As nossas jovens mulheres foram aliciadas pela pornografia
As nossas jovens mulheres foram aliciadas pela pornografia

Como a popularização da pornografia e o seu consumo desenfreado e inquestionável impede a liberação feminina

A pornografia tem muito o que responder sobre a objetificação massiva das mulheres. Popularizada nos anos 70, ela pode ser vista como uma retaliação à mais uma das tentativas de emancipação feminina, iniciada com a Revolução Sexual dos anos 60. Durante esse período, foi possível quebrar, de certa forma, alguns dos padrões impostos às mulheres pelo sistema patriarcal em que estavam inseridas, como a necessidade de casar para se ter atividade sexual, por exemplo, ou casamentos arranjados.

Na década seguinte, um grande grupo de mulheres conseguiu acesso ao ambiente universitário de forma mais plena — durante a maior parte do século 20, as mulheres formalmente educadas raramente obtinham reconhecimento científico ou sequer um diploma universitário, tendo permissão apenas de assistir aulas, quando muito. Foi exatamente nos anos 70 que mulheres dentro e fora do ambiente acadêmico, vendo a misoginia à sua volta e tendo acesso a estudos e ferramentas de análise, começaram a produzir o material que hoje nós conhecemos como a Teoria Feminista — frequentemente rotulada de Feminismo Radical.

A pornografia, por sua vez, passou a se popularizar durante o mesmo período. Historicamente, as revistas pornô começaram a ter maior demanda e distribuição, sendo facilmente adquiridas em qualquer banca de jornal a preços bastante acessíveis. Logo, viriam os vídeos pornográficos também, que podiam ser alugados em qualquer locadora. No Brasil, a extinta TV aberta Manchete exibia filmes pornô todos os dias a partir das 3h da madrugada.

A pornografia na era da internet

Com a internet, a produção e consumo de pornografia aumentou exponencialmente. Se, por volta dos anos 80, os meninos tinham acesso apenas a umas poucas revistas roubadas do pai ou de um irmão mais velho (qualquer filme americano da época mostra cenas assim — será difícil encontrar cenas de meninas de dez anos roubando revistas pornô das irmãs/mães/tias), atualmente os meninos estão assistindo filmes pornô na web a partir dos seis anos de idade através de telefones celulares ou tablets. Quando fazem 8/10 anos, esses meninos já estão viciados. Há vários casos atualmente de meninos entre os 10/12 anos que já cometeram abusos sexuais contra meninas que frequentam a mesma escola.

A popularização da pornografia foi se tornando tão extensa que invadiu a maior parte das esferas sociais, naturalizada na cultura popular. Ela está nos comerciais de cerveja e de carros com mulheres nuas ou semi-nuas, nas cenas de sexo explícito de toda a mídia, nos shows infantis brasileiros com apresentadoras vestidas de forma sensual, nos programas dominicais com camisetas molhadas e banhos de espuma com pessoas de todas as idades se esfregando explicitamente em jogos.

As pessoas conversam de forma natural sobre atos sexuais no seu dia a dia sem saber que essas falas são uma espécie de subproduto do consumo desenfreado de pornografia, assim como o estupro e a prostituição são estimulados por essa indústria. Exemplo disso pode ser encontrado na frase “fazendo ponto”. Quando alguém vai com frequência a um lugar, muitos brincam que essa pessoa está “fazendo ponto” ali. Fazer ponto é uma expressão usada para indicar o local onde pessoas na prostituição se posicionam, à espera de “clientes”. Outra frase comum é dizer que vai “rodar bolsinha na esquina” para poder comprar algo, outra alusão a pontos de prostituição.

A pornografia está em praticamente todos os setores da sociedade 

Atualmente, pode se dizer que o alcance da pornografia se tornou epidêmico. Em 2018, ficou proibido o acesso a sites pornográficos dentro do parlamento britânico. Na primeira semana após o início da proibição, houve mais de 24 mil tentativas de acesso a sites pornô. Recentemente, políticos britânicos tentaram exigir uma lei que obrigava os usuários a provar que eram maiores de 18 anos, mas a lei não foi aprovada. Desde 2016, há relatos de pais preocupados que encontraram dezenas de comerciais de sites pornôs e serviços de prostituição nas propagandas do YouTube, bem como em vídeo games populares entre crianças e adolescentes, como o Roblox.

Para as mulheres, a situação se tornou caótica, absurda e perigosa. A organização britânica Revenge Porn Helpline (Centro de ajuda a vítimas de pornô de revanche) revelou em 2016 ao jornal The Mirror que, após a aprovação de leis contra a prática entrarem em vigor, foram reportados 1000 casos no primeiro ano. A média das vítimas, a maioria mulheres e crianças, era de 25 anos, com 3 vítimas de 11 anos entre quase os 20% de vítimas abaixo dos 19 anos.

Outro aspecto preocupante da atualidade é a defesa, cada vez mais comum, do “jogo sexual que deu errado” (sex game gone wrong), usada por homens que alegam que suas parceiras sexuais morreram porque eles foram “longe demais” com a “brincadeira sexual”. O caso de Gracie Milanie se tornou icônico nas denúncias ao uso dessa defesa. O assassino de Gracie alegou que ele não “reparou” que ela não estava respirando. Ele chegou a ir a um encontro de Tinder (app de encontros sexuais) com outra mulher enquanto o corpo de Gracie ainda estava em seu apartamento.

Essa “defesa” está diretamente relacionada à atual violência que a pornografia produz em seus materiais como vídeos, filmes, fotos. O estrangulamento de mulheres se tornou altamente popular entre os consumidores de pornô, bem como a categoria “pornô de estupro”. Muitos homens agora alegam que só fizeram atos de estrangulamento em suas parceiras durante o sexo porque foram elas que pediram e portanto, não tinham como recusar o pedido.

As mulheres estão sendo aliciadas para naturalizarem atos violentos contra elas durante o sexo

A violência na pornografia naturalizou a violência nas relações sexuais cotidianas de tal forma que muitas mulheres jovens, atualmente, se sentem incapazes de recusar atos de violência no sexo, sob “pena” de serem tachadas de puritanas e entediantes. O fato já podia ser visto há alguns anos com as “marchas das vadias”. Agora, a violência está tão naturalizada que mulheres no ativismo vão a protestos contra a degradação do meio ambiente com cartazes escritos: “nos fodam, mas não fodam o meio ambiente”. Ou a protestos contra a violência doméstica dizendo: “não estrangulem nas ruas, estrangulem na cama”. Os atos são justificados, muitas vezes, fazendo uma analogia ao “faça amor, não faça guerra” criado nos anos 60, dizendo que os mantras atuais apenas “evoluíram”.

Um jornalista britânico do jornal The Guardian, Owen Jones, dias antes da eleição geral que escolheu Boris Johson como primeiro-ministro em dezembro de 2019, postou em seu twitter uma foto dele com uma moça jovem usando uma camiseta que dizia: “Eu chupo pau pelo Socialismo”. Jones aparece na foto apontando para os dizeres, em gesto aprovativo. Em sua defesa, o jornalista alegou que ele é homossexual.

As jovens adultas foram aliciadas pela pornografia para aceitarem atos violentos durante o sexo, como estrangulamento, e para pensar que a sua única virtude e validade é a objetificação do seu corpo. Não parece muito diferente de poucas décadas atrás, quando as mulheres não podiam, por lei, recusar sexo aos maridos. E o aliciamento começa muito cedo. Uma mãe americana decidiu fazer um experimento social recentemente, onde ela fingiu ser uma menina de 11 anos. O assustador resultado do experimento revela como as meninas são coagidas a praticar atos sexuais em frente a uma câmera para homens adultos na internet. Nessa única semana, a “menina” de 11 anos foi procurada para sexo por 52 homens.

Outros dados assustadores: mais da metade das adolescentes já foram “estranguladas” no sexo, ou foram violentadas sexualmente antes de iniciar, consensualmente, uma atividade sexual. A Revista Teen Vogue promove, regularmente, matérias ensinando às adolescentes a praticarem sexo anal, com setores ligados à defesa de crianças e adolescentes denunciando o crescimento alarmante de meninas e jovens mulheres que sofrem lacerações permanentes e dolorosas.

Há tutoriais em fórums online onde homens ensinam uns aos outros técnicas para retirarem os fones de ouvidos das mulheres para que elas ouçam as suas cantadas. Ou como posicionar câmeras-espiãs (spycams) em qualquer lugar onde mulheres estejam se despindo (como banheiros e vestiários) para filmá-las e postar os vídeos em sites pornô.

Dois casos mais graves chamaram a atenção recentemente. No PornHub, é possível encontrar o “pornô de câncer de mama”, onde mulheres recebendo tratamento foram filmadas e tiveram essas imagens expostas no site por estarem com os seios expostos. O outro caso se refere a uma médica indiana, que foi estuprada por vários homens, depois morta e queimada para não ser reconhecida. No dia seguinte, o seu nome era um dos mais procurados em sites pornográficos. Os usuários procuravam pelo vídeo do seu estupro. Em 2015, uma adolescente de 16 anos foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. O vídeo do seu estupro foi postado no Twitter, causando mais de 800 denúncias à Polícia Federal no mesmo dia. O vídeo só foi banido da rede social dias depois.

Outros dados no Reino Unido: mais de dois terços das mulheres britânicas abaixo dos 40 anos já experimentaram palmadas, estrangulamentos ou cuspidas às quais não consentiram. Do grupo seguinte, dos 40 aos 50 anos de idade, um número alarmante de mulheres reportaram à campanha “We can’t consent to this (Não demos o nosso consentimento para isso) terem recebido espancamentos, estrangulamentos ou cuspidas sem consentimento.

Liberação sexual feminina não é o mesmo que emancipação feminina

A liberação sexual dessa forma é bastante defendida por setores liberais no ocidente. Há atualmente várias políticas voltadas para a legalização da cafetinagem alegando que é para a proteção legal das pessoas em situação de prostituição. Mas não preve a criminalização da demanda. Esse tipo de sistema já se demonstrou absolutamente desastroso na Alemanha.

Janice Raymond, ativista que trabalha contra a violência, a exploração sexual e o “abuso médico” contra as mulheres, disse na introdução do seu livro “Não uma escolha, não um trabalho”, acerca da prostituição: “A visão conservadora da prostituição é culpar mulheres e meninas pela suposta escolha delas de estar na prostituição. “A visão liberal é romantizar a ‘escolha’ das mulheres como autodeterminação e usar isso para normalizar a prostituição como ‘trabalho sexual’. Ambas sucumbem a crença de que não importa o que acontece com mulheres na prostituição, é normal porque é a escolha delas.”

Não se sabe quem foi, mas feministas têm expandido essa fala para todos os setores da sociedade, resumindo assim: “Para os homens da direita/conservadores, as mulheres são propriedade privada. Para os homens da esquerda/liberais, as mulheres são propriedade pública”.

A naturalização da objectificação feminina não libera as mulheres do governo masculino. O Não de uma mulher causa mais alvoroço do que o seu sim.

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