Todo poder às lésbicas

Todo Poder às Lésbicas porque ser lésbica é a nossa sexualidade

Não há qualquer privilégio em ser lésbica, não há facilidades quando uma mulher assume perante uma sociedade patriarcal que irá se relacionar exclusivamente com outras mulheres, uma vez que o seu desejo não é falocentrado e que sua concepção de afeto não é heteronormativa, por essa razão lésbicas não precisam se adequar e nem se “desconstruir”, porque a orientação sexual lésbica é por si só a própria desconstrução da heterossexualidade compulsória.

Qualquer imposição de sexo, desejo e afeto como demonstração de empatia de uma lésbica é discurso de ódio com a intenção de normalizar o estupro corretivo, uma vez que o corpo, o desejo e a autonomia daquela mulher estão sendo constrangidos para que ela ceda aos desejos abusivos de alguém.

E mais, se há em determinado discurso uma exclusão da sua história, negando à lésbica os seus nomes e símbolos, ou há a usurpação deles como forma de oprimir e silenciar, é a mais cruel lesbofobia.

A invisibilidade lésbica é um mal histórico, social e político, considerando que todos os dados que dizem respeito à violência, sexualidade, identidade e relacionamentos são identificados apenas pelo nosso sexo, ou seja, a lesbofobia, a saúde da mulher lésbica, o papel social da mulher lésbica e os relacionamentos das mulheres lésbicas se perdem dentro de um dado generalizado como “violência, saúde, comportamento e relacionamento DAS MULHERES” e assim sendo é lido como “MULHERES HETEROSSEXUAIS”.

Ligia Bellini, em seu livro A Coisa Obscura, desvenda o tratamento dado às lésbicas pelos inquisidores portugueses nas visitas feitas no Brasil no séc. XVI, dentre as teorias destes sobre a anatomia feminina, a indefinição sobre os fatos e a descrença de que mulheres poderiam de fato se relacionar como mulheres, evidenciou-se que em diversos casos o tratamento dado às mulheres envolvidas nas práticas conhecidas como molícies (masturbação mútua entre pessoas do mesmo sexo) era de que não passavam de uma brincadeira entre virgens, algo que o casamento daria fim.

Assim a concepção do estupro corretivo se faz ainda mais clara, sendo o sexo heterossexual o fim da “brincadeira” entre meninas, é a salvação trazida pelo pênis, porque além de inferior por sua condição biológica de mulher, a mulher lésbica está desviada de seu caminho social natural, que é o casamento e a maternidade.

O título Todo Poder às Lésbicas é um grito contra esse desmerecimento histórico com nossos afetos e necessidades, temos de tomar as narrativas das nossas vidas, exigir que em caso de violência a lesbofobia seja registrada, que em conquistas relacionadas a opressões sofridas pela orientação sexual a palavra lésbica seja incluída, para que em tudo que somos, para que em tudo que vivemos, para que em tudo que sobrevivemos, o fato de sermos lésbicas não seja mais ocultado, jogado para baixo do tapete e tratado como algo menor.

Todo Poder às Lésbicas porque somos símbolo de resistência contra uma estrutura que odeia as nascidas no sexo feminino, temos de exigir sermos reconhecidas como mulheres que amam mulheres, e que esse amor não é fruto de decepções com homens, mas de afeto e atração sexual por mulheres.

Todo Poder às Lésbicas porque temos de debater até a exaustão a lesbofobia que nos mata, nos mutila e oprime enquanto lésbicas, porque sofremos como mulheres e como lésbicas, e isso não é bobagem, não é exagero e não é drama, é a realidade que nos cerca cotidianamente.

Todo Poder às Lésbicas porque somos desumanizadas e transformadas em meros fetiches, como se nosso sexo fosse entretenimento, como se nossos afetos fossem falhos, como se nossos corpos fossem desprovidos de capacidades e sentimentos reais.

Todo Poder às Lésbicas porque não temos que explicar como duas mulheres transam, amam e vivem.

Todo Poder às Lésbicas porque não temos que nos envergonhar dos nossos orgasmos, dos nossos beijos, das nossas mãos dadas e nem da nossa solidão.

Todo Poder às Lésbicas porque gostar de vagina, não nos faz vaginistas, não nos faz pessoas que se apaixonam por órgãos genitais e nem nos faz fóbicas, porque ser lésbica é a nossa sexualidade e isso não pode jamais nos ser negado.

Todo Poder às Lésbicas.

Marcelle Fonseca

São demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão.

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