Se realmente fosse uma escolha, eu seria escritora.

Eu costumava pensar que havia feito coisas terríveis, até começar a pensar nas coisas terríveis que fizeram comigo.

Eu não podia me defender lá, como poderei me defender aqui? Eu simplesmente não me defendo, mas tenho que defender a ideia de que uma mulher não faz coisas terríveis quando está se prostituindo, coisas terríveis acontecem com ela e ninguém liga.

Ninguém defende.

Ninguém quer uma mudança ou que essas terríveis coisas parem de acontecer.

Essas mulheres são invisíveis, humilhadas e excluídas, qualquer dor, trauma físico ou mental é culpa dela e não das pessoas que pagaram.

Homens chamam mulheres de depósito de espermatozóides. Homens dizem que lugar de mulher é na cozinha mas se alimentar é o básico do ser humano, se todos, e não só as mulheres, o soubessem, talvez alguns homens teriam morrido de fome se as mulheres deixassem de existir.

Você pode ter, assim como esse exemplo acima, inúmeros motivos para defender que ela escolheu isso ou inúmeras justificativas para provar que ela escolheu isso. Você sempre vai ter inúmeros argumentos para dizer que ela escolheu isso e também vai ter diferentes formas de dizer que ela escolheu isso.

Quando exigimos respeito, ele diz que não pode respeitar uma puta, o que não faz sentido, já que os dois são feitos de carne e osso, tem o mesmo sistema digestivo e também precisam de oxigênio para sobreviver. Acredito que ele não tenha entendido que o respeito exigido era como ser humano, ele separou as coisas, assim como vem separando há séculos.

Coisas terríveis aconteceram com mulheres ao longo de todos os séculos possíveis, mas ninguém liga, a sociedade não é igualitária, não é justa e nem quer ser.

Às vezes ficamos com raiva, às vezes nos movimentamos, às vezes ganhamos, às vezes somos interrompidas e, no meio de uma discussão que não podemos argumentar, simplesmente não podemos ganhar.

Ainda somos propriedade, ainda somos produtos, mas sempre seremos seres humanos, ninguém liga para esse detalhe tão insignificante que poderia mudar uma sociedade.

Talvez deixando de alocar nos ofícios as pessoas pelo gênero e raça, e começarmos a talvez alocar pessoas pelo que ela faz de melhor poderíamos nessa nova realidade dar o poder de escolha para a mulher, qualquer escolha na vida em que ela vai contribuir para uma sociedade melhor para todos.

E, sejamos bem honestos, se nessa sociedade ela é apontada como um ser que faz coisas terríveis ao se prostituir, ela não escolheria a prostituição, porque coisas terríveis acontecem, porque essas coisas são impossíveis de esquecer e porque viver com isso é terrível.

Eu seria escritora, escreveria muitos livros e roteiros para filmes, séries e publicidade. Eu seria escritora, não precisaria ser famosa, só precisaria contribuir para uma sociedade melhor e poder viver, poder viver sem algo terrível, e só lembrando que: não foram coisas terríveis que eu fiz, foram coisas terríveis que fizeram comigo.

Eu seria escritora.


Relato enviado por Vanessa Danieli, sobrevivente da indústria pornográfica no Brasil. Hoje, publicitária e criadora de conteúdos no perfil Barbaridad Nerd.

Veja também a live com Vanessa Danieli, na qual ela conta sua experiência na indústria e juntas refletimos sobre os impactos da pornografia nas mulheres: