A Cultura do Estupro em tempos de pandemia
A Cultura do Estupro em tempos de pandemia

São sempre as mulheres que pagam os preços mais altos em tempos de paz e de calamidade.

Enquanto corpos eram empilhados em razão das mortes pela contaminação com o Covid-19, o site de vídeos pornográficos Pornhub liberou o acesso premium para todos os italianos “terem diversão na quarentena”.

Nesse meio tempo decretos eram assinados no Brasil na tentativa de controle da pandemia do Coronavírus e o canal Sexy Hot liberava o seu sinal para exibição de filmes pornôs durante o isolamento social.

Em outro giro ocorriam nas redes sociais campanhas com a intenção de mobilizar as pessoas a ocuparem seu tempo de forma produtiva com leituras, cursos, músicas e atividades físicas, na contramão, concursos eram promovidos no Twitter, com as hashtags xotaawards, rabaawards, peitoawards e pintoawards, com usuários publicando fotos explícitas de partes dos seus corpos.

Essas são facetas da cultura do estupro, que tornam as opções “assistir pornografia” e “vou me expôr na internet mostrando partes do meu corpo para desconhecidos para matar o tempo livre” tão importantes a ponto de assinaturas serem liberadas e milhares de pessoas se esquecerem que até mesmo em épocas extraordinárias, como a atual, há uma memória dos seus atos e consequências para eles.

Para quem são as piores e mais perversas consequências da exposição nas redes sociais?

Quais são os corpos mais expostos a violência e degradação quando o isolamento social tranca meninas e mulheres em casa com seus agressores?

Quais os danos para as adolescentes que, ao terem livre acesso a esse tipo de fotografias, considerem natural compartilhar e reproduzir seu conteúdo?

A resposta é simples uma vez que são as mulheres que pagam os preços mais altos em tempos de paz e de calamidade.

Por isso é importante fazer o seguinte debate: como acabar com a naturalização da violência sexual como parte incontestável da sociedade?

O popular “meu corpo minhas regras” que aparenta ser uma forma de libertação feminina, não passa de um engodo liberal para fazer com que a nudez, o sexo e as escolhas individuais das mulheres sejam servidas com a máscara do empoderamento e engolidas com a crueldade da exploração, não há nada de poderoso em corpos expostos que só não são criminosos quando estão a mercê dos fetiches masculinos.

Conforme defendido por Sheila Jeffreys a revolução sexual nos termos masculinos contribuiu mais para a opressão feminina do que para sua libertação efetiva, assim sendo, ao estarmos diante uma situação de saúde pública, como tem sido o Coronavírus, somos confrontadas com notícias de mulheres em situação de prostituição que ainda estão sendo exploradas por homens que não deixam de ir as ruas pagar para estuprá-las, da indústria pornográfica que passou a usar o pânico das pessoas em isolamento como tática de crescimento no mercado e do índice de violência doméstica que está em curva crescente porque homens “entediados” tendem a se tornar mais violentos.

A realidade de que a cultura do estupro é parte do patriarcado não é novidade, tanto que temos de lidar com a romantização da prostituição, da pornografia e do estupro através de filmes, propagandas e declarações, quando discursos progressistas insistem que o corpo da mulher pode ser objetificado e vendido como mercadoria.

A pandemia do Corona Vírus ainda nem mostrou todos seus contornos e os fatos já se apresentam desumanos com as mulheres, que ao terem de se isolar em casa com seus familiares, ainda têm as tarefas domésticas elevadas a exaustão, tendo de lidar com o medo da contaminação e o pânico da violência, enquanto precisam vigiar seus filhos em redes sociais que oferecem os encantos da fantasiosa pornografia como forma de diversão.

Mulheres prostituídas estão sendo colocadas na rua porque os locais em que são exploradas estão fechando e elas perderam a utilidade.

Não há paz para mulheres, nesse momento vemos a realidade da frase que é atribuída a Simone de Beauvoir sendo esfregada nas nossas caras:

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

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