violência contra mulheres
violência contra mulheres

ou, como as instituições masculinas não nos salvarão

uma adolescente desapareceu em 21 de outubro do ano passado, depois de sair de uma festa em um sítio em Mogi das Cruzes (SP). segundo as investigações, ela ia andando em direção ao município vizinho, quando encontrou um motorista que a informou que estava no caminho errado para casa, e ofereceu carona até a rodoviária, onde ela poderia pegar um ônibus. quando chegou lá, ela falou com o segurança do local, que ofereceu outra carona até em casa, e ela aceitou. a menina desapareceu por oito dias, e seu corpo foi encontrado em uma área de mata, em Guararema, com vestígios de estupro e asfixia.

o segurança confessou sua responsabilidade na morte da menina. sexta-feira, dia 30 de agosto de 2019, ele foi submetido a julgamento via júri popular e condenado a 45 anos de prisão.

eu gostaria de dizer que a prisão desse homem reflete a preocupação do nosso sistema de Justiça com a vida de mulheres, mas precisamos realizar que: não. a prisão deste homem não livra a vida da jovem assassinada, não traz alívio para a família, não deixa o mundo mais seguro, não “serve de exemplo a outros homens” e, principalmente, não é uma resposta da Justiça à violência contra mulheres. a Justiça nunca foi uma aliada à luta das mulheres. a presença de um júri composto por membros da sociedade civil para condenar um homem que estuprou e matou uma jovem não é uma resposta da Justiça à violência contra mulheres, se não uma forma da Justiça lavar as próprias mãos para a proteção de meninas e mulheres, jogando o justiçamento e a vingança no colo do povo emocionado com as notícias de jornal. é um calaboca sanguinário espetacularizado.

me lembrei de umas meninas que encontrei às duas da manhã da manhã na rodoviária de Rio Bonito (RJ) certa vez, sem dinheiro e tentando ir para Tanguá, município vizinho, 13 quilômetros de distância de onde estávamos. elas portavam uma expressão de ansiedade e, por parecerem muito novas, fui perguntar o que estavam fazendo ali àquela hora. disseram que tinham se perdido dos amigos, deixado a carteira com eles e, por isso, esperavam pra ver se conseguiam uma carona de volta pra casa. um homem que havia passado de carro alguns minutos antes disse que só ia resolver um problema, mas que já voltava para dar a tal carona. eu me arrepiei dos pés à cabeça. perguntei se elas conheciam o tal cara e me disseram que não. ofereci esperar o ônibus com elas, e pagar a passagem, mas que, por favor, não fossem de carona. “vocês não têm medo?”. “temos, mas não sabemos como voltar de outro jeito”.

a cidade não é feita para nós. a noite não é feita para nós. o transporte público não é feito para nós. se estamos nas ruas, estamos em um ambiente masculinizado. além disso, posso afirmar que não nos preocupamos com a vida das mulheres. o Legislativo não se preocupa. o Executivo não se preocupa. o Judiciário não se preocupa. a sociedade não se preocupa.

um dos argumentos de defesa do homem que confessou o assassinato da jovem paulista foi que ele, na verdade, não estuprou a adolescente, mas que tiveram uma relação consensual; e que ele não a matou de propósito, tendo em vista que achava que tinha a deixado viva; e que não tentou ocultação de cadáver. é a isso que o sistema de Justiça patriarcal nos submete: somos obrigadas a ler e escutar disputas sobre o estupro de uma menina (foi estupro ou não foi?) que, não só foi submetida à violência sexual, como foi asfixiada com um mata-leão e posteriormente enforcada com seu próprio cadarço, por ter ameaçado o homem, dizendo que seu pai era policial.

outras vezes, somos obrigadas a ler e escutar disputas sobre as roupas que usávamos enquanto éramos estupradas; outras sobre nossa conduta na vida, antes da violência física que sofremos — tem mulher que pede para apanhar?; outras sobre a nossa sexualidade — mas ela era lésbica ou bissexual?, e por aí vai. homens não querem descobrir o que aconteceu conosco para oferecer solidariedade ou para contar nossas histórias, mas para nos ridicularizar e abrir brechas para nossa humilhação, ainda que póstuma.

nada que o Judiciário nos ofereça vai trazer a vida dela daquela jovem de volta. nada vai aliviar a angústia das adolescentes nas rodoviárias esperando uma carona para casa. nada que homens nos ofereçam como proposta pode ser caminho para a nossa emancipação — precisamos pensar por nós mesmas.

o Judiciário nos submete às mais variadas violências, bem como as notícias midiáticas que expõe crimes como se fossem espetáculos a serem consumidos por nós, abutres carniceiros. ninguém fala em misoginia, ninguém fala de violência policial, ninguém fala de mudar a vida das mulheres como um todo. muito pelo contrário: o Patriarcado nos alimenta com nossos próprios pedaços de carne podre, e caímos nesse discurso porque não ousamos pensar por nós mesmas. não ousamos defender umas às outras. não ousamos nos identificar com outras mulheres. nós, as principais atingidas e atravessadas pela violência patriarcal.

eles não estão nem aí para as nossas vidas. eles não estão interessados em nos libertar das amarras, mas de nos ver girando a máquina, urrando por mais e mais. como proteger mulheres? como proteger mulheres? como proteger mulheres? — esta deveria ser nossa principal preocupação, mas, enquanto isso, seguimos celebrando morte, prisão, tortura, espetacularização da violência, justiçamento, vingança, e achando que estamos caminhando para um mundo melhor.

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