivas, que apenas dizem “sim” ou “não”.

Digamos que eu, você ou a Ane aceitamos, ou melhor, consentimos, ter relações sexuais com um homem, estava tudo indo bem, você consentiu aquele ato, mas em um certo ponto não ficou agradável e você pediu para parar, e o rapaz não parou porque disse que isso poderia ser frescura e você preferiu deixar quieto, fingir “demência”, isso já aconteceu com muitas mulheres, tenho certeza. Aqui, só o seu consentimento bastou e a fez se sentir confortável? Não. Porque não somos mulheres passivas ao ponto de ter de satisfazer todas as vontades de um sujeito ativo.

A Ane teve que consentir a uma lógica que era violenta primeiramente à ela. Mas foi por questão de sobrevivência, porque, mulheres nessas situações, graças ao mecanismo de manter a mulher como subclasse faz com que mulheres não tenham opção ou tenham só essa opção. 

Da mesma forma muitas mulheres são coagidas por fatores como o sentimento de obrigação para com o outro, medo, ou simplesmente vontade de agradar, como é a relação de consentimento em relações afetivas/amorosas. Já ouviu falar em estupro marital? Que é quando uma mulher não está afim de transar e mesmo assim o companheiro insiste e ela acaba “consentindo” porque é um casamento e ele é o seu marido? Como se a esposa fosse do marido?

“O estupro marital se configura quando ocorre infringência sexual contra um dos parceiros, mesmo dentro de um relacionamento. Fazer com que uma relação sexual aconteça por meio de ameaça ou violência são os casos mais clássicos hoje em dia, mais também pode ser considerado estupro marital forçar o sexo enquanto a vítima está inconsciente, seja dormindo, embriagada ou sob efeito de remédios.” (Fonte: Jus Brasil | Franciele Rocha)

Ou seja, você consentir qualquer relação, principalmente sexo, por meio de pressão pode ser caracterizado como estupro.

Violências sexuais praticadas por cônjuge ou companheiro representam 13,15% dos crimes de estupro praticados no Brasil, segundo o Atlas da Violência de 2018. Segundo especialistas, o número de registros não reflete a quantidade dos casos. “É o tipo de estupro mais subnotificado porque as mulheres casadas não sabem que estão vivendo uma violência nem que podem se recusar a ter uma relação sexual”, afirma a advogada Maíra Zapater, doutora em Direitos Humanos pela USP (Universidade de São Paulo), especialista em direitos das mulheres e professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Além disso, mulheres têm medo de denunciar e, em muitos casos, são dependentes financeiramente do marido. (Fonte: Universa Uol).

E como fica o tema do consentimento na época de grandes festejos populares como carnaval, quando temos:

  • pessoas bêbadas
  • pessoas sendo objetificadas (mulheres, no caso)

Sob a desculpa da alegria e da comemoração, parece que tudo pode, e como resultado o que vemos: 

Denúncias de violência sexual aumentam 88% no carnaval de 2017.

Nos quatro dias de carnaval em 2017, o Disque 180 registrou, ao todo, 2.132 queixas de mulheres — o que representa uma leve queda de 1,62% em comparação com o mesmo período do ano passado.

A violência física foi o principal motivo das ligações (1.136). Em seguida, vem a violência psicológica (671), a sexual (109), a violência moral (95), além de denúncias de cárcere privado (68), violência patrimonial (49) e tráfico de pessoas (4). (Fonte | Exame São Paulo)

Em 2018 teve aumento de 20% de denúncias.

Então o que ganhamos quando abraçamos as pautas de incentivos de “pegação total” e “meu corpo, minhas regras”. Homens adoram saber que o que eles sempre podem fazer agora está mais fácil, somos alvos e podemos ser estupradas. 

Óbvio que nem o nosso tipo de vestimenta e nem o fato de estarmos alcoolizadas deveria ser preocupante, mas é. Não podemos nos dar o luxo de sermos ingênuas e achar que os caras serão legais conosco, ainda mais “em clima de carnaval”. Não confiem. Tenham medo. 

Apenas em 2019 tipificou-se assédio como crime e foi válido para o Carnaval do mesmo, mas inúmeros casos de denúncias não foram solucionados, porque afinal, é “clima de festa e todos estão ali para se divertir”. 

Inúmeros casos de estupros são gravados e colocados em sites pornográficos com mulheres embrigadas, como saber se ela consentiu, se é que teve condições para isso. Perigoso, não?

Somos mulheres e sabemos que não podemos descansar nunca, infelizmente, nem do carnaval.


Em casos de violência contra a mulher ligue para central de atendimento à mulher (Disque 180).

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